sábado, 7 de janeiro de 2012

Benguela colonial . Seculo XIX

 
À  COMISSÃO  INSTALADORA da
ASSOCIAÇÃO  AMIGOS  DE  BENGUELA

Com especial atenção
ao Senhor José Augusto Bastos Júnior

AMIGOS

A “A.I.A.A.” – Associação Internacional Amigos de Angola regista o interesse da vossa Comissão para a constituição da Associação dos Amigos de Benguela (Angola) e põe à vossa disposição as condições necessárias de apoio jurídico e outras, que, por ventura, forem julgadas necessárias para o efeito.

Em conformidade com o livro “UMA EXPLORAÇÃO AFRICANA a NOVA LISBOA” de Albino Estevão de Victória-Pereira (então Tenente de Infantaria), publicado em 1820 na Marinha Grande pela Empresa Typográphica, transcrevemos o seguinte, sem comentários:
...” A Nação (fica) um pouco envergonhada, dos seus representantes votaram apenas na sessão das camaras de 1877, a proposta do Sr. Corvo, d’um subsídio de trinta contos de reis para uma viagem d’exploração Africana, para o que foram escolhidos os ilustres Srs. Capello-Ivens e Serpa Pinto, colocando aquelles beneméritos cavalheiros em sérias dificuldades, porque mais a mais a expedição foi dividida em duas; ...”
“Nessa data a impressão de Benguela era das mais agradáveis ao nível africano para quem só esperasse ver cubatas, Kilombos, armazéns e palhotas.”

Conta então  o Tenente Albino Estevão de Victória-Pereira no seu livro “Uma Exploração Africana a Nova Lisboa” mais o seguinte:

...”Bastantes casas construídas à eurpoea em ruas largas, formavam o bairro dos negociantes, e se este não tinha o cunho da elegância dos da moderna Paris, era contudo espaçoso e asseado; verdade seja que as melhores casas eram edifícios públicos, como o hospital, a alfandega, obra do governador Mendes Leite, a escola, a cadeia, a casa da Camara Municipal e a egreja matriz.”
“Como obra d’arte, tinha uma excelente ponte de ferro.”
“O bairro dos indígenas era, como são sempre os bairros dos não privilegiados da sociedade, como o célebre Pateo dos Milagres, a nossa antiga Alfama, a Mouraria, e outros de egual jaez; Vielleas immundas e infectas povoadas de palhoças miseráveis, sujas, sem conforto, davam guarida às inúmeras caravanas de bandombes, bailundos biénos, gauguellas e outros povos, que do interior ali veem fazer permutação de marfim, cera, borracha, dentes de cavallo marinho, pontas de abbada, liconte, cana d’assucar, anil, arroz, café, couqueiros, cajueiros, azeite de palma, ginguba, gomma copal, tamarinheiros, rícino, mel, pelles de pamthera, de tigre, de leão, de empalanca, de hyena, de leopardo, de lobo, de lontra, d’onça, de rapoza e de muitos outros animais, pennas d’águia, de manga, de veludo, de pavão, etc. e passarinhos de lindo matiz de cores e de melodioso canto muito estimados em toda a parte, tais como a bengulhinha, o bico de prata, o bico de lacre, o cardeal, o monsenhor, o palanque, a viuva, que trocam por fazendas, missangas, contas, polvora, armas de fogo, latão, bebidas alcoolicas e outras cousas de pequeno valor ...”
De mais adiante transcrevemos:
...”À noite ao chá, o governador contou aos seus hóspedes a história de BENGUELLA, e entre muitas cousas disse que Benguella fora fundada em 1617 por Manuel Cerveira Pereira, que até ali constituiu um REINO; que no reinado dos Filippes passou parte ao domínio dos hollandeses, que foi reconquistada em 1648, e forma hoje um distrito pertencente a Angola, com seis concelhos, Benguella, Camabatella, Dombe Grande, Quillengues, Caconda e Egito; que a população está calculada apesar de grandes variantes em 87.980 almas em todo o distrito, e na sua capital, S. Filippe em 2.400.”
“O governador teve a amabilidade de lhes mostrar a copia d’um documento muito raro, e de que existe o original no códice da real bibliotheca d’Ajuda, lançado a fl. 33 a fl. 39 v., intitulado «Relaçam da Conquista de Benguella» documento d’um grande valor para a nossa literatura histórica, digna da maior fé, escripto por um indivíduo que tomou parte n’aquella conquista, ...”
E continua mais adiante:
...”Que a antiga cidade fora em parte arrasada por filibusteiros francezes e reconstruída em 1700.”
“Que d’então para cá muitos melhoramentos se tinham feito e esperava se fizessem ...”
Depois ...
Na década de 1940, João da Chela, ilustre escritor, diz sobre BENGUELA:
...”Cerveira Pereira esteve para fundar Benguela em mais de um lugar. Com efeito, a planura do vale do Cavaco verde e sombreado atraía, e os montes, ao largo, de grande penúria de flora e cor, ficavam como guarda-costas de ventos, evitando pestes e correntes malignas. Foi, porém, enganosa a miragem da água. Farta de chuvas a terra da época que entrava em agonia, os pegos e pauis dos baixios, profundos por depósitos de enxurradas, cegaram de alegria e sedenta expedição. E não foram necessárias trabalhosas pesquisas da sonda. Mercê da quadra do cacimbo a avizinhar-se, a planura que se perdia à vista era fresca, airosa, sem calores que levassem da vida a gente com febres e pestes.”
“E ali se ergueu, alargou e progrediu a cidade de S. Filipe de Benguela, a que também chamaram Baía de Santo António, registando a história e sua fundação em 1617.”
E prossegue:
...”Endiabradas, a berrar progresso e triunfo dos heróis de novas batalhas, sobem e descem as “GARRATS” puxando longos vagons, em linha de ferro de 1350 quilómetros ...” do mar no Lobito até ao Congo Belga e daí até Moçambique (na Beira) e África do Sul.
... São, com efeito, de hoje estas realidades tocadas pela seiva e pelo impulso do sangue de ontem ...”, que fazem de Benguela a segunda principal cidade de Angola, depois de Luanda.

AMIGOS  BENGUELENSES:
A “A.I.A.A.” regista este acontecimento da Constituição duma Associação a ser formalizada juridicamente com a designação de ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DE BENGUELA, organização da responsabilidade de brancos, negros e mestiços, gente de bem !, na DIÁSPORA, como um facto que dignifica e honra todos os BENGUELENSES de ontem, de hoje e de sempre !

Lisboa, 23 de Agosto de 2002


De V. Exa.
Atenciosamente

Carlos Caldeira de Victória-Pereira
- Presidente -


Manuel Maria Caldeira de Potes Cordovil
- Vice Presidente –




BENGUELA

 


És terra de acácias  frondosas e floridas com cânticos estridentes da passarada e das cigarras loucas, mais enlouquecidas, pelo braseiro da canícula pesada.

Terra morena de estátuas vivas e vividas por seres de ébano, que passeiam na parada  das ruas largas e longas, de acácias vestidas, indo, vindo e ouvindo ali o orfeão da passarada.

Terra feita numa planície, que é como é !,  porta aberta de quem vai e volta do sertão, para lá de Quilengues e Caconda e Bié.

Nas tuas calemas, próprias de mares revoltos, há profundos gemidos de amor e paixão, quando os ventos uivantes são livres e soltos ...


