sábado, 15 de novembro de 2008

"O ENSINO EM ANGOLA"

"O ENSINO EM ANGOLA"

APONTAMENTOS VIRTUAIS DO AUTOR
(além dos constantes das suas obras já publicadas) :

1845 - Início da INSTRUÇÃO PÚBLICA oficial.

1857 - FEVEREIRO - Publicação em LUANDA do Decreto (de 1856) sobre a criação do Colégio das Missões Ultramarinas.

1883 - MARÇO 3 - Chegam a LUANDA as Irmãs Hospitaleiras.

1883 - ABRIL 25 - As "Irmãs Educadoras" (S.José de Cluny) foram proibidas de exercer a sua actividade na Escola Indígena das INGOMBOTAS e regressam para PORTUGAL, acusadas de administrarem ilegalmente ..."instrução religiosa".

1885 - FEVEREIRO - 22 - D.ANTÓNIO TOMÁS DA SILVA LEITÃO E CASTRO,Bispo de ANGOLA E CONGO,criou uma ..."Aula de Línguas africanas", em LUANDA.

1883 - SETEMBRO 6 - Início da primeira Escola Primária

1888 - SETEMBRO 30 - Início do funcionamento da Escola Primária das INGOMBOTAS (
Municipal e destinada apenas ao sexo masculino), em especial aos mais necessitados..."pois podia ser frequentada usando somente uma tanga,se não tivessem mais roupa"...

1893 - DEZEMBRO 12 - Determina a recolha de todos documentos oficiais recebidos até 1889, enviando-os para a Secretaria-Geral, para futura classificação e registos.

1897 - JUNHO 3 - Referência ao MUSEU PROVINCIAL DE ANGOLA, a cargo do pároco da Sé, Padre MIGUEL AUGUSTO FERREIRA (Conservador).

1902 - ABRIL 24 - Criação do HOSPITAL COLONIAL DE LISBOA e ESCOLA DE MEDICINA TROPICAL (anexa), sob a direcção do ex-governador-geral, RAMADA CURTO.

1906 - JANEIRO 18 - Foi criada a ESCOLA COLONIAL, em LISBOA,enquanto em LUANDA era criada a ESCOLA PROFISSIONAL D.CARLOS I.

1906 - OUTUBRO 25 - Inauguração da ESCOLA COLONIAL (com Estatutos aprovados no dia 4).
1906 - DEZEMBRO 12 - Inauguração do MUSEU ETNOGRÁFICO DE ANGOLA.

1908 - JANEIRO - 9 - Publicação do "GUIA DE LÍNGUAS INDÍGENAS" : sua preparação -- penas aplicadas aos professores primários...

1908 - MARÇO 11 - Criação da ESCOLA PRIMÁRIA em Nª.Sª. DO CARMO (LUANDA).

1908 - JULHO 4 - Foram criadas 10 Escolas Primárias no distrito do CONGO.

1908 - SETEMBRO 25 - D. MANUEL II determina que devem ter preferências os alunos da Escola Colonial de Lisboa ou com o Curso Colonial da Faculdade de Direito.

1908 - DEZEMBRO 30 - Inauguração das "OFICINAS AUGUSTO DE CASTILHO".

1910 - JUNHO 1 - Criação das "ESCOLA MÓVEIS" em ANGOLA.-- Plano de criação de ESCOLAS MUNICIPAIS em LUANDA, CATUMBELA, MOÇAMEDES (uma para cada sexo).
Um outro plano alargava as localizações dessas Escolas (então mistas).
Plano para a instalação do Ensino Secundário e suas disciplinas, bom como para a instalação de uma ESCOLA NORMAL e do Curso Profissional (comercial e industrial).

1910 JULHO 29 - O Governador-geral,interino,determina a inspecção aos Arquivos Públicos da cidade de LUANDA para a sua selecção e divulgação pública.

1912 MARÇO 5 - P.P. dá instruções para a remessa de exemplares anolanos para o MUSEU ETNOGRÁFICO DE ANGOLA E CONGO, então criado.

1911 MARÇO 8 - BERNARDO PIRES, director do MUSEU DE ZOOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, solicita a remessa de exemplares da fauna angolana, tendo o apoio do Governador-geral, MANUEL MARIA COELHO.

1912 Um relatório do Governador CÉSAR AUGUSTO DE OLIVEIRA MOURA BRÁS, refere-se às Escolas Primárias da HUILA (5), CHIBIA e HUMPATA.

1919 - MARÇO 10 - Criada a primeira Escola Primária na povoação da HUILA.

1919 - MARÇO (?) - Fundação do LICEU CENTRAL DE ANGOLA.

1927 - ABRIL 16 - Reorganização do Ensino Primário na Província de ANGOLA, dependendo cada Administração Escolar da respectiva Junta Distrital de Ensino.
Mantinham-se as designações :... "assimilado,europeu e indígenas com : ensino infantil - primário geral - elementar profissional - profissional"...
O elementar profissional era destinado mais aos indígenas nas escolas rurais, como um ..."meio-termo" !

1927 - OUTUBRO 1 - Alteração para "PROVÍNCIA" DE ANGOLA.

1927 - OUTUBRO 29 - Regulamento do Conselho de INSTRUÇÃO PÚBLICA DA COLÓNIA DE ANGOLA.

1929 - MAIO 15 - Publicação da "ORGANIZAÇÃO DOS SERVIÇOS DE INSTRUÇÃO PÚBLICA DA COLÓNIA DE ANGOLA", fixando as suas regras.

1929 - AGOSTO 19 - Criação de 4 Circunscrições Escolares em ANGOLA para o Ensino Primário : LUANDA(ZAIRE e CONGO) --- MALANJE (MALANJE - LUNDA - QUANA NORTE e QUANZA SUL) --- NOVA LISBOA (HUAMBO - BIÉ - MOXICO) --- SÁ DA BANDEIRA (HUILA _ MOÇAMEDES) ---

1933 - FEVEREIRO - 8 - Reorganização do Ensino Primário.

--- INTERNET - a consultar : "PATRONOS DAS ESCOLAS DE ANGOLA" - MARTINS DOS SANTOS
www.geocities.com/Athens/Troy/4285 sabercultural.com

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Vergonha portuguesa..já passaram 30 e poucos anos...mas há quem nunca esquece


Outubro 01 2008


Há momentos na vida em que tudo se depara negro e a esperança parece irremediavelmente perdida. Se em Angola não poderia continuar, por sua vez em Portugal, quem regressava de África era recebido do pior modo possível; com hostilidade, desdém e mesmo agressividade.


(…) É intolerável que as pessoas que voluntária ou involuntariamente quisessem abandonar Angola, Moçambique, Guiné ou outra qualquer província não pudessem trazer livremente os seus haveres; dinheiro, carros ou quaisquer outros bens materiais. Prédios, terrenos urbanos ou rústicos, fazendas, fábricas, estabelecimentos, imóveis de qualquer índole, estavam sentenciados a ficar; é mais que evidente que os seus possuidores todos os pretendiam vender mas, em face da situação, não havia quem se interessasse pela sua aquisição. A maior parte dos bens pertencentes aos cidadãos portugueses foi pura e simplesmente abandonada pelo facto de seus donos não terem outra opção.


Chegou-se ao cúmulo de se trocarem carros quase novos por simples volumes de maços de tabaco ou por pequenas porções de determinados alimentos, entre eles o pão, que raramente se encontrava à venda. Houve quem trocasse fazendas e casas por títulos de hipotéticas transferências bancárias para o continente as quais nunca chegaram às mãos dos seus destinatários. O depósito no banco nunca se concretizou e o paradeiro do burlão na maioria dos casos era desconhecido. Os lesados nunca pode­riam reclamar sob pena de incorrerem em crime punido por lei, sendo acusados de transferência ilegal e fraude, se persistissem na queixa. facto do Governo Português não acautelar ou, pior ainda, não autorizar a transferência dos bens dos portugueses na altura da descolonização foi uma das maiores injustiças, praticadas por quem mandava e a desgraça de tanta gente, que após longos anos de trabalho, caiu sem culpa nem pecado na mais odiosa das misérias, na pobreza extrema, no desespero, muitos na loucura e até na morte. Foi a situação mais injusta e catastrófica que imaginar se possa! Dum momento para o outro perderem todos os seus haveres sem nada terem contribuído para essa perda. Serem forçados a abandonar o fruto do trabalho árduo no decorrei de longos anos, de canseiras, vigílias, economias feitas à custa de grandes sacrifícios. Deixarem empresas, fazendas, prédios, terrenos, carros, dinheiro, a própria casa com seu recheio, objectos pessoais, roupas, enfim... tudo, (houve pessoas que, se quiseram salvar a vida, regressaram apenas a roupa que traziam vestida).


Para quem espoliado de África, ao chegar a Portugal se encontrava sem nada, sem trabalho e sem dinheiro para fazer face às despesas mínimas, com filhos, dois, três, quatro, que necessitavam de alimentação, casa, roupa, cuidados de saúde, de educação e os demais inerentes à vida. Bater de porta em porta à procura de trabalho, de alojamento e ver as portas fecharem-se-lhe sistematicamente. Tentar junto das instâncias oficiais encontrar soluções para minimizar as causas da tragédia que sobre si se abatera e não conseguir resposta. Agora virem para cá e querem que o estado (eles, que no fim de contas eram eles) os sustentassem à boa vida! Isso era o que mais faltava! Lá tinham vivido à custa dos pretos, cá queriam viver à custa dos brancos. Este clima de acolhimento que nunca esperaram encon­trar, deixava os retornados tristes e exasperados (…)”

Aida Viegas, Abandonar Angola. Um olhar à distância. Aveiro, 2002, pp. 101-112

publicado por Moxilas

Contornos da guerra em Angola: FACTOS mais RELEVANTES

Contornos da guerra em Angola 1

FACTOS mais RELEVANTES

- Junho de 1960: O MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) envia uma declaração ao governo de Portugal com vista a negociações para resolver o problema colonial. Este documento levou à prisão de Agostinho Neto e Joaquim Pinto de Andrade.

- Novembro de 1960: Realizaram-se manifestações em Luanda, Lourenço Marques e, também, em Lisboa contra as decisões da ONU em declarar os territórios ultramarinos portugueses parcelas colonizadas; portanto, com direito à autodeterminação e independência.

- Janeiro de 1961: Assalto ao Santa Maria

Quando navegava com turistas no mar das Caraíbas, o paquete Santa Maria foi assaltado por um grupo de portugueses comandado pelo capitão Henrique Galvão. Curiosamente, este militar com serviços prestados na administração Angola, foi o mentor da criação de Nova Lisboa como capital do Império. Segundo as suas declarações, pretendia fazer um desembarque na costa angolana, mas acabou por navegar até ao Brasil onde pediu asilo político.

