Mostrar mensagens com a etiqueta ; Angola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ; Angola. Mostrar todas as mensagens

sábado, 30 de julho de 2011

Angola Descolonização: Pontos Essenciais dos Acordos de Bicesse




O Governo da República Popular de Angola (GRPA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), com a mediação do Governo de Portugal e a participação de observadores dos governos dos Estados Unidos da América (EUA) e da União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS).
Aceitam como vinculativos os seguintes documentos, que constituem os Acordos de Paz para Angola: a) Acordo de Cessar-Fogo (incluindo os anexos I e II);
b) Princípios fundamentais para o estabelecimento da paz em Angola (incluindo o anexo relativo à Comissão Militar Mista);
c) Conceitos para a resolução de questões pendentes entre o Governo da República Popular de Angola e a UNITA; 

domingo, 15 de agosto de 2010

ANGOLA: CONFLITOS POLÍTICOS E SISTEMA SOCIAL (1928-30): Adelino Torres

Em homenagem ao historiador José Capela
obreiro da memória luso-moçambicana


Em 1930 teve lugar em Angola, então a mais importante colónia portuguesa em África, o que alguns qualificaram como "tentativa de golpe de Estado" e outros, mais eufemisticamente, chamaram movimento "de indignação popular" contra os abusos do Alto Comissário Filomeno da Câmara3. Esta questão, que poderia ter desencadeado na
época uma guerra civil em Angola, foi objecto de violenta polémica, especialmente na imprensa da colónia. Sessenta e seis anos depois ela mergulha no esquecimento, e, que se saiba, nenhum historiador a tratou até hoje4.

O objectivo deste artigo não é de fazer uma descrição dos acontecimentos que tiveram
então lugar em Angola e que poderiam ter tido repercussões profundas sobre o próprio
regime em Portugal. Limitamo-nos apenas a esquissar os contornos de uma trama que teve essencialmente lugar em 1929-30, aproveitando-a para tentar pôr em relevo algumas das características da própria colonização portuguesa enquanto política global. Esses elementos parecem essenciais para a compreensão da situação económica e social de Angola nas décadas que se seguirão.

A documentação da época sobre esta rebelião de 1929 é constituída por dois livros,
hoje praticamente desconhecidos, e por um volumoso dossier de documentos inéditos
descoberto há poucos anos num leilão em Lisboa5.

O objectivo desta resenha é, nomeadamente, de analisar à luz dos acontecimentos
referidos a validade de certas concepções ainda hoje muito partilhadas - pelo menos no que diz respeito à colonização portuguesa em África - sobre a relação metrópole-colónias africanas, nomeadamente: o conceito de "burguesia colonial" como um todo indiferenciado que pressupõe uma dicotonia radical colonos-africanos, quase maniqueísta; o conceito de "dominação colonial capitalista" que, sem ser falso em todos os seus aspectos, ignora todavia uma realidade muito mais complexa que tem pouco a ver com o "capitalismo" (entendido este aqui como o "capitalismo liberal" clássico evocado por Adam Smith, e
mesmo numa acepção mais moderna do termo) enquanto tal.

Continua...


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Rosa Cruz e Silva: Tchitundo-hulo para património mundial

No dia em que se abriram as actividades para o Março Mulher, ontem, fomos falar com a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva.

Falamos sobre a condição da mulher, sobre o seu pelouro e sobre o CAN, um espaço em que sobreveio a sua qualidade de historiadora vincada nas apresentações de abertura e de encerramento do campeonato e que recentrou os angolanos, orgulhosos, no seu espaço de território e de cultura. Mas falamos também de cinema, de carnaval e de gravuras rupestres.
Estou perante a Sra. ministra da Cultura que é mulher, historiadora e governante. Nestas condições, e olhando para o papel histórico da mulher angolana, tivemos uma fase em que o seu papel foi socialmente mais reduzido, depois esteve a par com o homem na luta de libertação nacional, mas agora, numa fase de desenvolvimento e crescimento, temos que a mulher chega aos lugares de poder também pela via da percentagem representativa por quota. Acha que essa ascensão é uma âncora necessária, ou o caminho natural …
Penso que é um caminho natural feito pela mulher. Disse que teriam antes tido um papel restrito, eu não o qualificaria assim, mas circunscrito às condições históricas do início da formação das sociedades, da nossa sociedade, neste território … há um papel da mulher, de facto, não só na família mas também na divisão social do trabalho, a mulher tem um papel importante na agricultura que depois da sedentarização foi a base do sustento das primeiras sociedades que depois foram evoluindo. Mas no caso de Angola temos registos de mulheres que se destacaram não só no âmbito agrícola mas também no fórum político, vou lembrar figuras que desempenharam um papel importante para a transformação das sociedades …

