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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

Postais da acção missionária na Angola colonial: Congregação de S. Joseph de Cluny


Créditos: Postais de DelCampe


Em Janeiro de 1883, aportaram a Landana, as primeiras religiosas das irmãs da Congregação das Irmãs de S. José de Cluny. Foi o princípio de uma presença continuada de 125 anos de uma Congregação, iniciada em França, mais propriamente em 11 de Novembro de 1789, na esteira da vitória dos republicanos e jacobinos na revolução francesa.

A história da fundação desta Ordem, tem origem precisamente num episódio, relacionado com uma pretensa perseguição a membros do clero por parte dos republicanos franceses, o que leva a que a bretã Ana Maria Javouey, tenha feito voto para se dedicar ao missionarismo, tendo sido a sua primeira Madre Superiora.

Segundo o professor Martins dos Santos no seu excelente trabalho “Cultura, Educação e Ensino em Angola” diz a páginas tantas “No dia 15 de Maio de 1885, embarcaram em Lisboa, com destino a Angola, a bordo do vapor África, três religiosas de S. José de Cluny, que nos aparecem no documentos da época sob a designação de Irmãs Educadoras, por se dedicarem especialmente à obra educativa e às actividades escolares. Destinavam-se às colónias do planalto sul. O governador do distrito de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata, empregou toda a sua influência para as reter na cidade, demovendo-as de se transferirem para o interior. Conseguiu os seus intentos e as religiosas estabeleceram-se ali, abrindo pouco depois a sua primeira escola. Segundo certas indicações que conseguimos obter, foi no dia 8 de Julho desse ano de 1885 que se fixaram em Moçâmedes. Foi a primeira povoação angolana a aproveitar-se da meritória acção das Irmãs Educadoras, se exceptuarmos a missão de Lândana, onde se estabeleceram em 1883, portanto dois anos mais cedo.”

Ainda se podia ler mais: “ No decorrer de 1897, chegaram a Angola algumas religiosas de S. José de Cluny, que se destinavam a Moçâmedes. O governador-geral António Duarte Ramada Curto, com o apoio de outros elementos de influência na cidade, instou com elas para se fixarem em Luanda. Desejava que abrissem uma escola, o que efectivamente fizeram; começou a funcionar no dia 1 de Dezembro desse ano, na Rua da Misericórdia.”

“Ainda a propósito dos referidos exames, o governador-geral Ramada Curto louvou, por portaria de 16 de Maio de 1900, as Irmãs Educadoras, nos termos seguintes: "Tendo eu confiado, em Dezembro de 1897, às Irmãs Educadoras, da Congregação de S. José de Cluny, a regência da cadeira de ensino primário, do sexo feminino, da cidade de Luanda, fechada por falta de alunas, e tendo presenciado o aumento sempre crescente do número de crianças matriculadas, vistas as informações prestadas com respeito à competência das professoras e aproveitamento das alunas, hei por conveniente louvar as Irmãs Educadoras, da referida congregação, que têm regido a escola, e em especial a superiora, Ir. Antónia Maria George, pelo zelo, competência e inteligência que têm demonstrado na regência da escola que lhes confiei". As Irmãs Educadoras agrupavam os seus alunos em cinco classes, conforme o seu adiantamento escolar. Por curiosidade, inserimos aqui o esquema do estudo ministrado: —Leitura, escrita e rudimentos de doutrina cristã; —Prática de ler, escrever e contar, e doutrina cristã; —Ler, escrever e contar, doutrina cristã e trabalhos manuais; —Gramática portuguesa, tabuada, aritmética, doutrina cristã e trabalhos manuais.”
Esta foi de uma forma sintética a relação das “madres” com a educação em Angola até à assinatura da Concordata de 10 de Julho de 1940, entre Portugal e a Santa Sé, onde se anexava o Acordo Missionário, que deu à Igreja Católica todas as facilidades e mordomias várias no ensino nas colónias, em detrimento de muitas outras confissões religiosas que ao tempo já trabalhavam na colónia, com algum empenho, tendo algumas sido perseguidas e os seus pastores e missionários presos ou expulsos dos territórios.

No fim dos anos 40, tendo em conta a exiguidade das instalações na Misericórdia, e com grande empenhamento do Monsenhor Alves da Cunha (aproveito para lembrar que parte das letras da peanha da sua estátua caíram, pelo que não seria mau que fossem lá colocadas de novo), foi-lhes dado um terreno na Rua do Kafako, que é nem mais nem menos que o nome muito antigo da rua que desemboca na Rua da Missão.

Ali se construiu um edifício de gosto revivalista-classizante, exemplar de “Arquitectura do Estado Novo”, vulgarmente conhecida pelo gosto “Português Suave”, que dada a sua volumetria, os seus portais, arcadas, frontões, torreões e pináculos é um edifício marcadamente matizado na paisagem urbana.

Desde 1953 até 1975, no colégio de S. José de Cluny em Luanda leccionou-se a raparigas desde a instrução primária até ao 5º ano do liceu, como era costume dizer-se ao tempo, em regime de externato, havendo também algumas alunas internas.

Esse edifício, que foi a seguir à Independência do País o Instituto Pré-Universitário de Luanda, foi entregue à Igreja Católica, aquando dos acordos entre o governo e o Papa Woityla, na sua passagem por Luanda no início dos anos 90.

Desse acordo, surgiu a possibilidade da instalação da Universidade Católica no edifício que sofreu para o efeito inúmeras obras de reparação e beneficiação.

No Huambo também foi criado no fim dos anos 50 um colégio com as características do de Luanda, também orientado pelas” irmãs de Cluny”, que para além destes colégios mais emblemáticos, tinham outros espalhados pelo território de Angola, como por exemplo em Cabinda, Namibe e Malange.
Muitas alunas passaram pelos colégios e internatos da “Congregação das Irmãs de S. José de Cluny”, o que não deixa de ser relevante em trabalhos futuros que se façam sobre o ensino em Angola, pois a sua presença durante 125 anos, perpetuou uma obra que merece cuidado respeito.

Fernando Pereira
7/05/07
Do site Recordações da Casa Amarela

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Sobas dos Dembos, Angola, na era colonial e sua corte


Soba: Dembos - Quitexefotos da Agência Geral do Ultramar
 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Literatura Colonial Portuguesa: Henrique Galvão - Outras Terras, Outras Gentes

Capa (?) e ilustrações de Fausto Sampaio (datas desconhecidas).

Henrique Galvão (1895-1970), Outras Terras, Outras Gentes, 2.º volume, (1942?).

Embora os dois volumes que constituem esta obra sigam estritamente, na sua organização, o itinerário percorrido pelo autor em terras angolanas, a obra afasta-se do registo seco das meras notas de viagem, assumindo-se como literatura de viagens na sua acepção mais elaborada.

A este facto não será estranha a prática literária do autor, que na década anterior havia sido distinguida já com vários galardões no âmbito da literatura colonial.

Apresentando cinco capítulos – Moxico, berço de rios; Terras do Fim do Mundo, Do Cuangar à Huíla, pelo Bié; Para Aquém e para Além da Chela e Do Lubango a Luanda por terras de Oeste, este segundo volume mantém o modelo desenvolvido no primeiro, apresentando-nos o itinerário por terras de Angola como pretexto para diversas narrativas e descrições literariamente elaboradas.

Do capítulo Para Aquém e para Além da Chela trancrevem-se dois excertos:

"E ficou assente que o Fraga iria ao Cuanhama, aparentemente no exercício do seu míster de funante – mas na verdade, como espião.
O grande aventureiro não cabia em si de contente.
Tinha saüdades do Cuanhama, das viagens aventurosas, das incertezas em terra hóstil, do alerta constante dos sentidos.
Era um jogador especial – mas vicioso como todos os jogadores. Não o tentava arriscar dinheiro nas tavolagens, mas apaixonava-o jogar a vida em pleno naquela grande roleta do Cuanhama.
Desde que tinham sido proíbidas as viagens dos funantes para além do Cunene, metera-se a funar nas terras ocupadas. Ganhava mais e tinha menos canseiras – mas não era a mesma coisa. Tinha perdido o amor ao dinheiro desde que percebera que não era a fortuna que o tentava nas grandes aventuras do Cuanhama. Em compensação sabia-lhe melhor a vida quando tinha que a ganhar todos os dias contra a morte. Deslumbrava-o, saboreada assim, como uma vitória sempre fresca.
Por isso era um jogador – e especial, porque tinha o vício de jogar a vida.
Foi com alegria de criança que preparou os seus carros como dantes.
Encheu-os de fazenda e de presentes para o Mandume. E quando os viu atestados e prontos, montou o "Sultão" e abalou, remoçado e restituído à alegria de viver.
Os funantes eram assim. E se assim não fôssem não seriam funantes."



