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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Agostinho Neto, a vida e a obra

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Acácio Barradas (editor)
Este livro formato 24x28cm com 221 páginas foi escrito com a colaboração de diversos autores que conheceram Agostinho Neto. Não tem “copyright” e foi patrocinado pela A.A.A – SEGUROS & PENSÕES. O lucro resultante da sua venda reverterá em benefício da Fundação Agostinho Neto (em organização). Em Angola encontrar-se-á à venda nas principais livrarias mas, dado o seu preço, pensamos que não estará ao alcance da maioria das pessoas. Por isso, para que todos aqueles que tiverem internet possam também saber quem foi Agostinho Neto, Primeiro Presidente de Angola, fizemos um extracto das partes essenciais do texto colocando-as pela sua sequência cronológica com as respectivas fotografias.
Não foi um trabalho fácil sintetisá-lo porque haveria muito mais para escrever mas, mesmo assim, esperamos ter conseguido o nosso objectivo, isto é, dar a conhecer ao Mundo Lusófono com acesso à internet, a biografia de Agostinho Neto descrita neste livro.

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Aquele que viria a ser o fundador da nação Angolana abriu os olhos ao mundo na aldeia de Kaxicane, banhada pelas águas caudalosas do rio Kuanza, na região de Catete, a 60 km de Luanda. Corria o ano de 1922. Como era hábito na altura, o parto decorreu em família, na casa modesta do pastor metodista Agostinho Pedro Neto e de sua mulher, a professora primária Maria da Silva Neto. O menino viria a chamar-se António Agostinho Neto, nome que não tardaria a andar nas bocas do mundo.

 
Agostinho Neto com os pais e irmãos (último em pé do lado direito).

Os primeiros tempos da sua formação foram bastantes irregulares, pois a inegável capacidade que demonstrou para os estudos não foi devidamente estimulada pelos pais. Feita a instrução primária, acabou por se arrastar no liceu durante dez anos para um curso de sete, não obstante figurar no Quadro de Honra. Tudo porque os pais capricharam em que acompanhasse a par e passo o irmão mais velho, Pedro, o qual se atrasara nos estudos e não tinha idêntico aproveitamento. Deste modo, se o Pedro reprovava num ano, Agostinho Neto suspendia a preparação e esperava por ele. Assim se explica que, tendo-se matriculado no Liceu Nacional Salvador Correia (hoje Mutu-ya-Kevela) em 14 de Fevereiro de 1934, só concluísse o 7º ano em Janeiro de 1944. (…)
Conta Arménio Ferreira, a fim de demonstrar a inteligência precoce de Neto, que no Salvador Correia, então predominantemente frequentado por brancos, determinado professor “resolveu fazer testes de inteligência entre os estudantes. E, como Neto “solucionava rapidamente os testes apresentados”, o professor deixou de lhos dar, entregando-os só aos outros alunos e “dizendo-lhes que, se não os resolvessem depressa, os daria ao “preto”, que num minuto os resolveria”. (…)
Mercê de tais antecedentes, seria de esperar que, terminado o liceu, além do mais com alta classificação, Agostinho Neto tivesse de acesso imediato a estudos superiores. Mas não havia universidade em Angola e a sua frequência na Metrópole (como então se aludia a Portugal) era onerosa demais para os modestos recursos familiares. E a única possibilidade de tornear tal obstáculo acabaria por ser-lhe vedada.
Na altura, o Governo colonial dispunha de uma bolsa de estudo anualmente atribuída ao estudante finalista do liceu com melhor classificação. António Agostinho Neto era um forte candidato, mas com ele rivalizava outro estudante oriundo de Cabinda, de seu nome António Pinheiro da Silva.Segundo recorda Adriano Sebastião, gerou-se polémica entre facções apoiantes dos dois Antónios, tendo a balança pendido para Pinheiro da Silva. Este tinha a vantagem de ser mestiço e católico, enquanto Agostinho Neto era negro e protestante. Ou seja: a religião e a raça tiveram razões que a razão desconhece.
Não deixa de ser curioso observar que a evolução futura dos finalistas rivais viria a acentuar as suas diferenças, pois enquanto Agostinho Neto se tornou o líder revolucionário, Pinheiro da Silva foi sempre um apaniguado do regime colonialista e chegou, nos anos 60, a assumir responsabilidades governativas em Angola, como secretário provincial da Educação.
Enfim com 22 anos feitos e gorada no imediato a hipótese da bolsa de estudo, a solução de Agostinho Neto foi arranjar trabalho. Mediante um concurso público, ingressou no quadro administrativo dos Serviços de Saúde e Higiene de Angola, sendo colocado primeiro em Malange e depois no Bié. Ao chegar a Malange, ver-se-ia de novo confrontado, agora de uma forma directa, com o preconceito racial. Conforme mais tarde recordou, num documento escrito da prisão, fora-lhe “recusada a entrada num hotel de inferior categoria, onde normalmente se hospedavam operários brancos, muitos deles analfabetos”.
O confronto com este tipo de situações humilhantes, a par do regime esclavagista que testemunhara na infância junto dos trabalhadores de algodão de Icolo o Bengo, ou dos contratados para as plantações de café na região dos Dembos, no Piri, para onde os seus pais havia sido entretanto transferidos, despertaram-lhe a consciência para as duras realidades do colonialismo que, no seu espírito, cedo se perfilou como inimigo a abater. (…)
Mas é sobretudo na poesia que Agostinho Neto virá a encontrar a expressão mais adequada para dar voz à sua indignação perante a injustiça e transmitir a “sagrada esperança” na vitória dos fracos sobre os fortes, dos humilhados e ofendidos sobre os orgulhosos e arrogantes detentores do poder colonial e imperialista, não apenas em Portugal mas no mundo inteiro. (…)
Sem nunca ter desistido de subir a corda mais alto, finalmente Agostinho Neto conseguiu, três anos depois de ter iniciado carreira como funcionário público, reunir condições para estudar na Metrópole. Fê-lo, inicialmente, com as economias que conseguiu realizar dos seus magos proventos. Só dois anos mais tarde, segundo refere Marga Holness, lhe terá sido atribuída uma bolsa de estudos da Igreja Americana Metodista. (…) Esta bolsa é invariavelmente referida como o único apoio de que beneficiou. Trata-se, porém, de um equívoco.
De facto, Agostinho Neto recebeu outra bolsa (cujo início não conseguimos determinar) que lhe foi concedida por uma instituição portuguesa, o IASA – Instituto de Assistência Social Angola. Tal bolsa, no valor de três mil escudos (quantia bastante elevada para a época), deixou, porém de ser levantada por Agostinho Neto no Ministério do Ultramar, em consequência de ter sido preso e pronunciado por “actividades subversivas” no Tribunal Criminal do Porto. Alertado pela PIDE para este facto, o IASA suspenderia a atribuição da bolsa em 1955.
Neto na CEI em Coimbra com os seus colegas
(último da direita ao lado de Lúcio Lara).

