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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A RECOLONIZAÇÃO PROGRAMADA DA ÁFRICA





Henrique Júdice Magalhães*
Nos últimos anos, a imprensa européia transmitiu ao mundo a imagem de uma África à deriva. Veículos como a Radio Nederland e a Deutsche Welle cansaram-se de referir-se ao “continente esquecido”, intocado pelas bondades da chamada globalização.
Em discurso proferido na Universidade de Wits, em Johanesburgo (África do Sul) em dezembro último, o primeiro-ministro francês Dominique de Villepin também usou esta expressão e ofereceu os préstimos de seu país para que a África abandonasse esse status. No mesmo discurso, Villepin procurou justificar a intervenção militar na Costa do Marfim, onde Paris mantém mais de quatro mil homens no âmbito da chamada Operação Licorne, iniciada em 2002. Oito meses antes, em entrevista à revista L’Express, a ministra da Cooperação, Desenvolvimento e Francofonia (o ministério francês para as ex-colônias), Brigitte Girardin, explicou os motivos da intervenção: “a França não tem o menor interesse nos setores-chaves da economia marfinense, como o cacau, o café ou o petróleo. Nós temos uma ligação histórica e afetiva com a Costa do Marfim”.
É em virtude desta “ligação histórica e afetiva”, provavelmente, que o governo francês mantém na África um dispositivo militar de mais de 10 mil homens estrategicamente posicionados em bases militares localizadas no Senegal, Costa do Marfim, Gabão, República Centro-Africana, Djibuti, Reunião e Mayotte (ilha pertencente a Comores por cuja ocupação ilegal a França foi condenada reiteradas vezes na Assembléia Geral da ONU).
E deve ser por não ter também “o menor interesse em petróleo” que o governo dos EUA anunciou, no início de fevereiro, a criação de um comando militar especialmente dedicado à África, o Africom. Desde 2002, os EUA mantém 1800 homens numa base militar no Djibuti, próxima ao Canal de Suez e na entrada do Mar Vermelho, zona de mais intenso tráfego petrolífero no mundo.
História repetida
Não é a primeira vez que propósitos caridosos são esgrimidos para justificar o saque aos recursos do continente. O colonialismo do século XIX foi impulsonado pelo discurso de que cabia aos europeus cumprir uma missão civilizadora na África, missão que seria, na expressão do poeta Rudyard Kipling – partidário fervoroso do imperialismo vitoriano – , o “fardo do homem branco”. Foram estes ideais filantrópicos que levaram Cecil Rhodes a iniciar o saque dos diamantes da Namíbia e da África do Sul, ainda hoje a principal fonte de sustento do monopólio fundado por ele, a De Beers, e da Anglo American. Um século depois, não são poucos os que se dispõem a seguir a trilha aberta por ele.
As companhias de petróleo estão entre os primeiros da fila. A crescente resistência antiimperialista no Oriente Médio faz com que a cobiça das corporações do setor e dos Estados aos quais elas estão ligadas volte-se para a África. Em sua Estratégia de Segurança Nacional apresentada em 2002, o governo estadunidense fala na necessidade de incrementar a exploração do petróleo africano. Hoje, aproximadamente 15% do petróleo produzido no mundo vem do Golfo da Guiné (que se estende da Costa do Marfim até Angola). Prevê-se que esta proporção chegará a 25% em 2015.
O interesse do imperialismo não se limita às matérias-primas. Monopólios do setor de telecomunicações disputam os mercados africanos. Nos dois primeiros meses deste ano, várias transações importantes ocorreram. A Sonatel, sediada no Senegal e pertencente à France Telecom, venceu a Global Voice, do USA, na disputa pela exploração da telefonia celular na Guiné Bissau. A Maroc Telecom (que pertence ao truste francês Vivendi e negocia suas ações nas bolsas de Paris e Casablanca), engoliu a até então estatal Gabon Telecom. Pouco antes, a mesma Maroc Telecom havia açambarcado a Onatel, ex-estatal de Burkina Faso, vencendo uma disputa com a France Telecom e a alemã Detecon. A empresa controla também, desde 2001, a ex-estatal Mauritel, da Mauritânia.
Mitos desfeitos