"À data da minha última viagem pelo Cuanhama, reinava, em termos bem diferentes, é claro, a sobrinha do Mandume – a Kalinaxo.
O Cuanhama era então, como hoje, apenas uma circunscrição de Angola – e a Kalinaxo, apenas uma raínha preta, muito dona dos seus gados e pouco raínha das suas gentes.
Era fina e manhosa.
Bebia champagne como o Mandume, mas preferia trajar à maneira dos seus: a n'ctuba assente sôbre as nádegas, o peito ressequido orgulhosamente nu, a manteiga escorrendo do cabelo e o perfume do leite azêdo a espalhar-se em volta.
Quando conversei com ela, tinha um ar irónico mas triste – um meio sorriso que assentava como um postiço na máscara melancólica.
Tinha razão. Ela conhecera a vida fulgurante do Mandume e comparava-a com a monotonia da sua. Trazia encarcerada na substância aventurosa de cuanhama, a ância das guerras, das razias, da prepotência e do domínio – e esmorecia na paz, sob a quietação bovina das manadas e na sucessão de dias iguais.
Era apenas uma Raínha de pastores, vassala pràticamente de um Chefe de Pôsto – ela, a sobrinha do Mandume, que fôra Chefe altivo e indomável de guerreiros e ladrões!
Compreendo perfeitamente a melancolia da Kalinaxo - muito melhor do que compreendo o orgulho dos civilizados do nosso tempo.
Quando comparo as qualidades e defeitos de homens como o Fraga e o Mandume, com as qualidades e os defeitos dos triunfadores da minha geração, choca-me, antes de mais nada, a antítese entre dois sistemas morais.
Acima dos defeitos dos primeiros – ou como qualidade dos seus defeitos – pairava o respeito pela coragem, a consideração pela valentia e o culto organizado do brio individual e colectivo.
No alto das qualidades dos segundos – ou como um defeito das suas qualidades – vingam o desprêzo pela coragem e pelo carácter e os processos de deformação da coluna vertebral."


 In
© Blog da Rua Nove

sábado, 2 de abril de 2011

FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL PARTE V





21.- PAPEL RELEVANTE NA IMPLANTAÇÃO DE RELAÇÕES DE IGUALDADE... E "KOVASO"!


É interessante assinalar que esse "novo" (com velhas raízes) movimento, multirracial, de dominância branca, autoclassificava-se como possuidor da característica de poder desempenhar um "papel muito importante na abolição das relações atuais" entre "colonizados e colonizadores" porque se considerava como o único em condições de implantar "novas relações de igualdade indispensáveis à constituição de um país livre." Estamos convictos de que se lhes tivessem dado suporte logo no início, isso poderia ter sido extremamente vantajoso para uma descolonização pacífica e organizada de Angola e de Cabinda.

Propunha-se também, levar a efeito "uma profunda modificação de estruturas" reconhecendo, porém, que esse novo tipo de relações demandaria bastante tempo antes que fosse possível realizá-lo, visto que "o individuo da classe branca está freqüentemente imbuído de conceitos e afectações que a sua comunidade engendrou durante séculos para manter a dominação e os privilégios da sua casta".

Para isso, a FUA entendia que só uma profícua e vasta campanha de informação poderia conduzir todos os angolanos a compreenderem que "o novo homem africano não será e não poderá ser nunca o homem de cor alienado do presente nem o homem branco opressor de hoje"(sic). E esclarecia: "O novo homem africano não será aquele que procurará inverter os dados da situação actual, mas o que os ultrapassará." E a seguir, sublinhava: "É no tipo das relações económicas que estão instaladas nas províncias que reside, fundamentalmente, a causa dos antagonismos actuais."

A solução da FUA para eliminação dos referidos antagonismos consistia em procurar, desde logo e paralelamente à luta que se propunha desenvolver para alcançar a independência, "esclarecer todos os angolanos, quaisquer que sejam as etnias a que pertençam, sobre as realidades do país e o principal objectivo da emancipação de Angola, que não pode conceber-se senão neste quadro de emancipação de toda a África e do Homem."(sic)

Dedicou-se a FUA a uma campanha de informação interna e externa, em termos de ação psicológica táctica (interna) e estratégica (externa) que encontrou acolhimento imediato por parte da Radio Nacional de Brazzaville onde Ernesto Lara apareceu como apresentador e locutor de um programa em língua portuguesa, ao mesmo tempo que publicava suas crónicas políticas, divulgando a FUA, no jornal "Le Progrés".

O importante semanário, editado em Paris pelo ex-ministro da Informação do governo tunisiano de Habib Bourguiba, Béchir Ben-Ahmed, "JEUNE AFRIQUE" publicou em 11 de Novembro de 1962, uma extensa entrevista com um dirigente da FUA .

Em sua 45ª edição, no primeiro trimestre de 1963, "Présence Africaine", como já referimos, inserira uma importante reportagem de 8 páginas e meia sob o título genérico "Connaissance du Front d l´Unité pour Angola (FUA)".

Dessa forma, a FUA estava concretizando já seu objetivo principal e imediato que consistia em efetivar uma campanha internacional nos mídia sobre as intenções dos movimentos nacionalistas angolanos e conscientizar e conquistar o espírito da população européia da colónia, utilizando para isso a mídia e propaganda cinzenta. Para isso, lançou o já citado panfleto "Carta aos Brancos de Angola", e também conforme um Relatório Imediato dos SCCIA, datado de 25 de janeiro de 1963, expediu de Washington, EUA, para o importante Radio Clube do Lobito, um comunicado intitulado "O que é a FUA"... Tratava-se de um manual muito elucidativo a respeito do movimento.

Em Fevereiro de 1963 apareceu em Angola o primeiro número do seu jornal "KOVASO" ( O ÁVANTE). Tanto a denominação como o layout e o conteúdo desse órgão da FUA inspiravam-se no seu similar, do Partido Comunista Português, "O ÁVANTE", que circulava clandestinamente nos quartéis das forças armadas, nas bases aéreas e navais,, nos bairros periféricos urbanos, nos portos, na fábricas, nas faculdades, escolas médias, organizações juvenis e sindicatos de classe, nas casas de espetáculos e nos meios rurais portugueses. Aquele jornal clandestino angolano tinha 10 páginas e pretendia seguir o exemplo tático do seu homólogo "O AVANTE". Foi intencionalmente editado o seu primeiro número em "4 de Fevereiro", aniversário do ataque surpresa feito em 1961, por militantes do MPLA, a uma prisão sita num musseque (favela, no Brasil) de Luanda, onde foram mortos agentes da polícia portuguesa que a guarneciam .Vejamos os títulos dos assuntos tratados nessa edição:

1ª página:
· Editorial:- "Para uma Angola Livre e Independente"
· Artigo: "Frente de Libertação-Problema Nº 1 da nossa luta"
· Artigo: "Não ao Rácismo" (transcrição de uma declaração da CONCP)
2ª e 3ª páginas:
· Artigo: "A População Branca no contexto nacional"
4ª página:
· Artigo: "Denunciámos à ONU o Colonialismo Português"
5ª página:
· Artigo: "Nova Farsa dos Colonialistas - a Reunião do "Conselho Ultramarino""
6ª página;
· Continuação do editorial da 1ª página no qual se explicita O PROGRAMA DA FUA"
7ª página:
· Continuação do artigo da página 1 sobre a "Frente de Lib...."
· Poema de incitamento à rebelião :à "Juventude Angolana
· Continuação do artigo de págs 2 e 3 - "A População Branca..."
8ª página:
· Continuação do artigo "Nova Farsa dos Colonialistas..."
· Secção "Revº Joaquim Pinto de Andrade", descrevendo o Martírio daquele sacerdote e presidente do MPLA, detido na PIDE .
9ª página:
· Artigo: "Desertores do Exército Português" referente a dois Oficiais milicianos naturais de Moçambique, brancos,
· Noticiário: "A Argélia ajuda a nossa luta"; "MPLA- Reforça-se Movimento Nacionalista de Angola- Novo Comité Director." "Condenação ao Regime Fascista Português"(realização em Paris, de 15 a 16 de Dez.º De 1962, da Conferência para amnistia aos prisioneiros e exilados políticos portugueses
10ª página:
· Título da página: " A ÁFRICA NÃO PÁRA".
. Assuntos:
· "Argélia - marco da libertação da África"; "Mandela- con-denado pelo governo racista sul-africano";
· "Novas vitórias" (efemérides sobre progressos políticos em1962 no Uganda, Tanganica, Rodésia do Norte e Niassalândia) com uma saudação aos "povos irmãos"
· Continuação do artigo "Desertores do Exército Português.