Recuando à data em que iniciou os estudos superiores na Metrópole, ou seja em 1947, vamos encontrar Agostinho Neto na Universidade de Coimbra, em cuja faculdade de Medicina se matriculou. A sua integração no meio foi imediata, para o que concorreu a circunstância de ser ter familiarizado rapidamente com os outros estudantes de origem africana, embora na sua maioria brancos e mestiços. Um deles, Lúcio Lara, seria o seu companheiro até ao fim da vida. O pólo aglutinador era a Delegação da CEI (Casa dos Estudantes do Império), que nessa época se distinguia – de acordo com o testemunho de Edmundo Rocha – por ter uma actividade mais radical e efervescente que a respectiva sede, em Lisboa. (…)
A sua conduta não passa despercebida à autoridades fascistas. Num ofício dirigido à PIDE, em 11 de Julho de 1949, o Comando-Geral da Legião Portuguesa de Coimbra refere-se às actividades da CEI e do MUD Juvenil, afirmando a dado passo: “Quanto aos pretos, o que mais se tem evidenciado, embora não o demonstre, é o Agostinho Neto do MUD Juvenil”, ao qual é atribuída a responsabilidade (partilhada por Antero e Vergílio Simões Moreira) de convidar Norton de Matos a visitar Coimbra durante a campanha eleitoral.
Entretanto, transfere-se de Coimbra para Lisboa, onde a sua actividade política de intensifica. E em Março de 1952 verifica-se a sua primeira detenção, por um período de três meses. Crime de que era acusado: “ser portador de panfletos subversivos”. Segundo o boletim Juventude, editado ao copiador pela Comissão Central do MUD Juvenil, a prisão verificou-se quando Neto, em companhia dos colegas Marília Branco e Carlos Veiga Pereira, recolhia assinaturas para o “Apelo para um Pacto de Paz”.(…)
Entre os frequentadores dos salões literários da Tia Andreza (no nº37 da rua Actor Vale, Lisboa) figuravam, além de Agostinho Neto, outros angolanos, como Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara e Humberto Machado, os poetas santomenses Francisco José Tenreiro e Alda do Espírito Santo, o guineense Amílcar Cabral e a poetisa moçambicana Noémia de Sousa. A todos animava, segundo Mário Pinto de Andrade, “o retorno às fontes, a redescoberta do “eu” africano, a “reafricanização”. Tratava-se, afinal, da réplica lisboeta de um movimento universal africano (liderado por Nicolás Guillén, Sédar Denghor, Aimé Césaire e outros), que implantaria com o nome de “negritude” e que em Luanda encontraria equivalência na corrente literária “Vamos descobrir Angola”.(…)
Se a PIDE estava atenta às actividades de todos estes jovens, bem como de muitos outros que os visitavam, a verdade é que a sua movimentação também não passava despercebida a uma bonita jovem que morava na mesma rua que o CMA tinha a sua sede. Essa jovem assomava por vezes à janela e assistia às permanentes entradas e saídas de estudantes e marítimos na casa da frente da sua rua. Até que um dia chegaram à conversa e estabeleceram relações de amizade. A jovem em questão chamava-se Maria Eugénia da Silva e viria a contrair, pelo casamento, o apelido de Neto.
A própria Maria Eugénia, na entrevista que concedeu a Artur Queiroz para esta edição, relembra com algum detalhe a forma como foi feita a aproximação com Agostinho Neto e como essa relação evoluiu para o forte desenvolvimento que se tornaria um amor para toda a vida. O período de namoro, foi, no entanto repleto de adversidades, visto que se fortaleceu durante dois anos e meio em que Agostinho Neto esteve preso e foi pronunciado pelo Tribunal do Porto.
Preso de novo pela PIDE em 9 de Fevereiro de 1955, Agostinho Neto passou dois anos e meio nos cárceres da polícia política portuguesa e depois na Cadeia do Aljube, no Porto, só sendo libertado em 12 de Junho de 1957. (…)
Fotografias de Agostinho Neto na PIDE.
Mal se apanhou em liberdade, Agostinho Neto reatou os contactos políticos com os seus antigos companheiros de luta, a tempo de participar na fundação do MAC – Movimento Anti-Colonialista, de que foi personalidade impulsionadora o guineense Amílcar Cabral embora o respectivo Manifesto viesse a ser da autoria de Viriato da Cruz, com alterações introduzidas por Mário Pinto de Andrade e Lúcio Lara.(…)
Agostinho Neto e o Pe. Pinto de Andrade
Mas como nem só de política vive o homem, mesmo que esse homem se chame Agostinho Neto, ei-lo de novo a braços com os estudos de medicina, procurando recuperar o tempo perdido e obter a licenciatura. É o que finalmente acontece em 27 de Outubro de 1958, onze anos depois de se ter matriculado em Coimbra. Tinha então 35 anos, e Maria Eugénia, a sua noiva, 23. Reunindo dois motivos de festa, casaram-se no próprio dia da formatura, indiferentes à advertência da mãe de Maria Eugénia, segundo a qual “um político não faz felicidade de ninguém”. Lúcio Lara é um dos padrinhos.
Segue-se um breve período em que Agostinho Neto parece um cidadão normal, feito chefe de família e com uma profissão prestigiada, a de médico hospitalar. O que não quer dizer que tenha cessado as reuniões políticas, pois estas continuaram a preencher os momentos que os vulgares chefes de família dedicam ao ócio. Entretanto, havia que pensar no futuro e tomar opções decisivas. (…)
Regressar a Angola é que seria a hipótese a excluir, pois os incómodos que teria se suportar no seu próprio meio seriam por certo avassaladores.(…) Se Neto regressasse à sua terra, era mais que certo que não ficaria incólume. Pois foi exactamente esta solução, a pior do ponto de vista da sua comodidade e segurança, que Agostinho escolheu para si e para a sua família, entretanto já ampliada com o nascimento do primeiro filho.
Prestando-lhe homenagem por estas decisão, Edmundo Rocha escreve: “Depois de acabar o seu acidentado curso de Medicina, Agostinho Neto decide investir contra a cidadela inimiga, a Jóia da Coroa do colonialismo português. Podia ter escolhido o exílio seguro que lhe permitiria frequentar os salões intelectuais africanos, em Paris, como fizeram durante anos Mário de Andrade, Viriato Cruz, Lúcio Lara e outros nacionalistas. Mas (…) instala-se em Luanda em fins de 1959, como médico dos bairros pobres (…), seis meses após a vaga de prisões da maior parte dos nacionalistas africanos, de angolanos brancos e de portugueses progressistas, revelando neste acto uma grande coragem moral e física, sabendo de vigilância apertada que a PIDE exercia sobre ele”.
Como era de prever, Agostinho Neto não estaria muito tempo em liberdade. Em 8 de Junho de 1960, ainda não se tinham completado seis meses desde a sua chegada, o próprio subdirector da PIDE, São José Lopes, irrompeu no seu consultório e deu-lhe voz de prisão. (…) Depois levaram-no, no meio dos protestos da mulher dele, a quem também ameaçaram prender, mas que lhes respondeu não ter medo deles. E ao marido dela disseram: seu negro!, como se ser negro fosse um anátema. E prenderam mas cinco homens negros.
Se, em Luanda, a prisão de Agostinho Neto deu origem à movimentação acima referida, entre outras reacções de que não terá ficado registo, algo bem mais dramático viria a acontecer na terra da sua naturalidade. Os acontecimentos aí verificados – e que ficaram conhecidos pela designação de “massacre de Icolo e Bengo” – seriam internamente abafados pela censura, mas através do método primitivo da transmissão oral, acabaram por chegar ao domínio público e ser noticiados por vários jornais e emissoras estrangeiros. (…)
Perante a violência das reacções suscitadas pela prisão de Agostinho Neto e também do chanceler da arquidiocese de Luanda, Joaquim Pinto de Andrade, a PIDE considerou ser mais prudente retirá-los de Angola, onde a sua presença causaria permanentes problemas. E assim, após um breve período de interrogatórios a fim de apurar as responsabilidades de cada um, com a garantia – que veio a tornar-se improcedente – de que seriam restituídos à liberdade mal chegassem a Lisboa, ali ficando com residência fixa para poderem trabalhar.(…)
O embarque de Neto para Lisboa verificou-se num avião militar que fez escalas em São Tomé e Bissau, tendo chegado à capital portuguesa em 8 de Agosto de 1960, precisamente dois meses após a prisão de Luanda. Contrariamente ao que fora prometido – e que se apurou ter sido acordado entre o ministro do Ultramar e o governador-geral de Angola, para evitar maior alarido no plano internacional -, Agostinho Neto ficou encarcerado na Cadeia do Aljube, em Lisboa, em regime de isolamento.
Segue-se um troca de ofícios entre a PIDE e o Ministério do Ultramar, com propostas e contrapropostas relativas ao destino que deveria dar-se aos dois prisioneiros incómodos: Agostinho Neto e Joaquim Pinto de Andrade.(…)
O Gabinete do ministro do Ultramar mostra-se de acordo com estas precauções e é de parecer “que deveria proporcionar ao Dr. Agostinho Neto o exercício da sua profissão em local onde os perigos anteriormente apontados pudessem ser prevenidos”. Neste sentido, apresenta “como aconselhável a sua deslocação para qualquer das ilhas adjacentes”, ou seja, Madeira e Açores. (…)
Como contrapartida, o director-geral da PIDE, propôs a fixação de residência a Agostinho Neto em Cabo Verde e a Joaquim Pinto de Andrade em São Tomé e Príncipe, “desde que, como é evidente, fiquem sujeitos a determinadas condições e à adequada vigilância” (…)
Na sequência da aprovação desta proposta, o subsecretário de Estado da Administração Interna, Adriano Moreira, exara um despacho, pelo qual fixa a residência a Agostinho Neto na ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, e a Joaquim Pinto de Andrade em São Tomé, num local a designar pelo respectivo governador, que indicaria para o efeito a ilha do Príncipe. Cinco dias depois, verificava-se no aeroporto da portela o embarque, sob prisão, de Agostinho Neto para Cabo Verde, em companhia de sua mulher, Maria Eugénia, e Mário Jorge, o filho de onze meses. (…)
Reconfortado com a inesperada manifestação de apoio de que foi alvo na aerogare da Portela em Lisboa, no dia 15 de Outubro de 1960, ao embarcar sob prisão para Cabo Verde, Agostinho Neto chegou de madrugada ao aeroporto dos Espargos, na Ilha do Sal. Com a mulher e o filho, que o acompanhavam, ficou hospedado no Hotel Atlântico. No dia 18, de manhã, embarcou num avião dos Transportes Aéreos de Cabo Verde para a ilha de São Vicente. “No mesmo avião” – segundo refere o comandante da PSP, Fradinho da Costa – “seguiu da cidade da Praia um agente desta polícia com a missão de o vigiar discretamente”. Em São Vicente hospedou-se na Pensão Chave de Ouro e, na madrugada do dia seguinte, embarcou no navio mercante “Gavião dos Mares” com destino à Ponta do Sol, em Santo Antão, onde lhe fora marcada residência. (…)
Chegou ao destino no mesmo dia, tendo ficado sob a vigilância do administrador do concelho de Ribeira Grande, João Coelho Pereira Serra, o qual – de acordo com o já referido comandante da PSP – é “pessoa de absoluta confiança”, sendo também, “por inerência, o comissário político do Mindelo”.
Em Santo Antão, onde chegou a 19 de Outubro, a família Neto começou por ficar alojada na pousada municipal, ali se mantendo até 2 de Novembro, data em que transitou para a moradia destinada ao Delegado de saúde, função que Agostinho Neto passou a desempenhar, auferindo o vencimento mensal de seis mil escudos. (…)
Em 10 de Junho, acompanhada pelo filho Mário Jorge, Maria Eugénia Neto embarcava em São Vicente no navio “Manuel Alfredo” com destino a Lisboa, a fim de ali ter a devida assistência ao novo parto que se aproximava. Para se despedir da mulher e do filho, Agostinho Neto foi autorizado pelo Governador de cabo Verde a deslocar-se a São Vicente, onde chegou a 1 de Maio. (…)
Hospital em Cabo Verde onde Neto trabalhou como Delegado de Saúde.
Mas como o homem dispõe e a providência dispões, Agostinho Neto mão seguiria para a Boa Vista (para onde tinha sido proposta a sua transferência) nem ficaria na Praia, onde o hospital em que trabalhou ostenta hoje o seu nome. Outras razões se interpuseram que mudariam o curso da História. Tudo aconteceu com a chegada da sua mulher e dos filhos, que desembarcaram do navio “Alfredo da Silva” no dia 17 de Setembro, por coincidência a data de aniversário de Agostinho Neto. Esse dia, em que completava 39 anos, foi por certo um dos mais felizes da sua vida. Além do reencontro com a mulher e o filho Mário Jorge, via pela primeira vez a filha Irene, apenas com dois meses. Ainda por cima, devido a uma providencial distracção dos CTT, teve o raro privilégio de receber vários telegramas de felicitações enviados da Alemanha, de França e de Inglaterra. (…)
Passados que eram oito dias desde a chegada de Eugénia Neto à cidade da Praia, precisamente na véspera da data em que deviam seguir para a Boavista, eis que rebentou a “bomba” que levaria Agostinho Neto a ser novamente preso e a regressar a Lisboa para os cárceres da polícia política. O motivo é registado pelo chefe da PIDE de Cabo Verde, numa informação que o governador datava de 25 de Setembro. Eis o que nela se diz: “Parece que a mulher do Dr. Agostinho Neto (Maria Eugénia Neto), que recentemente regressou da Metrópole, trouxe para esta cidade uma fotografia onde se vê um grupo de militares europeus com a cabeça de um preto espetada num pau. Diz-se que a fotografia em referência foi tirada em Angola, mas certamente tratar-se-á de uma falsificação destinada à propaganda política. Que se saiba, o Dr. Agostinho Neto tem mostrado a aludida fotografia a alguns indivíduos do grupo com quem se relacionou na cidade da Praia. (…)”
O certo é que Agostinho Neto foi preso e o governador ordenou o seu embarque sob custódia de um agente da PIDE, embora na companhia da mulher e dos filhos, no primeiro barco com destino a Lisboa que fizesse escala da Praia. Esse barco seria o “Manuel Alfredo”, que partiu em 10 de Outubro, tendo atracado a Lisboa no dia 17. Agostinho Neto seguiu para a cadeia do Aljube, enquanto Maria Eugénia Neto, com as crianças, voltaria a casa da mãe. (…)
Atendendo, porém, às condições de insegurança relativamente ao futuro – e que o impedia de contrair um empréstimo para montar consultório próprio -, Agostinho Neto voltou a escrever, em 18 de Maio, ao ministro dom Ultramar, solicitando os seus bons ofícios “no sentido de ser autorizado a partir com a minha família para qualquer país da América Latina”, afim de “poder viver livre de receios e de dificuldades”. (…)
Solicitado a pronunciar-se sobre este pedido, o director-geral da PIDE não esteve com meias medidas, afirmando: ” A sua pretensão de seguir agora com a família para um dos países da América Latina assenta no propósito de – como todos aqueles que se dizem no “exílio” – vira desenvolver mais facilmente a acção nefasta contra o seu país. Em todo o tempo, porém, e em qualquer local, segundo a experiência mostra, o Dr. António Agostinho Neto é um elemento pernicioso, o que significa, por isso, que tanto o é na metrópole, como no Ultramar, como no estrangeiro”.
Vedada, pois, a possibilidade de sair de Portugal a bem, restava a Agostinho Neto a hipótese de fuga. Assim, aproveitando a situação de vigilância atenuada a que estava sujeito no regime de residência fixa, reuniu as condições para dar o salto para o exterior, o que acabou por se verificar no dia 30 de Junho. (…)
O facto de Agostinho Neto ter regressado subitamente a Portugal, sendo libertado com residência fixa após seis meses na prisão do Aljube, deu ensejo a nova estratégia de fuga, desta vez com êxito absoluto. Além de Dias Loureiro, participaram no plano na concepção os seus camaradas Blanqui Teixeira e Arménio Ferreira, médico cardiologista, este último um dos mis indefectíveis amigos que Neto encontrou em toda a sua vida.
Ávaro Cunhal, Presidente do PCP
(patrocinador da fuga)
De acordo com o plano gizado pelo PCP (Partido Comunista Português) começou por adquirir um pequeno iate de recreio, por intermédio de um oficial da Marinha ideologicamente afecto, que para todos os efeitos legais era o respectivo proprietário. A esse oficial, o então primeiro-tenente da Armada José Nogueira, foi atribuída, além da compra do barco e dos respectivos mantimentos, a incumbência de pilotar a embarcação até ao destino escolhido: Tânger, no norte de Marrocos.
Entretanto, Agostinho Neto e a família saíram da residência que habitavam em Alfama – e onde estavam sob a mais intensa vigilância da PIDE -, indo instalar-se em Sintra, perto da Praia das Maçãs, numa casa de férias pertencente a Maria Amélia da Silva, mãe de Maria Eugénia Neto. (…)
Agostinho Neto e a esposa Maria Eugénia aguardando a fuga.
“Foi nesta casa” – conta Dias Lourenço – “que nos reunimos, eu, o Arménio Ferreira e o Agostinho Neto, para combinarmos os pormenores da fuga, sem esquecer as ligações internacionais que era preciso estabelecer com vista a garantir o apoio no destino. Assim, entrámos em contacto com o Istiqlal, partido no poder em Marrocos, para dar cobertura à entrada clandestina dos fugitivos para Tânger, possibilitando-lhes depois a saída para Argel e outros destinos”. (…)
Casa na Praia das Maçãs onde Agostinho Neto e a esposa se refugiaram
enquanto aguardavam a fuga.
Mas como nem só de fugitivos se faz uma longa viagem por mar, sobretudo se estas não forem bons mareantes, havia que ter em conta que um só piloto não bastava para assegurar todas as tarefas de bordo. E é assim que surge o nome de Jaime Serra, militante do PCP desde a adolescência e em cujo currículo, figuram várias prisões e numerosas fugas, qual delas a mais arriscada e espectacular, como aquela em que se evadiu do Forte de Peniche juntamente com Álvaro Cunhal. (…)
Dias Loureiro, Jaime Serra e José Nogueira do PCP, protagonistas na fuga de Neto.