Vai falar-me da Rainha Ginga ….
Ia falar de duas mulheres, Ginga MBandi e Kimpa Vita. Ginga MBandi, política, sim … ela tornou-se numa embaixadora do reino do NDongo, por força das circunstâncias políticas que o reino vivia, o Estado estava a ser invadido pelas tropas portuguesas e o rei recorreu a uma mulher para negociar com as autoridades portuguesas. Ela desempenhou o papel em duas missões consecutivas, em 1622 e 1623, até que se tornou ela própria a soberana, a senhora do reino, como ela se intitulava. E teve um papel político importante. E mais tarde poderia falar-lhe de Kimpa Vita que, por força também das circunstâncias políticas do Estado do Congo, liderou um movimento de contestação religioso …

Temos que enquanto a rainha Ginga se converteu ao cristianismo, fazendo-se baptizar, a Kimpa procurou reformar o cristianismo no seu espaço …
Atenção. Ginga MBandi converteu-se ao cristianismo a dois momentos, o primeiro foi pelas circunstâncias, não por adesão imediata como muitas vezes se diz, foi uma estratégia, dela e do soberano. Ou seja, ela cumpriu instruções do soberano do NDongo. Mas num outro momento da vida dela, já a caminho da morte sim, aí se encontra uma Ginga MBandi convertida ao cristianismo.

Mas Kimpa Vita propôs reformas ao cristianismo …
Sim propôs. Mas para falar de Kimpa Vita vale a pena falar também de outras mulheres anónimas mas que participaram no movimento que transformou o processo de passagem de conhecimento no Congo, que era feito pelas vias tradicionais mas que, depois, com a chegada dos portugueses e com a apropriação do sistema português, criaram-se escolas no Congo, e muitas e … reclamava um missionário que tinha estado no Congo e tinha voltado para a Europa e, numa segunda viagem, ficou espantado porque havia muitas escolas no Congo e elas eram dirigidas por mulheres. Isso significa que da actividade agrícola, da organização da família, elas aderem a um novo sistema de transmissão do conhecimento. As pessoas até se questionavam por o rei do Congo saber ler a bíblia, se ele reportava os ensinamentos da bíblia na correspondência que foi tendo … todos os reis do Congo aderiram e mantiveram a correspondência escrita que se tornou num instrumento não apenas para a administração mas também para as relações internacionais…

Isso faz pensar que haverá um défice no conhecimento do papel da mulher angolana, há poucas heroínas desse tempo, terá havido outras mulheres, outras soberanas de que não se fala …
Não terá havido o registo. Por exemplo, a importância que tiveram essas mulheres que organizaram as escolas no Congo, infelizmente não é tratada na nossa historiografia, e é um dado. Vai sendo abordado e espero que com a profundidade que a temática sugere. Mas há ainda muitas mulheres sobre o papel da mulher ao longo dos vários momentos históricos de Angola. Estávamos nos séc.
XVII e XVIII, mas depois falou-me do papel da mulher na libertação, também aderimos com muita facilidade ao apelo, ao chamamento para a libertação, participamos nas reuniões clandestinas, no movimento literário, nas associações culturais que tinham uma vocação empacotada de política e, naturalmente, ingressamos nas fileiras da luta de libertação, na guerrilha, na direcção política … até a ascensão à independência fomos, paulatinamente, conquistando, daí eu dizer que foi uma trajectória natural e não a tal necessidade apenas de se pôr números. É um direito conquistado, embora não tenha sido fácil, porque algumas limitações conceptuais, do entendimento da organização da sociedade, levaram a que ficássemos muito aquém nessa participação, não é por falta de vontade das mulheres, é porque lhes estava vedado o acesso.
Isso não é exclusivo de Angola, é uma realidade universal, mas que está a ser revista pela dinâmica das sociedades e tendo em conta a força das próprias mulheres.

A figura da zungueira, a mulher que vai aos limites do espaço habitado para ir buscar alimentos, para o sustento … essa é uma figura que não é tão nova em Luanda …
Não, não é tão nova. A venda de produtos no espaço urbano começa no mercado fixo, regular, mas as dificuldades no lar foram-se tornando cada vez mais acentuadas, isso remonta ao século passado, há essa necessidade de deambular. Temos a peixeira, as mulheres que vendiam farinha … isso no século XIX e séc. XX, as que vendiam frutos … depois disso houve a introdução de novos produtos como a roupa e outros artigos da vida doméstica.

Voltando ao século XVII, temos casos de mulheres que também vendiam ou negociavam escravos …
O que digo sobre os séc. XVI e XVII é que a captura de escravos tem um início que passa pelos centros políticos, naquela negociação inicial com os europeus, mas esses centros políticos, tendo em conta as próprias características, rebelam-se … e a captura e venda de escravos passa a ser feita de forma mais coerciva que de mercado natural. As nossas sociedades nos séc. XVI e VXII tinham na base da pirâmide social os escravos mas o escravo era um membro da sociedade a que são retirados alguns direitos, por várias razões, como crimes cometidos, dívidas, enfim … mas esse escravo na nossa sociedade tradicional perde alguns direitos mas tem outros, não fica absolutamente sem direitos nenhuns, de tal forma que na casa do seu senhor, ele pode casar com a filha do seus senhor … é a escravatura que a história chama de doméstica. Mas com a introdução do tráfico essa situação se altera, no espaço do comércio, ou feira, tínhamos o espaço tradicional onde se vendiam os produtos locais e, ao lado, podíamos ter o local onde se vendiam os escravos, as tais pessoas apanhadas na guerra e transformadas em escravos, ou que tinham dívidas, que cometiam crimes, mas na casa do senhor onde ia prestar serviço doméstico, e pode-se comparar o escravo doméstico com o servo da Gleba, o escravo tinha direito a um espaço para poder cultivar para si e para a sua família, é um elemento comparativo, mas ele acabava por ser integrado na família, daí a designação de escravatura doméstica.