Estes dados contradizem a imagem de um continente incapaz de atrair investimentos estrangeiros – aspecto apontado pela imprensa monopolista como causa da miséria africana. Outro mito diz respeito ao alegado fator de inibição desses investimentos: as guerras civis étnicas, que causariam instabilidade e prejuízos à infra-estrutura, afugentando os monopólios.
A África é, de fato, um lugar devastado. Mas essa devastação não é senão um mecanismo de que o capital estrangeiro lança mão para poder iniciar ou manter em curso seus empreendimentos.
Um exemplo de país arrasado é o Congo (ex-Zaire). Seu território é rico em ouro, urânio e petróleo e guarda as maiores reservas de coltan (colômbio-tântalo) do mundo. O coltan é vital para fabricação de aparelhos eletrônicos, principalmente telefones celulares.
No final dos anos 90, a pretexto de proteger a população tutsi do Congo, o Exército ruandês invadiu o país. Em 99, um acordo celebrado em Lusaka, na Zâmbia, dividiu-o em duas zonas, uma controlada pelo governo de Kinshasa, outra nas mãos de grupos ligados a Ruanda.
O Exército ruandês transporta o coltan até seu país e, de lá, o envia para a Europa. Através dos aeroportos de Entebbe (Uganda) e Kigali (Ruanda), companhias aéreas como a belga Sabena levam o mineral e trazem armas. Mas a gerência ruandesa não é senão o intermediário a soldo de capitais europeus. Nas zonas sob seu controle, foram canceladas as licenças para exploração de Coltan anteriormente concedidas a companhias norte-americanas e instituído o monopólio da Sociedade Mineradora dos Grandes Lagos (Somigl), controlada pela belga Cogecom através de uma subsidiária. É a Somigl quem paga 10 dólares por quilo de coltán e o revende a 250 ou 300 dólares em Londres. Um de seus melhores clientes é a alemã Starck (subsidiária do monopólio químico-farmacêutico Bayer), que produz 50% do tântalo em pó no mundo. As operações financeiras relacionadas ao negócio são realizadas, em sua etapa africana, através do BCDI, correspondente bancário do Citibank (dos EUA) sediado em Kigali.
No último mês, esteve em evidência o conflito de Darfur, no oeste do Sudão. Os ianques divulgam as cifras de 400 mil mortos e 2,5 milhões de desabrigados – impossíveis, se levarmos em conta que Darfur não tem 6 milhões de habitantes. O USA propaga a mentira de um conflito entre árabes e negros, chegando a falar em “limpeza étnica” – isto quando, segundo explica o professor Mahmood Mamdani, do departamento de Estudos Africanos da Universidade de Columbia (USA), em artigo publicado na revista Black Commentator, “todas as partes envolvidas no conflito de Darfur — fale-se em ‘árabes’ ou ‘africanos’— são igualmente autóctones e negras; todos são muçulmanos e todos são dali; os chamados «árabes de Darfur» são africanos que falam árabe”.
Para compreender o interesse do USA pelo Sudão, é necessário ter em conta que o país é riquíssimo em petróleo. O discurso sobre a “artificialidade” dos Estados africanos visa legitimar sua destruição no quadro de uma nova partilha colonial do continente. O fato é que o USA estimula o separatismo no Sudão e transmite a imagem de um país submerso em conflitos regionais de fundo étnico para tomar conta de parte do petróleo – hoje em mãos da francesa Total e da chinesa CNPC. França e China, obviamente, apóiam o regime de Cartum.
A dupla face da infâmia
A mentira gêmea desta sobre a ausência de conexão entre os conflitos armados e os interesses do capital monopolista é aquela que apresenta tais conflitos como “prova” de que os países africanos estão fadados à instabilidade ou à guerra por fatores internos.
De fato, etnias diversas, por vezes com diferentes idiomas, convivem em vários países africanos e têm suas rivalidades – a exemplo do que acontece na França, Espanha e Bélgica. E realmente, as fronteiras de muitos Estados da África foram traçadas numa mesa de negociações – assim como as de praticamente todas as nações européias o têm sido desde a conferência de Westfalia.
As raízes da tragédia africana estão antes na prevalência do colonialismo do que em seu suposto fim. Mesmo porque não se pode falar seriamente em independência em países onde não se verificam requisitos elementares de soberania. Um deles: moeda nacional.