Finalmente, no dia “D” (30 de Junho, segundo os registos de Jaime Serra, embora Cunhal se refira a 6 de Julho), Arménio Ferreira foi à Praia das Maçãs buscar Agostinho Neto, a mulher, Eugénia Neto e o filhos Mário Jorge e Irene Neto, ele com um ano e meio e ela com menos de um ano. Bagagem, a mais elementar, até para não dar nas vistas. (…) 

Conta Jaime Serra que o embarque “fez-se calmamente, como se tratasse de uma família burguesa que fosse dar um passeio ou fazer uma pescaria na costa num fim-de-semana. Tudo isto ali mesmo nas barbas da Guarda Fiscal, que tinha próximo um posto de vigilância da fronteira marítima, então à sua guarda”.
Pouco a pouco, o “José Gabriel” encaminhou-se para a barra do Tejo, ganhou a linha do horizonte e perdeu-se na distância. Refira-se que o barco foi baptizado e registado na Brigada Naval por José Nogueira, tendo por “padrinho” involuntário o seu filho com o mesmo nome e que, na altura, andaria pelos seis ou sete anos. (…)

José Nogueira – que não só comprou, como equipou e abasteceu o “José Gabriel”, servindo-lhe de piloto despenseiro – recorda que a primeira parte da viagem decorreu sem problemas: “Fizemos a navegação costeira, dobrando o Cabo de São Vicente já de manhã. Lembro-me de que o Neto, com a sua sensibilidade de poeta, ficou impressionado com o promontório de Sagres, sem dúvida espectacular visto de bordo, que me pediu para ali para um bocadinho, a fim de apreciar devidamente a majestosa paisagem”. (…)
“A meio da tarde – é ainda José Nogueira a falar – partimos para a navegação oceânica rumo a Cádis, cujas luzes avistámos ao cair da noite”. Foi no percurso seguinte, que, sobretudo ao largo do cabo de Trafalgar, as coisas se complicaram. O movimento agitado das marés, associado a uma intensa ventania e às fortes sacudidelas produzidas pelas vagas alterosas, transformaram o “Gabriel” num indefeso joguete nas mãos do destino. Perdida que foi uma âncora (felizmente havia outra sobressalente), o barco andou momentaneamente à deriva e foi difícil domá-lo. Os “turcos” (designação escravocrata dos ganchos que seguram os salva vidas) cederam à fúria dos elementos. Um dos botes soltou-se e foi arrastado no turbilhão das águas revoltosas, desaparecendo para sempre.
Perante este cenário dantesco, não é difícil imaginar o horror dos passageiros a bordo, todos envergando coletes de salvação. “Para as crianças, e sobretudo, para a mulher de Agostinho Neto – conta Jaime Serra – ,”foram horas de grande angústia. (…)
Agarrada às duas crianças, o desespero de Maria Eugénia atingiu tal paroxismo que Agostinho Neto chegou a pedir que se interrompesse a viagem e se desembarcasse na costa espanhola. Foi aí que Jaime Serra assumiu por inteiro o papel de responsável político, opondo-se terminantemente ao que classificou de “falsa solução”. Se o grupo fugia de Portugal e dos fascismo do ditador Salazar, não era para se entregar em Espanha e o fascismo do ditador Franco. Claro que todos acabaram por concordar que seria pior a emenda que o soneto.

Felizmente a situação melhorou e – conta José Nogueira – “passámos a noite numa acolhedora baía de Tarifa e daí seguimos directamente para Tânger, onde chegámos à hora do almoço. Fizemos a refeição a bordo e procedemos em seguida ao desembarque no salva-vidas a remos que nos restara”. Tinham decorrido três dias desde a partida de Lisboa. O desembarque verificou-se segundo Jaime Serra, em várias etapas: “Começámos por transportar Maria Eugénia e as crianças para a praia, depois as bagagens e, finalmente, Agostinho Neto e Vasco Cabral”. (…)

E quanto aos fugitivos desembarcados em Tânger? Tal como se previa, foram prontamente acolhidos pelas autoridades marroquinas, sendo encaminhados para Rabat, onde Maria Eugénia ficou alojada com os filhos, em casa da sua cunhada Ruth Neto, enquanto Agostinho Neto seguia para Léopoldville (actual Kinshasa). Ali realizou uma conferência de imprensa, na qual anunciou ao mundo o propósito que então o animava: “a unificação das forças nacionalistas numa frente comum”.(…)

Entretanto, Álvaro Cunhal que se encontrava em Argel no desfecho da odisseia marítima, soube imediatamente que a operação terminara em êxito e, em telegrama cifrado, deu conta disso a Dias Lourenço, segundo este nos asseverou. (…)

Neto desce de Rabat para Léopoldville, hoje Kinshasa, onde está instalado o Comité Director do MPLA. Logo condena pública e severamente o brutal erro estratégico da UPA, de que só sobrava um fogo de canhangulo contra armas de repetição, canhões e aviões do exército português. Da guerra resulta o início de um boom económico. O Governo colonial pratica algumas reformas para melhorar a vida dos “indígenas”, até aí sem direito a Bilhete de Identidade. Por razões militares, estradas asfaltadas, pontes em betão e pequenos aeroportos começaram a abrir o país. A guerra, para alguns, é sempre um bom negócio. Para o povo, não, nunca foi.

Antes de acabar o ano de 62, Agostinho Neto é eleito presidente do MPLA, durante a 1ª Conferência Nacional do Movimento, em Léopoldville. (…)
A representação do movimento instala-se perto de Dar-es-Salam, em Kurasini, numa velhíssima casa. No quintal, estacionavam os camiões “Kratze”, capazes de transportar, com os atrelados, mais de vinte toneladas. Mas antes de eles os “Volvo” oferecidos chegarem, eram bem menos modernos os transportes da logística, que atravessavam a Zâmbia de ponta a ponta até descarregarem na fronteira de Angola. Como uma vetusta “Bedford”, saída há tanto tempo da linha de montagem que quando partiu um semieixo, não se lhe encontrou substituto.
Perto da representação ficava o kimbo, conjunto de edifícios onde viviam as famílias de Neto e de outros quadros, como Daniel Chipenda, que viria a dar no que deu. Mas essa é a estória a contar mais adiante. (…)

“A luta continua, a vitória é certa” são, como de costuma, as palavras de Agostinho Neto a fechar o texto de abertura lido em conferência de imprensa, em Brazza, corria o mes de Janeiro de 1967. Nesta ocasião, revelou: “O movimento que dirige a luta de libertação do povo angolano lançou a palavra de ordem “generalização da luta armada a toda a extensão do território nacional”. Estamos orgulhosos – disse nessa ocasião – “por poder afirmar hoje que, durante o ano que há pouco findou, a luta do nosso povo registou as vitórias mais significativas, que nos permitem prever para um futuro próximo o estado de insurreição geral da população, o qual o conduzirá à vitória final sobre o colonialismo”.

Neto refere, ainda o reforço da presença militar portuguesa para fazer frente aos “nacionalistas” cujo grau de aperfeiçoamento militar melhora e cuja consciência política aumenta proporcionalmente à extensão do território controlado, que compreende uma região bastante mais vasta e extensa que Portugal”. (…)

Havia território libertado e população em demasia para os quadros existentes, mesmo com o reforço dos que foram transferidos, com suas famílias, da Frente de Cabinda. Por isso mesmo a 3 de Janeiro de 1968, Agostinho Neto utiliza os microfones de “Angola Combatente”, também a irradiar de Dar-es-Salam, para lançar uma ordem, ou um apelo: “Todos os angolanos devem regressar a Angola e viver aí uma vida verdadeiramente livre, dentro das dificuldades da luta”, pois “existem hoje áreas, dentro do país, controladas pelo MPLA.
Numa dessa áreas está estabelecido o Quartel-General do nosso Movimento”. Dirige-se directamente “aos nacionalistas angolanos refugiados nos países vizinhos” e insiste: “Todos os angolanos sinceramente patriotas têm de regressar agora ao interior do país. Têm de trabalhar”.
Agostinho Neto preside a uma reunião de guerrilheiros do MPLA
numa Chana do Leste
Ao sucesso da luta armada, ao sucesso da organização de células clandestinas nos centros urbanos, juntam-se sucessos no plano internacional. Na Europa, há comités de apoio aos movimentos de libertação das colónias portuguesas em quase todos os países, mesmo numa França que recusa sempre visto de entrada a Agostinho Neto. Nas Nações Unidas, a posição de Portugal torna-se difícil. Nesta frente, a mais importante das vitórias ocorre a 20 de Junho de 1968, data em que a OUA reconhece o MPLA como único representante e organização combatente do povo angolano retira todo o apoio à FNLA.