- Janeiro 1961: Revolta no Cassange

Na sequência de vários protestos por causa dos fracos salários pagos aos trabalhadores, estes entraram em greve por tempo indeterminado, tendo sido violentamente atacados por efectivos da polícia e do Exército. As aldeias da população da zona foram queimadas pelas bombas lançadas por aviões e os tumultos alastraram às fazendas de algodão da Cotonang, culminando com a chacina de milhares de trabalhadores e seus familiares. Os indiciados cabecilhas da rebelião foram presos e fuzilados na região de Gabela. As tropas metropolitanas em serviço em Angola (cerca de 1.700) participaram na repressão aos manifestantes, colaborando com a polícia e tropas locais (cerca de 5.000 efectivos indígenas).

- Fevereiro de 1961: Assalto às prisões de Luanda

Com os poucos efectivos de segurança ocupados na região do Cassange, a agitação foi-se agravando em Luanda onde os revoltosos assaltaram a Casa de Reclusão Militar, tendo morrido um cabo; pretendendo soltar os seus dirigentes presos nas cadeias, os bandidos assaltaram a esquadra de S. Paulo, da Polícia de Segurança Pública, e a repartições do estado. Na refrega, foram mortos sete agentes da polícia que caíram numa cilada dos revoltosos e, em consequência, os colonos armados caçaram e lincharam vários assaltantes. No dia do funeral dos polícias, os desacatos começaram nas ruas e acabaram nos muceques, onde os colonos mataram muitos indígenas.

- 15 de Março de 1961 : Início do terror

Tiveram início os massacres, organizados pela União das Populações de Angola (de Holden Roberto de origem Bakongo) e por militares congoleses, onde foram mortos e mutilados alguns milhares de colonos brancos e empregados negros, nas fazendas do café; especialmente nas zonas dos Dembos, Negage, Úcua, Nambuangongo, Zala, Quitexe, Nova Caipenda, Ambriz, Maquela do Zombo, Madimba, Luvaca, Buela e outras.

Em consequência, mobilizaram-se meios terrestres e aéreos para socorrer os residentes nas zonas ameaçadas, muitos dos quais conseguiram chegar a Luanda com os familiares. A escassez de efectivos militares obrigou a um desmesurado esforço para chegar aos pontos mais necessitados. As autoridades perderam o controlo das vias de comunicação para toda a zona Norte, onde foram destruídas pontes, obstruídas as estradas com derrube de árvores e abertura de valas. Alguns grupos de camionistas que tentaram avançar na direcção dos Dembos, tiveram que regressar por encontrarem as estradas cortadas; outros mais afoitos, caíram em emboscadas e foram mortos a tiros de canhangulo e à catanada. Na cidade organizaram-se milícias para tentar evitar que os bandidos da UPA se aproximassem com a sua sanha monstruosa. Já em Abril, depois das poucas tropas do alferes Meireles terem regressado ao Caxito, os ataques traiçoeiros e selvagens, utilizando catanas e granadas, aproximavam-se de Luanda, passando pelo Úcua, onde foram assassinados mais europeus e os empregados bailundos. Entretanto, a barragem das Mabutas, que fornecia energia a Luanda corria sérios riscos de ser atacada; civis e militares organizaram-se para a sua defesa.

Entretanto, os ataques chegam a outras povoações e fazendas: Bessa Monteiro, Carmona, Pango-Aluquem, Aldeia Viçosa, Lucunga, e Sanza Pombo continuando a perturbar as populações dessas terras.

Ainda em Março e nos meses seguintes de 1961, as tropas especiais (caçadores especiais e pára-quedistas) e alguns pelotões do Exército começaram a reconquistar povoações e fazendas, como Bembe, Maria Teresa, Quicabo, Damba, Madimba, Maquela do Zombo, 31 de Janeiro, Songo, Mucaba, Toto. Foi com alguma surpresa que vieram a constatar que o empenhamento das missões religiosas protestantes teve um grande peso na orgânica e no engajamento de indígenas para a rebelião, já que os diversos documentos encontrados nos locais das missões demonstravam a conivência entre os missionários oriundos de países como os Estados Unidos, Bélgica, Inglaterra e Países nórdicos, bastante próximos dos dirigentes da UPA, cuja sede é no Congo Belga. Numa operação na zona de Cuimba, encontrámos diversas fotografias com elementos da UPA acompanhados de representantes de organizações americanas; e, mais tarde, foram encontradas mais fotos em Madimba e Buela, onde estavam também dirigentes da UPA em festas religiosas e na sede de Leopoldeville.

- Em Abril de 1961: Embarque de tropas

Embarcou em Lisboa o 1º contingente de tropas para Angola no navio NIASSA, cujos militares desfilaram na avenida marginal de Luanda onde foram recebidos com manifestações de intensa alegria e confiança. Poucos dias antes, uma coluna militar foi emboscada na picada de Cólua, onde morreram nove militares, incluindo dois oficiais. Chegados a Luanda, seguiram para o interior Norte, o Batalhão de caçadores 88 foi reocupar a povoação de Damba e o batalhão de caçadores 92 instalou-se em Sanza Pombo; parte das companhias de caçadores continuaram a progredir na direcção da fronteira com o Congo ex-Belga, ocupando Santa Cruz e Maquela do Zombo.

- A 19 de Abril de 1961: Três pelotões de pára-quedistas embarcaram no avião da TAP com destino a Angola, para reforçar o contingente de grupos e equipas com cães de guerra que andavam pelos matos a ajudar na defesa das povoações. Outro grupo de pára-quedistas, que estava destacado em Lourenço Marques, deslocou-se para Angola. Com mais este grupo, outras povoações como o Bungo, Songo, Sanza Pombo, Quitexe melhoraram as condições de defesa contra os ataques dos bandidos da UPA.

- Em 14 de Maio de 1961: Desembarque de tropas

Chegou a Luanda um numeroso contingente militar, composto de unidades de Caçadores, Engenharia e Sapadores. Parte desses militares instalaram-se no quartel do Grafanil, onde permaneceram durante a organização e planeamento das suas primeiras missões. Ao Batalhão de Caçadores 96, comandado pelo Tenente-coronel Maçanita, incluindo um grupo de engenharia comandado pelo Alferes Jardim Gonçalves, coube fazer o reconhecimento e segurança das picadas até à ponte do rio Dange. Sofreram aí os primeiros ataques dos guerrilheiros da UPA, aos quais causaram pesadas baixas. Foi precisamente nesse itinerário que se deram as mais selváticas matanças de fazendeiros portugueses. E os bandidos do Holden Roberto atacavam em grandes grupos munidos de canhangulos e catanas. Para lhes dar o dom da ressurreição, os feiticeiros forneciam mixórdias e drogas que os tornavam imunes às balas dos portugueses. Morriam aos magotes, ficando os corpos espalhados ao longo das povoações como em Cacola, causando um cheiro nauseabundo.

- Em Junho de 1961Acções das marinha

A partir da costa norte, o batalhão de caçadores 156 instala-se em S. Salvador do Congo e Cuimba, enquanto forças da marinha desembarcam em Ambrizete e avançam na direcção de Tomboco e Quinzau, que ocupam.

- Em 10 de Julho de 1961: Operação Viriato

O Ten-Coronel Armando Maçanita, comandante do Batalhão de Caçadores 96, dá início à “operação Viriato”, destinada a abrir caminho até Nambuangongo e lá instalar um Batalhão do Exército, com máquinas de engenharia, artilharia, atiradores, telegrafistas e enfermeiros. Seguiram o itinerário de Caxito, Quibaxe, Santa Eulália, Mucondo, Muxaluando e Nambuangongo, onde chegaram na tarde do dia 9 de Agosto; tiveram que reconstruir diversas pontes, incluindo a do rio Dange; durante o percurso, foram atacados pelos bandoleiros da UPA que causaram mortos e feridos.

Com o mesmo objectivo, o Batalhão de Caçadores 114, comandado pelo Tec-coronel Oliveira Rodrigues, seguiu o itinerário por Caxito, ponte do rio Lifune para Quicabo, onde foram severamente atacados pelas hordas inimigas e interromperam a marcha por dificuldades em atravessar a ponte que estava destruída. Sofreram 17 mortos e 46 e feridos, ficando impossibilitados de chegar ao objectivo.

Por outro itinerário mais longo, foi o Esquadrão de Cavalaria 149, comandado pelo Capitão Rui Abrantes, passando por Ambriz, Bela Vista e Zala, chegando a Nambuangongo um dia após o BCaç96, tendo sofrido apenas feridos nos ataques de que foi alvo.

Em todos estes itinerários, as dificuldades eram acrescidas com as pontes destruídas e as picadas obstruídas com árvores de grande porte e valas profundas. As máquinas da engenharia e os sapadores foram fundamentais para que o sucesso destas missões de reocupação.

Nambuangongo era um objectivo determinante para desalojar os bandidos da UPA, que ali tinham instalado o seu quartel-general, e para dar um sinal inequívoco de que as tropas portuguesas jamais dariam tréguas aos terroristas que agiram da forma mais selvagem contra os seus patrões e companheiros de trabalho nas fazendas e roças da região dos Dembos.

Para concretizar uma missão de tamanha envergadura, cada contingente militar seguiu um itinerário diferente. Do ponto de vista da estratégia militar, seria essa a forma de enfrentar os diversos obstáculos que se previam ao longo das “picadas”. Cada unidade militar muniu-se de viaturas e equipamentos de corte e remoção de obstáculos, tendo por base grupos de engenharia e sapadores. E tiveram sortes diferentes ao longo da jornada de cerca de quatro semanas de duros combates e dificuldades tremendas para abrir caminho. Fazendo dos reveses vitórias, a determinação daqueles militares, que poucas tinham viajado amontoados no navio e desembarcado em Luanda, foi fundamental para o êxito da operação “Viriato”. Só o Batalhão de Caçadores 96 e o Esquadrão de Cavalaria 149, conseguiram chegar a Nambuangongo, indo o primeiro por Quibaxe e o segundo por Ambriz e Zala. Enquanto isso, o Batalhão de Caçadores 114 debatia-se com grandes dificuldades para reconstruir a ponte sobre o rio Lifune, antes de Quicabo, sofrendo mortíferos ataques do inimigo que, apesar das pesadas baixas, nunca deixou de flagelar perigosamente os valentes combatentes daquele Batalhão.