Quem controla diretamente a política monetária de 15 países africanos é a França. A moeda corrente nas ex-colônias francesas de Benin, Burkina, Camarões, Chade, Costa do Marfim, Gabão, Mali, Níger, República Centro-Africana, República do Congo, Senegal e Togo é o franco CFA (sigla de Comunidade Financeira Africana). Recentemente, a Guiné Bissau e a Guiné Equatorial, respectivamente ex-colônias portuguesa e espanhola, caíram na zona do franco, renunciando a suas moedas. Em Comores – país cujas matérias-primas sustentam a indústria francesa de cosméticos e onde a França já promoveu mais de vinte golpes de Estado nos últimos trinta anos – , circula o franco comorense, subordinado às mesmas regras: câmbio fixo, conversibilidade plena (primeiro ao franco francês, agora ao euro sob garantia do Tesouro da França) e cotação definida pela França, que também controla as emissões. Os bancos centrais africanos são meros conselhos da moeda (currency boards) à moda colonial, sem nenhuma autonomia para a formulação de políticas.
O Estado imperialista francês tem, assim, a chave do controle das economias desses países. Em 1994, a França, em conluio com o FMI, desvalorizou, unilateral e repentinamente, o franco CFA em 100% relativamente à sua moeda – o que significou quebrar, de uma canetada, as economias dos países atingidos, todos eles fortemente dependentes de importações.
Sangria desatada
Na África, como em todo o mundo, a ação do capital estrangeiro gera sangria de divisas, e não enriquecimento. Inclusive quando a exploração imperialista traveste-se de “investimento produtivo”: Angola, segundo maior exportador africano de petróleo, enfrenta desequilíbrios em sua balança de pagamentos porque as transnacionais do setor importam os bens de produção que utilizam.
A “solução” encontrada pelo imperialismo e pelas classes dirigentes compradoras é a mais cruel possível: incremento da exploração do campesinato. A produção agropecuária é cada vez mais direcionada à exportação visando cobrir défices. E aqui se desfaz outra idéia falsa sobre a África: o continente da fome exporta alimentos. A paupérrima Burkina Faso fornece açúcar à França, a faminta Etiópia produz carne para o mercado inglês. É verdade que os países africanos também importam comida – ou recebem-na dos EUA e da Europa em programas de “ajuda humanitária” que não passam de dumping contra os produtores locais. Mas só importam porque exportam: como toda sua produção é voltada ao mercado externo, faltam alimentos para seus habitantes. É exatamente por isso que um dos itens da pauta de reivindicações da greve geral que parou a Guiné em janeiro era a suspensão das exportações de gêneros de primeira necessidade.
Mais uma vez, o imperialismo lucra com falsas soluções para problemas que ele mesmo criou: recentemente, as fundações Gates e Rockefeller anunciaram um programa de modernização da agricultura africana à base de pacotes tecnológicos da chamada “revolução verde”: pesticidas, sementes trasngênicas, etc.
De acordo com Eric Holt-Gimenez, Miguel Altieri y Peter Rosset [1] , pesquisadores da Universidade de Berkeley (EUA) e militantes do movimento Food First, o programa funcionaria como um instrumento de expropriação dos camponeses: obrigados a envididar-se para fazer frente aos custos desses pacotes, grande parte deles terminaria por perder a terra.
Mas os povos lutam
À medida que se aprofunda a exploração, avoluma-se também a resistência.
Em novembro último, a população de Abdijã, capital da Costa do Marfim, acorreu em massa a protestar contra a intromissão da França nos assuntos do país. O Exército francês disparou contra os manifestantes, matando 64 civis.
Na Nigéria, maior exportador de petróleo do continente e responsável por 10% do fornecimento aos EUA, o monopólio anglo-holandês Shell viu-se forçado, nos últimos meses, a evacuar instalações e suspender a prospecção depois que algumas de suas áreas foram tomadas por camponeses armados.
No Senegal, os ferroviários estão na linha de frente da luta contra a desnacionalização da economia e deflagraram uma greve contra a privatização da linha Dacar-Níger. Mas onde o movimento sindical se mostra mais forte é na Guiné: a greve geral de janeiro arrancou da gerência do Estado a redução do preço do arroz e dos combustíveis e a suspensão das exportações de gêneros de primeira necessidade.
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* Jornalista, brasileiro.