Tapada das Mercês, 23 de Agosto de 2002
Carlos Caldeira de Victória-Pereira

Mulheres de Benguela se tornaram intermediárias entre portugueses e a elite africana



  • Mariana P. Candido
    2/2/2011Há uma pequena cidade portuária na costa da África Ocidental com uma rica história, muito ligada ao Brasil. Benguela, fundada em 1617 entre os rios Katumbela e Kaporolo, ganhou importância na economia mundial devido ao comércio de escravos. No modesto porto local, comerciantes brasileiros, portugueses e africanos de outras regiões se instalaram e foram responsáveis pelo envio de quase meio milhão de escravos para as Américas durante o período do tráfico transatlântico de cativos. Os laços dessas comunidades uniam Benguela, Rio de Janeiro, Luanda e Lisboa, e nessa fusão de culturas, as mulheres locais tiveram um papel fundamental.
    O número reduzido de europeias e brasileiras em Benguela facilitava o contato entre os estrangeiros e as nativas. O concubinato era prática comum, o que desagradava à Coroa portuguesa. Os administradores condenavam o comportamento dos europeus, alegando que a moral sexual era “deplorável”. O marquês de Pombal, secretário de Estado português entre 1750 e 1777, chegou a criticar a ação dos portugueses que não resistiam aos meses de solidão. D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (1728-1780), governador de Angola, afirmava que os estrangeiros “esqueciam estar numa capital cristã”. Embora alguns conseguissem manter relações duradouras com mulheres cativas ou livres, poucos se casavam na Igreja Católica. Este foi o caso do comerciante baiano Manoel Pereira Gonçalves, que se uniu à filha da terra Marcelina Francisca dos Santos no dia 19 de abril de 1809, na Igreja Nossa Senhora do Pópulo, em Benguela.
    O desenvolvimento do porto contribuiu para essa união intercultural. Sua localização, na costa central de Angola, facilitou a movimentação na região, que se transformou em parada obrigatória para comerciantes que levavam escravos, cera e marfim e se dirigiam a Luanda, mais ao norte. A partir do século XVII, quando os portugueses começaram a traficar na região, Benguela se tornou um refúgio para tripulações sedentas e famintas, que vinham reparar seus navios avariados. Mas a presença portuguesa se limitava à costa. Estados fortes e centralizados no interior dificultavam a penetração de comerciantes estrangeiros, ao mesmo tempo em que o clima tropical facilitava a transmissão de doenças, como a febre amarela e a malária, restringindo a população estrangeira às cidades portuárias.
    Com a constante chegada de estrangeiros e africanos do interior, Benguela se transformou, no século XVIII, em uma cidade multilinguística, onde habitantes de diferentes origens falavam suas línguas e usavam o umbundu – idioma da maioria da população – e o português para se comunicar. Todos eles buscavam oportunidades econômicas, e isso acelerou as transformações culturais na região.
    O fato era que a população masculina e cosmopolita dos centros urbanos aumentou a participação no comércio escravista relacionando-se com mulheres locais, mesmo que não estabelecesse casamentos formais. A maioria mantinha relações estáveis, o que criou uma geração de mulatos. Antônio José de Barros, por exemplo, sargento português que servia no exército de Benguela em 1797, apesar de solteiro, reconheceu a paternidade de duas meninas em seu testamento – nascidas de um relacionamento que mantivera com sua escrava Vitória –, registrado por um padre local no final do século XVIII. Barros, no seu leito de morte, libertou a mãe de suas filhas, como acontecia no Brasil escravista.
    Quando as mulheres se aliavam aos estrangeiros em Benguela, acabavam fazendo o papel de intermediárias culturais entre os comerciantes e as elites africanas do interior, exercendo funções econômicas diferenciadas. Esposas e concubinas tornaram-se fundamentais no sucesso comercial de seus companheiros, trabalhando como agentes, tradutoras e negociantes. Elas atuavam como quitandeiras, vendendo alimentos nas ruas, e também como donas das grandes casas comerciais, já que eram sócias de seus companheiros, organizando o tráfico de escravos. Além disso, davam origem a uma aristocracia afro-portuguesa: fluente no português e no umbundu, culturalmente sincrética, frequentando a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo e vestindo-se à europeia, e ocupando a administração pública. Sua posição como intermediários culturais lhes abria portas comerciais, mas ameaçava sua segurança.
    Dona Aguida Gonçalves era uma dessas mulheres. Ela vivia em Benguela em 1797, foi identificada como mulata, viúva e proprietária de um sobrado e de um bar. Em sua residência moravam doze escravos, incluindo o alfaiate Manoel. Além dos escravos, em sua maioria mulheres, também viviam em sua casa parentes e oito aprendizes de costureiras. Sua habilidade em treinar costureiras e adquirir mão de obra prendada, como o alfaiate Manoel, garantia vantagens adicionais numa cidade de apenas três mil habitantes. Ao explorar a força de trabalho de seus dependentes, Dona Aguida provavelmente dominava o comércio de roupas local.
    Os que residiam nos núcleos urbanos controlados pelos portugueses tiravam proveito do comércio de escravos, lucrando com as oportunidades de negócio. Por outro lado, corriam riscos simplesmente por serem negros ou mulatos. Isto acontecia porque o domínio da língua portuguesa, o pagamento de impostos e a conversão ao catolicismo não eram atributos suficientes para protegê-los da escravidão quando se deslocavam para o interior, além da área sob controle português. Para garantir a liberdade, era fundamental ter bom trânsito entre os oficiais da Coroa portuguesa e as autoridades eclesiásticas.
    O caso de Maria José de Barros retrata bem o panorama. Certa vez, ela deixou Caconda, uma fortaleza portuguesa localizada no interior, e mudou-se para Benguela, onde se casou com José Joaquim Domingues, capitão das forças regulares. Lá, ela não só manteve os laços com sua comunidade, como também assumiu o papel de protetora de conhecidos que vinham do interior. Na terceira década do século XIX, ofereceu abrigo a Quitéria, uma jovem originária de Caconda. A mãe da moça enviara a filha aos cuidados de Maria José para que pudesse aprender o ofício de costureira. Em 1837, depois de uma briga conjugal, o capitão Domingues agrediu a esposa e, ao sair de casa, levou Quitéria à revelia. Ele se dirigiu rapidamente ao porto e vendeu a jovem para um comerciante carioca que se encontrava no local.
    Logo após o negócio, o feliz comprador marcou sua nova escrava a ferro e a embarcou.  Recuperada da agressão física, Maria José chegou ao porto, depois de perguntar pelo destino de sua protegida. O negociante carioca não se comoveu com a história e avisou que partiria em seguida. Assustada com a possibilidade de não conseguir apoio oficial em tempo hábil, Maria José ofereceu um molecote, um jovem escravo, em troca da liberdade de Quitéria. O comerciante aceitou a proposta e livrou a jovem das algemas. Este caso confirma a instabilidade e a violência às quais os negros livres estavam sujeitos. O mundo português abria portas e oferecia diversas oportunidades para esses indivíduos, mas quando eles se colocavam como intermediários, acabavam enfrentando uma série de desvantagens que os tornava presas fáceis. O curioso é que, mesmo em situações adversas, alguns foram capazes de usar o sistema legal português para seu próprio beneficio.
    Maria José foi apenas uma entre muitos africanos que conseguiram obter a liberdade de alguém que lhe era próximo. Casos como esses são exceções. Os mais de quinhentos mil africanos embarcados em Benguela não tiveram a mesma sorte: acabaram parando na outra margem do Atlântico.