23.- POSICIONAMENTO DA FUA FACE ÀS OPOSIÇÕES EM PORTUGAL


A FUA definiu a sua posição classificando de "justas e realistas" as manifestações dos oposicionistas portugueses no sentido de reconhecerem o direito de autodeterminação a Angola. Assim, aquele movimento angolano proclamava o seu propósito de colaborar estreitamente com a Oposição Democrática Portuguesa ( MDP-CDE, PSP e também com o PCP), declarando-se "consciente de que esta colaboração é um factor importante na luta pela independência nacional".
Manifestou ainda a sua firme determinação de neutralizar a propaganda oficial portuguesa, dando a conhecer as realidades e criando no seio do próprio povo Português um clima de confiança.
Estes propósitos davam claramente a perceber que sua ação panfletária iria exercer-se também em Portugal, provavelmente contando para isso com a colaboração do pró-soviético e estalinista Partido Comunista Português - experiente nesse tipo de atividades revolucionárias.
Acreditamos que terá tido contactos com o Doutor Mário Soares, fundador e Secretário-Geral do Partido Socialista Português, que cedo se revelou o mais culto, lúcido, moderado e bem-preparado político Português da época pós-caetanista, que não deu respaldo à demagogia revolucionária dos ineptos e impreparados "capitães dos cravos vermelhos", nem, anteriormente, às aventurescas proezas de Henrique Galvão (aliás um homem de grande valor mas já idoso e que se deixou possuir pela sua ânsia obstinada de revanchismo, tal como o impetuoso general Humberto Delgado que, por isso mesmo, isolado e desesperado, querendo retornar a Portugal pacificamente, caiu numa torpe cilada, a propósito da qual é nossa intenção apresentarmos outro trabalho).

24- A FUA E A PROPOSTA DE LEI DE ALTERAÇÕES À LEI ORGÂNICA DO ULTRAMAR PORTUGUÊS- OS ERROS E DISLATES...


Publicou a FUA um comunicado sobre a proposta de alteração à Lei Orgânica do Ultramar, integrada na Constituição Política e Administrativa da República Portuguesa, de 1933, que estava sendo objeto de discussão no Conselho Ultramarino, em Lisboa, visando à derrogação do Estatuto do Indigenato e a outras reformas promulgadas quando o Prof. Dr. Adriano Alves Moreira, que fora Diretor do ISCSP/UTL (ao tempo ISEU/UTL), nomeado por Salazar assumiu a pasta do Ultramar, inicialmente como Subsecretário de Estado e pouco depois como Ministro. A FUA classificou essas pretendidas alterações como "puramente burocráticas"....

Considerava que a causa imediata dessas reformas eram as pressões, externa e interna, que estavam sendo exercidas sobre o governo português. Desenvolveu aquele movimento a sua objurgatória repudiando toda e qualquer medida do governo português, em relação a Angola, que não fosse baseada no reconhecimento do direito à autodeterminação. Por outro lado, proclamava "não reconhecer, jamais, atitudes unilaterais desse governo, no que respeita ao nosso País."

Frisava nessa proclamação, feita no jornal "KOVASO":
"Apenas aceitaremos a realização de negociações com os representantes de todos os movimentos nacionalistas angolanos e não a tomada de atitudes de conluio com indivíduos que representam, apenas, os interesses duma camarilha privilegiada."

Finalmente, no mesmo órgão do movimento, a FUA apelava "a todos os angolanos, para uma maior unidade na luta contra o colonialismo português e para conquista da independência nacional."

Estávamos no GNP/MU quando essas alterações à matéria da carta magna foram editadas. Realmente não se faziam alterações de fundo; eram medidas paliativas, pouco significativas: Tudo continuaria na mesma... O Negro que transferisse sua residência deixando a sanzala da sua aldeia (dito vizinho de regedoria) para ir viver no centro urbano, pela simples movimentação espacial de um ponto para outro passava no novo domicílio a se reger pela lei comum, enquanto que no meio anterior beneficiava, pelo seu presumível atraso cultural que não lhe permitia entender o alcance e aplicabilidade da lei dos "civilizados", do chamado respeito pelos usos e costumes tradicionais, pelo direito costumeiro ou consuetudinário . Ou seja: Essa simples transferência de vizinho da regedoria para habitante urbano, para o inexperiente ou irrefletido autor da lei era o bastante para o cérebro do sujeito a quem se aplicava o estatuto do indigenato de pronto intuir o direito positivo dos cidadãos, passando a usufruir da condição de assimilado mas também a ser sujeito de obrigações que de fato desconhecia e não compreendia mesmo que lhas declarassem!.... Ao lermos, ainda impresso de fresco, o Diário do Governo com essas novas normas constitucionais, corremos para o gabinete do nosso chefe de repartição levando-lhe uma informação que, às pressas, rabiscáramos e que a nossa eficiente datilógrafa, Maria de Lurdes Guerra Ferreira, prontamente datilografara, colocando em linguagem simples e escorreita, o que era por demais obvio... Aquele jornal oficial foi sustado sem alardes, em sua distribuição; deram-nos razão informalmente e o texto sofreu a recomendável adenda, estabelecendo-se nela um prazo para essa assimilação ser exigida... Pouco tempo depois, legislou-se o fim do indigenato e extinguiu-se a figura jurídica do assimilado, concedendo-se a todos os naturais, autóctones ou nascidos no território, plena igualdade aos cidadãos Portugueses originários...

25. PORTUGUESES DE SEGUNDA...


Mas, muitos erros e dislates já haviam sido cometidos pelo colonizador, suscitando animadversão, mesmo entre os brancos naturais das colônias. Lembramo-nos que, na década de 40, primeira metade, quando Marcelo Caetano era ministro das Colônias ( e o seco, azedo e "fungão" Joaquim Moreira Silva Cunha, seu obscuro secretário, bajulador com quem ele simpatizara e decidira apadrinhar, tal como aconteceu com os também mocitários, alguns dos quais de origem social bem modesta, Baltazar Rebelo de Souza, Fernando Santos e Castro, Jorge Jardim, Luís Filipe de Oliveira e Castro, Rui Patrício e outros menos destacados, quando fora comissário nacional da Mocidade Portuguesa, e com o estranho ex-funcionário dos Caminhos de Ferro de Moçambique Luís Lupi, estranho e ínvio personagem que se metamorfoseou em proprietário e diretor da Agência Noticiosa Lusitânia custeada sobretudo por subsídios vultosos e periódicos da Agência Geral do Ultramar, vogal do Conselho Ultramarino e administrador delegado do governo junto de grandes empresas ou alto funcionário de diversas multinacionais ligadas às colônias, chefe das relações públicas da Cabinda Gulf Oil Company, vencendo Mercedes, motorista e mansão no Estoril), seguindo-se a Francisco Vieira Machado, o todo poderoso super-ministro que, ao jeito do comandante Ernesto VILHENA da majestática DIAMANG do rico judeu sul-africano Openheimer e sua Anglo-American (na Lunda, como veremos noutro trabalho, um estado soberano dentro de outro estado vassalo da vontade daquele...), do BENGUELA RAILWAYS, da PETROFINA e da COTONANG belgas, construiu impérios de rapaces espoliadores como o seu próprio, o do Lagos & Irmão (algodão...), o do Espírito Santo Silva, o do Champalimaud, o do Bulhosa( com seu administrador Jorge Jardim , cuja ascensão e influência vertiginosas vamos abordar em outro trabalho), do Venâncio Guimarães Sobrinho, abrindo as portas para mais tarde outros se apoderarem de áreas e ocorrências minerais imensas, como a madame Bermann, o Joaquim de Carvalho, o Mota Veiga, o Alfredo de Matos, o Sousa Machado (pai e filho) com a sua Companhia Mineira do Lobito, a empreiteira dos Andrades que ainda anda por Cabinda, o poderoso José Cirilo, o analfabeto José Ferreira do Negage, os Quintas e outros...