sábado, 3 de abril de 2010

Livros e revistas: ANGOLA, PORTUGAL AFRICA

EMIGRACAO MADEIRA XIX. BRASIL E ESCRAVATURABRANCA

A history of the colonization of Africa 

Ciganos: antologia de ensaios

Ciganos: antologia de ensaios‎ - Page 74

Ático Vilas-Boas da Mota - Social Science - 2004 - 334 pages

... com a pena de degredo para Angola, já havendo anteriormente outras
disposições régias ... mandando expulsar os ciganos para Angola (o grifo é nosso

 

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Em África (De Castro Alves a Hannah Arendt)

Em África


(De Castro Alves a Hannah Arendt)



Aqui ficam registrados alguns dos momentos vivenciados em Angola. As sensações, aprendizado e, principalmente, a vivência com o povo e o que apreendo desse convívio. Porei sempre o olhar aguçado do repórter sobre o que vejo, para melhor compreender esse país e transmitir aos visitantes desse blog as minhas impressões.


Utilizarei nas narrativas informações sobre sua história, cultura, economia, política, meio ambiente, etc. E enfocarei sempre que possível os reflexos da atividade humana sobre esses aspectos e a influência desses no comportamento social. Confiando neste meu olhar e numa muito genérica e decantada "cultura de almanaque". Mas prometo que procurarei não abusar muito da paciência de vocês.


Recorro sempre à poesia romântica e ao mesmo tempo libertária do maior poeta brasileiro para ter uma dimensão do que foi o maior movimento organizado de deportação da história: a escravidão seguida da diáspora, que determinaram a sorte deste continente. Com seu espírito condoreiro, como que sobrevoando os mares, o poeta baiano avista do alto um navio a conduzir escravos. De sua lira extrai um dos mais candentes poemas da língua portuguêsa.




Eis um trecho :

Senhor Deus dos desgraçados
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!


(In Navio Negreiro)


Castro Alves (1847-1871) declamando

Mas quem se detiver à procura de conhecimentos menos poéticos e mais filosóficos, enfim mais complexos, que expliquem o sub-desenvolvimento crônico do continente mais pobre do planeta sugiro que não deixe de pousar os olhos e a mente na obra de Hannah Arendt, filósofa (embora ela preferisse se intitular apenas uma teórica) judia alemã, perseguida pelo nazismo.

Hannah Arendt (1906-1975)



Após cobrir como jornalista o julgamento do carrasco Adolf Eichmann, em Israel (1961), ela analisou todos os demais crimes do nazismo. Achou-o com aparência de um homem normal, que "cumpria ordens", embora tivessse cometido atrocidades, e apontou para a complexidade da natureza humana alertando para o que chamou de uma certa banalidade do mal, "que surge quando somos condescendentes com o sofrimento, a tortura e a própria prática do mal". Daí conclui que é fundamental guardar uma permanente vigilância para garantir a defesa dos direitos humanos e a preservação da liberdade. Dela, extraio esse aforismo que cabe perfeitamente em qualquer análise sobre a África e, logicamente, outras regiões:


"O sub-desenvolvimento não é apenas uma realidade , mas sim uma ideologia !"

Até porque não sendo um fenômeno, alguém tem culpa pela sua existência. A África é o que fizeram dela, ao longo da história, inclusive suas próprias "elites". A sua partilha entre as potências mundiais, o saque de suas riquezas, a degradação, escravização de sua gente e a colonização "coincidem" justamente com a fase inicial da formação do capitalismo e lhe foram determinantes.


Compartilhem comigo do meu olhar sobre Angola, meus kambas (camaradas, parceiros em kimbundu, uma das línguas nativas). Afinal, para quem está deslocado de seus habituais portos de abrigo, nada melhor do que uma companhia solidária com quem possa dividir as impressões sobre o que o olhar capta em outras terras e outras gentes.
Deixem registradas, por favor, as sugestões, comentários, críticas (principalmente), dúvidas e o que mais lhes convier a respeito desse blog e de Angola. Na medida do possível, responderei a todos.