    Mariana P. Candidoé professora da Princeton University (EUA) e autora de Fronteras de Esclavización: Esclavitud, Comercio e Identidad en Benguela, 1780-1850 (El Colegio de Mexico, 2011).

    Saiba Mais - Bibliografia
    ALEXANDRE, Valentim; DIAS, Jill (eds.). O Império Africano, 1825-1890 (Nova História da Expansão Portuguesa, ed. Joel Serrão e A.H. de Oliveira Marques, vol. X). Lisboa: Editorial Estampa, 1998.
    CURTO, José. “Resistência à escravidão na África: o caso dos escravos fugitivos recapturados em Angola, 1846-1876”, Afro-Ásia, nº 33. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2005.
    FERREIRA, Roquinaldo. “Ilhas Crioulas: O Significado Plural da Mestiçagem Cultural na África Atlântica,” Revista de História, nº 155. São Paulo, 2006.
    PANTOJA, Selma; SARAIVA, José Flávio Sombra (eds.), Angola e Brasil nas Rotas do Atlântico Sul. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Arte Rupestre de Angola: Um contributo para o seu estudo numa abordagem à arqueologia do território


por
Cristina Augusta Pombares da Silva Martins
QUATERNÁRIO E PRÉ-HISTÓRIA

Entrada do abrigo Tchitundo-hulo Opeleva




As gravuras e pinturas do Tchitundo-hulo

O Tchitundo-hulo constitui uma das mais importantes estações arqueológicas do Sudoeste de Angola, tendo sido objecto de estudos diversos (C. França, H. Breuil e A. Almeida, Santos Júnior e Carlos Ervedosa) último dos quais por Manuel Gutierrez, em 1991. Trata-se de um complexo formado pelo Tchitundo-hulo Mulume (Fig.53),Tchitundo-hulo Mucai (ou Opeleva, segundo Gutierrez, 1996: 119), pela Pedra da Lagoa e Pedra das Zebras (Fig. 54). Os povos desta região são os twa: os Kuissis, os
Koroka e os Kuvale do grupo Herero.

Fig. 53 – Tchitundo-hulo Mulume. Foto: Emmanuel Esteves
Fig. 54 - Complexo do Tchitundo-hulo, segundo Ervedosa (1980)

O Tchitundo-hulo Mulume
Aqui encontram-se tanto gravuras (ao ar livre) como pinturas (em gruta). Manuel Gutierrez (1996: 106) distingue três conjuntos de gravuras no seu estudo.
No primeiro conjunto (Fig.56), conta trinta e duas figuras, numa superfície de 6 metros x 7,5 metros, sendo que quase todas possuem formas circulares (Fig.55) e de dimensões diversas (de 20 cm a 83 cm); só uma de grandes dimensões (4,5 m x 0,5m) apresenta outra forma, no entanto, já pouco visível.
As gravuras de forma similar apresentam porém diferenças, pois umas são radiadas e mesmo assim apresentam diferenças entre si (por exemplo, umas apresentam-se raiadas no exterior, outras no interior); também o número de círculos que compõem cada figura é variável (de um a doze).
No que respeita ao estado das gravuras, também este é variável de gravura para gravura. Gutierrez classificou treze como muito degradada (gravuras nos 1, 2,3, 4, 5, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 28 e 29) e oito apresentando uma deterioração intermédia (gravuras nos 6, 11 (a outra parte da figura), 14, 17, 18, 19, 22 e 23). As restantes classifica-as como apresentando “aparência fresca”.

De notar, no primeiro conjunto, o predomínio das formas circulares, com diversos círculos cada uma, isoladas ou compostas e/ou ligadas por traços. De acordo com o levantamento e descrição de Gutierrez, e começando pela parte inferior direita, encontra a figura por ele determinada como nº 1, relativamente isolada. Um pouco acima e à esquerda desta figura surgem as numeradas como 2, 3, 4 e 5 que se mostram pouco perceptíveis pela degradação que sofreram.

A figura nº 10 surge acima e à direita destas últimas figuras, apresentando-se do mesmo modo no que respeita à deterioração. Seguindo para a esquerda, encontra-se um subconjunto composto pelas gravuras
nos 6, 7, 8, 9, 11, 12 e 13. A gravura nº 6, também um pouco apagada, mas com alguns traços na sua parte superior, orientados no sentido das gravuras nos 8 e 11.A figura nº 7 está também pouco visível, acima da qual se encontra a nº 9, e seguindo para a direita desta, a no 8 que apresenta, na sua parte superior, vestígios de alguns traços orientados para a figura nº 11 e na parte inferior, outros virados para a nº 6.

A figura onze é composta por duas figurações ligadas entre si por traços, surge junto à nº 8 e dela parte um grande traço até esta figura e até à nº 9. A figura 13, à esquerda da anterior apresenta pelo menos dois tacos que se separam da sua parte inferior direita em direcção à nº 11. Na extremidade superior direita deste subconjunto encontra-se a figura nº 12.

Ligeiramente acima e à direita da figura nº 9, surge a nº 14 que, sendo circular, apresenta diversos traços rectilíneos tanto no interior como no exterior, sendo que alguns parecem tomar a direcção da figura nº 9 e outros da figura nº 17. Um outro subconjunto desenha-se acima do descrito, composto pelas figuras
nos15, 6, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26 e 27.

A figura nº 15, embora parcialmente debelada, surge à esquerda e está ligada pela parte superior à nº 16, por sua vez ligada, por um longo traço, à nº 21. À direita da nº 16, surge a nº 17 também ela ligada por um traço à nº 21 e apresenta inúmeros traços para o exterior.

Fig. 55- Gravuras do Tchitundo-hulo. Foto Emmanuel Esteves
Fig. 56 - Conjunto I segundo Gutierrez (1996)

As figuras nos18 e 19 estão também elas ligadas por diversos traços, existindo vários pequenos traços soltos por baixo destas gravuras. À direita destas, surge a nº 20 que apresenta alguns traços na sua parte esquerda orientados para a figura nº23 e, à sua direita um traço longo que a liga à nº 21, sendo que esta última ocupa uma posição central neste conjunto I. Por cima da nº 20, ligeiramente à esquerda, está a nº 23 da qual parecem partir algumas linhas na direcção da nº 20, bem como uma série de traços que
se soltam da sua parte inferior esquerda À direita da figura nº 21, surge a nº 22, com vários traços raiados

Acima do traço que a liga as figuras nos 20 e 21, vê-se a figura 24 que apresenta uma dilatação da sua primeira circunferência que lhe atribuiu uma forma ovalada, na parte superior. À direita desta, surgem as figuras nos 25 e 26, sendo que da primeira parte um curto traço virado para baixo e para a esquerda. Mais acima deste subconjunto encontram-se as figuras nos 28 e 29, sendo que a primeira está em avançado estado de degradação; a segunda, embora também em mau estado, permite ainda a visualização de alguns traços no interior, bem como no exterior da sua parte inferior.