Também em 1968, o ditador português, António de Oliveira Salazar, cai de uma cadeira e sai de cena, sendo substituído por Marcelo Caetano, que promete reformas, tenta liberalizar e modernizar o sistema, mas não consegue senão aumentar o descontentamento em todos os sectores, menos o dos velhos salazaristas. (…)

Não crê que o sucessor de Salazar mude a política colonial portuguesa mas refere, com satisfação, que todas as organizações democráticas se pronunciam contra a guerra colonial. “Os portugueses antifascistas e os anti-colonialistas são nossos aliados”, disse Neto em Cartum, “e isso dá-nos a certeza de que não existem contradições insolúveis entre o povo de Angola e o povo português”. (…)

Sobre a situação em Angola, revela a chegada das forças da guerrilha à 5ª Região, o estratégico Bié, coração do país onde sonhava construir uma nova capital, enquanto nas zonas libertadas novas escolas primárias foram criadas, nelas se estudando por livros concebidos e editados pelo MPLA, enquanto “centenas de militantes recebiam treino no exterior, em países amigos”. (…)

Em Outubro e Novembro, dezenas de prisões levam à transformação do forte de S. Pedro da Barra – que protegia a entrada da baía de Luanda no tempo dos navios à vela – numa das piores cadeias políticas da colónia. Outras serão abertas, incluindo a de S. Nicolau, em Moçâmedes. Manuel Pedro Pacavira, um dos muitos patriotas que por lá passou, guarda na pele das costas e na memória as recordações desses tempos. (…)

Não houve 25 de Abril em Angola. Nem 1º de Maio. Durante quase duas semanas, quem vive em Angola vive num tempo suspenso. O último governador-geral, Santos e Castro, cumpre o programa pré-estabelecido de visitar uma fábrica quando em Lisboa nascem cravos no cano das espingardas. Interrogado por um jornalista, diz simplesmente: “Manterei a totalidade das minhas funções e responsabilidades enquanto não receber ordens em contrário…”


O golpe militar em Portugal encontra Agostinho Neto no Canadá, em busca de apoio ocidental para o MPLA e a manter contactos com a Cabinda Gulf Oil. Mais tarde, assistir-se-ia ao impensável: militares cubanos a protegeram as instalações petrolíferas americanas, americanas, de angolanos financiados e armados pelos Estados Unidos e pela China.

Agostinho Neto, perante as hesitações do general Spínola em reconhecer o direito à autodeterminação e à independência das colónias portuguesas, faz saber que a luta armada só terminará quando quem manda em Portugal aceitar “a independência imediata e total de Angola”. (…)

Uma trégua tácita já parou a guerra com a potência colonial quando o acordo de Lunhameje, assinado a 21 de Outro numa tenda levantada no meio da chana do Lucusse, lhe põe um fim com carimbo oficial. Agostinho Neto chefia a delegação angolana, que chega ao local do encontro por uma picada aberta a pulso, onde um camião “Kratze” não consegue passar.

Neto e o almirante Cardoso assinam o acordo de tréguas.
Do lado português, a delegação, presidida pelo almirante Leonel Cardoso, virá de helicóptero e, com ela, alguns angolanos. O que poderia ter sido um momento feliz foi, também de mágoa. Costa Andrade (Ndunduma), um dos presentes, conta que entre os guerrilheiros e alguns recém chegados de Luanda estalou acesa discussão. Estes últimos defendiam a tese de o direito à nacionalidade ser reservado apenas aos angolanos negros, enquanto os brancos e mestiços que tivessem participado na luta a deveriam requerer. Quando veio à baila “a esposa de raça branca”, Neto levantou-se, abandonou o local e foi sentar-se debaixo de uma árvore, caderno de apontamentos sobre o joelho, ensimesmado e triste, como documenta uma foto hoje célebre, tirada por Marise Taveira.
“Se as coisas estão assim em Luanda, depois destes anos todos, penso que então chegou para mim o momento de descansar. Vou dedicar-me à medicina, estar mais tempo com a minha família e deixar a presidência do MPLA”, desabafou Neto para “Ndunduma”. (…)

A 8 de Novembro chega a Luanda, de avião, a primeira delegação oficial do MPLA, chefiada por Lúcio Lara, integrando membros do Comité Central e das organizações de massas. Instala-se no nº. 100 da Rua João de Almeida, à Vila Alice, vivenda de dois pisos com quintal à frente e traseiras para a estrada de Catete. A maioria do que restava da população branca, já consciente de que a miríade de “partidos políticos” por ela recém-formados não seriam ouvidos nem achados, e falhada uma tentativa de independência unilateral, “à rodesiana”, torna-se sobretudo “simpatizante” da FNLA e da UNITA, também já instaladas na capital.

A chegada de Agostinho Neto a Luanda, na manhã de 4 de Fevereiro de 1975, é apoteótica. Nunca se viu, antes, nada assim, tão espontâneo, tão sentido, tão exaltante. Cálculos por alto apontam mais de cem mil pessoas, a fazerem o que podiam para caber no aeroporto e na pista de aterragem, invadida mal o avião parou. Uma desta única, global, aquela de que se guarda recordação e de que quem a viveu falará sempre.
Chegada de Agostinho Neto a Luanda.
Neto, ficou demonstrado ali, era aquele por quem se esperava. A acenar do alto de um pequeno carro blindado do exército português, todas as medidas de segurança completamente rotas, acabou por conseguir chegar ao edifício do aeroporto. Da varanda de ver chegar as partidas, o presidente do MPLA, quando consegue dominar a emoção, agradece de improviso a extraordinária recepção e lembra:

“O nosso Movimento, O MPLA, tem simplesmente um desejo: é que a partir de agora harmonizemos os nossos esforços. Nós temos de fazer com que o nosso povo se sinta realmente senhor do seu país, que seja livre, que a unidade e a democracia não sejam palavras que nós pronunciemos simplesmente diante dos microfones, mas que sejam os ideais que na realidade nós defendemos”. O seu desejo não foi ouvido.
Ainda nessa ocasião, Agostinho Neto faz o que pode para sossegar a população de origem europeia. Refere que o piloto do avião que o trouxe, o comandante Casanova Pinto, foi seu colega de liceu, e refere a maneira como foi recebido na escala pela base aérea de Henrique de Carvalho, que “mostra que a colaboração é possível dentro da independência, que a amizade é possível dentro da democracia”. (…)
Após o Acordo de Alvor Neto  visitou a Associação Portuguesa de Escritores.
“Na pequena vila algarvia do Alvor, na baía de Lagos, acaba enfim por ser assinado, a 15 de Janeiro de 1975, entre o MFA, o MPLA a UNITA e a FNLA, o acordo final, em que Portugal se compromete a conceder a independência total e completa a Angola em 11 de Novembro, após um governo constituído por elementos provenientes dos três movimentos”. (…)
Agostinho Neto visitando a prisão do Aljube da PIDE onde esteve.
No mesmo mês das assinaturas do Alvor, a CIA fornece ajuda militar à FNLA no valor de 300 mil dólares. A parada sobe para os 14 milhões de dólares, quando o MPLA, com o apoio da população, expulsa os homens de Holden Roberto de Luanda. Estes reconhecem-se facilmente: a maioria só fala lingala e quase todos, usam óculos escuros de aro metálico.

A família de Neto chega à capital a 25 de Abril de 1975 e instala-se numa vivenda no bairro do Saneamento, perto do Palácio do Governo. Está decretado o recolher obrigatório das 9 da noite às 6 de manhã. É o tempo de as balas tracejantes abrirem caminho alto à outras que não se vêem. A morte em combate do comandante Jika, em Cabinda, agrava ainda mais a situação. De dia, o ritmo é outro: um barulho surdo e continuado, de gente a pregar caixotes na cidade do asfalto. De gente que desiste e só pensa em partir. O mesmo se passa noutras cidades de Angola. (…)

Em Agosto, o Governo de transição desfaz-se. Os ministros da UNITA partem para o Sul, os da FNLA para o Norte. Começa a segunda guerra de libertação. Do Norte desce uma FNLA carente de oficiais, devido ao fuzilamento, em Kinkuzo, dos mais de setenta que se revoltaram contra Holden Roberto, dois anos antes. Com ela, a elite da tropa de Mobutu e mercenários portugueses e de outras nacionalidades. A Sul, Jonas Savimbi espera o exército regular sul-africano, que entra em Angola pela Namíbia e sobe pela Huíla, Huambo, parte do Bié e Benguela, chegando uma das suas pontas de avanço até cerca de 150 quilómetros de Luanda. No meio, o MPLA parece presa fácil, tanto mais que a URSS pouca ou nenhuma ajuda fornece. Essa virá, sim, da Jugoslávia, sobretudo em armamento; de Cuba, em homens experimentados e combativos; também de Moçambique e da Guiné-Bissau e ainda de alguns outros países africanos, poucos. Da Argélia, da Nigéria e da Guiné-Conakry de Sekou Touré, que envia um batalhão, armas e meios logísticos. Rosa Coutinho, um dos Altos-comissários, ajudara tanto quanto pudera. Muitas armas passaram dos quartéis para outras mãos. (…)
Arrear da Bandeira portuguesa no Palário do Governador.
Ao pôr do Sol do dia 10 de Novembro, a bandeira portuguesa é arriada pela última vez no Palácio do Governo e na Fortaleza de Luanda. De manhã, no salão nobre do Palácio, o último alto-comissário, Leonel Cardoso, fizera a declaração de despedida: “Portugal entrega a Angola aos angolanos, após quase 500 anos de presença. (…) Portugal parte sem sentimento de culpa e sem ter de que se envergonhar. (…) A única recriminação que poderá aceitar é a de ter dado provas de extrema ingenuidade política quando concordou com certas cláusulas do Acordo de Alvor”.

Uma semana antes, a cidade branca acabara de se esvaziar. Quase meio milhão de portugueses, em ponte aérea ou de barco, regressou a Portugal. Um país a nascer ficou sem quadros essenciais. Alguns, poucos, permanecem. Para esses, tornou-se há muito automático um certo aperto de mão em três movimentos, espécie de sinal de reconhecimento de que é do “M”.

 

Êxodo dos portugueses abandonando tudo o que tinham devido
à falta de segurança que lhes tornou a vida em Angola impossível.
No dia da independência, Luanda está praticamente cercada. A norte, na margem direita do Bengo, tinham tomado posições forças militares da UPA, seus aliados do Zaire e mercenários comandados por um coronel português Santos e Castro. Os canhões térmicos fornecidos por Pretória, que também apoia esta frente, têm a capital ao seu alcance. A Sul, perto da margem esquerda do Cuanza, preparavam-se para o assalto as forças da UNITA, apoiadas e reforçadas pelas tropas regulares da África do Sul. (…)
Às zero horas de 11 de Novembro de 1975, a bandeira da República Popular de Angola sobre no mastro, com elementos sobreviventes do 4 de Fevereiro de 1961 a prestar-lhe guarda de honra e sob o olhar de todos os luandenses que conseguiam vê-la, mesmo de longe.