Em Luanda, os estrategas militares começaram a ficar preocupados com a lenta progressão das unidades que enfrentavam inesperados obstáculos para chegar ao objectivo. O comando da Força Aérea tentou por em prática os seus planos de reocupação de Nambuangongo e convocou o comandante dos pára-quedistas com vista a fazer um lançamento por via aérea. Quando os chefes do estado-maior do Exército perceberam a manobra, deram o alerta para que mais ninguém interviesse nessa operação senão as unidades que já estavam no terreno. Apesar de progredirem com tremendas dificuldades, era ponto de honra que esse feito – reconquistar Nambuangongo – estava entregue ao Exército. E, quando as notícias vindas da frente (da ponte do rio Lifune e do rio Onzo) onde os Batalhões de Caçadores 96 e 114 sofriam as mais severas baixas, a Força Aérea fez a última tentativa de tomar Nambuangongo, à revelia dos pareceres do estado-maior do Exército, dando ordem de embarque a um grupo de pára-quedistas pronto para realizar o assalto ao quartel-general da UPA. Esse episódio ficou gravado na cabeça dos intervenientes, porque a voz do Tenente-coronel Maçanita fez-se ouvir com ameaças de mandar atirar contra os pára-quedistas que passassem ao alcance das armas dos seus homens. É um facto que muito boa gente quis limpar da história da guerra em Angola.

Continua em:

"Contornos da guerra em Angola 2"

in http://micaias.blogs.sapo.pt/2007/06/

MOSCOVO QUIS DAR A SAVIMBI A VICE-PRESIDÊNCIA DO MPLA


Jonas Savimbi e N'Zau Puna (foto Revista Expresso)


MOSCOVO QUIS DAR A SAVIMBI A VICE-PRESIDÊNCIA DO MPLA

"Histórico" da UNITA revela ao JN as contradições entre os principais protagonistas da luta armada

Miguel Maria N'Zau Puna, durante 24 anos secretário-geral da UNITA, afastou-se, dramaticamente, de Jonas Savimbi, pouco antes das eleições angolanas, em 1992. Hoje, deputado na bancada do Fórum Democrático Angolano (FDA), N'Zau Puna reflecte, em Luanda, sobre a evolução do país.
Luís Alberto Ferreira
Enviado JN

Quais os passos madrugadores da UPA-FNLA e do MPLA? Quem, de facto, convenceu Jonas Savimbi a ingressar na UPA-FNLA? Que antecedentes tapizaram a decantada ruptura entre Savimbi, secretário-geral, e Holden Roberto, presidente da UPA-FNLA? Savimbi "namorou", de facto, o MPLA? E, por isso, Holden Roberto quis eliminar Savimbi?
Miguel N'Zau Puna responde ao JN sem rodeios e sem calar convicções. Como quer que seja, a retrospectiva só parcialmente desvenda o que terá sido determinante e unívoco na criação da UNITA.
No peristilo da entrevista, que decorre, num entardecer cacimboso, no Bairro Azul (Samba), em Luanda, Miguel N'Zau Puna assegura que, em 1961, "muitos angolanos", ele próprio, "apoiaram o 4 de Fevereiro sem verdadeiramente saber quem era o partido ou movimento que liderava a sublevação nacionalista".
JORNAL DE NOTÍCIAS - A UNITA não existia, ainda, em 1961, mas certamente que, no interior do movimento, mais tarde, não subsistiram dúvidas quanto à autoria intelectual e material do 4 de Fevereiro em Luanda...
N'ZAU PUNA - Nenhumas dúvidas. Foi o MPLA quem desencadeou, em Luanda, o 4 de Fevereiro. As primeiras acções armadas contra o colonialismo começaram aqui mesmo, em Luanda. Com o 4 de Fevereiro. E as polícias coloniais, com a PIDE ao centro, iniciaram logo a repressão. Abafaram, praticamente, o movimento. Não havia condições para a revolução, nas cidades. É assim que começa a clandestinidade. A UPA, futura FNLA, de Holden Roberto, entra em acção no mês de Março, no norte de Angola. E torna-se mais conhecida. Ouve-se falar da UPA até na Namíbia, no Botswana e na Zâmbia... E de Luanda fogem para Kinshasa, via Cabinda, muitos angolanos.
JN - Onde estava Jonas Savimbi?
NP - Em Portugal, de onde foge para a Suíça, via Paris. Savimbi dá, então, início a uma digressão por países africanos. Vai a uma conferência em Kampala e segue dali para Nairobi, onde o "velho" nacionalista queniano Jomo Kenyatta se encontrava em regime de residência vigiada. Por imposição das autoridades (coloniais) britânicas. Foi o "velho" Kenyatta quem convenceu Savimbi a ingressar na UPA-FNLA, de Holden Roberto.
JN - Holden conhecia Jonas Savimbi?
NP - Holden Roberto tinha-se deslocado, anteriormente, à Suíça, para convencer Savimbi a aceitar o cargo de secretário-geral da UPA, mais tarde FNLA. Savimbi pediu-lhe que desse a conhecer o programa do movimento em todas as suas vertentes. E não gostou do que viu. Convincente foi, em Nairobi, Jomo Kenyatta. Ele convenceu Savimbi com os seguintes argumentos: "Se você, Savimbi, acha que a UPA-FNLA está mal estruturada, junte-se a ela, junte-se a Holden Roberto e mostre aquilo que aprendeu na Europa, nomeadamente em Portugal e na Suíça. Só assim você poderá participar na revolução". Jonas Savimbi rende-se aos argumentos de Kenyatta, vai para Kinshasa e ingressa na UPA-FNLA. Holden é o presidente e ele é o secretário-geral!
SAVIMBI "MINISTRO"

JN - Savimbi ajudou a UPA a organizar a luta armada, como lhe recomendou o líder queniano?
NP - Savimbi e Holden trabalham juntos, inicialmente Savimbi faz viagens, missões diplomáticas em vários pontos da África e do Mundo. Ele testemunha a fusão da UPA com o PDA (Partido Democrático Angolano), de que resulta, finalmente, a FNLA. Está-se em 1962 e Savimbi conclui, tal como Holden Roberto, que é preciso evoluir para outros patamares na luta armada de libertação. Que a própria UPA tinha, já, em Março de 1961, desencadeado no norte de Angola, mormente na região de São Salvador. Constituída a FNLA, decide-se logo a formação de um "governo". O GRAE, Governo Revolucionário de Angola no Exílio.
JN - Isto, portanto, em 1962. Que cargo atribuiram a Savimbi nesse "governo", o GRAE?
NP - O cargo de ministro das Relações Exteriores. Savimbi participa amplamente na divulgação do GRAE, que recebe em África múltiplos apoios. E quando se dá o processo de formação da OUA, Jonas Savimbi é escolhido para a direcção do Comité dos Movimentos de Libertação. Corria o ano de 1963. Prepara-se um documento sobre os movimentos de libertação que deve ser apresentado aos chefes de Estado africanos, no âmbito da OUA. Mário Pinto de Andrade, do MPLA, faz parte da respectiva comissão redactorial. Surge a primeira fricção, entre Savimbi e Holden, por uma questão "hierárquica": Savimbi entende que a leitura do documento deve ser feita pelo histórico queniano Oginga Odinga. Holden, contudo, argumenta que ele próprio, presidente da FNLA, deve proceder à leitura do texto. A preferência acaba por recair em Oginga Odinga...
JN - Foi um primeiro sinal público das diferenças entre Holden e Savimbi, na UPA-FNLA. Mas o "tapete" do quotidiano,em Kinshasa, era escorregadio: cresciam as clivagens, na FNLA, entre as duas tendências...
NP - A "francófona", de Holden Roberto, e a "lusófona", de Jonas Savimbi. Sim, o problema existia. Definem-se grupos no interior da FNLA, em Kinshasa. Mesmo no seio do GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio) as clivagens notavam-se. Os mais novos apreciavam o dinamismo de Jonas Savimbi. Mas houve quem conseguisse influenciar Holden Roberto. Convencê-lo de que Savimbi estaria a ir longe de mais na estratégia da luta de libertação. Claro que os quadros "francófonos" da FNLA estavam, em Kinshasa, num "habitat" familiar. Tinham estudado, esses angolanos, com Holden Roberto e com indivíduos zairenses.
NETO E O MPLA

JN - Jonas Savimbi sentia-se, portanto, na FNLA, numa situação incómoda, tanto mais que, para chegar à presidência, teria de desbancar Holden Roberto, instalado de pedra e cal... até hoje. Savimbi voltou-se, então, para o MPLA?
NP - Quando o dr. Agostinho Neto chega a Kinshasa, fugido de Portugal, e ocupa a presidência do MPLA, nós (eu, o dr. Savimbi e outros) já lá estávamos. Havia, necessariamente, certas afinidades. Dizia-se: "Nós todos viemos de Angola..." Éramos os "lusófonos" da FNLA, os "lusófonos" do MPLA... No interior da FNLA, congratulamo-nos com a fuga de Agostinho Neto.
JN - Mas, na FNLA, em 1963, era a "tendência Savimbi" quem assumia, no concreto, as aproximações ao MPLA?
NP - O próprio Savimbi. Lembremos que ele, em Portugal, quando estudante, convive com angolanos que, depois, militam no MPLA em Kinshasa. A aproximação entre Savimbi e o MPLA tornou-se inevitável, até porque Savimbi se sentia incómodo e hostilizado pelos "francófonos", na FNLA.
JN - E Savimbi acabou mesmo por ir a Moscovo. Em que contexto pretendeu Jonas Savimbi a ajuda dos soviéticos?
NP - Ao desenhar-se a ruptura com Holden Roberto e a FNLA; Savimbi diligenciou enviar guerrilheiros para a União Soviética, para serem treinados. O próprio Savimbi foi, então, a Moscovo. E registou-se um impasse. Os soviéticos queriam que Jonas Savimbi, em vez de meter ombros à criação da UNITA, aceitasse o lugar de vice-presidente do MPLA. Savimbi recusou a proposta.
HOLDEN DESCOBRIU A "TRAIÇÃO" E AMEAÇOU PRENDER SAVIMBI

O futuro líder da UNITA "deu a entender" ao dr. Neto que acarinhava
a hipótese de mudar para o MPLA