Na parte superior do levantamento encontram-se as gravuras nos 30, 31 e 32. A primeira, em bom estado de conservação, apresenta um traço linear na parte inferior esquerda; a segunda, à direita daquela, apresenta apenas uma circunferência e um traço exterior bipartido, virado para as outras duas figuras (nos 30 e 32); a última é uma figura circular com raios externos., em excelente estado de conservação.
O segundo conjunto proposto por Gutierrez envolve 16 figuras gravadas numa superfície de 5 metros por 2 metros (Fig.58). Também aqui as formas circulares são relevantes, correspondendo a mais de metade das figurações, no entanto, encontramos outras formas, como por exemplo “serpentiformes” de grandes dimensões (Fig.57) ou “grelhas”. As dimensões das gravuras são variadas, desde 10 cm x 10 cm a 117 cm x 30cm. No entanto, mas a maioria mede menos de 50 cm. Cerca de metade das gravuras apresenta um “estado médio” de degradação, três a um estado avançado (nos 8, 9 e 11) e cinco apresentam a tal “aparência fresca” ( nos3,4, 5, 7, e 16

Fig. 57- Gravuras doTchitundo-hulo. Foto Emmanuel Esteves
Fig. 58 - Conjunto II, segundo Gutierrez

Na parte inferior esquerda do levantamento, encontra-se a figura nº 1, uma forma oval, à direita da qual se encontra a nº 2, uma outra gravura circular, parcialmente visível. Continuando para a direita, uma extensa gravura linear (“serpentiforme”) que termina com quatro braços na sua parte superior é a figura nº 3. Mais à direita, uma outra figura gravada com forma linear, a nº 4, que apresenta na parte inferior uma curvatura, subindo, a partir daí, para a direita, terminando numa espécie de forquilha muito aberta; na parte superior, possui um círculo, saindo da parte inferior direita deste um apêndice linear também para a direita. Depois deste círculo a linha da gravura prolonga-se um pouco mais, terminando numa forma sub-rectangular que sobre ela assenta. Mais acima, e próxima da extremidade da figura nº 3, existe uma gravura de forma circular, com um apêndice virado para a esquerda. Um pouco mais acima e à direita, a figura nº 6 representa uma forma circular aberta na parte superior, preenchida com duas linhas paralelas e uma vertical. Acima da última figura referida, encontra-se a figura nº7, uma forma circular, atravessada por um traço horizontal, enquanto outro traço vertical e mais curto passa a parte superior da circunferência, o que faz com que o interior da gravura apresente a forma de cruz. À direita, surge a figura nº 8, mas encontra-se fracturada, pelo que só é visível o lado esquerdo da gravura – quatro sulcos paralelos convexos com um apêndice semi-circular a meio do sulco externo da gravura.

Continuando a subir, surge uma outra figura circular, também ela fracturada, com cinco sulcos, em frente da qual, à esquerda surge a figura nº 9, de forma alongada, composta por duas linhas semi-paralelas, tendo na parte superior um círculo cortado por uma traço horizontal e, na parte inferior aberta com uma ligeira curvatura antes dessa abertura, também separada do corpo principal da figura por um traço.
Ligeiramente mais acima e à esquerda, relativamente àquela figura, existe uma linha vertical curva e uma outra gravura linear com a extremidade superior a terminar em forquilha, abaixo da qual e à direita existe um pequeno círculo ligado à figura. Ambas compõem a figura nº 10.

Continuando para cima, encontram as gravuras nos 12 e 13, sendo a primeira uma representação circular e a outra uma figuração oval. Por cima da nº 12, está uma outra gravura circular com um traço inclinado que não toca o círculo no interior, a nº14. Ligeiramente acima e à direita, está a gravura nº 15, de forma rectangular e aberta na parte inferior. Na parte de cima do levantamento, vê-se um círculo concêntrico composto por quatro sulcos.

O terceiro conjunto (Fig.59) situa-se numa superfície mais elevada que as anteriores, próxima da gruta com pinturas que faz parte deste Complexo do Tchitundo-hulo. Este conjunto comporta cinco gravuras que se estendem numa superfície de 2m x 3m. As figuras representadas são muito diferentes, umas de difícil interpretação, outras de forma circular e ainda uma representação antropomórfica.

Também as dimensões das figuras são variadas, mas todas inferiores a 50cm, à excepção de uma que, mesmo assim, não passa de 1m de comprimento. Quanto ao estado em que se apresentam estas gravuras, Gutierrez, classificou-as de “aparência fresca”. Na parte de baixo do levantamento publicado por aquele autor, a figura nº 1 apresenta uma forma circular da qual parte superior da qual sai um traço ligeiramente
inclinado para a direita e que sobe até uma outra forma, circular no interior, mas que por fora se assemelha a uma estrela.

Um pouco mais acima e à esquerda, a figura nº 2 é composta por um círculo concêntrico, com três traços raiados (dois saem da parte de baixo e o outro da parte superior esquerda). A figura nº 3 é composta por uma série de traços que de um ponto comum (o centro) partem em direcções diversas; o que está orientado na direcção da figura nº 2, apresenta uma extremidade pontiaguda e, junto dela, dois apêndices laterais de forma  semelhante.

Continuando para cima, mas agora mais à direita, surge a figura nº 4, um pequeno antropomorfo, mais acima da qual se encontra a figura nº 5, sendo a maior gravura deste conjunto e fazendo parte das gravuras não decifradas.

Fig. 59 - Conjunto III, segundo Gutierrez

As pinturas

Existem dois abrigos pintados em Tchitundo-hulo. Um, o Tchitundo-hulo Opeleva é um abrigo que se encontra à superfície (Fig.60); o segundo abrigo, Tchitundo-hulo Mulume, encontra-se num inselberg onde se localizam as gravuras rupestres.

O Tchitundo-hulo Opeleva trata-se de um abrigo, num pequeno morro de granito, distando cerca de 1 Km para leste do Tchitundo-hulo Mulume. Aqui encontram-se pinturas no tecto e pelas paredes laterais (Fig.61), quase todas do tipo geométrico, embora haja algumas representações estilizadas de zoomorfos
(aves, felinos, cobras, lagartos e cágados, segundo Ervedosa, 1980:326), uma figura antropomórfica e “dois símbolos solares”, de acordo com aquele autor. Estas pinturas surgem a branco, vermelho e negro são semelhantes às figuras pintadas no abrigo do Tchitundo-hulo Mulume.

Fig. 60- Entrada do abrigo Tchitundo-hulo Opeleva. Fotos: Emmanuel Esteves
Fig. 61 - Abrigo Tchitundo-hulo Opeleva.

O Tchitundo-hulo Opeleva compreende cinquenta e nove figuras pintadas, segundo Gutierrez (1996: 120), sendo que aproximadamente metade corresponde a representações geométricas, seguidas de várias figuras não decifradas. Encontram-se ainda alguns zoomorfos e apenas uma figura esquematizada de um provável antropomorfo.

Quanto às cores, encontram-se quatro: o branco, o vermelho, o vermelho claro e o negro.
Mais de metade das figuras são monocromáticas e entre estas, as cores branca e vermelha estão equilibradamente representadas. Um terço é bicromático e poucas possuem três cores. Apenas uma figura apresenta quatro cores (Gutierrez, 1996:120).

Infelizmente a água da chuva infiltra-se no tecto da gruta, pelo que a conservação das pinturas de Opeleva é urgente. Quanto à distribuição, as pinturas concentram-se sobretudo na parede sul e no
tecto do abrigo (Fig. 62).

Fig. 62 - Pinturas rupestres de Tchitundo-hulo Opeleva (reconstituição), segundo Gutierrez (1996)

À esquerda do levantamento de Gutierrez, as figuras nos 1 e 2, representam formas lineares e apresentam-se verticalmente, sendo que já estão desgastadas pela acção da água. Aparece de seguida a figura nº 3, mais pequena e de forma sub-rectangular, pintada em vermelho, um pouco abaixo da qual se vê a figura nº 4, composta por formas circulares e lineares, pintada a branco e vermelho. À direita desta, a figura nº 5 compreende uma série de linhas ora vermelhas, ora brancas, com uma espécie de braço,
a branco, no cimo.