Com os olhos postos sobretudo em Angola e Moçambique, a ojeriza e desconfiança de Marcelo Caetano em relação aos brancos naturais dessas colônias levaram-no, como ministro das Colônias, que apenas visitara durante breves dias as possessões portuguesas em África, a legislar normas limitativas de direitos civis aos naturais de todas as colônias que não fossem filhos de Portugueses originários de Portugal (reinóis); não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia, a nível superior, na administração pública colonial, etc., etc... Eram os chamados "portugueses de segunda classe"... Situação injusta que perdurou até à década de 60.... Sempre éramos enxergados com suspeição. No Hospital Militar Principal, em Lisboa, o autor destas linhas, antes de ser incorporado no curso de Oficiais Milicianos de Infantaria, em 1949, teve de sujeitar-se a uma junta de revisão para constatação de sua pureza racial "lusitana" uma vez que, sendo natural de Angola, seu pai (coronel-médico) e seu avô paterno (coronel de infantaria do extinto exército ultramarino - EU -) eram naturais de Pangim, Estado Português da Índia. Ao sermos interrogado pelo coronel-médico presidente da junta de revisão (racial), mentimos-lhe afirmando que aqueles nossos ancestrais eram brancos puros, descendentes diretos de reinóis (Portugueses originários de Portugal, leucodérmicos sem... mistura, que afinal quase todos se não todos os portugueses têm). Assim, porque esse médico militar nos deu crédito, pudemos ser admitido ao referido curso de oficiais de complemento...enterrando por algum tempo aquele velho "conselho portuga": quando vires um indiano e uma víbora, mata o indiano e deixa em paz a víbora...Por essa ocasião (segunda metade da década de 40), o melhor aluno cadete do curso de oficiais de artilharia da Escola do Exército (que viria a ser engenheiro fabril e brigadeiro mais tarde...), um natural de Goa, filho de um oficial superior ou general do extinto exército ultramarino mas descendente, isto é, mestiço, embora não-hindú, tendo-se descoberto (algum invejoso o teria delatado) que tinha ascendência indiana foi submetido a junta de revisão e a inquérito; durante algum tempo esteve tremida a sua permanência no curso... Ora, anteriormente a Caetano na pasta das Colônias, jamais alguém levantara esse problema e a prova estava em nosso próprio progenitor (já não falando mais nas várias gerações de avoengos) que, embora natural de Pangim e "descendente", atingira o posto de coronel-médico. Naquele tempo, nem o nosso primo-coirmão Mário Arnaldo de Jesús da Silva, hoje general de divisão do exército português, prémio Defesa Nacional, homem de confiança da JSN e de Costa Gomes em Angola depois da "revolução dos cravos", assessor militar especial do ex-primeiro ministro (de centro-direita que diz ser de centro-esquerda baralhando o escalograma de Guttmann...) Cavaco e Silva, nem o nosso tio e pai dele, também oficial, engenheiro fabril, se tentassem iniciar carreira no oficialato do exército jamais o teriam conseguido!!! Acabaram também, para os "notáveis" dentre nativos das colônias, integrantes das elites tradicionais, os postos honoríficos de oficiais de segunda linha das milícias tradicionais com que outrora (PARA POUPAR DESPESA E CONTAR COM A FIDELIDADE DE MILÍCIAS TRADICIONAIS) eram contemplados príncipes, sobas, sobetas africanos e liurais (reis) timorenses. O que se nos afigura mais estranho é o RUMOR de que Marcelo Caetano, como o denunciava seu tipo étnico e leptorrinia, seria também um descendente, segundo no-lo revelou em Lisboa, certa feita, um INFORMANTE DOS SERVIÇOS ESPECIAIS DA L.P. e soldado da Guarda Fiscal, Pompeu de Andrade (primo do Secretário Provincial de Obras Públicas de Angola, tenente-coronel engº da Força Aérea Carloto de Castro) que conhecia o pai do sucessor de Salazar, um cabo ou sargento da sua corporação que teria (não o estamos afirmando, note-se) servido na Índia onde casara com uma natural, "descendente", mãe de Marcelo Caetano; a ser verdadeira esta versão, Caetano seria também um... "mestiço", "um cu lavado" (na gíria racista portuguesa aplicada à nossa gente de Goa,"descendente", como o é o autor destas linhas embora seja nascido em Angola) e não um "reinol" puro! Estas achegas servem para se entender quanta razão assistia aos Angolanos BRANCOS e MESTIÇOS que quiseram lutar pela independência da terra em que haviam nascido e na qual eram também discriminados, humilhados e olhados com desconfiança por vários Portugueses preconceituosos (conquanto não se deva estereotipar essa pecha) de naturalidade européia. Portugueses esses que, como já fizemos sentir em outros ensaios, não podiam (nem podem) ser considerados.... "brancos" puros mas que, em não poucos casos, tal como se constata também no Brasil, sofrem dum "eugenismo" psicopatológico. Apenas o governador-geral Silvino Silvério Marques acabou com isso, protegendo angolanos e caboverdianos dessas injustas perseguições e do preconceito racial, seguido de Rebocho Vaz e de Santos e Castro. Isso preocupava o MPLA que em suas emissões radiofônicas do exterior, através da Radio Brazzaville, o maltratava denominando-o de "fusível" por ser muito magro...o que não conseguia roubar-lhe o prestígio de que gozava entre as massas africanas ( e não só nessas), mas que era mal visto pelo incompetente ministro das colônias Silva Cunha e sua clique de fofoqueiros e pajens bajuladores como o seu chefe de gabinete Joaquim Fonseca feito por ele "inspetor superior de administração colonial" sem nas colónias (Angola, donde era natural) ter sido mais do que... chefe de posto! Fez sua fulgurante "carreira colonial"... no gabinete equipado com aquecimento central e ar condicionado, alcatifado, do seu patrão, no "palácio" do Restêlo construido por vontade de Adriano Moreira com o ouro trazido de Goa à última hora, numa aeronave dos TAIP, que pertencia a depositantes particulares que jamais tiveram de volta esses valores confiados em Goa ao Banco Nacional Ultramarino antes da invasão armada da União Indiana, tal como os depositantes de dinheiros, de acordo com leis vigentes então, nos cofres da Fazenda da República Portuguesa em Angola, destinados a transferência legal para a Obra Social do Ministério do Ultramar e para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças muito antes da independência de Angola, viram ( até hoje) seus direitos ignorados e denegados arrogantemente pelos sucessivos governos ditos "democráticos" e "progressistas" posteriores ao "25 de Abril de 1974", dizendo-se que essas transferências não são reconhecidas...e portanto, todos ficaram sem os valores em escudos que legalmente haviam confiado ao Tesouro Português. Nós temos documento repugnante ( um ofício digno de ser utilizado apenas na privada do WC!) transmitindo o despacho de um zoilo "clown" dito "Secretário de Estado", tratado aburguesadamente por SUA EXCELÊNCIA, à "boa maneira" fascista, negando a restituição desse dinheiro que teria ficado com o "honesto" regime" de Luanda... "gerido" pelo MPLA. Isso é UMA VERGONHA!!! como diria o grande comentarista brasileiro da TV RECORD Boris Kasoy.

Era manifesto o descontentamento das gentes brancas do Centro e do Sul de Angola. Em Julho/Agosto de 1963 deslocamo-nos ali, integrados num grupo de 20 e poucos finalistas do curso superior de administração ultramarina - e, ao mesmo tempo, por despótica e arbitrária ordem do ministro Silva Cunha ao diretor do GNP, o competente e impecável inspetor superior Dr. Ângelo dos Santos Ferreira, em missão especial de observação e informação, embora estivéssemos oficialmente de licença disciplinar. Em Sá da Bandeira (Lubango) participamos de um jantar oferecido no melhor hotel da cidade pelo governador do distrito da Huíla, inspetor Laranjeira, do Quadro Administrativo. Presentes os nossos professores, Dr. Martins de Carvalho, ex-ministro da Saúde e Assistência, e Padre Abílio Lima de Carvalho, que acompanhavam a viagem dos finalistas do ISCSP/UTL patrocinada por várias empresas privadas. No discurso que proferiu, o governador Laranjeira, casado, com filhos nascidos em Angola, no desempenho daquele alto cargo há vários anos, não ocultou o seu angolanismo "cicronho" (do Sul), criticando a burocracia do governo geral, a mil quilômetros do Lubango e a ignorância do Terreiro do Paço (ministério das Colônias) e frisando que, por isso mesmo, qualquer problema demorava anos para ser resolvido; ele defendia a independência do Sul de Angola (e quem sabe se...até não seria simpatizante ou mesmo militante da FUA!) que teria condições para se tornar um país próspero e viável em todos os aspectos. Pouco tempo depois, essa sua franqueza pública valeu-lhe ter sido demitido do cargo de governador, por despacho ministerial ( de Silva Cunha), passando a ser apenas um simples inspetor administrativo...em Luanda, tendo como "território" somente uma mesa de trabalho na Inspeção Administrativa, em Luanda.