“Em nome do Povo Angolano, o Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) proclama solenemente, perante a África e o Mundo, a independência de Angola”. – foram as primeiras palavras de Agostinho Neto. “Nesta hora, o Povo Angolano e o Comité Central do MPLA observam um minuto de silêncio e determinam que vivam para sempre os heróis tombados pela independência da Pátria”, prosseguiu. E foi no silencio que subiu e se desfraldou a bandeira da catana e da roda dentada ao centro, sobre as cores de sempre do “M”, o vermelho e o amarelo. Não está presente nenhum representante de Portugal. (…)

As formalidades de investidura no cargo de Presidente da República serão cumpridas, nesse mesmo dia, no salão nobre da então extinta Câmara Municipal. Do Largo da Mutamba, onde não cabe mais ninguém, levanta-se uma explosão de aplausos, abafando o som das armas pesadas que troam ao longe. A tenaz fecha-se sobre Luanda. A Norte, a três dezenas de quilómetros mal medidos, está estabelecida a primeira e única linha de defesa, em posição elevada. Tudo quanto é capaz de atirar está ali, mesmo peças da II Guerra Mundial deixadas para trás pelo exército português. Nas trincheiras ouvem-se línguas de muitos países. Numa ponta do morro há marinheiros portugueses, os que foram maltratados pela FNLA em Santo António do Zaire e estão sedentos de vingança.
A “arma secreta” é constituída por dois grandes camiões de origem soviética que disparam salvas de 40 mísseis, os chamados “monakaxitos”. Tudo está pronto para o que ficará na história de Angola como a vitoriosa batalha de Kifangondo. Que se trava ainda as emoções da “Dipanda” estão quentes. (…)
Agostinho Neto em 1975 com alguns dirigentes principais do MPLA
Poucas horas antes, (Agostinho Neto) tocaria um outro ponto, muito sensível: a presença de milhares de militares cubanos, à altura cerca de 10 mil. E a quantidade de material de guerra de origem soviética constituíam motivo de forte preocupação para as potencia ocidentais. Falando nas comemorações da 19º aniversário da fundação do MPLA, Agostinho Neto separou as águas: “Não nos venham dizer que pelo facto de sermos ajudados por países socialistas, isso significa que nós estamos a seguir a sua política. Não é nada disso. No MPLA sempre seguimos uma política de não alinhamento. Nenhum país no mundo pode dizer que ditou, que orientou, a política do MPLA”.(…)
Agostinho Neto  Presidente de Angola
Como Presidente da República Popular de Angola, Neto continuou a ser o mesmo homem de gostos simples, a exigir de si sempre mais do que pedia aos outros, para exemplo. (…)
Morreria sem sequer prover a segurança financeira da família, (o sublinhado é nosso) agora a viver no enorme Palácio, com os constrangimentos protocolares e outros daí resultantes. A pretexto de que o edifício precisava de obras, O presidente muda-se para uma vivenda no Futungo de Belas, onde se mantém hoje a verdadeira sede do poder. (…)
Maria Eugénia Neto
(viúva de Neto, foto actual)
Nesse mesmo ano de 77, em que o 1º Congresso Nacional proclama a constituição do MPLA em Partido do Trabalho e define a via socialista, Luanda assistirá a uma tentativa de golpe de Estado, com a mão escondida da União Soviética e, bem à mostra, a de pessoas politicamente formadas em Portugal, agindo conta própria ou não, vá lá saber-se…O “golpe” ocorre a 27 de maioe custa a vida a sete membros do Comité Central. A sua preparação vem de muito antes, com três nomes à cabeça: José Van-Dúnem, Nito Alves e a portuguesa Sita Valles.

No regresso de uma demorada visita à União Soviética, o ex-comandante da 1ª Região Político-Militar, geralmente tido como o “delfim” de Agostinho Neto, inicia na antiga Câmara Municipal uma série de conferências, duas das quais publicadas no Jornal de Angola. Utiliza uma linguagem hermética, adoptada pelos que viriam a ser conhecidos por “fraccionistas” que se infiltraram até aos mais altos níveis do aparelho do MPLA, governo e exército incluídos.

O pretexto utilizado é a política económica, que consideram demasiado moderada; a urgência de uma industrialização capaz de formar uma classe operária forte; e a presença de demasiados brancos e mestiços no Governo. Em Outubro de 1976, uma reunião do Comité Central condena Nito Alves por fraccionismo e extingue o Ministério do Interior que ele dirige. Uma comissão de inquérito recebe o encargo de investigar informações que Van-Dúnem e Nito Alves provocaram uma deliberada quebra nos abastecimentos e atrasaram o pagamento de salários à FAPLA, a fim de criarem uma vaga de descontentamento. A comissão dá as acusações como provadas e ambos são expulsos do Comité-Central, em princípios de Maio.

A 27, tem lugar o golpe: a cidade acorda com soldados armados nas principais artérias, a Rádio Nacional cai nas mãos dos revoltosos e começa a transmitir propaganda nitista. Antes, homens armados raptaram elementos-chave. Um dele, Hélder Neto, chefe de Segurança, prefere suicidar-se.

Não há qualquer reacção até se revelar quem, no Quartel-General, participa na acção. Logo que tal acontece, os “putchistas” são esmagados. Segue-se dura repressão. Oito governadores provinciais, nomeados por Nito, são demitidos. Os principais responsáveis, julgados e fuzilados. Centenas de “nitistas” são colocados em campos de reeducação. Angola, já exangue de quadros, ficou-o ainda mais – e mais dependente do exterior. Em consequência do Movimento de Rectificação que se seguiu, o número de militantes do MPLA baixou de 110 mil para 32 mil membros. E esta é, ainda hoje, uma das páginas mais sombrias da história de Angola independente. (…)
Presidente Agostino Neto já doente
(foto particular).
Já doente, Agostinho Neto percorre o Moxico, Bié, Cuando-Cubango, Malange e Uíge, como que a despedir-se do país a que se consagrou. De uma das vezes em que dirige à população, dirá mesmo não haver homens insubstituíveis. A 10 de Setembro de 1979, morre (assassinado) numa mesa de operações do principal hospital de Moscovo. Foi assim…
Funeral de Agostinho Neto em Luanda.
A vida de um homem do tamanho deste filho de África não se conta numa noite. Ficou muito por falar, muitos nomes por dizer, muitas estórias pequenas, algumas grandes também, guardadas para outra fogueira, se for o caso…Não se pode chorar mais.
O povo em Luanda chorando a morte do seu Presidente.
O povo já chorou tudo quanto podia, quando lhe foi receber o corpo embalsamado ao mesmo aeroporto que transbordara de alegria naquele 4 de Fevereiro de 75, aos gritos de “Neto” Neto! Neto”. Agora gritou, sem ser em coro: “Mataram-no, mataram-no!”, com as mulheres a rasgarem os panos e a cobrirem a cabeça de terra. Já chorámos tudo. Nem komba (ritual de luto com carpideiras) teve, nosso Pai da Pátria, guardado num caixão de vidro para a gente o ver, aiué!, para a gente o ver como ele não estivesse connosco, dentro de nós, sagrada esperança.
NR: Faz hoje 36 anos o primeiro dia da independência de Angola, pelo que se recorda aqui a vida do primeiro presidente da República Popular de Angola.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Terra dos Condenados, por Luciano Amaral

De Caetano ao 25 de Abril, e do 25 de Abril ao PREC  às independências.
Os novos países.

 Para lêr o texto, clicar AQUI

segunda-feira, 22 de março de 2010

DESCOLONIZACAO DE ANGOLA: De "ANGOLA - DATAS E FACTOS" - 5º e 6º Vol.


---De "ANGOLA - DATAS E FACTOS" - 5º e 6º Vol. do autor :

------------------- 1973 -------------------

-- JUNHO - 1/3 -- 400 oficiais do Quadro Permanente manifestaram-se contra o 3º "CONGRESSO DOS COMBATENTES DO ULTRAMAR" realizado no PORTO.
-- JULHO - 13 -- Publicação do Decreto-Lei 353/73(originado por..."um grupo de jovens milicianos ao nível de majores e capitães", com intervenção nas guerras coloniais"...) o qual permitia a participação de oficiais do Quadro Complementar (milicianos) em condições mais fáceis dos que as anteriormente exigidas para o Quadro Permanente. O Curso da Academia Militar, com 4 anos de duração, era igualado por um Curso (de milicianos) apenas com a duração de dois semestres ! Tentavam assim defender alegados"...direitos adquiridos"...e que não os reconheciam aos seus colegas milicianos,ou a defesa duma "classe militar diferente", muito embora fossem esses direitos e deveres os mesmos "em tempos de guerra" ? - de "ANGOLA DATAS E FACTOS" - 6º volume - 1975/2002 -- pgs. 236, do autor --
-- AGOSTO - 20 -- Decreto-Lei 409/73 -- Altera o Decreto-Lei anterior mas em que..."continuava favorecendo a posição dos majores"... e ..."desfavorecendo a dos capitães"... O governo recuava, mas não pretendia revogar aquela legislação !
-- AGOSTO - 25 -- Reunião dos oficiais ("capitães contestatários") do Quadro Permanente do Exército, em serviço na GUINÉ, incluindo alguns majores, apresentam uma exposição ao Presidente da República e ao Secretário de Estado do Exército, contra os Decretos aprovados sobre a situação dos restantes colegas(milicianos), o que não lhes agradou! A reclamação, porém, contrariava as normas da disciplina militar.
-- SETEMBRO - 9 -- Primeira reunião do "Movimento dos Capitães",em ÉVORA.Foi apreciada a realização do Congresso dos Combatentes (3º - de 1 a 3 de Junho),no PORTO.
-- SETEMBRO - 9 -- Oficiais das Forças Armadas em comissão de serviço em ANGOLA, reuniram-se discordando do Decreto-Lei 353, de 13 de Julho, apoiando os seus colegas reunidos nesse dia em BISSAU e em ALCÁÇOVAS (ÉVORA) -
-- OUTUBRO - 12 -- Suspensão dos Decretos 353 e 409 (de Julho e Agosto) -
-- NOVEMBRO - 24 (22 ?) -- Numa reunião de oficiais na Colónia Balnear do "SÉCULO" (em S.PEDRO DO ESTORIL), foi admitida a preparação dum golpe militar contra o governo de MARCELO CAETANO. Era o "Movimento dos Capitães". Foi proposto o fim da "guerra colonial" através desse derrube, tendo o apoio de alguns civis notáveis.