Mais acima, uma pequena mancha vermelha constitui a figura nº 6. Acima, um grande zoomorfo (um pássaro, segundo Gutierrez) pintado em dois tons de vermelho e em branco constitui a figura nº 7, à direita da qual se encontra a figura nº 8 pintada a branco, representando uma outra figura linear, com uma forma subrectangular, um traço vertical no centro e com vários pontos de cada lado do traço. Por baixo da figura nº 7, existe uma outra pintada em vermelho e de difícil interpretação, sendo que apresenta uma forma alongada com apontamentos algumas vezes arredondados, outras vezes pontudos, ligeiramente oblíqua, com diversos pontos no seu interior, terminando numa forma circular, trata-se da figura nº 9 (Fig.63A).

Abaixo desta ligeiramente à direita, a figura nº 10, um outro zoomorfo (um felino, segundo Gutierrez), sendo que a suas patas traseiras estão associadas a traços e a semicírculos, tudo a branco.
Abaixo vemos a figura nº 11, um outro zoomorfo coma boca aberta (outro felino, na opinião daquele autor) pintado a branco, rodeado de um emaranhado de linhas vermelhas, brancas e negras (Fig.63B); de notar que a sua cauda se estende até à figura nº 13. Uma pequena mancha branca, aparece a baixo e constitui a figura nº 12.

A seguir à figura nº 11, aparecem alinhadas as nos 13, 14 e 15. A primeira destas, pintada a branco parece estar associada à nº11; a segunda é tricolor, mas pouco visível e a terceira, assemelha-se à primeira, sendo também em branco. 
A B Fig. 63 - Pinturas de Opeleva. Fotos Emmanuel Esteves. A figura nº 16, acima da nº 15 e ligeiramente à direita, trata-se de uma forma de X deitado, pintado a vermelho e pouco visível.

Ao lado da figura nº 15, a nº 18 apresenta duas séries de pequenos traços paralelos horizontais, a branco, por cima dos quais surge uma mancha vermelha. À direita desta, a figura nº 19, em vermelho e a nº 20, em branco. Abaixo daquelas figuras, a nº 21,em cor branca, apresenta um enorme apêndice ovalado, do lado direito, mas não decifrada.

A figura nº 22, por baixo da anteriormente descrita, apresenta uma forma oval, pintada a vermelho, ao lado da qual se encontra uma outra também oval e em vermelho, mas incompleta, a figura nº 24. Por cima desta, vê-se a figura nº23, de forma oval, em branco (representando uma tartaruga segundo informações recolhidas por Gutierrez  (1996: 126).

Mais a acima e à direita, surge a figura nº 26,uma forma circular, pintada em vermelho e branco. Mais acima ainda, uma linha dupla pintada em vermelho e negro, corresponde à figura nº 25, sendo que à sua direita aparece um zoomorfo (um bovídeo, segundo Gutierrez) coam várias linhas brancas e vermelhas próximas e por cima da cabeça, a figura nº 27. Este zoomorfo está por baixo de uma longa figura linear, a figura nº 30, pintada em vermelho, branco e negro.

A figura nº 30 estende-se até a sua parte de baixo tocar a figura nº28, uma figura oval em vermelho, enquanto a sua extremidade superior surge a figura nº 29, uma forma oval alongada, em vermelho e branco, com quatro pontas no exterior da sua parte superior e um traço no seu interior que a divide em duas partes, sendo que a parte inferior é de menores dimensões.

Abaixo da figura nº 30, saem traços negros ao nível da figura nº27, abaixo da qual saem outras figuras, as nos 31, 32, 33. Junto à parte inferior da figura nº 30, uma figura longa em vermelho, branco e negro, de difícil interpretação é a figura nº 34, por baixo da qual se vê um traço em forma de Y deitado, figura nº 35. Debaixo desta, surge a figura nº 36, em negro e branco, tratando-se de uma associação de formas circulares e ovais.

Mais abaixo, a figura nº 37, parcialmente apagada, apresenta uma forma oval pintada a branco. Por baixo da figura nº 34, o círculo pintado em branco e vermelho constitui a figura nº 38.
À esquerda e ligeiramente abaixo, a figura nº 39, também parcialmente visível, apresenta uma forma circular, a vermelho e branco, junto à qual existe uma outra forma oval, mas incompleta, pintada em vermelho e branco, é a figura nº 40, sendo que na  direita da sua parte inferior pode ver-se a figura nº 41, que não é mais que um traço horizontal; na parte superior, a figura nº 42, composta por círculos e traços, em vermelho e branco, também classificada por de difícil interpretação. 
Abaixo desta, surge um traço semi-circular pintado a vermelho, a figura nº 43. Mais à direita, surge a nº 44, já parcialmente delidas. A figura nº 45, entre a nº 38 e a 46, apresenta um alinhamento de traços brancos.

Por baixo desta figura, a nº 46 é composta por uma série de linhas vermelhas e brancas, algumas das quais uma pouco apagadas. Ao lado desta, as figuras nos 47 e 48, já só em parte são visíveis, embora ainda se note as suas cores branca e vermelha. Por baixo da figura nº 43, a nº 49, é traço oblíquo. Na parte superior do levantamento, uma grande círculo concêntrico muito      esbatido, com traços raiados no interior e dois apêndices no exterior, constitui a figura
nº 50.

Mais abaixo, uma forma oval preenchida, pintada em vermelho, mas também muito apagada, é a figura nº 51. À direita, uma série de traços vermelhos formam a figura nº 52 de um lado e a figura 54 do outro lado de uma figura oval com um círculo no centro, sendo esta a figura 53.

Na parte inferior, surgem cinco figuras um pouco delidas, às quais correspondem dois zoomorfos, uma forma circular e uma figura não decifrada.

O primeiro desses zoomorfos é a figura nº 55 (um sáurio, segundo Gutierrez), em branco; à esquerda, uma figura circular em vermelho, pouco visível, é a nº 56. O segundo zoomorfo (um felino, segundo o mesmo autor), pintado em branco parece ter as patas ligadas a traços vermelhos e brancos.
Mais abaixo, surgem três manchas brancas e vermelhas, a que corresponde a figura nº 58, na proximidade da qual uma figura não-decifrada em vermelho assume o nº 59. Os seus pigmentos foram datados por AMS, indicando uma idade próxima dos 2000 anos. No outro abrigo com pinturas, o Tchitundo–hulo Mulume, percebe-se que a grande maioria das pinturas encontra-se no tecto da gruta, ao longo de uma superfície com cerca de 20 m.

O inventário levado a cabo por Gutierrez mostra que o sítio contém pelo menos     211 figuras pintadas, contra as 180 adiantadas por Ervedosa sendo que a maioria é representações geométricas.
Aqui foram recolhidas amostras dos pigmentos das pinturas destinados à análise micro-química das mesmas.

Quanto às cores usadas, encontra-se o branco, por vezes aparecendo mais carregado, e ainda a utilização de três tonalidades de vermelho, negro, laranja e uma em cinzento. A grande maioria das figuras pintadas são-no numa só cor, e destas mais de metade são em branco.

Começando pela descrição, a cerca de 5 m a entrada da gruta (Fig. 64), encontra-se a figura nº 1, uma figura de forma oval com quadriculado, pintada a vermelho. Um metro mais à frente, a figura nº 2, provavelmente um zoomorfo, pintada em branco, coma alguns traços em vermelho. Mais à direita, as figuras nos 3 e 4, em branco escuro; a primeira, é composta por duas formas lineares, semelhantes a bastões, a segunda, corresponde a uma oval com um apêndice na parte superior.