"Eu não sei se a ideia chegou mesmo a dominá-lo, mas é verdade que Savimbi deu a entender ao MPLA que encarava a hipótese de se juntar ao dr. Agostinho Neto", disse também, ao JN, Miguel N'Zau Puna.
O antigo secretário-geral da UNITA pensa que os soviéticos, quando "propuseram" ao dr. Savimbi a mudança (da UPA-FNLA) para o MPLA, onde ocuparia a vice-presidência, pretendiam esta simples coisa: concentrar, à volta de Agostinho Neto, o maior número possível de nacionalistas angolanos.
Miguel NZau Puna evita, contudo, cair na assertiva de que o dr. Neto estaria totalmente receptivo à iniciativa ou pretensão dos russos. Ele admite, simplesmente, que Agostinho Neto iria, talvez, compreender que a vice-presidência (do MPLA) para Savimbi constituiria uma "acomodação", que poderia até ser meramente transitória.
NZAU PUNA - Uma coisa é certa: numa reunião de quadros "lusófonos" da UPA-FNLA, efectuada em Kinshasa, Jonas Savimbi advertiu-nos: "Nem a FNLA, nem o MPLA; não servem. Eles têm os escritórios aqui, no Congo, fora de Angola, portanto. Estão bem instalados e deixam os camponeses angolanos entregues a si próprios". Savimbi teorizava sobre a urgência de criar um movimento cuja direcção deveria lutar, ao lado do povo, no interior de Angola.
JORNAL DE NOTÍCIAS - Quando foi que Holden Roberto se deu conta das aproximações de Savimbi ao dr. Neto e ao MPLA? Miguel NZau Puna acompanhou, presencialmente, esses desenvolvimentos?
NP - Eu mantinha, com Savimbi, uma colaboração estreita. Foi em 1963 que o presidente da FNLA, Holden Roberto, soube dos contactos Savimbi/MPLA. Holden dirige-se à capital da Tanzânia para participar numa reunião da OUA. Ali descobre tudo. Ele não estava preparado, em 1963, para dar cobertura a semelhante coisa: contactos com Agostinho Neto e o MPLA. Havia, como há pouco disse, na UPA-FNLA, um clima discriminante adverso não só para Savimbi e seus companheiros mas, também, para o MPLA. Holden, praticamente, mal falava o português. Era um puro "francófono".
JN - Holden, depois da reunião da OUA em Dar-es-Salam, quis romper com Savimbi por este ter contactos com Agostinho Neto?
NP - Pior do que isso. Holden Roberto anunciou, na Tanzânia, a sua intenção de, mal chegado a Kinshasa, mandar prender Savimbi. Eu próprio seria, igualmente, encarcerado, mas as coisas não tiveram esse desfecho. Porque, entretanto, agudizaram-se as dificuldades que o MPLA experimentava em Kinshasa, onde o regime se tornava intratável para Agostinho Neto e seus homens. O MPLA acabou por ter de se transferir para a vizinha Brazaville, na outra margem do rio Zaire.
"ORDEM"PARA O MPLA: INTEGRAÇÃO...NA FNLA!

Acabava a Organização da Unidade Africana, OUA, de reconhecer o MPLA e a FNLA como "os únicos movimentos de libertação de Angola". De súbito, conta Miguel N'Zau Puna ao JN, uma comissão da OUA desloca-se a Kinshasa. O MPLA estava em dificuldades operativas. A UPA-FNLA, dividida. E os enviados da OUA verificam, no terreno, que é a FNLA quem tem, de facto, homens a combater. Face a tal constatação, a Organização Africana "ordena", em medida talvez insidiosa: que o MPLA seja, com os seus quadros, absorvido pela FNLA, de Holden Roberto!
"A título individual", recorda Miguel N'Zau Puna, segundo o argumento da OUA, cuja comissão incluia elementos da Nigéria, Congo-Brazaville, Argélia e Guiné-Conakri.
JN - O MPLA não tinha, em 1962/63, guerrilheiros no terreno?
N'ZAU PUNA - Não tinha. Porque, uma vez retirado, obrigado a retirar-se do Congo-Kinshasa para o Congo-Brazaville, ficou quase mutilado. Mas, num rasgo de firmeza, o dr. Agostinho Neto recusou a integração na FNLA, mesmo "a título individual", como pretendia a OUA. A quem Neto mandou recado: "Se nós, MPLA, trabalhamos agora oito horas, diariamente, vamos passar a trabalhar dezoito!". Foi assim que o MPLA meteu mãos à abertura da sua "segunda região", nas matas de Cabinda.
JN - Que apreciação fez Jonas Savimbi deste caso?
NP - Achou coerente a postura do dr. Neto. Savimbi tinha por Neto uma confessa admiração. Admirava-lhe a coragem e a criação poética revolucionária. Admirava o facto de Agostinho Neto ter desafiado, em Portugal, o aparelho colonial-fascista. Savimbi discordava das posições de alguns elementos do MPLA, mas mantinha com Neto um certo entendimento.
ELE NÃO SE SENTE DERROTADO E NÃO ACEITA ENTRAR NO REGIME!

Miguel N'Zau Puna prevê que o líder do movimento do "Galo Negro" exija o máximo para evitar represálias dos seus próprios soldados...

Só mesmo quem conheça muito bem Jonas Savimbi pode expressar-se com a precisão, e o desenfado, de Miguel N'Zau Puna. Um dos fundadores da UNITA. E, por certo, também, um dos beneficiários intelectuais dos cerca de 4000 títulos que Savimbi acarinhava na sua biblioteca multidisciplinar da Jamba. N'Zau Puna, que reconhece "a espantosa capacidade de trabalho" de Jonas Savimbi, entende que ele "não vai renunciar ao partido, nem à força militar". Logo, muito dificilmente o líder da UNITA aceitará uma das (duas) vice-presidências da República angolana.

Savimbi, um homem que "não aceita conselhos de ninguém", no partido, "deve estar a preparar qualquer coisa diferente", admite, também, Miguel N'Zau Puna. O "Galo Negro" pode estar à espera da "consolidação" de Jacques Chirac e da "queda" de BilL Clinton a favor dos republicanos...
O repórter do JN faz, em Luanda, o que lhe compete: além de revisitar, com protagonistas de carne e osso, os caminhos da história remota, tenta convencer políticos e militares da utilidade de uma avaliação do processo de paz. Isaías Samakuva, da UNITA, abandona subitamente Luanda. Rumo ao Bailundo, quartel-general do "Galo Negro". O general Ben-Ben também se encontra no Bailundo: queixa-se de ter sido vítima, em Luanda, de um atentado; as autoridades referem-se a uma bala perdida, presumivelmente disparada para o interior da casa do carismático general da UNITA.
Na capital, elementos próximos do Governo e do MPLA sussurram, junto do enviado do JN: "Até agora, a UNITA mandou para os acantonamentos, somente, uma garotada, que não tem nada a ver com os seus guerrilheiros".
É a desconfiança reinstalada. O representante especial das Nações Unidas farta-se de levar as mãos à cabeça e, quando pode, vibra alguns murros na mesa.
Miguel Maria NZau Puna, o antigo secretário-geral da UNITA, está disponível para falar, também, do presente. E nem sequer se demite de arriscar algumas previsões: "Jonas Savimbi não se considera derrotado!", avisa. Ele conhece bem o líder da UNITA, com quem trabalhou desde a fundação do movimento.
JORNAL DE NOTÍCIAS - Mudaram os dados, no terreno. A África do Sul já não é a mesma. Mobutu não tem sossego. E o general João de Matos, do Exército governamental, chegou a pensar numa vitória esmagadora e definitiva sobre as FALA. Face a estes indicadores: a UNITA poderia, ainda, reacender a guerra em Angola?
N'ZAU PUNA - O material que a UNITA tem, ainda, escondido em parte incerta, pode não proporcionar acções militares de vulto, mas será o suficiente para, durante algum tempo, causar danos. Com isso, voltaria a crescer a insegurança. E os investidores fugiriam, mais uma vez.
REPRESÁLIAS

JN - Quais serão, nesta altura, os verdadeiros propósitos de Savimbi?
NP - Savimbi está a querer ver o que é que ganham, ele e os seus homens. Qual é a contrapartida. Savimbi não vai limitar-se a ocupar um posto relevante na nova hierarquia do poder em Angola. Ele pretende obter, também, cargos para os seus homens. Para que se sintam recompensados. Se o não conseguir, o próprio Savimbi corre sérios riscos na UNITA. Iriam verificar-se represálias. Savimbi deve ter por aí, ainda, muito armamento escondido. Que o Governo e as Nações Unidas não controlam. Enquanto não houver uma clarificação total, ele poderá, sempre, dizer que não autorizou nem tem nada a ver com esta ou aquela fustigação efectuada pelos seus soldados. "Foi sem o meu conhecimento", dirá ele. Porém, no caso de haver entendimento com o MPLA, com o Governo, Savimbi já terá de assumir concretamente as suas responsabilidades. Porque, na UNITA, ninguém desobedece ao Savimbi.
JN - Recentemente, Savimbi confessou-se arrependido do comportamento que assumiu, em Luanda, em 1992, depois das eleições. E também já reconheceu o que sempre negara obstinadamente: ter pactuado com o exército colonial português. Estes rasgos vão beneficiar ou prejudicar a imagem de Savimbi junto do povo angolano?
NP - De uma coisa estou seguro: com estas jogadas todas, Savimbi quererá tudo, tudo, menos queimar a sua própria imagem. Estas confissões, estes arrependimentos, o "perdão" que ele anda a suplicar, não é nada daquilo que ele diz ou propõe no seu comité restrito, na UNITA. Savimbi é assim: dentro de casa, uma linguagem. Fora, outra linguagem. Ele sabe muito bem que não é cómodo aceitar determinadas indulgências. Isso pode levá-lo, ainda, à barra dos tribunais. Só com fortíssimas garantias de ser amnistiado o Savimbi aceitaria determinados "consensos".
JN - E quanto à opinião pública angolana?
NP - Depois de tantos anos, o povo angolano está saturado, já não aguenta mais guerras. Se o Savimbi cumprir em aspectos realmente construtivos para Angola, ele poderá, ainda, conquistar muita popularidade junto dos vários grupos sociais.
RESSENTIMENTOS

JN - Para si, Miguel NZau Puna, que tão bem conhece Jonas Savimbi, é um dado adquirido que ele poderá aceitar a vice-presidência adjutória de José Eduardo dos Santos?
NP - São duas vice-presidências. Se fosse apenas uma, é possível que Savimbi "vergasse" um pouco. Mas, duas vice-presidências...? A UNITA é bem capaz de indigitar alguém, um outro dos seus dirigentes, quando no seio do partido terminarem os debates sobre o assunto. É preciso ver, também, que Jonas Savimbi não vai querer abandonar o partido e a força militar. São duas coisas importantes para o Savimbi. Ele é um político, mas a força armada, para Savimbi, é uma forma de implementar a política partidária. Savimbi prefere continuar no partido e preparar-se, assim, para as futuras eleições. E ele também calcula que os acantonamentos irão, em parte, debilitá-lo.
JN - Uma leitura em termos absolutos: por que é que Jonas Savimbi não se modera? Ambição? Complexos? Ressentimentos?
NP - Há, pelo menos, dois estigmas nucleares. Primeiro: Savimbi sempre dizia, desde os tempos de Kinshasa, que os angolanos do Norte sempre nutrem um complexo de superioridade; porque os angolanos do Sul, nomeadamente os ovimbundos, foram levados para as plantações de café do Norte. Eu tive de lembrar-lhe, um dia, que isso não está certo. Quem arrastou para as plantações do Norte os angolanos do Sul foi o colonialismo português. Segundo: Savimbi costuma dizer: "Eu lutei contra os portugueses, contra os russos, contra os cubanos, e agora vou ficar sem o poder em Angola?!". Savimbi, quem sabe, talvez se torne um pouco moderado. Mas essa moderação, por aquilo que eu conheço dele, não deve significar uma mudança!.
UNITA E SWAPO TIVERAM OS MESMOS ACAMPAMENTOS!