-- DEZEMBRO - 1 -- Após a reunião do dia 24 de Novembro e num novo encontro, em ÓBIDOS, surgiu o "Movimento dos Oficiais das Forças Armadas".Estiveram presentes 80 oficiais. Foi nomeada uma Comissão Coordenadora Geral integrando as comissões das várias Armas e Serviços. Nesta reunião foi admitido o uso da força militar e uma maior abertura à Imprensa, em especial ao jornal "Expresso".
-- DEZEMBRO - 5 (8 ?) -- Nova reunião de oficiais criando uma Comissão Coordenadora com 19 elementos (na COSTA DA CAPARICA); foi ainda nomeada uma Comissão Executiva para elaborar um Plano de Acção, constituída por : VICTOR ALVES - VASCO LOURENÇO e OTELO SARAIVA DE CARVALHO. Aprovam o documento "O Movimento, as Forças Armadas e a Nação", que foi assinado por 111 oficiais.
-- DEZEMBRO 17 -- No Instituto de Altos Estudos Militares o major CARLOS FABIÃO denunciara a preparação dum golpe militar sob a responsabilidade do general KAULSA DE ARRIAGA e a participação de : LUZ CUNHA,SILVINO SILVÉRIO MARQUES e ADRIANO MOREIRA.
-- DEZEMBRO - 21 -- Decreto-Lei 685/73 - Revoga legislação militar anterior e aumenta os seus vencimentos, chegando mesmo a atingir o dobro do que antes auferiam. No entanto nem todos ficavam satisfeitos!
-- DEZEMBRO - 31 -- As tropas angolanas integradas no Exército Português em ANGOLA totalizavam 42% das mesmas. As Forças Armadas portuguesas tiveram as seguintes baixas (durante esse ano - segundo informações SIP): - mortos em combate - 83; mortos em acidentes - 41. Desde 1961 haviam falecido 2.991 militares portugueses (em combates - 1.526; em acidentes - 1.210; por doença - 255) e ficado feridos 10.675 (em combates - 4.472; em acidentes - 6.203). O total de efectivos intervenientes fora de 147.200 indivíduos. Os 1.526 mortos em combates pertenciam às seguintes Forças : Armada - 1.088; Marinha - 13; Aviação - 41; Recrutas "coloniais" - 384.
--OBS - Ver : "MORTOS NO ULTRAMAR" - (referência incluida no final de 1975) --

~~~~~~~~~~----------- 1974 ---------------------

-- JANEIRO - 23 -- O "Movimento dos Capitães" denuncia o governo de seguir em ANGOLA e MOÇAMBIQUE a linha de rumo da política da ÁFRICA DO SUL, NAMÍBIA e RODÉSIA, onde a situação se agravava.
-- FEVEREIRO - 2 -- Unificação das Comissões dos "oriundos dos milicianos" com a dos oficiais do Quadro Permanente sob a orientação e apoio de VICTOR ALVES, na reunião de OEIRAS, e talvez com certa tolerância de MARCELO CAETANO e da DGS.
-- FEVEREIRO - 16 -- Discurso de MARCELO CAETANO na Conferência da Acção Nacional Popular, referindo-se à solução federativa ultramarina, embora talvez já ultrapassada pelos acontecimentos :..."Qualquer evolução que se processe sob a égide de Portugal nas províncias ultramarinas há-de ter como condição essencial a prossecução da convivência pacífica de todas as raças e o acesso às funções em razão da capacidade e dos méritos e não pela cor da pele.Somos responsáveis pelos milhões de portugueses pretos e brancos que pacificamente labutam e querem viver sob a bandeira verde-rubra na África, na Ásia e na Oceania. Para que em paz possam continuar a viver, e desse convívio vá resultando uma sociedade de cada vez mais acentuado multirracialismo, sem tensões internas de etnias, com plena despreocupação quanto à cor de cada um, em ambiente de fraterna compreensão, colaboração e amizade é que estamos a lutar"...
-- MARÇO - 5 -- O "Movimento dos Capitães" reuniu-se em CASCAIS e passou a designar-se "Movimento das Forças Armadas" (MFA), distribuindo pelos Quartéis as suas "bases programáticas"; pretendia englobar a Marinha e a Força Aérea, tendo decidido pela liderança de SPÍNOLA e COSTA GOMES.
-- MARÇO - 12 -- O projecto do golpe militar para o dia 14 não teve o apoio dos "páras" na reunião de DAFUNDO, que preferiram o general KAÚLZA. MARCELO CAETANO não obteve o apoio de COSTA GOMES, que contrariava a Assembleia e o Governo.
-- MARÇO - 15 -- Os capitães "contrariados" apresentam-se no gabinete do Comandante.
-- MARÇO - 16 -- "Falsa saída" das forças militares (MFA) das CALDAS DA RAINHA sob o comando de LUZ VARELA (esteve em ANGOLA em 1962/64) para uma tentativa de revolta e apoio ao general SPÍNOLA, tendo sido presos 33 oficiais e transferidos para outras unidades.MARCELO CAETANO foi encaminhado para o Quartel General de MONSANTO. Nesse dia,em LAMEGO, uma granada de mão fizera algumas vítimas acidentais.
-- MARÇO - 24 - Em nova reunião o MFA(MOFA) decide da urgência do golpe militar.
-- ABRIL - 23 -- OTELO SARAIVA DE CARVALHO entrega a alguns oficiais o plano para o golpe militar a efectuar entre os dias 24 e 25, sendo a "senha" o jornal "ÉPOCA".
-- ABRIL - 25 -- A "Revolução dos Cravos", em LISBOA,com militares das Forças Armadas Portuguesas (seis Companhias)provenientes de várias zonas e unidades, avança sobre os pontos estratégicos da capital. O sinal para o início da Revolução fora dado pela transmissão via rádio da canção "E depois do adeus" (por PAULO DE CARVALHO), transmitida pelas Emissoras Associadas de LISBOA na véspera, cerca das 23 horas; a transmissão da canção "GRÂNDOLA, vila morena" (por ZECA AFONSO), pela Rádio Renascença, depois da meia noite, foi o sinal para o avanço dos revolucionários do MFA, com o predomínio dos "Spínolistas" e da linha de OTELO.
...O governo de MARCELO CAETANO deixava a..."pesada herança"... de 872 toneladas de ouro em barra e 100 milhões de dólares em divisas !!

-- ........( E depois do 25 de ABRIL ?!! .......) : --

-- MAIO - 2 -- MÁRIO SOARES encontra-se "acidentalmente" com AGOSTINHO NETO em BRUXELAS. NETO estava então "abandonado" pelos soviéticos e sem grande representação política entre os ditos revolucionários nacionalistas. SOARES inicia o..."seu projecto de descolonização".
-- MAIO - 3 -- NETO declara então "...A luta não cessaria em Angola enquanto não fosse reconhecido o direito à autodeterminação e independência". Libertação em ANGOLA de 1.200 presos "políticos".
-- MAIO - 6 -- Alguns "revolucionários" de Abril reconheceram que a classe política portuguesa não estava preparada para dar sequência à nova situação e que lhes surgira como uma autêntica surpresa.O segredo estivera só entre militares, mas certa imprensa (nacional e estrangeira)soubera de alguma coisa !
-- MAIO -- MÁRIO SOARES considera os três principais "Movimentos de Libertação" de ANGOLA como..."únicos e legítimos representantes dos povos dos territórios colonizados"...
-- JUNHO - 9 -- Em face da instável situação que se verificava, PALMA CARLOS dizia a COSTA GOMES :..."Isto vai acabar já! Esses homens recolhem imediatamente a quartéis,pois não foi para isso que fizemos o 25 de Abril".
-- JULHO - 7 -- MÁRIO SOARES declarava : ..."Angola é grande, há grandes interesses em jogo"... - "O governo português jamais abandonará portugueses; negociará com os Movimentos, em ordem a chegar à paz"...
-- JULHO - 12 --... O Ten.Cor.ALMEIDA BRUNO, Chefe da Casa Militar da Presidência, considera o 25 de Abril..." um levantamento precipitado"... e que tinha aderido..."na esperança de avançar, ainda, com o sonho de uma descolonização, que não destruísse os nossos 500 anos de História"... Quanto à situação de ANGOLA antes do 25 de Abril, declarava : ..."Estava completamente nas nossas mãos... Nós podiamos ter feito uma descolonização exemplar"..." -- "...a descolonização foi a entrega de todos os territórios à zona de influência da União Soviética. Esta é que é a verdade"...
-- JULHO - 19 -- Num comício do PS, em CASCAIS,MÁRIO SOARES (Ministro do Governo Provisório), afirmou : ... "O processo de descolonização está a ser desencadeado com a celeridade que é possível e de molde a garantir o património daqueles portugueses que ajudaram a desenvolver os territórios africanos"...
-- JULHO -- 22 - Assembleia Geral do MFA em LUANDA, utiliza a referida Comissão de Inquérito como "capa" para decidir sobre a substituição do governador SILVÉRIO MARQUES, já exonerado desde o dia 16..."Afinal tudo havia sido "cozinhado" mesmo antes da chegada de Rosa Coutinho e logo que foram conhecidas as razões da sua vinda"... de : "ANGOLA -Anatomia de uma Tragédia" , SILVA CARDOSO, Fls. 379 .
-- JULHO - 27 -- O Presidente SPÍNOLA, no seu discurso, declara que..."O processo de descolonização significava o direito à independência política com transferência de poderes para as populações dos territórios ultramarinos"... Desistia assim do seu "ideal federalista" e desperta a formação de partidos da direita("Liberal" e o "Progresso"). Publicação da Lei nº 7/74.
-- AGOSTO - 4 -- Em vários locais de ANGOLA a bandeira nacional já havia sido substituída pela do MPLA !
-- AGOSTO - 8 -- COSTA GOMES afirma..."A descolonização acelera-se com vantagens e inconvenientes em relação ao planeamento inicial"...(?)..
-- AGOSTO - 9 -- SPÍNOLA, vendo o mau caminho para a Descolonização, decide-se e a Junta de Salvação Nacional comunica :..."A Junta de Salvação Nacional reitera solenemente, perante toda a população de Angola, que o Governo Provisório tomará todas as medidas necessárias a salvaguardar a vida e os haveres dos residentes de Angola de qualquer cor ou credos de acordo com o Programa das Forças Armadas"... !
... Em muitas povoações e mesmo cidades a população evitava sair de casa por falta de segurança nas ruas; podia acontecer não regressar para junto da sua família !
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-- AGOSTO -- SILVA CARDOSO desloca-se ao Luso para um encontro com SAVIMBI...De regresso a LUANDA deu conhecimento à Junta Governativa das diligências efectuadas e das suas apreensões sobre a dificuldade que constatara existir para um futuro desarmamento dos "Movimentos" em litígio, ao que ROSA COUTINHO ripostara..."Isto é selva e na selva só sobrevive a lei do mais forte e, por isso, não vale a pena estarmos para aqui com fantasias e cada um procurará armar-se o mais possível; até no campo político, o sucesso depende muito do factor força"... (de : "ANGOLA, ANATOMIA DE UMA TRAJECTÓRIA", do general SILVA CARDOSO, pgs. 399 - 4ª edição - 2001 - -- SETEMBRO - 23 -- ROSA COUTINHO regressa de LISBOA e anuncia que o Presidente da República passará a liderar o processo da descolonização nas relações internacionais e de nelas tomarão parte os representantes angolanos. Já antes SPÍNOLA afirmara :..."tomava em suas mãos o processo de descolonização de ANGOLA"... !
-- SETEMBRO - 29 -- Nova manifestação de apoio ao MFA contra SPÍNOLA.O general COSTA GOMES afirmava categórico :..."No processo de descolonização, tudo faremos para respeitar os legítimos interesses das populações locais"...