Fig. 53 – Tchitundo-hulo Mulume ....................................................................................... 139

Fig. 54 - Complexo do Tchitundo-hulo ................................................................................ 139

Fig. 55- Gravuras do Tchitundo-hulo .. ............................................................................... 142

Fig. 56 - Tchitundo-hulo: Conjunto I .................................................................................... 142

Fig. 57- Gravuras do Tchitundo-hulo .................................................................................... 144

Fig. 58 - Tchitundo-hulo: Conjunto II ................................................................................... 144

Fig. 59 - Tchitundo-hulo: Conjunto III .................................................................................. 147

Fig. 60- Entrada do abrigo Tchitundo-hulo Opeleva ............................................................. 148

Fig. 61- Abrigo Tchitundo-hulo Opeleva .............................................................................. 148

Fig. 62 – Pinturas de Tchitundo-hulo Opeleva (reconstituição) ........................................... 149

Fig. 63 - Pinturas de Opeleva ............................................................................................... 151

Fig. 64 - Pinturas do Tchitundo-hulo Mulume I .................................................................... 155

Fig. 65 - Pinturas do Tchitundo-hulo Mulume II .................................................................. 156

Fig. 66 - Pinturas do Tchitundo-hulo Mulume III ................................................................. 161

Fig. 67 - Pinturas do Tchitundo-hulo Mulume IV ................................................................. 164

Fig. 68 – Pinturas do Tchitundo-hulo Mulume V ................................................................. 165






Texto integral : http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:YFaIrDjcTDgJ:repositorio.utad.pt/bitstream/10348/155/1/msc_capsmartins.pdf+&cd=11&hl=en&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a



Junto algumas imagens:
 


Tchitundu-Hulu 1


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Parte de um texto do Livro "Quarenta e cinco dias em Angola : apontamentos de viagem":

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Transcreve-se parte de um texto do Livro "Quarenta e cinco dias em Angola : apontamentos de viagem":

Assunto: Abolição do trafico de escravos e novo paradigma colonial de reconversão económica. Libertos, trabalho, resistências, mentalidades, usos, costumes, sobas, guerras tribais...