Na presença de Miguel N'Zau Puna, em Pretória, durante uma recepção oficial, Peter Botha, então presidente sul-africano, voltou-se para Jonas Savimbi e justificou-se: "Tirarmos o Nelson Mandela da prisão? Se o fizermos, não tarda muito estaremos nós próprios no lugar dele. Atrás das grades!".

Savimbi teria sugerido a Peter Botha, durante a conversa, a libertação "imediata" de Mandela. O episódio, naturalmente, ocorreu há alguns anos. N'Zau Puna tentava, assim, convencer o enviado do JN da bondade "ideológica" das relações de Savimbi com o regime do "apartheid". O que, deveras, não conseguiu. Bastaria reflectir sobre o que o antigo secretário-geral da UNITA nos disse sobre o "carácter" das relações de Savimbi com os americanos: "Ele está muito agradecido aos Estados Unidos porque foi deles que recebeu as armas para se opor aos aviões e aos tanques do MPLA. Não esquece os grandes investimentos dos americanos. E, agora, ele espera que os seus amigos republicanos reapareçam no poder, voltem à Casa Branca!".
Para Savimbi, os "bons" são sempre, e só, aqueles que o ajudam.
Savimbi, como quer que seja, desde muito cedo evidencia uma considerável desenvoltura nas relações internacionais, dentro e fora do Continente Africano.
Aprisionado na Zâmbia (pelo regime de Kaunda) no tempo da guerra colonial, Savimbi contou com os bons ofícios de Nasser, que lhe deu assistência no Cairo. Entretanto, na Tanzânia, regressado da China, Savimbi conhece o pessoal da SWAPO (Namíbia).
A SWAPO tinha escritórios em Dar-es-Salam. Era o início de um "processo" colaboracional que, hoje, leva Miguel N'Zau Puna a garantir-nos que "a UNITA se antecipou ao MPLA nas relações factuais com a SWAPO de Sam Nujoma".
JORNAL DE NOTÍCIAS - Mas não é também um facto que a maior carga referencial na região contempla o binómio MPLA-SWAPO?
NZAU PUNA - Está certo. Mas muito antes de se formar esse cenário MPLA-SWAPO, quando o Savimbi era secretário-geral da UPA-FNLA, e ministro das Relações Exteriores do "governo" do GRAE, já ele tinha entendimentos com a SWAPO. E, durante a luta de libertação nacional, na área do Cuando Cubango, praticamente os acampamentos dos guerrilheiros da UNITA e da SWAPO estavam geminados. Os homens da SWAPO iam combater nas envolventes da Namíbia e, depois, regressavam para junto da UNITA. A SWAPO recebia armas da OUA, a UNITA chegou a utilizá-las, quando precisou dessas armas como de pão para a boca. A tal ponto que os homens da SWAPO, o general Dimo, por exemplo, nos rotularam de gatunos!
JN - Mas, posteriormente, o MPLA monopolizou essas relações com a SWAPO e desempenhou, até, um papel histórico notável na independência da Namíbia.
NP - Das movimentações conjuntas UNITA-SWAPO em Luiana, Mucusso, Mutumbo, Chitembo, em corta-mato até Caiundo, cerca do Cunene, passou-se para outros cenários, outros tempos. Sem esquecer, ainda, que foi com a ajuda da SWAPO que o dr. Savimbi, regressado do "exílio" no Cairo, em 1968, conseguiu passar, através da Tanzânia e da Zâmbia, para o interior de Angola. Mas, enfim, as coisas mudaram. Depois do 25 de Abril em Portugal, fomos nós, UNITA, foi o próprio Savimbi quem levou os comandantes (da SWAPO) da Zâmbia para o Huambo (de avião). E eu próprio os levei para as zonas da Huila e Cunene. Quando o MPLA tomou as cidades e a UNITA voltou, em 1976, para as matas, a SWAPO naturalmente não pôde acompanhar-nos. Ficou lá e consolidou as suas relações com o MPLA. Finalmente: o corte de relações entre as partes foi quando a SWAPO verificou que a UNITA tinha relações com a África do Sul!
O PRÓPRIO SAVIMBI "DAVA AULAS" PARA DIVULGAR MAO, MARX E ENGELS

"As ideologias que nós aprendemos", em Angola, sublinha Miguel N'Zau Puna, "são ideologias importadas". Um juizo-timbre que o antigo secretário-geral da UNITA aplica, sem distinções, aos históricos movimentos de libertação angolanos. Para concluir: "Então, é necessário voltarmos a ser nós próprios, empregarmos uma nova filosofia agregativa, no essencial, de todos os angolanos".
A UNITA, recorda N'Zau Puna, "lutou contra aquilo que nós chamávamos o social-imperialismo de russos e cubanos". Porém, já depois de se reconhecer numa organização forte, o movimento de Jonas Savimbi começou a ser percorrido, internamente, por sentimentos "divisionistas".
Questões "regionalistas", talvez diferenças etnoculturais - os bienos, os umbundos, etc, etc. Savimbi e outros, como ele, naturais do Bié, detinham o poder. "Havia uma clara rivalidade entre os do Bié e os do Huambo", diz ao JN o "histórico" Miguel N'Zau Puna.
Corria, no seio da UNITA, que os do Huambo "tinham a presunção de se destacarem como intelectuais". O mais importante, porém, é que Jonas Savimbi ficou com as mãos suficientemente livres para vender, no exterior, a imagem de um anti-comunismo inabalável. A palavra de ordem: "Nós somos contra os comunistas do MPLA!".
JORNAL DE NOTÍCIAS - Savimbi convenceu, com o "slogan", os sul-africanos?
N'ZAU PUNA - Não só os sul-africanos como, também, os americanos. Mas, no interior da UNITA, preponderavam de facto as práticas maoístas. Jonas Savimbi tinha sido bem recebido na China, onde treinou alguns quadros em técnicas de guerrilha. E logo irrompeu uma máxima no funcionamento interno da UNITA: "Não se pode combater os marxistas sem conhecer a teoria marxista!". O próprio Savimbi dava aulas num centro de formação que ele mesmo implantou. Aprendíamos o marxismo-leninismo em coabitação com o maoísmo.
JN - Savimbi cultivava isso com fervor?
NP - Além dos livros, em quantidade e qualidade, Savimbi tinha, bem à vista de toda a gente, grandes fotografias de Karl Marx, Estaline, Lenine, Engels e Mao Tsé Tung. E o Savimbi mesmo dava aulas, era o professor: marxismo-leninismo, o marxismo dialéctico, o marxismo histórico. A nós, companheiros, ele dizia: "Eu sou comunista, mas se algum de vocês for lá para fora divulgar, eu vou gritar que é tudo mentira!". E o mesmo Savimbi afiançava-nos: "Quando vou à África do Sul, isto é ouro! Quando vou para os Estados Unidos, é ouro, também!".
JN - Se eu questionasse, agora, Jonas Savimbi, como é que ele se definia?
NP - Ah, neste momento Savimbi não aceitaria identificar-se como maoísta, marxista-leninista, ou simplesmente comunista... Ele diria que é social-democrata. Savimbi iria utilizar consigo a mesma linguagem que o MPLA utiliza agora.

Páginas sobre ANGOLA, neste site :
in http://www.arlindo-correia.com/200601.html

Angola 1975
Angola, 20 anos depois
Literatura Angolana
O Reino do Congo
Reis do Congo
A Rainha Jinga
António de Oliveira de Cadornega (1623-1690)
Viagem e Missão no Congo, de Fr. Rafael de Castelo de Vide (1780 - 1788)
Viagem do tenente Zacharias da Silva Cruz ao Congo, em Outubro de 1858
A escravatura
O Missionário e o negócio
Jonas Malheiro Savimbi



Recensão do livro de Ryszard Kapuscinski

MAIS UM DIA DE VIDA - ANGOLA 1975, Campo das Letras, Porto, 1998

Angola: do 25 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975

UM GOLPE CAÍDO DO CÉU

O 25 de Abril surpreendeu tudo e todos em Angola. Luanda vivia a vida cosmopolita de uma capital colonial, e só uma meia-dúzia de dias depois, em princípios de Maio, no Zaire e na Zâmbia, os movimentos de libertação reagem ao golpe militar em Portugal, com proclamações de continuação da luta até à independência total. Ironicamente, o golpe em Portugal haveria de conceder-lhes um protagonismo que estavam longe de ter conquistado.