-- OUTUBRO - 20 -- SILVA CARDOSO regressa a ANGOLA com todo o apoio de COSTA GOMES. Do seu regresso de MOÇAMBIQUE, MELO ANTUNES teria afirmado em LUANDA, admitir a hipótese da intervenção de forças políticas no processo da descolonização :..." estou optimista relativamente a uma solução política para o problema de Angola a curto prazo"... -- "... Portanto, prevejo um futuro para Angola em que as forças políticas mais significativas, tanto dos movimentos de libertação, como de residentes angolanos sejam eles de qualquer etnia que se considere terão a sua representação política e acabarão por encontrar os esquemas políticos adequados que levem até à independência "...
-- OUTUBRO - Nunca os "capitães de Abril" imaginaram, ou pensaram, como devia ser, o que poderia acontecer após a sua revolução!
Acabaram todos por serem ultrapassados pelos acontecimentos (pois não era esse verdadeiramente o seu principal objectivo), muito além do projecto inicial, mais voltado para a normalização das carreiras militares dos oficiais milicianos. O processo da Descolonização pecava por imensos erros e desconhecimento da realidade ultramarina e por decisões de última hora !
O conceituado fundador e militante da FUA, SÓCRATES DÁSKALOS, impulsionador da Casa dos Estudantes do Império e membro da Comissão de Descolonização presente na 29ª Assembleia Geral das Nações Unidas, afirma na sua obra "Um Testemunho para a História de Angola" - do huambo ao huambo" - 2000 - fls. 157 :..."Em princípio a comissão devia funcionar como órgão consultivo. Mas nunca funcionou : não reunia, ninguém lhe prestava atenção nem nunca foi consultada pelo que era ali considerado a vedeta da descolonização portuguesa, o senhor Mário Soares ! Este pavoneava-se pelos corredores da ONU, cumprimentava à esquerda e à direita como se fosse o grande herói da descolonização!... -- ... "Mário Soares nunca reuniu com a comissão, nunca nos consultou mas permitia-se dar conferências de imprensa onde, às vezes, o que dizia não era verdadeiro. Foi o que aconteceu numa delas quando se referiu a uma dada situação referente ao presidente Neto que não era verdadeira. Logo após a conferência fui contactá-lo e comuniquei-lhe a "gaffe" que tinha cometido. E então, Mário Soares, um tanto abespinhado, perguntou-me : "Como é que o senhor soube isso '" . "Li no jornal "Le Monde", respondi. "Ora bolas!, há oito dias que não leio o "Le Monde" - retorquiu o herói da descolonização. -- Face a tanta leviandadade (aliás aparente porque entretanto o senhor Mário Soares "cozinhava" com Mobutu e Nixo o reconhecimento da UNITA pela OUA e pela ONU, pois até àquela altura esse movimento ainda não tinha sido reconhecido por estes
órgãos máximos de África e do Mundo), resolvi voltar para Angola.
-- NOVEMBRO - 28 -- MÁRIO SOARES declara ter proposto aos três "Movimentos de Libertação" uma "Mesa Redonda" para decidir sobre a concessão da independência de Angola.
-- NOVEMBRO - 29 -- ROSA COUTINHO regressa de LISBOA e confirma as declarações de MÁRIO SOARES, referindo-se apenas ..."aos movimentos de libertação como legítimos representantes do povo angolano"... , esquecendo o Plano da Junta de Salvação Nacional.
-- DEZEMBRO -- Ainda sobre as consequências da Revolução de 25 de Abril e dos constantes fracassos das conversações e dos "desacordos" com os "Movimentos de Libertação", afirma ORLANDO RIBEIRO na sua obra "A Colonização de Angola e o seu Fracasso" - fls. 47 - "...Na literatura que conspurcou paredes e monumentos, o abandono do Ultramar apareceu em evidência sem que a ninguém preocupasse o destino de meio milhão de portugueses que lá viviam, trabalhando duro, embora muitas vezes traficando sem escrúpulos. O governo não negociou - abdicou -, e nesta..."apagada e vil tristeza"...se afundou o mais antigo e o último império colonial"... - e, ainda, a fls. 378 e sobre o caso de ANGOLA, afirma : -..."o governo português não fez nada para lhes garantir, perante os novos senhores, pessoas e bens; mestiços e a clientela preta engrossaram a debandada"...

------------------- 1975 -------------------

-- JANEIRO - 10/14 -- Reunião no Hotel da PENINA (ALVOR - ALGARVE) dos representantes do governo de PORTUGAL(MÁRIO SOARES, MELO ANTUNES e ALMEIDA SANTOS) e dos dirigentes dos "Movimentos de Libertação" angolanos : MPLA - UNITA e FNLA, respectivamente : AGOSTINHO NETO(com LÚCIO LARA e LOPO DO NASCIMENTO); JONAS MALHEIRO SAVIMBI(com JEREMIAS CHITUNDA e JOSÉ N'DELE) e HOLDEN ROBERTO (com JOHNNY EDUARDO e KABANGE)... estando presentes mais alguns membros da Delegação Portuguesa : FERNANDO REINO, PASSOS RAMOS, PEZARAT CORREIA, SILVA CARDOSO.

-- JANEIRO - 15 -- Assinatura do Acordo de Alvor entre as referidas entidades tendo saído fixada a data de 11/11/1975 para a proclamação da independência de ANGOLA e aos considerados então como "...únicos e legítimos representantes do povo angolano"... (portanto o destino de 6,5 milhões de habitantes, sendo cerca de 600 mil brancos e sem qualquer representante político)!...
-- FEVEREIRO -- AGOSTINHO NETO visita o Alto-Comissário SILVA CARDOSO ; estava "desiludido e desamparado"; já não tinha o apoio de ROSA COUTINHO nem o de MÁRIO SOARES, já desligado da "Descolonização"....
-- MARÇO -- 28 -- Assinatura do Protocolo do Acordo entre MPLA e FNLA...sobre distribuição de poderes e competências militares.
-- JUNHO - 4/6 -- A FNLA e a UNITA passam a controlar na zona norte a designada "estrada do café", enquanto boa parte da sua população era evacuada para LUANDA pelos aviões da FAP e outras, com as suas própria viaturas, numa última tentativa de salvarem alguns bens e as suas vidas!
-- JUNHO - 7 -- A FAP continuava a evacuação dos residentes das zonas mais arriscadas e dando preferência às mulheres, crianças e idosos ou doentes, até porque muitos dos homens válidos estavam ainda dispostos a manterem-se nas suas posições., defendendo-se, mesmo com o risco de suas vidas..."Mas nada disto importava à nova classe dirigente do País no pós 25 de Abril, quando defendiam a imediata e total independência para as colónias, quando sabiam ou deviam saber que estavam colaborando num projecto de entrega da tutela daqueles territórios a um dos jogadores que tinha perdido no terreno, com confronto armado com os portugueses"...(em : "ANGOLA - Anatomia de uma Trajectória", do general SILVA CARDOSO - fls. 342/343 (já citada).

-- JUNHO -- Com o agravamento dos conflitos entre os "Movimentos de Libertação" angolanos (MPLA - FNLA e UNITA) e o da situação dos seus residentes, avoluma-se o êxodo geral das populações não confiantes na questão que ali se desenrolava . tendo-se iniciado a sua evacuação para as principais cidades e o seu transporte para PORTUGAL, BRASIL e ÁFRICA DO SUL, especialmente a partir da entrada em funcionamento da "Ponte Aérea", com saídas de LUANDA (e ligações de NOVA LISBOA com a colaboração da TAP e "SUISSE AIR").

-- JULHO -- STOCKWELL, membro da CIA, confirma o apoio financeiro dos Estados Unidos À FNLA e à UNITA, no valor de 14 milhões de dólares...Era assim bastante dúbia a política americana. INÁCIO PASSOS, na sua obra "A Grande Noite Africana", afirmara em 1964 (fls. 99)..."A ideologia que enlutou a América no século passado é a mesma que enluta no presente a África negra. Os interesses materiais no passado, o algodão, e no presente, a riqueza africana -disfarçaram-se de "liberdade"... -..."o ódio que na altura não existia no branco contra o negro nasceu, agigantou-se, chegando aos nossos dias como mostram os factos mais hediondos e monstruosos que a imprensa relata !"...

-- JULHO -- MELO ANTUNES, elemento responsável pela "Descolonização" afirmara :..."A perspectiva do governo português não era estimular o regresso da população branca, e sim ajudá-la a continuar no território. Mas era tarde demais... -- ... Por esta altura, em Julho, a população branca em Angola só pensava em rotas de fuga, deixara de acreditar nos bons ofícios de Lisboa; mais de 2.500 veículos partiram, por terra, até Marrocos"... O próprio presidente da UNITA, JONAS SAVIMBI, tinha esta curiosa opinião : ..."Rosa Coutinho fomentou atrocidades contra os brancos para que eles se precipitassem para os portos e aeroportos e para os seus carros - em direcção ao Sudoeste Africano"...(no seu livro "ANGOLA - a resistência em busca de uma nova nação" - 1979 - fls. 67/68. --

-- JULHO -- O ministro de Economia de Angola declara que os membros do Governo de Transição eram incompetentes ! Por sua vez o Comodoro LEONEL CARDOSO revela uma declaração feita pelos "Movimentos de Libertação" durante uma reunião em NAKURU de que ..." o insucesso dos cinco primeiros meses da descolonização tinha sido exclusivamente das suas responsabilidades"... Mas, muitas outras coisas eram ainda de sua culpa, embora acusassem o MFA, o Acordo de Alvor e o Alto-Comissário !

-- AGOSTO - Ainda sobre a "Descolonização", diz MANUEL BRAVO (em : "ANGOLA - Transição para a Paz, Reconciliação e Desenvolvimento" - 1996 - fls. 169 : - ..."Acresce que o abandono dos Angolanos ao seu destino em 1975, sem a realização de eleições livres e justas como estipulado e calendarizado nos Acordos de Alvor (artº 40) e de Nakuru (artº 6º) tornou-se um prego no caixão da diplomacia preventiva e da prevenção do conflito de Angola. O resultado foi descolonização "à la portugaise" que C. Crocker qualificou de o mais irresponsável acto de descolonização em toda a história do pós-segunda guerra mundial "... - ..." Em segundo lugar, pelas próprias Nações Unidas. Nas suas memórias, Waldhein admitiu ter recusado a proposta do governo português para que a ONU o sucedesse na autoridade executiva de Angola até à data da independência"...
-- SETEMBRO - 1 -- Os "retornados" das colónias ocupam o BANCO DE ANGOLA, em LISBOA, exigindo a troca dos seus escudos pelos metropolitanos.
-- SETEMBRO - 30 -- Termina "oficialmente" a operação "PONTE AÉREA" em ANGOLA, por intermédio da qual foram evacuados para PORTUGAL (com partidas de NOVA LISBOA e de LUANDA), cerca de 600 mil dos seus residentes (metropolitanos e angolanos, sem distinção de raças). Durante este mês (?) e em face da presença cada vez maior e concentrada dos deslocados nas cidades de NOVA LISBOA e de LUANDA, foi necessário proceder ao reforço desses meios; assim entraram ao serviço os grandes aviões da ALEMANHA, dos EUA, da FRANÇA, da INGLATERRA, de MOÇAMBIQUE e mesmo da RÚSSIA. As povoações e outras cidades do interior ficavam "desertas", porque, pelo mínimo descuido, corriam um risco máximo, por vezes mesmo o da própria vida! Essa concentração de muitos milhares de pessoas, registava-se em especial nos seus Aeroportos transformados em verdadeiros e quase únicos refúgios que ofereciam uma relativa segurança, onde ainda se podiam ver alguns militares portugueses (às vezes misturados com os outros), em longas horas de espera e angústia, mesmo de dias, sem o mínimo de condições higiénicas nem de outros apoios sempre necessários. Crianças, mulheres, idosos e doentes nem sequer tinham um simples colchão para se sentarem ou deitarem ! Mesmo aí verificaram-se ainda alguns abusos de certas "pseudo autoridades", bem armadas e ameaçadoras !