A concluir esta paupérrima contribuição para a Ecmnésia Histórica Colonial, cumpre-nos dizer que, face ao trágico panorama que, há quase cinco lustros, nos vem mostrando a desastrosa independência de Angola, atribuímos tudo isso não só à incapacidade e ignorância dos autores da chamada "descolonização exemplar" mas também à intolerância e à teimosia míope do ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar (de estreita visão política colonial, mau assessoramento e muita rapacidade em prol da clique "judaico-lusitana") que não lhe permitiu enxergar quanto Portugal teria lucrado se tivesse acolhido, bem aproveitado e acarinhado, em devido tempo, ou seja, em seus primórdios, a FUA - FRENTE PARA A UNIDADE DOS ANGOLANOS. Poderia ter sido, essa, talvez, a mais equilibrada panacéia para a estruturação de uma unidade pacífica a bem do futuro dos povos daquele imenso e potencialmente rico território de 1.246.700 quilômetros quadrados, 14 vezes maior do que Portugal: a grande oportunidade arracial que a estupidez "portuga" perdeu e destruiu... em vez de chamar a si a tempo de evitar desvios.

Não fugiu Portugal, ou melhor, o seu governo, ao mau hábito peninsular (castelhano e lusitano) de impiedosamente, em nome da Fé CRISTÃ, esmagar ou castrar civilizações, nalguns casos até superiores como eram as dos INCAS e AZTECAS e as Orientais duma maneira geral, que conquistava pela força ou, à maneira espanhola, pela vil perfídia...

O historiógrafo tem como "pátria" a verdade dos fatos históricos pesquisados, doa ela a quem doer.

Não se escandalize, prezado leitor internauta, ao ler neste trabalho comentário ditados pela nossa "alma" formatando este texto de forma que para alguns será considerada "apatriótica" ou "anti-patriótica"... Mas, quem estas linhas escreve defende a verdade e só a verdade, doa ela a quem possa doer. Nós hoje, na diáspora voluntária (ninguém nos prendeu ou exilou) a que nos entregamos neste acolhedor e robusto filho de Portugal que é o Brasil, torcemos pelo lema "one planet, one people" bastante globalizante (o que está... em moda).

Há anos Alguém escreveu:"
"Daqui a poucos anos duas coisas se observarão em África: o progresso paralisado em muitas das suas extensões com a total ruína das economias, a degradação das populações, o horror das lutas intestinas, e experiências de colonialismo internacional, irresponsável, diante do qual o Preto, diplomado ou não, será apenas uma unidade estatística."

Esta declaração foi feita a um jornal francês , nos idos anos 60 (!), conforme nos referiu um nosso amigo e internauta que visita assiduamente este portal e a Ecmnésia Histôrica Colonial, por um político português que jamais visitou qualquer território colonial ou outro país além da vizinha Espanha numa rápida deslocação para ali ir assinar, com o Caudilho Francisco Franco, o ineficaz "Pacto Ibérico": o ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar.

Carlos Mário Alexandrino da Silva
Lorena-SP, BRASIL, 01 de Janeiro de 2001

Esclarecimento: Na redação deste texto procuramos utilizar as regras ortográficas do português em uso no Brasil, nosso lar de eleição voluntária.
  In Comunidade Lusófona

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Angola,criminales y Vadíos desterrados

A busca por estabelecer uma associação entre o degredo e uma função social útil ao projeto colonizador parece estar constantemente presente nas preocupações da Coroa portuguesa para a administração de seu império, como podemos ver na seguinte ordem régia dirigida ao ouvidor de Pernambuco, em 1715:“Faço saber a vos (...) que passandosse ordem em 26 de dezembro de 1710 a vosso antecessor, para que aquelles criminozos que estivessem em pena de degredo, e por crimes tais que merecessem o desterro de Angola, os fizesse remeter para aquele Reyno, e ainda alguns vadios que conhecesse podião servir de grande perturbação nessa Republica, e de escandalo aos povos (...),me propos em carta (...) do anno passado, e duvida que se lhe oferecia sobre a execução da dita ordem se havia executar nos criminozos que estivessem na dita pena sem esperar a sentença da Rellação da Bahia para onde havia apellar (...), nem em outro cazo dos vadios em que não devia haver appellação nem aggravo por serem sumarios. E pareceo dizervos que a Refferida ordem que se passou a vosso antecessor para serem mandados os vadios para angolla foi somente por aquella ocasião e se não deve extender para o mais tempo e assim neste particular deveis guardar a ordenação e o vosso regimento não os a respeito dos vadios, mas tambem dos mais criminozos (...).”232
Essa ordem faz parte de uma correspondência administrativa entre a Coroa e seus representantes no império que apresenta, em diferentes momentos, uma vontade política de
retirar os vadios do convívio social, aqui especificamente Pernambuco.(PAG 131).
http://www1.capes.gov.br/teses/pt/2003_dout_ufpe_kalina_vanderlei_paiva_da_silva.pdf
Aclaraciones:(Sergio Vieira).
---------A palavra vadio acabou gerando vadiagem que por algum motivo se relacionou com vagabundo ou vagabundagem, que significa alguém que anda vagando sem fazer nada, sem trabalhar. Ocorre que os escravos (vadios) faziam suas algazarras em momentos de ócio. E a isto diziam que os vadios eram vagabundos.
---------Cuidado com a palavra "vadiação". Trata-se de um erro linguistico.Os portugueses da região do Porto, norte de Portugal, trocam o V pelo B - exemplo: vidro = bidro; bacalhau = vacalhau. Pois bem. Este portugues denominavam os negros habitantes das ilhas da África como "badios", mas pronunciavam "vadios". No Brasil passaram a apelidar todos os negros como badios, ou seja, como "vadios" e todas as suas práticas nas folgas, como badiagem, ou seja, "vadiagem". Agora... o significado de badios, eu não sei o motivo, mas creio que é uma palavra chave.

Angola,criminales y Vadíos desterrados

domingo, 26 de dezembro de 2010

Postais e fotos da Angola colonial

Dande. 
Fazenda "Gratidão". Uma moenda de canna. Trapiche. -- 
Plantation "Gratidão". Sugar-cane mill. -- Plantage 
"Gratidão". Zuckerrohr-Walzwerk.
Dande.Fazenda "Gratidão". Uma moenda de canna.  (1912)

Rio 
Bengo. Uma caçada ao jacaré, a 25 kilometros de Loanda. -- Bengo River. 
Alligator-hunting, near Loanda. -- Bengo-Fluss. Krokodiljagd in der Nähe
 Loanda's.
Rio Bengo (Angola). Uma caçada ao jacaré, a 25 kilometros de Loanda. (1912) 

Interior
 de Loanda. Mercado no Golungo Alto. -- Hinterland of Loanda. Market in 
Golungo Alto. -- Hinterland von Loanda. Markt in Golungo Alto.
Interior de Loanda. Mercado no Golungo Alto. -- Hinterland of Loanda.  (1912) 

Interior
 de Loanda. Costumes gentilicos. (Gingas). -- Hinterland of Loanda. 
Natives. -- Hinterland von Loanda. Eingeborene.
Interior de Loanda. Costumes gentilicos. (Gingas). 
(1912) 

Fonte:   A colonização de Angola / por J. Pereira do Nascimento e A. Alexandre de Mattos.