JOSÉ GOMES

As promessas de continuação da guerra com que o MPLA, a FNLA a a UNITA reagiram ao golpe em Portugal, diga-se em boa verdade, não tiravam o sono a ninguém.
Em 1974, a luta de libertação atravessava um período crítico: o Exército português controlava militarmente todo o território - as operações tinham cessado em 1972 e a livre circulação era um facto.
Após o surgimento, em meados dos anos 60, de actividade militar no interior - O MPLA abre em 66 a Frente Leste, a UNITA ataca Vila Teixeira de Sousa, na fronteira catanguesa, em fins de 65 -, os movimentos encontravam-se minados por profundas crises internas.
Neto mandara fuzilar, dois anos antes, vários comandantes no Leste, após a revolta dos Bundas, e o movimento está recuado na Zâmbia, envolvido num debate interno para a revitalização daquela frente. Chipenda proclamara no ano anterior a cisão, em protesto contra a assinatura, por Neto e Holden Roberto, do inesperado acordo para a criação do Conselho Supremo para a Libertação de Angola.
Mais tarde, já em 74, mas ainda antes do 25 de Abril, virá a surgir uma outra facção, a Revolta Activa, propondo amplo debate para a redefinição da estratégia da luta de libertação.
Pelo lado da FNLA, as coisas não estavam melhores. Apesar de se saber que o movimento, com apoio de Mobutu, estava a formar no Zaire um exército de 9.000 homens, treinado por instrutores chineses e bem armado, Holden Roberto estava precisado de quadros dirigentes. Mandara fuzilar, após a revolta de Kinkuzo, no Zaire, em princípios de 72, dezenas de oficiais do seu Estado-Maior, e vários outros haviam fugido para Brazzaville.
A UNITA encontra-se no interior, abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela, sem actividade militar conhecida.
GUERRA ESQUECIDA

Em Luanda, em 74, os combates eram uma coisa longínqua, que a cosmopolita vida na capital fazia ainda mais remota.
"À medida que as pessoas se integravam, a ideia da guerra era uma ideia longínqua", recorda o pró-reitor da Universidade do Porto, professor Nuno Grande, na altura vice-reitor da Universidade de Luanda.
"Como as pessoas estavam longe dos focos de guerra, adormeciam um pouco em relação à situação em que se vivia", conta.
O professor recorda no entanto que a capital angolana por pouco não foi abalada por uma operação da guerrilha. "No Natal de 73, foi desactivada uma operação de guerrilha urbana que estava a ser preparada por gente da FNLA, dentro da cidade de Luanda. As pessoas não tiveram muita consciência disso, mas eu, porque estava ligado à Universidade, tive conhecimento pelos canais oficiais que uma das acções seria contra o próprio hospital universitário".
A preparação dessa acção foi contudo descoberta.
No geral, o dispositivo militar da administração colonial era na verdade muito eficaz, reconhecem hoje alguns dos que naquela altura estavam do outro lado.
O Exército, as tropas especiais africanas treinadas pela PIDE/DGS, os Flechas, a polícia política, forças militarizadas e as milícias da Organização Popular de Vigilância e Defesa Civil de Angola estabeleciam no terreno um controlo a que dificilmente escapavam os movimentos da guerrilha.
Estes faziam contudo incursões através das fronteiras de Brazzaville e da Zâmbia, e havia zonas perfeitamente demarcadas onde já se sabia que tudo podia acontecer.
Aí por volta de 1965, conta Nuno Grande, nos Dembos e no Moxico a guerrilha fez muita mossa. "Cabinda e o Leste eram sítios de onde nós, os médicos do Hospital Militar, sabíamos que os feridos vinham sempre muito maltratados".
Em Cabinda, onde foi enviado para investigar um surto de febre amarela, "havia muitos focos, com grande número de mortos. Lembro-me que, numa distância de 200 quilómetros, os comandantes das companhias que estavam ali aquarteladas diziam-me: "Temos um morto por quilómetro". Havia 200 mortos entre as duas companhias, o que era um número considerável.
"Bem sei que estavam ali dois anos, mas a guerrilha era muito mais efectiva em Cabinda, porque as fronteiras com o Congo-Brazzaville eram muito permeáveis. Eles faziam as operações, deixavam as coisas armadilhadas, e iam embora, nem sequer assistiam aos efeitos. E dava-se conta, no Hospital Militar de Luanda, quando alguém vinha de Cabinda, pelos maus tratos...", conta.
Por cá, era ler os comunicados militares que diariamente o Ministério da Guerra mandava publicar nos jornais. "O Serviço de Informações Públicas das Forças Armadas comunica que morreram em combate, na Província de Angola, os seguintes militares:" e seguiam-se os nomes de mais uns tantos que, naquele ano, entre a noite de Natal e a de fim de ano, não iriam aparecer na TV, a desejar festas felizes.
Na capital, muita gente conhecia pessoas ligadas ao MPLA. "A FNLA tinha também alguma implantação, a UNITA não me recordo de ter grande impacto em Luanda - teria provavelmente mais para leste, mas em Luanda não", recorda o professor.
"Eles trabalhavam em Luanda, tinham frequentado as escolas. As pessoas lembravam-se de alguns que tinham saído de lá nos anos 50 e 60. Desde o dr. Agostinho Neto, que tinha saído de Luanda, onde era enfermeiro, para estudar Medicina, e depois não voltou, até àquele que havia de dar o nome ao hospital universitário, o irmão do Miguel Boavida, o Américo Boavida, que foi estudante, aqui no Porto, no meu tempo. Era ginecologista em Luanda, e, portanto, muitas pessoas o conheciam".
"Referiam-se a eles com simpatia, curiosamente. Mas, ao mesmo tempo, eles representavam as forças que lutavam contra Portugal, e havia uma certa ambiguidade - as pessoas lembravam-se de quem eram conhecidas e amigas, mas ao mesmo tempo tinham a reserva inerente a alguém que sabe que em algum momento eles poderiam desestabilizar tudo", recorda Nuno Grande.

APANHADOS DE SURPRESA

A 25 de Abril de 1974, Agostinho Neto encontrava-se no Canadá, mantendo contactos com a companhia petrolífera norte-americana Gulf Oil, em busca de apoio ocidental para o MPLA. Não hesitou em classificar o golpe em Portugal como um ajuste de contas entre facções do regime.
Os três movimentos, aliás, em comunicados tornados públicos nos dias imediatos, não escondiam as suas reservas.
A FNLA, em comunicado publicado a 30 de Abril, apelava à continuação da luta do povo angolano até que "a justiça universalmente reconhecida, o bom-senso e o direito à livre determinação" saíssem vitoriosos.
No mês seguinte, o líder do movimento, Holden Roberto, admitia já negociações com Portugal, com uma condição: o reconhecimento do direito à autodeterminação e à independência.
Pela mesma altura, já Agostinho Neto ajustara a opinião sobre o golpe militar em Portugal, mas mantinha a determinação de lutar até que Portugal se comprometesse a conceder a independência, a partir do que poderia ser iniciada a negociação sobre a transferência do poder. Pelo caminho, rejeitava categoricamente qualquer federação com a antiga metrópole.
A 21 de Maio, a UNITA alinha pelo mesmo tom. Mas, segundo o jornal "Província de Angola", Jonas Savimbi teria já acordado com as autoridades portuguesas um cessar-fogo. A 13 de Junho, Savimbi tornava públicas, no mesmo jornal, as suas posições sobre a questão, propondo um período de preparação política do povo para a independência, com a participação dos três movimentos, e a realização de eleições.
AMBIGUIDADE EM LISBOA

De Portugal, a Junta de Salvação Nacional ordenara o regresso do então governador de Angola, Santos e Castro, e nomeara em seu lugar o então tenente-coronel Soares Carneiro.
Da prisão de Luanda são libertados 85 presos políticos, e da de São Nicolau, em Moçâmedes, 1.200. A PIDE é formalmente extinta, mas os agentes integrados num novo serviço de informações, o Comando da Polícia de Informação Militar.
O general Costa Gomes chega na primeira semana de Maio a Luanda, e afirma em conferência de imprensa que o combate contra os movimentos de libertação continua, até que estes deponham as armas e aceitem uma solução política.
"Nenhuma província, nenhum grupo, nenhuma raça, terão permissão para impor uma solução que não tenha passado pelo crivo de um teste democrático", disse o general, acrescentando, em resposta a dúvidas manifestadas pelos jornalistas, que "é nossa intenção continuar a luta contra as guerrilhas, e essa posição manter-se-á até que os guerrilheiros aceitem a nossa oferta para depor as armas e se apresentem como um partido político legal".
De regresso a Lisboa, Costa Gomes, que em Luanda manifesta muitas e públicas dúvidas quanto ao que "muita gente pensa e tem propagado" sobre o apoio da população angolana aos movimentos de libertação, afirma que "todos os grupos humanos dessa sociedade luso-tropical" lhe haviam dado uma grande alegria, a da "esperança da realidade efectiva da autodeterminação autêntica num quadro variável dum portuguesismo pluricontinental".
Três dias após o 25 de Abril, o general Spínola já fazia questão de separar as águas entre autodeterminação e independência: a autodeterminação é o direito de um povo livremente escolher o seu destino, a independência imediata a aceitação duma vontade que não seria a desse povo.
Mário Soares, recém-regressado do exílio e já de viagem a Bona, considera "importantes" as palavras do general, mas quando lhe perguntam se é favor de uma federação ou da independência, responde: "Sou abertamente pela independência, e, na minha opinião e na do meu partido, é necessário negociar urgentemente com os movimentos de libertação".
Ao tomar o lugar de que o almirante Tomás fora apeado, duas semanas depois, a 15 de Maio, Spínola diz para a rua, que berra pelo fim da guerra colonial e a independência imediata para as colónias: "Os nossos esforços centrar-se-ão no restabelecimento da paz no Ultramar, mas o destino do Ultramar Português terá de ser decidido por todos os que àquela terra chamaram sua".
A QUEDA DO GENERAL

Mais tarde, num encontro com o presidente do Zaire, Mobutu, na ilha cabo-verdiana do Sal, discute esse destino. A conversa foi rodeada do maior segredo, e o jornal "República" haveria muito mais tarde, em Outubro de 75, já depois da queda em desgraça do general, de noticiar que fora discutido um complexo acordo de mútuos benefícios para os interesses portugueses e zairenses, nos quais se incluiria uma inédita Federação Zaire-Angola-Cabinda, com Mobutu a presidente e o líder da FNLA a vice-presidente.
Na notícia, é difícil distinguir entre a verdade e a propaganda da época, mas não se andará longe da verdade se se disser que dos planos do general constava a aposta em Holden Roberto, o homem dos americanos, de Mobutu e, noutro tabuleiro, dos chineses, para contrariar o MPLA.
Na falta de uma política clara para o problema colonial, a incerteza dominava mesmo os sectores mais informados da sociedade luandense. Os telexes das agências noticiosas dão conta desse estado de espírito, como um despacho da Reuter publicado pelos jornais portugueses a 4 de Maio, segundo o qual brancos e africanos moderados se manifestavam favoráveis à criação de um Estado multirracial e à ideia de uma qualquer federação com a metrópole.
Em Junho, o general Silvino Silvério Marques, que fora já governador de Angola entre 1962 e 1966, os anos imediatamente seguintes ao início da luta armada, é nomeado de novo para o cargo. Quando o avião aterra em Luanda, há manifestações no aeroporto contra o general, que permanecerá no entanto na capital angolana até fins de Julho, altura em que, após o assassínio de um taxista branco num musseque, ocorrem os primeiros distúrbios.