"...É nas margens do Zaire que actualmente mais se trafica em escravatura, e muitas das feitorias, para não dizer todas, de que acima fallei, não são mais do que capas que acobertam, ou dependem d'esse género de commercio, que as convenções propostas pela humana Inglaterra, e acceites pelo ingénuo Portugal tiveram a habilidade de tornar o mais lucrativo de toda a costa. Apesar do apparato das estações navaes, e dos nomeados cruzeiros, a escravatura continua, e ha de sempre existir, já porque os lucros são enormes e convidam, já  porque o vapor empregado no transporte dos negros apresenta um carregamento com menos despeza na Havana, fugindo rapidamente a qualquer navio que por acaso appareça na occasião da sahida. 
O negreiro, além de ser sempre atrevido e esperto, é summamente generoso; sabe dar grandes jantares e lautas ceias áquelles que lhe convém obsequiar, perde mesmo ao jogo alguns contos de reis, quando aquelle de quem depende está em veia de ganhar, e se fôr preciso emprestar, ou mandar entregar qualquer quantia em Lisboa á ordem das authoridades civis e militares da terra onde se achar, ou mesmo de algum officialde marinha, ninguém o faz com mais pontualidade.
Se as authoridades são, d'antes quebrar que torcer, o que é excessivamente raro d'encontrar em Angola, soffrem muitos desgostos, armam-se-Ihes immensas intrigas, correm mil perigos, e sempre são illudidas. Raro é aquelle que não cansa muito breve de luctar com tanto inimigo, e até com a própria consciência. A repressão da escravatura tem feito subir de uma maneira incrivel o preço dos escravos: ainda não ha muitos annos que um negro na America o mais que custava eram quinhentos mil reis, e hoje na Havana compram-se quantos apparecem pelo dobro. Facilmente se comprehende que é um negocio que deve tentar muita gente. O preço médio de um preto, ou preta em qualquer parte da costa, é de quarenta a cincoenta mil reis ; mas o negreiro por esse custo já dá um grande lucro ao agente, que o obteve a troco de alguma pólvora, de aguardente, ou de missanga. 
A fiscalisação por parte da estação naval, a maior parte do tempo é feita por um palhabote, commandado por um segundo tenente, ou por um guarda-marinha, e tripulado por um patrão e dez a doze marinheiros ; percorrem as feitorias, visitam as barcas e navios que saem dos portos suspeitos, e quando descobrem alguns pretos retidos para embarcar, ou que tentam levar para fora escondidos entre lenha e outros géneros, fazem a apprehensão, e conduzem-os para Loanda, onde são recolhidos no antigo convento ou collegio dos jesuítas, vulgarmente conhecido pelo pomposo titulo de — Obras Publicas — . A estes pretos, e aos que são appreendidos no alto mar, é que dão o nome de — libertos; custa o sustento d'esta gente cerca de treze mil reis por dia ao cofre da Província, sem d'ahi colher proveito algum. Muitos d'estes libertos são distribuidos pelos proprietários que os requisitam, debaixo de determinadas condições, entre as quaes me parece estar estabelecido o tractamento que os pre- tos hão de receber, e o numero de annos que tem de servir; porém esta ultima clausula, posso afiançar, que nao é cumprida, como provavelmente a outra não o será. 
Deveria haver da parte do Governador geral o maior cuidado em não conceder libertos senão aos proprietários, ou colonos que se dedicassem exclusivamente á agricultura, e que não tivessem meios sufficientes para comprar os escravos precisos. Seria mesmo muito conveniente e acertado, que se concedesse grande numero d'estes pretos aos agricultores das ilhas de S. Thomé, e do Principe, onde, por falta de braços, se  estão perdendo bellas colheitas de café. Sei de boa fonte, que os cultivadores  d'estas ilhas não só os tractariam com muita humanidade, mas que lhes dariam uma soldada em harmonia com o trabalho de que fossem capazes. Infelizmente, longe de proteger a cultura n'aquellas ilhas, os nossos ministros que, por desgraça, tem sempre sido homens que não formam a mais pequena ideia do que são as nossas possessões, tem legislado de um modo que lhes tem sido bem funesto. Não  quero de forma alguma contestar as boas intenções do Visconde de Sá, mas é innegavel, que mal aconselhado, ou infelizmente inspirado, elle se tem tornado prejudicial á Província d'Angola. 
Não é de certo n'um paiz onde ha falta de braços e onde o preto é por natureza o único ente próprio para o trabalho, porque elle só resiste ás fadigas e á influencia de clima que nos é tão prejudicial, que se lhe deveria ter concedido a liberdade de que não é digno. O abuso que elles fazem d'essa liberdade veio crear não poucos embaraços e difficuldades ao commercio d'aquella Provincia. O preto geralmente é traiçoeiro, mentiroso, ladrão e bêbado : ha-os bem morigerados e afeiçoados aos seus senhores, mas esses são tão raros como os bons sonetos. Todos são indolentes por habito e systema, mas as suas necessidades são mui limitadas e fáceis de satisfazer. Três metros de fazenda d'algodão estampada, um punhado de farinha de pau e uma pinga d'aguardente de canna [cachaça) são os únicos objectos de que ne- cessita para se vestir e sustentar; uma cubata ou barraca composta de ramos de coqueiro e barro, que elle levanta com summa promptidão, serve-lhe d'abrigo e a suas companheiras: uma simples esteira estendida no chão é para elle um excellente leito em que o braço faz as vezes de travesseiro. Para occorrer a tão diminuta despeza não necessita cansar-se muito, e não é raro encontrarem-se pretos a quem as pretas sustentam, sem que elles tenham mais alguma cousa a fazer, do que ir levando docemente uma vida patriarchal. 
Cabe aqui fazer distincçao de uma certa raça de pretos que, com quanto não pertençam aos nossos estados, se acham em grande numero em Loanda, onde vão procurar trabalho. Chamam-lhe Cabindas, por pertencerem a essa povoação que fica ao norte do Zaire. Esta gente occu-pa-se quasi exclusivamente em serviços marítimos: são elles que fornecem para Loanda, juntamente com os Muxi-Congos, a agua do Bengo, e que fazem todo o serviço da pequena cabotagem, e do porto. O escaler da alfandega é tripulado por doze Cabindas, que se tornam insupportaveis com a sua aborrecida cantilena com que acompanham constantemente o movimento dos remos. Esta raça de pretos é sem duvida a mais activa e a mais útil que se encontra em Angola, onde prestam excellentes serviços ao commercio. Teem um cônsul em Loanda, e são governados na sua terra por um preto educado no Brazil, fallando  varias linguas, e que se apresenta mui decentemente. Recebe n'uma soffrivel casa de habitação bem mobilada, e obsequeia todos quantos o procuram, mas para não desmerecer das sympathias dos seus patricios, habita n'uma cubata modestamente construida. Todos os navios nacionaes e estrangeiros que chegam a Loanda costumam, para poupar as tripulações, tomar para o serviço de bordo uma companha de Cabindas, commandada pelo seu capitão. Muitas d'estas companhas conservam-se a bordo dos navios que teem de percorrer a costa, e alguns d'elles já teem vindo a Lisboa a bordo dos vapores da —União Mercantil — ; consta-me até que um d'estes para cá trouxe um íilho que tem a educar n'um collegio da capital.
Os Cabindas são summamente económicos, e como a bordo recebem a ração, e uma macuta por dia (cincoenta reis fracos), chegam a juntar dinheiro; julgo-os sóbrios, mas não de delicado paladar, porque a um d'elles vi, na força do verão, comer ao almoç pimentinhãs com sal e bolaxa, beber em seguida a sua ração de cachaça, e ficou tão satisfeito como se tivesse tomado um sorvete. N'uma conversa que tive com um Cabinda foi que vim no conhecimento do verdadeiro sentido que os pretos ligam á palavra — branco — pela qual nos dominam. Perguntei-lhe se quando estavam a bordo dos navios estrangeiros entendiam as linguas que lá lhes fallavam, e elle respondeu-me com certa presumpção: — Me falia flancé, inglês e língua de Manco. Esta lingua de branco é a portugueza. Só nós somos considerados brancos, porque assim designaram os descobridores e conquistadores d'aquellas possessões, e só a elles é que os negros julgam pertencer esta denominação. Os Cabindas, á semelhança de todos os mais pretos, são mui supersticiosos: fazem uso de pequenas manilhas de ferro para afugentar o feitiço, e algumas vezes lhes vi pintar com barro certos signaes na testa e nas fontes para combater dores de cabeça, que elles attribuem a effeitos diabólicos. Se todos os pretos da nossa possessão  fossem tão industriosos como os da raça Cabinda, o commercio e a agricultura teriam por certo attingido em Angola um elevado grau de prosperidade, mas infelizmente dos outros nada se pôde esperar voluntariamente. Que meios empregar para obrigal-os ao trabalho? Em vista das tendências dos nossos ministros para a abolição da escravidão, não ha senão um : é fazer-lhes crear necessidades, obrigando-os a andar vestidos e calçados, e a ter um modo de vida qualquer, para que possam ser úteis á sociedade. Sei que esta é uma das reformas que tenciona introduzir o novo Governador Sebastião Lopes de Calheiros, e se conseguir fazêl-o, Angola dará um largo passo no caminho do progresso e da civilisação. É muito mal entendido quererem legislar e governar aquellas nossas possessões, com as nossas leis e códigos liberaes. Aquelle povo não está ainda bastante maduro, para  poder ser governado constitucionalmente. Um estado composto na sua maioria de pretos
boçaes, de degredados por toda a espécie de crimes, de negociantes em grande parte de má fé, sem educação, nem consciência, de muitos militares ambiciosos e pouco escrupulosos, não pôde civilisar-se, nem ser governado senão por um despotismo illustrado. Os Governadores geraes que tentarem fazer algumas reformas necessárias, cortando abusos inveterados e que se encontram a cada passo em todos os ramos da administração publica, teem de combater uma opposição terrivel, porque aquelles que se julgarem assim feridos nos seus interesses, não terão duvida em recorrer aos meios mais infames, para se desfazer de um homem que lhes pôde ser fatal. Se o Governador não poder pelo seu lado recorrer aos meios rigorosos e repressivos, ha de succumbir na lucta irremediavelmente. É preciso dar força sufficiente a um só homem, para poder luctar com milhares d'elles ignorantes, ou corruptos. Permitta Deus que os nossos governantes se compenetrem de todas estas considerações:  a boa escolha nos empregados a quem devem remunerar de forma que compense as privações e sofrimentos que para alli vão supportar, sem que tenham de recorrer a meios  illicitos para adquirir fortuna, é a principal base para fundamentar o progresso e engrandecimento d'aquella Provincia, e só assim e por meio da religião poderemos cumprir a nossa missão, que é de civilisar e concorrer para a independência d'aquella terra. 
Sei que esta ideia causa espanto a muita gente; mas se todos conhecessem mais de perto as nossas possessões, haviam de convir comigo, que a Africa civilisada e in- dependente nos havia de oíFerecer mil outras vantagens que hoje não oferece pelo estado selvático em que ainda se acha. Que perdemos nós com a independência do Brazil? Nada, absolutamente nada. Perderam  sim os filhos bastardos da casa real, os filhos segundos das casas titulares, os aventureiros e os protegidos a quem a corte dava os governos e os empregos das provincias como benefícios simples, mas as nossas transacções commerciaes continuaram como d'antes, e o Brazil, apesar da sua independência, não deixa de ser portuguez, e não cessará nunca de o ser em quanto alli se fallar a nossa lingua. Elles mesmos tanto o reconhecem, que já tentaram arranjar uma lingua brazileira, conseguindo apenas a pronuncia de um jocoso dialecto de preto. Na actualidade as transacções commerciaes com o Brazil parecem de menor importância, porque se acham espalhadas por muito maior numero de negociantes, do que antes da independência; mas quando assim não fosse, o monopólio dos portos já não é possivel, n'uma época em que nações fortes fabris empregam todos os meios para dar sabida aos seus productos. Entre nós, assim como nos paizes em que se tem escripto e discutido sobre a escravatura, encara-se esta questão pelo lado humanitário, e é certo que o commercio de carne humana repugna a todo o homem de sentimentos nobres. Vejamos porém se pela repressão conseguiram o fim que se propozeram, e examinemos as causas que dão lugar á escravatura. 
Os chefes das povoações do interior a quem dão os nomes de Sobas, Régulos, Príncipes, e Reis, imitando os romanos da republica, educam os seus povos na caça e na guerra, mas ignoram totalmente que aquelles, terminadas as luctas, depunham a lança e o escudo para lançar mão da charrua, e cultivarem a terra que os devia alimentar como boa mãe que é. O seu estado d'ignorancia faz com que repetidas vezes, faltando os meios de subsistência, se vejam obrigados a pedir á força ao visinho, o que elle de boa vontade lhes não concederia, altendendo a que o seu estado de prosperidade de maravilha pouco mais lisonjeiro será. Para se declarar a guerra é preciso que haja um pretexto, mas  quando o não ha inventa-se, e elles assim fazem. Atravessar os estados sem licença, caçar fora dos limites, são motivos mais que sufficientes para lançar a discórdia entre dous potentados. Se esses mesmos pretextos vem a faltar, consulta-se então o singilla que, depois de «invocar os deuses occultos, declara em tom propbelico que o Soba do estado visinho foi quem matou por feitiço os últimos individuos que falleceram naquella povoação, e que pretendia ainda fazer o mesmo a muitos outros. Feiticeiro!! guerra! guerra! grita a povoação em peso, e todos correm vingar as
victimas de tão nefando crime. O ataque é dado de improviso, e a vingança, que dizem ser prazer dos deuses, mal pode saciar a sua ira, roubando e saqueando tudo, bois, porcos, gallinbas, mandioca e fructa, e só quando nada ha mais que roubar, nem destruir, é que os valentes centuriões retiram ufanos, conduzindo os ricos despojos com que se hão de manter por algum tempo na ociosidade. Os prisioneiros pilhados com as armas na mão, são levados na frente, assim como suas mulheres e filhos, que os acompanham sempre. Estes infelizes são conduzidos ao mercado e vendidos aos agentes dos negreiros a troco d'aguardente, pólvora, missanga, e  fazendas d'algodão de cores, a que na Africa chamam pannos . Ora como nem sempre ha compradores, acontece algumas vezes que os vencedores se vêem obrigados a conservar em seu poder, e sustentar os prisioneiros; e não lhes agradando este ónus, se por desgraça a ausência dos compradores se prolonga mais que o costume, o Soba determina que, como medida económica, se corte a cabeça aos prisioneiros ! É o meio de resolver radicalmente a questão, e como entre o gentio se cumprem as leis á risca, a execução segue de perto a sentença. Não pretendo com esta ideia, que tem ares de paradoxo, justificar os negreiros, nem sei como elles tractam os escravos ; confesso que não sympathiso com semelhantes traficantes, porque aquelles que me tem sido indigitados como taes, me tem parecido
grosseiros, altivos e eminentemente desmoralisados ; mas attendendo ao numero considerável decreaturas subtrahido por elles ao cutello do algoz, havemos de concordar que contribuem com melhor êxito para o fim humanitário, que nós  pretendemos conseguir pela repressão do trafico. Escusado será também accrescentar, que estes meliantes não o fazem de maneira alguma por considerações de virtude, ou espirito de philantropia, nem elles se arriscavam por tão pouco. Se seguirmos o escravo e o formos vêr em poder do seu senhor, tanto nas Mauricias, como nos Estados-Unidos e na Havana, encontral-o-hemos vestido, bem alimentado, baptisado e educado, o que seguramente lhe não acontecia na sua terra natal, onde só
gosava da faculdade de poder passar a sua existência sem fazer cousa alguma,  tornando-se inútil a si e aos mais. Se o trabalho é uma desgraça, não somos nós todos bem desgraçados? Quantos e quantos pretos existem hoje na America, que depois de resgatarem a liberdade com o fructo das suas economias, conseguiram estabelecer-se, tornando-se cidadãos úteis ao paiz que os acolheu? Se os exemplos não são tantos, quantos eram para desejar e podiam ser, é isso devido ao desmazelo e vida desregrada da maior parte dos escravos a quem o futuro não afflige demasiadamente. O tractamento que os pretos recebem dos seus próprios, é infinitamente mais cruel do que o são os castigos infligidos pelos brancos, e d'isso nos podemos certificar  presenciando as scenas horrorosas praticadas pelos Regidos, nossos visinhos, a quem a
estúpida superstição cega a ponto de sacrificar, em honra de um mono ridiculo, victimas innocentes, abrindo-lhes o ventre, arrancando-lhes as entranhas palpitantes, e beben-do-lhes o sangue ainda quente e fumegante !