sábado, 11 de dezembro de 2010

Subsídios para o breve reinado de Mandumbe

Mandume ya Ndemufayo
Fotografia: Jornal de Angola



Mandume ya Ndemufayo foi o último rei kuanyama e morreu a 6 de Fevereiro de 1917. Chegou ao poder em 1911 e o seu reinado durou apenas até 1917. O padre Keiling, que com ele conviveu, relata desta forma a sua morte: “E virando-se para os sobrinhos (primos) os filhos do falecido soba Weyulu, lhes perguntou se queriam ser muleques de brancos. Como eles dissessem que antes queriam morrer, o soba, levando a espingarda à cara, prostrou-os com dois tiros, e virando em seguida a arma contra si mesmo, fez saltar os miolos”.
À volta da figura de Mandume circulam lendas e estórias mais ou menos fantasiosas. A tradição oral costuma acrescentar sempre “um ponto” a cada conto. Os alemães, com quem Mandume conviveu e de quem foi fiel aliado, pouco ou nada relatam sobre a sua figura. Os militares portugueses, sim, têm muitas referências ao rei do Cuanhama. Mas curiosamente não descrevem uma única batalha travada contra ele. Quase todos os oficiais que combateram no Sul, Sudoeste e Sudeste de Angola publicaram as suas memórias da guerra. E nenhum, salvo o major Artur de Moraes, que trocou correspondência com Mandume, descreve sequer contactos com o rei.
A pesquisa que fizemos sobre a época através de relatórios militares e livros de memórias permitiu-nos obter importantes subsídios para melhor compreendermos o breve reinado de Mandume.
Em primeiro lugar interessa reter que ele chega ao poder em 1911, alguns meses depois do triunfo da revolução republicana em Portugal, que pôs fim à monarquia. O distrito da Huíla, que abrangia o território das actuais províncias do Kuando-Kubango, Namibe e Huíla, estava em guerra permanente. Depois do triunfo da República, os oficiais portugueses no terreno tentam resolver a guerra através de negociações de paz com os sobas da vasta região. Mas os oficiais monárquicos sabotam de todas as formas essas iniciativas. Eles apenas têm um objectivo: a ocupação pela força. Querem medalhas, condecorações, promoções por distinção, lugares bem pagos no regresso a Lisboa como “heróis”. Os militares do Quadro do Ultramar, tratados depreciativamente por “oficiais mandioca”, querem a paz a todo o custo porque já têm poucos laços com a “metrópole” e em Angola casaram e lhes nasceram os filhos.
A situação dos colonos é dramática. O major Artur de Moraes escreve no seu livro de memórias que estão “dispersos pelo interior de Angola e por falta de recursos e de auxílio do Estado se acham na maior miséria”. As guerras no Sul consomem largas somas de dinheiro e centenas de vidas humanas. “Angola está desguarnecida e é sobretudo a fronteira do Sul que está mais ameaçada”, diz ainda aquele oficial que viveu os últimos anos da sua vida, já como civil, na cidade do Kuito, onde faleceu.
Estudos dos alemães
Nesta época a fronteira de Angola era praticamente o rio Cunene e o último posto português estava situado no Humbe, então sede de concelho que foi chefiado, entre outros, pelo capitão Gomes da Costa, que mais tarde foi o líder do golpe fascista em Portugal do 28 de Maio de 1926. Morreu no posto de marechal. Outro administrador foi o capitão Artur de Moraes, republicano militante e que após o 5 de Outubro de 1910 ganhou algum protagonismo na região. Foi ele que assinou um tratado de paz e amizade com o rei do Cuanhama, Nande, em 22 de Fevereiro de 1909. Na realidade era um “auto de vassalagem”. Mas as condições no Cuanhama eram péssimas devido a uma estiagem prolongada à qual se seguiram dois anos seguidos de inundações. Artur Moraes fretou três carros bóeres puxados por dez juntas de bois, carregou-os de mantimentos, atravessou o Cunene e foi até a cidadela real de Nande a quem entregou os mantimentos. Na sequência deste gesto de boa vontade, o rei assinou o tratado.
Artur Moraes refere nas suas memórias que ficou provada a abertura de espírito dos cuanhamas e que era possível ocupar todo o território sem sacrifícios de vidas humanas. Ele escreveu que “é inadiável fazer-se a delimitação da fronteira Sul o que servirá de barreira à cobiça de estranhos”. Ele sabia do que estava a falar. Umas das testemunhas da assinatura do tratado foi o missionário alemão, Aray Woolfhorst, que imediatamente informou o alto comando germânico no Sudoeste Africano (Namíbia). Os alemães iniciaram de imediato acções que pusessem em causa o tratado. Eles tinham um plano ambicioso de ocupação do Sul de Angola cujo núcleo principal ficava no triângulo entre o Cuanhama, Humbe e Cassinga.
O governo alemão queria um porto de mar no Sul de Angola e colocou três hipóteses: Baía dos Tigres, a apenas 50 quilómetros da fronteira com o Sudoeste Africano, então território sob ocupação alemã, Namibe e Tombwa. Fez estudos sobre a viabilidade da construção de um caminho-de-ferro que ligasse esse porto de mar à Namíbia, Rodésia (Zimbabwe) e África do Sul. Os engenheiros alemães decidiram que a via-férrea devia ser feita ao longo do Paralelo 17º Sul entre o porto de mar escolhido e atravessando a Namíbia, o Zimbabwe e mergulhando no centro da África do Sul.
Conhecemos hoje pormenores do traçado da linha que acabou por não ser feita, dado que os alemães foram derrotados em 1915. A via-férrea passava ao longo do rio Cunene até aos rápidos de Sacavala, contornava o Morro de Capupito, seguia para Ediva, passava ao longo do rio dos Elefantes, atravessava o território dos mucubais seguindo a margem esquerda do rio Curoca e terminava na Baía dos Tigres (Namibe ou Tombwa).
Rendição dos alemães
Norton de Matos, que foi governador-geral de Angola entre 1912 e 1914, conhecedor dos planos dos alemães cria postos militares apetrechados com estações radiotelegráficas em toda a região, desde a Foz do Cunene até ao Tombwa.
Os alemães viram o seu sonho esfumar-se quando em Julho de 1915 foram obrigados a assinar a rendição ao general Botha. A I Grande Guerra começara um ano antes e as tropas da Alemanha na África Austral pouco aguentaram. Mandume ficou privado dos seus aliados e ainda viu apertar-se a vigilância na fronteira, o que dificultou as suas acções de guerrilha, que ele lançava desde o Sudoeste Africano, onde se refugiara quando o general Pereira de Eça (o Pêra de Aço) ocupou Ngiva (Ondjiva).
Só nesta altura foi definida a fronteira Sul de Angola, praticamente com o traçado que hoje tem. Portugueses e ingleses criaram uma zona neutra compreendida entre o Paralelo Ruacaná-Kubango, proposto pelos portugueses para fronteira e o Paralelo Cazambue-Kubango que havia sido proposto pelos alemães. A zona atravessava a região de Otchimporo, para onde os cuanhamas levavam o gado no tempo da estiagem, já que era abundante em água e pastos . Só no dia 1 de Julho de 1926 foi ultimado o acordo assinado na Conferência do Cabo entre delegados portugueses e sul-africanos sobre a fronteira que ficou fixada em linha artificial da catarata do Ruacaná ao encontro do rio Kubango.
Mandumbe ficou com os movimentos limitados e perdeu os fornecedores de armas e munições. Um ano antes da derrota do “Kaiser”, o último rei dos Cuanhamas pôs fim à vida. Mas ao contrário das lendas que ainda hoje circulam, ele nunca teve um grande combate com os portugueses. Essa glória cabe inteira ao rei do Cuamato Grande que infringiu às tropas portuguesas a sua maior derrota de sempre. Há quem atribua a Mandume a batalha de Pembe, mas é uma falsidade histórica. Quando aconteceu esse combate, Mandume era um menino e ainda nem sequer sonhava ser rei.
A batalha de Pembe
Os portugueses tentavam desesperadamente ocupar os vastos territórios a Sul do rio Cunene mas sucessivas colunas militares foram derrotadas e tiveram de recuar para o Humbe, a praça-forte das tropas de ocupação. O jovem conde de Almoster partiu para Angola à frente de uma unidade militar que depois de desembarcar em Luanda seguiu directamente para o teatro de operações. O rei do Cuamato Grande destroça a sua coluna e o jovem conde morre em combate. As autoridades coloniais ficam em estado de choque e em Lisboa chovem as críticas à administração colonial.
O governador da Huíla, capitão de engenharia João Aguiar, preparou nova coluna que ele próprio comandou. Mal passou o rio Cunene foi submetida a intenso fogo das forças do rei do Cuamato Grande. As forças da vanguarda, comandadas por Gomes da Costa, prepararam tudo para a tropa retirar “em boa ordem” para o Humbe mas as baixas foram muitas. Nada que se parecesse com o que aconteceu a seguir. Foi organizada nova coluna com a incumbência de submeter o Cuamato Grande e marchar para sul até Ondjiva. Esta coluna estava equipada com uma metralhadora pesada Hotchkiss que só atrapalhou. Também levava peças de artilharia 7 EBM (Bronze-Estriado-Montanha) que na hora do desastre matou muita gente com “fogo amigo”. O comandante era Pinto de Almeida, capitão de artilharia.
O vau do Pembe fica situado na margem esquerda do Cunene a dois quilómetros da confluência com o rio Caculovar. E dista do Humbe escassos oito quilómetros. Gomes da Costa e Artur de Moraes contam a batalha com grandes pormenores. Mais recentemente, Bento Duarte, que fez uma aturada investigação sobre as guerras do Sul de Angola, escreve que a batalha é “o quadro horrendo da formidável derrota dos portugueses, a maior e mais trágica que alguma vez lhe foi imposta na África Negra”.
A lista oficial das baixas é impressionante. Oficiais mortos: capitão médico Manuel João da Silveira, segundo tenente João Faria Roby Pereira (Armada); capitão Pinto de Almeida (comandante da coluna), alferes Joaquim Pinto Rodrigues (Artilharia); tenente Adolfo Ferreira, tenente Francisco Resende, tenente Freire Temudo, alferes Santos Nunes (Cavalaria); tenente Luz Rodrigues (Companhia Europeia); tenente José Maria Ferreira, alferes Manuel de Oliveira (Batalhão Disciplinar); alferes Albino Chalot, alferes Correia da Silva (VI Companhia Indígena); tenente Matias Nunes (XVI Companhia Indígena); tenente António Trindade (Administração Militar); alferes Pacheco de Leão, comandante dos “auxiliares indígenas”.
Na batalha do vau de Pembe morreram ainda 13 sargentos e 255 soldados. Ficaram todos insepultos e só dois anos mais tarde Artur de Paiva conseguiu resgatar as ossadas.
A guerra dos Bóeres
Lord Kitchner, em 1902, ao serviço da Grã-Bretanha, põe fim às repúblicas holandesas independentes do Transval e do Estado Livre de Orange, na África do Sul. Muitos bóeres refugiam-se em Angola e fixam-se no distrito da Huíla. Mas enquanto durou “A Grande Jornada” eles tiveram retumbantes vitórias sobre os ingleses e já sonhavam com um grande país que abrangia toda a Namíbia e o Sul de Angola até ao rio Cunene.
A vitória inglesa ajudou os portugueses a fazer a ocupação do sul de Angola. Foi neste quadro que o rei Iulo, do Cuanhama, assinou um tratado de amizade com os portugueses. Mas tudo muda quando Mandume sobe ao poder, sucedendo ao seu tio. Os portugueses classificaram-no como “um jovem irrequieto e sanguinário”.
O Cuanhama ficou dividido em relação ao novo soberano. Os poderoso lengas  Nekongo e Eválua abandonam o Cuanhama e fixam-se no Humbe, levando milhares de pessoas e os seus rebanhos de gado. Os lengas Kalola e Chiconhengue, fiéis a Mandume, fazem razias nas mucundas dos nobres cuanhamas “exilados”. O lenga Kalola é preso pelas tropas portuguesas quando atacava a mucunda de Kabongo, já depois de assinada a paz com o pequeno e grande Cuamato. Mais tarde foi preso Chiconhengue.
Nos primeiros meses do seu reinado, Mandume escreve uma carta ao major Artur de Moraes, comandante militar e administrador do Humbe, onde diz que quer viver em paz e harmonia com todos os vizinhos e reprovando as acções de Chiconhengue e Kalola no Cuamato e no Humbe. O major Moraes aceita a amizade oferecida por Mandumbe e através de um ofício oficial dá-lhe uma garantia: “pode estar descansado que o Chiconhengue e os outros cuanhamas presos no Cuamato não serão mortos, porque o Governo da República Portuguesa, não consentiria em tão grande barbaridade. Em Portugal não há pena de morte e fique certo que serão bem tratados”. Os republicanos querem marcar a diferença com os monárquicos, que passavam “o gentio a fio de espada”.
Mandume não respondeu ao ofício de Artur Moraes e as suas acções de guerrilha prosseguiram, agora com forte apoio dos alemães que lhe levam a Namacunde 19 carros bóeres carregados de armas e munições. Alves Roçadas fundou um forte na margem esquerda do Cunene e Pereira de Eça avança sobre N’giva. Milhares de cuanhamas fogem para o Evale e para Cuambi, já no Sudoeste Africano. Mandumbe faz o mesmo trajecto.
A sua guerrilha é letal mas as tropas inimigas aos poucos ocupam os seus domínios. Nem bóeres nem alemães, derrotados, lhe podem valer. O rei sabe que está perdido. Um ano antes do armistício que pôs fim à I Grande Guerra, assinado na floresta de Compiégne, em França, Mandumbe decide pôr fim à vida na cidadela real de Namacunde. 