O ÚLTIMO DIA

Na tarde do dia 10 de Novembro de 1975, a bandeira portuguesa foi pela última vez arreada no Palácio do Governo e na fortaleza, dobrada e redobrada. O alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, ao qual coube a ingrata tarefa, proclamara horas antes a independência de Angola.
Quatrocentos e noventa e dois anos depois das naus portuguesas ali terem largado ferros, o último representante da soberania portuguesa abandonava a jóia do ex-Império, e partia, "sem cerimonial, mas de cara levantada", rumo à base naval da ilha de Luanda.
Ao largo, na baía já abandonada por barcos carregados até à borda de multidões e contentores, a fragata "Roberto Ivens" escoltava o "Uíge" e o "Niassa", com as máquinas prontas para, pela última vez, zarparem para Lisboa.
Uma semana antes, a cidade branca acabara de esvaziar-se. A ponte aérea, organizada com o apoio de países estrangeiros, retirara de Angola, no meio de indescritíveis cenas de pânico e confusão, quase meio milhão de portugueses.
As estátuas dos imortais portugueses jaziam apeadas, no sítio havia só os pedestais, já pintados com o vermelho-negro do MPLA.
Para trás ficara a companhia de pára-quedistas, o almirante e uma meia-dúzia de funcionários que agora, no meio de grande e inútil aparato militar, se dirigiam para o porto.
Polícias angolanos, de farda azul, ganharam de imediato as posições desocupadas. Às janelas do palácio, alguns criados negros assistiram à saída de blindados e "Berliets".
Na baixa luandense, nem isso. Cortadas por fuzileiros, as ruas estavam desertas.

O ADEUS PORTUGUÊS

No imponente Salão Nobre do Palácio, o alto-comissário fizera de manhã, perante um batalhão de jornalistas, um breve deve e haver daqueles meses de brasa.
"E assim Portugal entrega Angola aos angolanos, depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir. Os homens desaparecem, mas a obra fica. Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar. Deixa um país que está na vanguarda dos estados africanos, deixa um país de que se orgulha e de que todos os angolanos podem orgulhar-se".
E arrematou responsabilidades: "A única recriminação que poderá aceitar é a de ter dado provas de extrema ingenuidade política quando concordou com certas cláusulas do acordo do Alvor".
Para o almirante ingenuidade, para Neto, que à custa de sangue e suor conseguiria proclamar-se no dia seguinte presidente em Luanda, outra coisa. "Quanto a Portugal, o desrespeito dos acordos do Alvor é manifesto, entre outros, no facto de sempre ter silenciado a invasão de que o nosso país é vítima por parte de exércitos regulares e de forças reaccionárias (...) que teimou em considerar como movimentos de libertação, tentando empurrar o MPLA para soluções que significariam uma alta traição ao povo angolano".
Leonel Cardoso não pode responder, não estava presente no palanque de Neto, cumprira a promessa feita em confidência um mês antes a Cáceres Monteiro, enviado de "O Jornal": "Se um movimento não quiser vir, ainda aceito que se faça a cerimónia com os outros dois. Só com um, eu não tomo parte nas cerimónias. A um, eu não entrego o poder. Não vou às cerimónias de posse desse movimento".
No Campo da Revolução, no Sambizanga, o povo, na véspera, condenara ao enforcamento os espantalhos dos presidentes da FNLA, Holden Roberto, e da UNITA, Jonas Savimbi. Mas nessa noite, as palavras do líder do MPLA, agora presidente de Angola, perdiam-se no barulho dos disparos de faplas festejando, e, mais ao longe, de um fragor de explosões.
Ao largo de Cabo Ledo, um submarino soviético estava para o que desse e viesse, pronto para dar fuga a Neto.
A FNLA estava a 25 quilómetros, no Caxito e Quifangondo, e Holden Roberto, que celebrava a independência em Carmona, hoje Uíge, encerrara o discurso às tropas com um "até logo, em Luanda". Vinte e quatro horas depois, à meia-noite do dia 11, não em Luanda, mas em Ambriz, proclamava a República Popular e Democrática de Angola.
No Sul, o MPLA acabara de perder Sá da Bandeira, Moçâmedes, Porto Alexandre, Benguela e o Lobito, e a UNITA celebrava naquela que viria a ser a sua capital, Nova Lisboa, depois crismada Huambo
RECONHECIMENTO ADIADO

Em Lisboa, ao Verão Quente sucedia um Outono escaldante, o 25 de Novembro estava à vista. O ministro da Cooperação, Vítor Crespo, cancelara na madrugada de dia 10 a partida para Luanda. Um longo e polémico Conselho de Ministros, terminado a altas horas dessa noite, para que tinham sido convocados, a título excepcional, os secretários-gerais dos três partidos com assento no Governo - PS, PPD e PCP -, acabaria por reafirmar apenas o espírito do acordo do Alvor, e a não ingerência de Portugal nos assuntos internos do povo angolano, defendida pelo PS e o PPD, contra a posição do PCP, segundo o qual o MPLA era o único representante legítimo do povo angolano.
Convocado o Conselho da Revolução pelo presidente da República, general Costa Gomes, as divergências mantiveram-se.
Otelo faltou, zangado com os moderados, e Rosa Coutinho, ex-alto-comissário em Angola, num telegrama de felicitações a Neto, pedia desculpa por só mandar o coração a Luanda, que o resto era preciso aqui.
O avião da TAP, que levantara para a capital angolana com Palma Inácio, da LUAR, Carlos Antunes, do PRP, José Manuel Tengarrinha, do MDP/CDE, Pereira de Moura, do Conselho Mundial para a Paz, e delegações de vários partidos comunistas estrangeiros, foi mandado regressar a 30 minutos de Luanda.
Ao aterrar na Portela, às 5,30 horas, soube-se que a ordem de regresso fora do ministro dos Transportes, Valter Rosa, e o argumento que Luanda estava a ser bombardeada. Horas mais tarde, o aparelho, fretado pelos Transportes Aéreos de Angola, levantava de novo com o mesmo destino.
Às seis da manhã de 22 de Fevereiro do ano seguinte, Melo Antunes anunciava o reconhecimento por Portugal do Governo angolano. O Brasil fora o primeiro país a reconhecê-lo, no próprio 11 de Novembro, Portugal era o 88.o.
(...)
OS PRIMEIROS TUMULTOS EM LUANDA

Nos primeiros dias de Julho de 74, dão-se os primeiros incidentes violentos em Luanda, provocando ainda mais apreensão numa população branca que via já muitas nuvens no horizonte. Meia centena de negros é morta em confrontos provocados por "ultras" brancos. No mês seguinte, os primeiros 30 mil portugueses viajam para a metrópole.
José Gomes

O Verão de 74 é vivido com enorme expectativa pela população branca. "Angola é nossa", insistira o antigo regime contra ventos que sopravam de outras antigas metrópoles europeias, e muitos tinham acreditado.
Era, mas certamente ia deixar de ser, e é uma cidade cheia de dúvidas quanto ao futuro que é abalada, nos primeiros dias do mês de Julho, por violentos confrontos - que constituiriam também a mais importante tentativa dos extremistas brancos para terem um papel naquele jogo.
O episódio - a descoberta, num musseque, às primeiras horas da madrugada de 11 de Julho, do corpo de um taxista branco estrangulado - "desencadeou um grande levantamento, tiros para um lado, tiros para o outro, e, durante um mês ou dois, a situação foi de grande tensão", recorda o professor Nuno Grande.
As circunstâncias do crime não são esclarecidas, mas poucas horas depois, ao princípio da manhã, na Avenida do Brasil, o ponto de passagem obrigatório para os negros que vinham dos musseques trabalhar na cidade, extremistas brancos concentram-se e agridem, insultam e ameaçam quem por ali passe.
Os tumultos não se ficam por ali. Cerca de meio milhar de manifestantes dirige-se ao palácio do governador, agredindo pelo caminho os negros que apanhavam à mão. Um guarda negro da Polícia de Segurança Pública foi espancado, a crer num comunicado da Casa de Angola a propósito dos acontecimentos.
Face à passividade das autoridades, que se limitam a apelar à calma, a agitação continua. Em grupos de cinco, exibindo as armas, fazendo-se transportar em táxis, os extremistas interceptam ao fim da tarde um autocarro, atacando-o a tiro. Várias pessoas são mortas, e uma manifestação silenciosa de negros é dispersada pela polícia de choque frente ao Palácio do Governador, à vista do general Silvino Silvério Marques.
A violência prossegue até ao fim da manhã do dia seguinte, quando é decretada a proibição de circulação de veículos motorizados, e o recolher obrigatório. O balanço é de pelo menos 50 mortos e 200 feridos.
A intenção dos "ultras" de passarem à acção era já conhecida. Corriam rumores que partidos brancos criados em Angola após o 25 de Abril, como a Frente de Resistência Angolana, o Exército Secreto de Intervenção Nacional e a Resistência Unida Angolana, que preconizavam a declaração unilateral de independência, baseada na supremacia branca, contavam com o apoio dos Flechas, as tropas negras treinadas pela PIDE, e de cerca de meis centena de mercenários catangueses, que tinham servido na guerra colonial e se encontravam ainda num quartel no Luso, hoje Luena.
Agostinho Neto, por seu lado, acusara o Partido Cristão-Democrata de Angola, liderado por Fernando Falcão, a Frente de Unidade Angolana e a FRA de financiarem o treino militar, por instrutores sul-africanos, em campos no Sul do país, de colonos portugueses para combaterem os movimentos de libertação.

PLANO PREMEDITADO

Tudo indica que o assassínio do taxista obecedeu a um plano preparado com antecedência.
"Em Junho, exactamente no dia 10 de Junho, houve uma reunião de pessoas, escolhidas segundo algum critério, que desconheço, no que era o Colégio Lisboa, perto do Hospital Militar", lembra Nuno Grande.
Aí, "um representante do dr. Agostinho Neto - recordo-me que era africano, mas tinha um nome holandês - alertou-nos para a possibilidade de um grande conflito armado na cidade de Luanda. Estava a preparar-se a realização do Campeonato do Mundo de hóquei em patins, já havia muitos estrangeiros na cidade. Ele anunciou que haveria um movimento, a partir de homens radicais de direita, brancos e negros, no sentido de desencadear a violência, denunciando um conjunto de operações que tinham sido detectadas".
"Então nós, os que estávamos nessa reunião, decidimos juntar um grupo e falar com o arcebispo de Luanda, para que nas missas fosse feito um apelo à tranquilidade e à paz", recorda o professor.
"Algumas das tais operações anunciadas aconteceram. Só que não tiveram o impacto que as pessoas esperavam. Houve uma, que desencadeou depois toda a confusão em Luanda, o assassínio do taxista, que fora também prenunciada pelo enviado de Agostinho Neto. Quando nos procurou, avisou que poderia ser assassinado um branco, pessoa indiscutivelmente aceite pela sociedade luandense. E foi assassinado o taxista, duma maneira estranha, num musseque", conclui.
A partir daí, conta o professor, "a cidade entrou num grande desequilíbrio, e quando eu vim (a Portugal), em Julho, já havia um êxodo muito grande, as pessoas já estavam todas amedrontadas com a confusão. Estabeleceu-se um clima de pânico, já havia a sensação que aquilo podia dar origem a um grande êxodo".
No mês seguinte, Agosto, 30 mil brancos viajam para Portugal.
Após os incidentes, a 22 de Julho, o general Silvino Silvério Marques é mandado regressar a Lisboa, e nomeada uma junta militar, encabeçada por Rosa Coutinho. As tropas portuguesas tomam o controlo da situação.