Para mostrar até onde chega a crueldade d'aquella canalha, citarei o seguinte caso, que me foi contado por um official de marinha muito conhecedor da costa Occi- dental d'Africa, onde permaneceu por muito tempo. Ha já bastantes annos um dos Sóbas do interior, homem provavelmente tão velhaco, como covarde, fez um contracto com o chefe da estação ingleza, compromettendo-se, mediante certa quantia por cabeça,a denunciar-lhe quando e onde embarcavam os escravos que elle vendia. As denuncias foram dadas com a maior exactidão, e pela sua parte o commandante inglez não foi menos pontual no pagamento em letras das quantias que pelo contracto pertenciam ao Soba. Como porém este contracto tinha sido feito sem consultar o governo inglez, este entendeu não o dever sanccionar, e as letras que o Soba tinha mandado para In- glaterra foram-lhe devolvidas. Algum tempo depois o commandante inglez, fazendo uma excursão pelas margens do rio, junto ao qual morava o tal Soba, saltou em terra com a sua gente, e divertia-se  caçando, quando o vieram convidar da pítrleo Soba para acceitar uma refeição e assistir a uma brilhante festa com que elle se propunha obsequiar o seu hospede. Movido pela curiosidade, o commandante acceitou o convite, e seguiu com a sua gente o enviado até á cubata do Soba, onde se achavam preparadas algumas iguarias, que os inglezes não recusaram por condescendência. Findo o banquete, durante o qual reinou a
melhor harmonia e cordialidade, o Soba, depois de ter dado as suas ordens em particular, convidou os inglezes para irem até á praça publica, onde devia ter lugar a festa promettida. Quando lá chegaram, duzentos pretos prisioneiros, com as mãos atadas atraz das costas, e acompanhados cada um do seu guardião armado de machado, rodeavam o local destinado para as danças e divertimentos públicos. A um signal dado pelo Soba, duzentas cabeças rolam no chão : um grito de horror escapa aos espectadores atónitos. O commandante quer saber porque motivo se pratica tão inaudita crueldade, mas o Soba interrompendo-o lhe diz : — « Inglez, convidei-te para vires assistir a uma grande festa: parece-me que cumpri a minha promessa; outro tanto, accrescentou elle, enlre- gando-lhe as letras que lhe tinham sido recambiadas de Inglaterra, outro tanto não fazem os da tua nação. Peço-te que guardes esses papeis como lembrança minha.» Foi então que o inglez conheceu em que mãos estava, e não foi sem grande espanto seu
e dos que o acompanhavam, que se viu a bordo da sua lancha sem ter soffrido o menor insulto. D'estes actos brutaes e ferinos é que os brancos, mesmo os mais endurecidos no trafico da escravatura, de certo não praticariam a sangue frio. ^Não tem, por exemplo, o Rei de Dahomey assim adquirido tão monstruosa celebridade? De vez em quando noticiam os jornaes uma nova hecatomba: sacrifícios, ou massacres de
centenares de victimas, que assombram a Europa inteira! Mas deixemos este assumpto, e voltemos ao Zaire, a respeito do qual pouco resta que referir.

Continua... "Quarenta e cinco dias em Angola : apontamentos de viagem":

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LIVRO NEGRO DO COLONIALISMO,

 Por MARC FERRO