Artur Queiroz | - 18 de Maio, 2010
 in Jornal e Angola

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

VIDEOS: Angola em até 23 de ABRIL de 1974


 

Angola I
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Angola II 
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Angola III
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Angola IV
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Angola V


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A evolução económica de Angola durante o segundo período colonial — uma tentativa de síntese

Luanda
Análise Social, vol. XXIX (129), 1994 (5.°), 1193-1208
Maria Paula Fontoura*

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ANGOLA: CONFLITOS POLÍTICOS E SISTEMA SOCIAL (1928-30)1

Em 1930 teve lugar em Angola, então a mais importante colónia portuguesa em África, o que alguns
qualificaram como "tentativa de golpe de Estado" e outros, mais eufemisticamente, chamaram movimento
"de indignação popular" contra os abusos do Alto Comissário Filomeno da Câmara3.  Esta questão, que poderia ter desencadeado na época uma guerra civil em Angola, foi objecto de violenta polémica, especialmente na imprensa da colónia. Sessenta e seis anos depois ela mergulha no esquecimento, e, que se saiba, nenhum historiador a tratou até hoje.


Continua...


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sábado, 20 de março de 2010

Militares, políticos e outros mágicos. René Pelissier. Análise Social

René Pelissier*
Análise Social, vol. XXXVIII (166), 2003, 157-173
 
Militares, políticos e outros mágicos
Esta nota de leituras refere-se a numerosos livros sobre a guerra, nomeadamente a guerra colonial portuguesa (1961-1974). Um número que poderia ter sido muito maior se os editores nos tivessem facultado todos os títulos pedidos. É que alguns parecem ter dificuldade em fornecê-los, ou consideram que os serviços de imprensa lhes saem demasiado caros, ou então trabalham com pessoal negligente. Em suma, não se trata, portanto, de uma selecção baseada em escolhas políticas ou simpatias pessoais do autor. Uma bibliografia só pode falar daquilo que se tem à mão. É, todavia, manifesto um crescimento significativo das memórias de antigos combatentes portugueses, aliás bastante mais significativo do que a produção suscitada pela conquista
colonial dos séculos XIX e XX. Tudo indica que, nas décadas futuras, esse  fluxo aumentará exponencialmente, devido às centenas de milhares de portugueses letrados que foram mobilizados para a defesa do império, devido à diversidade das suas experiências e ao traumatismo gerado por uma guerra
que a grande maioria odiava, quer a considerasse inútil, contrária aos seus projectos e desumana, quer tivesse a sensação de ir arriscar a sua vida por interesses políticos e económicos com que não se identificava. As guerras de descolonização deixam geralmente uma lembrança amarga no espírito dos europeus que as travam. Os portugueses não fogem, evidentemente, a essa regra e estamos longe do triunfalismo das «belas campanhas coloniais» à Mouzinho de Albuquerque, Alves Roçadas, João de Azevedo Coutinho e outros grandes ou pequenos heróis de há três ou quatro gerações. Não há, nem nunca haverá, heróis nas guerras que vamos visitar. Apenas vítimas de ambos os lados, pese embora aos propagandistas e historiadores nacionalistas. 
 
De qualquer forma, na guerra de 1961-1974, uma guerra esfarelada e sempre recomeçada, sem batalhas decisivas, sem oficiais triunfantes, sem desafio patriótico, não há quem consiga citar um único nome sonante de entre a monotonia dos milhares de oficiais esgotados no mato ou prudente-
mente refugiados num qualquer gabinete com ar condicionado.
 
Antes de entrar no assunto propriamente dito, comecemos por prestar homenagem a um trabalho que está longe de ser perfeito ou inocente — quem pode almejar a perfeição em historiografia? —, mas que representa um esforço enorme (mais de 1600 páginas) e é de uma utilidade incontestável. Os cinco volumes de Angola, Datas e Factos1, de Roberto Correia, são obra de um amador, repatriado de Angola e nostálgico da obra portuguesa em África. Optou por um sistema que certos historiadores podem considerar obsoleto, mas que lhes prestará grandes serviços: a elaboração de uma cronologia extremamente detalhada da história angolana de 1482 a 1975, com anotação de todas as datas que conseguiu encontrar na literatura e em perió-
dicos (incluindo as publicações oficiais) quase exclusivamente portugueses. Assim, a guerra colonial e os seus prenúncios ou prolongamentos ocupam algumas dezenas de páginas do vol. 4 e uma centena do vol. 5, tendo este sido completado por vários índices e listas de personagens. É claro que o autor não aprova de forma alguma os responsáveis pela descolonização nem os partidos africanos que arruinaram o seu país. Está no seu direito. Apesar destas opções, a obra é uma autêntica mina de dados em bruto, cronologi- camente referenciáveis. Factos insignificantes ou importantes. Eis a razão por que estes cinco volumes deveriam existir em todas as bibliotecas públicas portuguesas dedicadas à expansão ultramarina. O facto é que, tanto quanto se sabe, não existe nenhum estudo «profissional» da guerra em Angola após 1964. Efectivamente, quem tem coragem de ir remexer nas toneladas de papéis amontoados pela burocracia militar para nos fornecer uma lista ponderada e coerente de milhares de pequenas operações enterradas na rotina, na lama e na memória dos seus participantes?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Colónias (As) portuguesas perante a guerra

1915-01-03 Versão para impressão
Colónias (As) portuguesas perante a guerra
"É do Sr. Lisboa de Lima, último ministro das Colónias, o artigo que se segue e que, com a devida vénia, transcrevemos da Revista Colonial: «As colónias portuguesas, ao declarar-se a guerra europeia que sem dúvida as afectaria, senão na integridade de seus territórios e na sua ordem interna, ao menos na situação económica e financeira de todas elas, estavam em vésperas de ver efectivada a sua autonomia administrativa e financeira que as leis de 15 de Agosto de 1914 lhes outorgaram e pelas quais as colónias de longa data ansiavam, como a mais segura garantia das suas propriedades e desenvolvimento.