PORTUGAL RECONHECE DIREITO À INDEPENDÊNCIA

Dois dias mais tarde, a 24 de Julho, é aprovada a Lei 7/74, proclamada pelo general Spínola, a qual finalmente reconhecia "o direito à autodeterminação, com todas as suas consequências", incluindo a "independência dos territórios ultramarinos".
A lei é publicada a 27 de Julho, e, considerando "conveniente esclarecer o alcance" do ponto do Programa do Movimento das Forças Armadas segundo o qual "a solução das guerras no Ultramar é política e não militar", refere que esse princípio "implica, de acordo com a Carta das Nações Unidas, o reconhecimento por Portugal do direito dos povos à autodeterminação".
No artigo 2ho, a lei diz que "o reconhecimento do direito à autodeterminação, com todas as suas consequências, inclui a aceitação da independência dos territórios ultramarinos e a derrogação da parte correspondente do artigo 1.ho" da Constituição de 1933, que considerava aqueles territórios parte integrante de Portugal.
A 9 de Agosto, a Junta de Salvação Nacional anuncia o primeiro programa formal para a descolonização de Angola.
Era prevista a formação de um Governo provisório de coligação, após a assinatura de um cessar-fogo com os movimentos de libertação, que integrariam um Gabinete em condições de igualdade com representantes dos grupos étnicos mais significativos, entre os quais o dos "brancos" é referido explicitamente.
No prazo de dois anos, após um recenseamento, seriam realizadas eleições para uma Assembleia Constituinte, segundo o princípio de um homem, um voto, e, após a elaboração da Constituição, seriam realizadas eleições para o Parlamento e o Governo, cujos resultados Portugal se comprometia a respeitar. Era igualmente admitida a possibilidade de verificação, pelas Nações Unidas, das eleições.
O anúncio, que tinha por objectivo tranquilizar a população branca, acaba por ter algum efeito contrário.
O MPLA e a FNLA rejeitam o programa, devido à proposta de representação dos maiores grupos étnicos.
Dá-se o 28 de Setembro em Portugal, Spínola é afastado, e o novo presidente da República, general Costa Gomes, toma em mãos o processo de descolonização.
Pouco mais de uma semana depois, a 10 de Outubro, uma delegação portuguesa, chefiada pelo general Fontes Pereira de Melo, viaja para a capital zairense, Kinshasa, para conversações com Mobutu, encontrando-se com representantes da FNLA e do MPLA.
Em Novembro, Portugal assina acordos formais de cessar-fogo com os três movimentos.
Savimbi fora o primeiro a comprometer-se, em Junho, a cessar as hostilidades no mês de Outubro, e a UNITA abre a sua sede em Luanda a 10 desse mês. Segue-se-lhe a FNLA, no dia 16, e o MPLA, no dia 8 de Novembro.
A entrada dos movimentos de libertação em Luanda é uma supresa para muitos. "A chegada dos movimentos de libertação é uma supresa para muita gente, porque são grupos mal armados, mal preparados", recorda Vasco Vieira de Almeida, que viria a integrar, mais tarde, em Fevereiro, o Governo de transição.
Em fins de Outubro, Rosa Coutinho, que viera a Lisboa para assistir a uma reunião da Comissão de Descolonização, anuncia que Portugal está a realizar negociações com os líderes de cada um dos três movimentos de libertação para a formação de um Governo de transição.

PROJECTO PARA O HUAMBO VEIO ACABAR NO PORTO

O que era para ser o Instituto de Biomédicas do Huambo acabou por vir pegar de estaca no Porto, quando o professor Nuno Grande, que chegara a ir escolher o terreno na capital do Planalto Central, voltou para Portugal.

Foi com pena, mas sem azedume, que Nuno Grande deixou Angola. Veio de lá em Outubro de 1974, quando era vice-reitor da Universidade de Luanda, responsável pelo Instituto de Investigação Científica.
Viera a Portugal em Junho, de férias, e, quando estava para voltar, em Setembro, recebera um convite. "Tive a informação que se estava aqui a organizar o Instituto de Biomédicas, e um convite do ministro Magalhães Godinho". Mas as obrigações em Angola levaram-no de volta.
O projecto de um Instituto de Biomédicas para o Huambo tinha tido início no Carnaval de 1974, com os dr. Fernando Real e Rui Vaz Osório, com os quais Nuno Grande chegou a deslocar-se à então Nova Lisboa para escolher o local.
Porquê o Huambo? "Primeiro, porque havia muitos alunos. Angola tinha naquele altura no primeiro ano de Medicina 500 alunos, e já não comportava em Luanda esse número. Depois, porque este modelo interessava a Angola, era um modelo moderno de ensino da Medicina, e de aproveitamento dos recursos locais, e, ainda porque havia o Instituto de Ciências Veterinárias, o Instituto de Agronomia, e o Instituto de Investigação Médica. Estavam portanto criadas as condições para se lançar o Instituto de Ciências Biomédicas. Fomos lá escolher o terreno, mas depois aconteceu o 25 de Abril...", recorda o professor.
A partir da altura em que foi anunciado que Angola iria ser um país independente, Nuno Grande começa a organizar o regresso. "Era cidadão português, teria de vir participar na reorganização da sociedade portuguesa".
Regressa a Angola em Setembro, para os exames de segunda época, e fica até fins de Outubro, quando volta, definitivamente.
O professor conhecera Angola em 1965, como médico militar. "Fiz serviço militar até 67, e regressei a Portugal. Depois fui em comissão de serviço pela Faculdade de Medicina, e decidi radicar-me lá, porque as oportunidades para uma pessoa da minha idade eram muito grandes, mais do que as que tinha aqui. E aquela terra é atractiva, quer do ponto de vista da beleza natural, quer da afabilidade das pessoas. Era profundamente atractiva. Vivi nove anos e meio em Luanda, com grande intensidade e muita felicidade".
Como médico militar, recorda uma operação em Cabinda, numa altura em que se admitia a possibilidade de um surto de febre amarela. "Fui a Cabinda, tive de visitar o enclave todo, de uma ponta à outra, ver os militares aquartelados em todos os pontos, e concluí que não havia qualquer surto de febre. Mas quando houve um foco de febre amarela na cidade de Luanda, tive grandes dificuldades para mobilizar as autoridades, em nome da Ordem dos Médicos - eu era o presidente do Conselho Regional -, sofri muitas pressões das autoridades da época. Tentaram escamotear o surto, que ainda teve 600 mortos".
Quanto à descolonização, o pró-reitor da Universidade do Porto acha que dificilmente poderia ter sido diferente. "Tenho lido muita coisa sobre as descolonizações, portuguesa e outras. Estou convencido que não poderia ter sido de outra maneira. Se olharmos, por exemplo, para a descolonização da Índia, feita pelos ingleses - a primeira sugestão de descolonização da Índia é feita o século passado, pela rainha Vitória, passaram aquele tempo todo a preparar a independência, e veja como estão as coisas. Os processos de descolonização são sempre muito traumatizantes. Estou convencido que no caso de Portugal não podia ser diferente. Primeiro, porque é um processo agudo: está-se em guerra, e na semana seguinte já se está a tentar negociar. Segundo, Portugal é um país muito frágil, e ali cruzam-se conflitos de muita espécie, interesses internacionais. Veja que eles não conseguiram ainda encontrar um caminho para a paz, matam-se com armas extremamente poderosas, e que eu saiba não há fábricas de armas em Angola. Alguém as vende. Angola tem uma característica que a torna aptecível: é muito rica, e portanto os países poderosos e os ambiciosos não vão deixá-la em paz muito tempo, a não ser que disso tirem proveito".
Mas Nuno Grande compreende a mágoa que ainda sentem muitos dos que vieram. "Eu lembro-me das circunstâncias que se viviam em Portugal nos primeiros anos após o 25 de Abril, não só em relação aos que então eram chamados retornados, como em relação ao mundo produtivo, ao capital. Eram circunstâncias complexas. Em todo o caso, compreendo a mágoa das pessoas, porque eu próprio encontrei, à chegada a Lisboa, o que entendi como alguma frieza relativamente aos nossos problemas. Fiz um esforço no sentido de compreender. Admito que cada um tenha as suas próprias razões de queixa, mas se nos lembrarmos da confusão social que se vivia em Portugal nesse período, talvez se possa entender que não era simples organizar a evacuação de 500 mil pessoas sem que houvesse atropelos, que de facto houve".
O próprio professor foi vítima desse processo. "Vim com tranquilidade - acabei por chegar definitivamente a Portugal em Novembro de 74 - mas as minhas coisas, o meu património, ficaram lá. Aconteceu até uma coisa: tive de mandar dinheiro daqui para que as minhas mobílias viessem. Normalmente, as pessoas tinham muito dinheiro cá, mas eu não tinha - estava para comprar uma casa em Luanda, já depois do 25 de Abril. Cheguei a ir vê-la, pois acreditava, a longo prazo, que houvesse possibilidade de uma transição, admitia eu, ingenuamente. Só à última hora é que o negócio se gorou. Como disse, ainda tive de mandar dinheiro daqui, e as mobílias só vieram no ano seguinte. E fiquei em casa dos meus sogros até meados de 75".
Desse período, e da maneira como os portugueses se relacionaram com as colónias, guarda uma curiosa recordação: "Recordo-me que esteve nessa altura lá, em visita, um redactor do "Monde", que fez uma reportagem sobre Angola, e ele estava espantado com a relação entre o colonizador e o colonizado no terreno. Tinha ido ao Uíge, e vinha espantado: "Vocês são um povo estranho. Então agora é que estão a investir?". Havia pessoas que tinham vindo a Portugal buscar dinheiro para investir lá. "Vocês são completamente loucos!", concluiu ele".


CONTINUA...
in http://www.arlindo-correia.com/200601.html