Jorginho Ramos

09 fevereiro 2007
in jorginhoemangola

sábado, 29 de novembro de 2008

Africa, Ultimato, Literatura e Regicídio


Guerra Junqueiro (1850-1923), bilhete postal do início da década de 1910, editado por Rocha, Lisboa.

O Ultimato que a Inglaterra apresentou a Portugal em Janeiro de 1890 marcou indelevelmente o período que se seguiu à aclamação de D. Carlos I (1863-1908; rei, 1889-1908), surgindo como um presságio de todas as dificuldades que iriam marcar o seu reinado.

Numerosos intelectuais e artistas manifestaram o seu desagrado perante a actuação do governo português ao longo desta crise e dos momentos que se seguiram. Alfredo Keil (1850-1907) e Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931) compuseram logo nesse ano o hino A Portuguesa, que haveria de se tornar o hino nacional após 1910. Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) iniciou a produção das suas famosas cerâmicas anti-britânicas, no seguimento das caricaturas de sua autoria que já vinham abordando a situação colonial em África desde há alguns anos.

Guerra Junqueiro (1850-1923) publicou também nesse ano Finis Patriae, um livro cujo título encerra um manifesto em si mesmo. Aí se incluía o fragmento À Inglaterra, um texto escatologicamente frontal, composto logo em Fevereiro de 1890. As duas primeiras estrofes são suficientemente eloquentes sobre o tom do poema:

"Ó cínica Inglaterra, ó bêbeda impudente,

Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?

Chitas e hipocrisia, evangelho e aguardente,

Repartindo por todo o escuro continente

A mortalha de Cristo em tangas d'algodão.

Vendes o amor ao metro e a caridade às jardas,

E trocas o teu Deus a borracha e marfim,

Reduzindo-lhe o lenho a cronhas [sic] d'espingardas,

Convertendo-lhe o corpo em pólvora e bombardas,

Transformando-lhe o sangue em águarrás e gim!"

Três anos depois, Delfim Guimarães (1872-1933) publicou Confidências (1894), um livro onde perpassa ainda o sentimento anti-britânico mas onde se apontam essencialmente as debilidades que dilaceravam a sociedade portuguesa. Os extractos dos sonetos que a seguir se transcrevem deixam bem clara a situação deplorável em que o país se encontrava:

"SEM PÁTRIA

I

Se tu voltar puderas, meu poeta,

A contemplar a pátria decantada,

Havias de encontrá-la bem mudada.

De nobre que já foi tornou-se abjecta.

(...)

O pavilhão das quinas não batalha;

Faz hoje em dia o papel de toalha

Nas mesas avinhadas dos bretões...

(...)

V

O meu torrão natal!... Campos sem trigo...

Aldeias sem ninguém, despovoadas...

Tudo some o Brasil. Pelas estradas

Quantos entes sem pão, quanto mendigo!

(...)

VI

Aumenta a emigração! Barcos ingleses

Saem a barra em busca do Brasil,

Levando a bordo, aos cem, aos mil e mil

De robustos rapazes portugueses.

(...)

X

(...)

Desditoso país! Que vilipêndio!

Quanto melhor não fora que um incêndio,

Um pavoroso incêndio te arrasasse!...

Ó torpeza sem nome, ó vil torpeza!

A pátria de Camões, colónia inglesa,

A pátria de Camões, casa de passe!"

Considerando que entretanto, a 31 de Janeiro de 1891, ocorrera a revolta republicana do Porto, considerando que em meados dessa década se travavam em África, particularmente em Moçambique, combates para controlar revoltas nos territórios sob administração portuguesa, considerando que a situação económica e financeira do pais se deteriorou gravemente no início do século XX, considerando que a emigração legal atingiu o seu máximo nos primeiros anos desse século, considerando a ditadura de João Franco (1855-1929), a censura à imprensa e todo o desencanto vivido nesse início de século, torna-se evidente que a teoria da conspiração, cuidadosamente preparada e organizada e com vastos apoios, para assassinar D. Carlos I se apresenta como perfeitamente plausível e lógica. Aliás, o simbolismo da própria data do regicídio não seria alheio a uma evocação revanchista do insucesso da revolta do Porto.

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