Tudo faltava; reinava o oportunismo, a especulação, a exploração desenfreada. Era necessário obter os principais meios de sobrevivência e abandonar todos os restantes bem materiais (casa, carros, móveis...) e até empregos; só alguns amigos e familiares mais próximos se iam mantendo unidos. O objectivo principal e final era "apanhar um lugar" num dos aviões da Ponte
Aérea, mesmo abandonando as últimas bagagens ! Bastava a roupa do corpo e a carteira com os documentos, porque os "desgraçados" escudos angolanos, emitidos pelo Banco Português, já de nada valeriam ao chegarem ao Continente (como os tempos mudam !). Os oportunistas lá estariam à espera dos "colonialistas", dos "exploradores" para então sim, os explorarem, para os espremerem até deitarem sangue ! A cada viajante ou pessoa de família ("retornados") só era permitido transferir uns magros dez mil escudos, contrariando promessas assumidas !
-- OUTUBRO -- ..."Do ultramar, milhares e milhares de refugiados vieram reintegrar-se na grei. Alguns apenas com uma camisa debaixo do braço. Abria-se-lhes via dolorosa, para além das amarguras que haviam passado. Na Junqueira, nesses dias sinistros, a massa humana era tratada com o mesmo desprezo com que os negreiros haviam tratado os escravos. Os escravos ao menos eram riqueza, impunha-se cuidar deles com zelo. Os retornados, esses surgiam como fardo para a economia nacional, exangue ao cabo de tantos anos de guerra"... (em "ANGOLA - ANOS DE ESPERANÇA" , de AMÉRICO DE CARVALHO - fls. 179.

-- NOVEMBRO - 6 -- Era a data planeada por AGOSTINHO NETO para se antecipar na proclamação da independência, em vez do dia 11. O respectivo documento fora escrito por CARLOS ROCHA ("DILOLWA"), membro do Bureau Político do MPLA e fazia graves acusações ao governo português; nele se afirmava :..."Essa data só mereceria o respeito do povo angolano e da sua vanguarda, MPLA, se o acordo que a estabeleceu não tivesse sido sistematicamente violado pelos seus subscritores, excepto o MPLA.... Quanto à presença do representante do Governo português em Angola, ela de modo algum se justifica por não se descobrir a sua finalidade. As autoridades portuguesas têm repetido que até ao dia 11 seriam os detentores da soberania. Simplesmente, o nosso território, de há muito invadido a norte, é agora objecto de outra invasão a sul"... -- ... "o povo angolano, o MPLA, verificaram que alguns responsáveis do Governo português não cumpriram como deviam a sua palavra perante a descolonização do nosso país, perante o nosso povo e o mundo. Por isso, no momento em que as conspirações contra o nosso povo têm cada vez mais em vista guindar ao poder lacaios do imperialismo, no momento em que a situação política portuguesa é instável, com reflexos de identificação que se afiguram perigosos para o povo angolano, decide-se por essa proclamação da independência"...Referindo-se às Forças Armadas portuguesas ainda em ANGOLA, afirmava :..." O seu regresso a Portugal deverá efectuar-se o mais brevemente possível, para que lá possam cumprir os deveres para com a sua pátria"... (in "Expresso" de 11/11/2000) -
-- NOVEMBRO - 10 -- às 24 horas, o Alto Comissário português, Comodoro LEONEL CARDOSO, que substituíra SILVA CARDOSO, recolhe a bandeira nacional colocada no antigo Palácio e retira-se para bordo dum barco que estava ao largo, na baía de LUANDA. Anunciava então :..."que estava a proceder à transferência de poderes para o povo angolano, mas o facto é que não havia sequer um angolano ali presente. A bandeira portuguesa foi arreada e cerca de 2.000 soldados portugueses embarcaram para Lisboa, seguindo a mesma rota que Diogo Cão utilizara ao chegar à foz do rio Congo, cinco séculos atrás"... (em "A Igreja em Angola" - de LAWRENCE W. HENDERSON - 1990 - fls. 373 --
-- NOVEMBRO - 11 -- "...A 11 de Novembro de 1975 estavam criadas todas as condições para uma prolongada crise política, económica e social"... - (em "Economia de Angola" - de FÁTIMA ROQUE e outros autores angolanos - 1991 - fls. 76) -
O PIB real "per capita" baixara de 1086 (em 1974) para 729 (em 1975). A média anual da sua taxa rondava os 5%.
-- Fora criado o Ministério para a Cooperação com 2 secretarias : o Gabinete para a Cooperação e um outro para a Descolonização.
-- Durante este último ano haviam sido publicadas as seguintes obras : - "Notas sobre a História Económica de Angola", por J. MACEDO e "Angola na Hora Dramática da Descolonização", por F.B. SANTOS.
-- NOVEMBRO - 11 -- Estava encerrado mais um grande capítulo da História de ANGOLA, porém ..."Não se pode hoje refazer a História, mas a ninguém é interdito analisar os erros cometidos. Os acontecimentos falam por si. O episódio dos retornados foi degradante sob muitos aspectos. Os homens, mulheres e crianças vindos do ultramar eram recebidos, na maioria dos casos, com duas pedras na mão"... -- ... "Depois, ao passivo da colonização há que acrescentar, a meu ver, o passivo da descolonização. O 25 de Abril trouxe a liberdade a Portugal, é inegável, mas não pôde impedir o caos em Angola. Em vários governos predominou em Lisboa, nessa altura, a mais desconsoladora ignorância das realidades do ultramar. A turbulência política relegava para amanhã - um amanhã que nunca haveria de chegar - as decisões a tomar hoje. O novo poder, neste campo, não estava à altura das esperanças"... - ..."Os partidos queriam desfazer-se das colónias de qualquer maneira. O mais rápido possível. Para não mais neles pensarem "... - (em "ANGOLA, Anos de Esperança", de AMÉRICO DE CARVALHO - 2001 - fls. 180 e 187 .--
-- "...A desmistificação do processo de descolonizador do império português está longe de ser feita. Fora das vistas, afundadas num oceano de mitos e mentiras, encontram-se as verdades que a poucos interessa procurar e a maioria ignora..."
--..." A prova de que Neto continuava sem apoio interno militar foi dada então por ele próprio ao chamar, logo a seguir ao Alvor, dezenas de milhares de cubanos para enfrentar os movimentos rivais "... -- ..." Eis a auto-determinação que os "descolonizadores exemplares" concederam a Angola"... -- ..." Podia ter-se descolonizado de outra maneira. Podia haver hoje boas relações entre Portugal e as antigas colónias. Mas para isso teriam sido necessários outros homens e outros políticos dos dois lados"... - (em "Misérias do Exílio..." , de PATRÍCIA MC GOWAN PINHEIRO - 1998 - fls. 108 - 124 e 125.
 NOVEMBRO - 11 -- Proclamação da independência de ANGOLA (República Popular) por AGOSTINHO NETO ("manobrado" por LÚCIO LARA -?-), em LUANDA, a favor do MPLA, não obstante a existência de graves conflitos com a FNLA e UNITA; nomeia LOPO DO NASCIMENTO para seu primeiro-ministro. Foi então lido o texto da proclamação : - ..."Em nome do povo de Angola, o Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), proclama solenemente perante a África e o Mundo a independência de Angola "... Os outros dois "Movimentos" tomam posições no terreno e proclamam a independência da "República Democrática de ANGOLA"; enquanto JONAS SAVIMBI escolhera NOVA LISBOA para a sua proclamação, HOLDEN ROBERTO preferia o AMBRIZ ! No entanto, como diziam, "a luta continua" mas, com ela, a miséria, a fome, a doença e a morte !
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--- Em : "ANGOLA - DATAS E FACTOS" - 5º e 6º Vol. - de : ROBERTO CORREIA ---
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======= ALGUNS FACTOS IMPORTANTES AINDA NÃO INCLUÍDOS NOS SEIS VOLUMES ACIMA REFERENCIADOS :

======== 1975 ========
-- MARÇO - (?)- Foram fuzilados 50 recrutas do CENTRO HOJI-IA-HENDA, das FAPLA,numa acção cruel das forças da FNLA, em QUIFANDONGO.
Nas proximidades da Fábrica de Cerveja da CUCA foi descoberta uma "vala comum".

-- ABRIL - 9 - Um "Jumbo" da ÁFRICA DO SUL foi atingido quando sobrevoava os muceques de LUANDA para aterrar no seu Aeroporto.

-- MAIO - 1 - Confronto no BAIRRO DO PRENDA (muceques de LUANDA), entre as sedes do MPLA e a da FNLA.

-- JULHO - 9 - Teve início a "Batalha de Luanda", entre as forças do MPLA e as da UNITA / FNLA.

-- JULHO - 13 - O governo do ZAIRE pede ao de PORTUGAL a ..."protecção de pessoas e bens do seu consulado"..., enquanto representantes doutros países fazem planos de evacuação dos seus cidadãos.

-- JULHO - 20 - Tropas do MPLA atacaram brutalmente os seus adversários da FNLA na LUNDA, atingindo muitos dos seus residentes (civis e militares, brancos ou negros, novos ou velhos, até mesmo os que estavam num Hospital, sem encontrarem qualquer resistência local

-- JULHO - 27 - As Forças Armadas Portuguesas, sob comando do capitão MOREIRA DIAS, atacam o Quartel-General do MPLA no BAIRRO DA VILA ALICE, em LUANDA,, onde se encontravam alguns detidos, registando-se bastantes baixas entre os atacados. O Quartel foi eliminado.

-- JULHO - 29 - Foi raptada a médica FERNANDA SÁ PEREIRA, moradora na Avenida Sá da Bandeira, em LUANDA, após ter estado algumas hora de serviço na Maternidade, ali próxima. Era casada com JOÃO MANUEL SANTOS RAMALHO.

-- AGOSTO - 7 - Do "DOCUMENTO DOS NOVE", encabeçado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros de PORTUGAL, MELO ANTUNES, constava que : ..."A fase mais aguda da descolonização chega sem que se tenha tomado em consideração que não era possível "descolonizar", garantindo uma efectiva transição pacífica para uma verdadeira independência, sem uma sólida coesão interna do poder político, e sem,sobretudo, se ter deixado de considerar que a "descolonização" devia c
ontinuar a ser, até se completar,o principal objectivo nacional. Vemo-nos agora a braços com um problema em Angola, que excederá provavelmente a nossa capacidade de resposta,gerando-se um conflito de proporções nacionais que poderá, a curto prazo, ter catastróficas e trágicas consequências para Portugal e para Angola. O futuro duma autêntica revolução em Portugal está,em todo o caso, comprometido, em função do curso dos acontecimentos em Angola, à qual nos ligam responsabilidades históricas inegáveis, para além das responsabilidades sociais e humanas imediatas para com os portugueses que lá trabalham e vivem", escreveu o grupo de oficiais, quando entendeu ter chegado "o momento de tomar uma posição".
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-- AGOSTO - 21 - Foi declarado o "estado de sítio" em ANGOLA e suspenso o Acordo de ALVOR.