Se não fora a guerra europeia, seria hoje um facto o empréstimo de 8 000 contos para Angola, como primeira parte do grande empréstimo dos 40 000 contos; e à utilização criteriosa daqueles 8 000 contos seguir-se-ia sem dúvida o complemento do plano de fomento.

Portanto, mesmo apesar de deixarem a desejar as condições económicas de Angola ao serem decretadas as leis de 15 de Agosto, aquela província em poucos anos estaria, como as demais colónias portuguesas, em situação de usar com toda a liberdade a sua autonomia, emancipada da tutela que a obrigavam, perante a metrópole, os forçados subsídios de que até agora tem carecido.

O reflexo da guerra europeia nas condições económicas e financeiras de todas as colónias, veio, pois, surpreendê-las nas vésperas de uma situação em que elas punham todas as suas esperanças, pela garantia que lhes dava de uma vida nova de trabalho e de inegável desenvolvimento. Não depende do esforço individual de ninguém, nem até do esforço de todos os portugueses, que a situação anormal que para as nossas colónias criou, termine em prazo curto. Depende, porém, e muito, de todos nós, de dirigentes e de dirigidos, que os efeitos dessa guerra se façam sentir o menos possível em todas as colónias e especialmente naquelas que pela sua vizinhança de colónias pertencentes as nações beligerantes, mais expostas estão a ser mais profundamente atingidas pelos efeitos da guerra.»"

Fonte: LIMA, Lisboa de, "As Colónias portuguesas perante a guerra" in O Jornal do Comércio e das Colónias, n.º 18 270, de 3 de Janeiro de 1915, p.2.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

AS RAZÕES DE VICENTE FERREIRA



Nova Lisboa — Capital de Angola
por:
Leonel Cosme
Quem viveu muitos anos nas ex-colónias portuguesas não estranha que o contacto com as terras e os povos tenha produzido, mesmo em altos fun-cionários do Estado que cumpriam efémeras comissões de serviço (normal-mente de dois anos), uma consciência da realidade que, em muitos casos, conflituava com os estereótipos formados pela visão das colónias como feitorias, não exigindo grandes empenhamentos nem dispêndios: até houve quem propusesse a sua venda ao estrangeiro...
O exemplo mais construtivo das “correcções” à política colonial foi seguramente o de Norton de Matos, que conseguiu, no seu segundo mandato, em 1921-1923, já com o título de Alto Comissário, ampliar os poderes que eram atribuídos aos governadores-gerais, a cujas “ousadias” o Governo Cen-tral fazia orelhas moucas. É o caso das “pretensões” sobre o desenvolvi-mento do ensino público formuladas por “africanistas” como Custódio Borja, Alves Roçadas, Jaime de Morais, João de Almeida ou Massano de Amorim, na linha aliás preconizada anteriormente pelo ministro do Ultramar Rebelo da Silva. Neste contexto, o mais “rebelde”, Filomeno da Câmara, ousou mesmo criar, em 1919, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes, que seriam regulamentadas, três anos depois, por Norton de Matos.
A última “ousadia” foi a do governador Venâncio Deslandes, ao criar, em 1962, os Estudos Gerais Universitários, que Salazar se viu “compelido” a ra-tificar no ano seguinte (já sopravam os “ventos da mudança”), mas em con-sequência do que foram demitidos o Governador-Geral de Angola e o Minis-tro do Ultramar, Adriano Moreira...
No seu primeiro mandato (1912-1915), depois de ter passado pela Índia, Norton “aprendeu” que Angola não podia continuar a ser encarada como “feitoria” ou “colónia penal” para onde a Metrópole escoava condenados e aventureiros, mas um espaço onde teriam lugar os portugueses ambiciosos e empreendedores que, não “cabendo” já no Brasil independente, seriam os agentes do projecto “avançado” (mercantilista) que ele tinha para o Ultramar. De imediato, reconhecendo que era imperioso dilatar as vistas da Angola histórica, litorânea, para o interior inexplorado, começou por fundar, logo em 1912, o burgo do Huambo, que a partir de 1928, no governo do Alto Co-missário Vicente Ferreira, se chamou Nova Lisboa.
A Metrópole ouviu Norton de Matos, pelo menos durante o ano em que, saído de Angola, foi Ministro das Colónias, donde transitou para o Minis-tério da Guerra. Quando António Vicente Ferreira, em 1923, sucedeu a Nor-ton no Ministério das Colónias e em 1926-1928 no governo de Angola, já a semente deixada por Norton estava em plena germinação: ainda em 1928, Vicente Ferreira defende que a capital de Angola deveria ser transferida para Nova Lisboa, ideia que, no distante Terreiro do Paço, teria soado como uma fantasia de africanista enfeitiçado pela magia dos trópicos... Mas em 1933, já na vigência do Governo de Salazar, ainda reitera:
(...) Todas as considerações de ordem climatérica, sanitária, adminis-trativa, política e económica, que tornam imprópria a cidade de Luanda, para servir de capital da moderna Angola, colónia agrícola e de povoa-mento, recomendam a Nova Lisboa para esse efeito. E porque, em maté-ria de colonização moderna — talvez mais do que em outras obras huma-nas, as oportunidades mal surgem para logo desaparecerem, supomos que acertadamente andariam os homens de governo, se, aproveitando a razão favorável, lançassem com energia os fundamentos da grande obra de colonização de Angola: o povoamento —, com o seu corolário neces-sário: — a transferência da capital. E deste asserto diremos os porquês.
E primeiro porque é asado o momento.
Temos nós, como todo o mundo, actualmente, a nossa legião dos sem-trabalho, todos os dias acrescida pelo contingente dos que são repelidos, pela crise do Brasil e doutros países de imigração. Muitos cuidados e despesa custa a assistência que só a pequeno número se presta, na Me-trópole, com trabalhos públicos e municipais adrêde inventados, e por isso nem sempre dos mais justificados pela utilidade pública. Suportam assalariados e patrões o peso do impôsto a esse fim destinado, e sendo este encargo já modesto para a maioria dos que o pagam, ele teria de ser muito maior, se a todos os sem-trabalho, como de justiça, se acudisse; e porque nem é possível agravar este impôsto, nem fácil multiplicar inde-finidamente o número de obras públicas e municipais, forçoso é lançar mão daqueles recursos extraordinários, que a necessidade sugere, a ra-zão aconselha, e a previdência dos homens de Estado sabe reconhecer e aplicar.
(...) É Angola o natural destino daquele excedente de população, que as difíceis condições do mundo, na época presente, acumulou no terri-tório da Metrópole, onde não encontra trabalho adequado nem meios de subsistência. E porque as características do mal, com as suas reper-cussões sociais, que se antevêem perigosas, e a perspectiva do seu agra-vamento futuro, exigem que o remédio não tarde; e porque outras cir-cunstâncias de ordem externa, parecem aconselhar diligências no que toca a Angola, diremos que o momento é asado. (...)
Como é sabido, Salazar não afinava pelo mesmo diapasão: aos portu-gueses que quisessem emigrar para as colónias de África era exigida uma “carta de chamada”; e para o estrangeiro, só a salto... E quanto a pensar que transferindo a sede do poder político-administrativo de Luanda para o Pla-nalto Central se criaria ali um grande pólo de desenvolvimento do interior, ninguém, que saibamos, se deixou impressionar pela “ousadia” de Juscelino Kubitschek de Oliveira, ao transferir, em 1960, a capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central do Brasil...
Leonel Cosme