Tirando D. Ana Joaquina não há registos de outras mulheres que tivessem participado no tráfico de escravos?
Eu penso que sim. A D. Ana Joaquina, a historiografia deu-lhe um destaque à altura da importância do papel que ela desempenhou na sociedade escravocrata de Luanda, mas há uma lista de outras mulheres que também tinham negócios na altura. É um trabalho ainda a ser feito, porque uma das forma de fugir um pouco a lógica do sistema colonial foi a encontrada pelas chefias africanas que favoreciam o casamento de algumas mulheres das suas famílias com algumas figuras da sociedade portuguesa, nomeadamente militares, etc., e essas mulheres tiveram um papel importante na estrutura económica da sociedade colonial da época. Este estudo ainda não está “muito feito”, existem alguns trabalhos da historiadora Selma Pantoja que estuda as quitandeiras, as mulheres, Luanda e o seu interland, onde encontramos essas mulheres. É preciso continuar a estudar porque eu penso que Ana Joaquina teve efectivamente um papel importante na economia da época, ela fez parte do grupo de empresários da época mas houve outras mulheres cujos nomes não são tão divulgados mas que merecerão, seguramente, o tratamento dos historiadores.

E o trabalho dos historiadores, de pesquisa, investigação, cabe no Fundo de Apoio a Cultura, ou merece outro tratamento orçamental?
Naturalmente que a cultura tem um papel importante junto das instituições que o ministério tutela, as instituições de investigação, os museus, os institutos de pesquisa, seja as línguas, sejam as questões religiosas, nas indústrias culturais, no arquivo nacional, etc., mas eu penso que é necessário estabelecer um vínculo muito forte com as universidade, e temos de reconhecer que há um défice nesse intercâmbio que deve existir. Dá quase a sensação de que a responsabilidade da investigação fica apenas para o ministério da Cultura. Lembremonos que na sociedade colonial existiu um Instituto de Investigação Científica com vários ramos e onde a área das ciências sociais se destacou. A maior parte dos trabalhos sobre antropologia, etnologia e história, embora quase todos na perspectiva colonial, foram feitos dentro desse instituto ou dentro de alguns museus, nomeadamente o Museu do Dundo que foi um laboratório de investigação científica de especialistas vindos de diversas partes do mundo, da Alemanha, Hungria, Portugal …

E agora temos peças do Museu do Dundo em diversas partes do mundo …
Exactamente, não só resultante das nossas debilidades de conservação, preservação, mas do período dessa mesma investigação. Há material resultante dessa investigação que está na Alemanha. Nós temos um acordo, chamemos assim, com uma historiadora alemã que recebeu o legado de um dos grandes investigadores alemães que esteve aqui no Museu do Dundo, a professora Beatriz Heinz, ela foi aluna do professor Mabaun que produziu muitos trabalhos sobre os povos da região leste de Angola e ela tem estado a publicar estes trabalhos.
Tem estado a publicar fontes de exploradores alemães que estiveram em Angola. Mas eu dizia que esse instituto de investigação produziu muito material na perspectiva colonial, mas que serão fontes de pesquisa para os trabalhos actuais, sobretudo para aquilo que tem que ser a revisão da perspectiva.
Há bocado falamos da rainha Ginga e da Kimpa Vita, claro que nesses estudos a perspectiva colonial nem sempre dava o tratamento científico, na verdadeira acepção da palavra, da figura da rainha Ginga. Claro que reconheciam a sua capacidade de dirigente, reconheciam a sua inteligência, as virtudes, mas, numa palavra, essa historiografia tratou-a como uma bárbara que até comia pessoas, era antropofágica, e outros nomes que lhe deram. Isso tinha a ver com o olhar preconceituoso desses especialistas, agora compete-nos a nós revisitar essas fontes e produzir novos estudos, até porque temos novos instrumentos metodológicos mais elaborados, mais eficazes, para reconstituir os momentos, as acções, as realizações dessas figuras importantes da história.

Se tivéssemos partido de um olhar colonial na apresentação feita na abertura do CAN, em vez de pessoas e hábitos humanos teríamos tido coisa como “tipo mumuíla”, para representar as pessoas, uma espécie de apresentação peças não humanas …
Seriam peças mais museológicas do que peças que resultam de acções porque, na perspectiva colonial, essas sociedades eram, muitas vezes, tão arcaicas, tão primitivas, que não se lhes reconhecia a capacidades das realizações que efectivamente tiveram.
Por isso dizia que compete a nós, os especialistas angolanos, os verdadeiros investigadores e cientistas, porque os há, enquanto aqui se publicavam coisas nessa perspectiva, nos laboratórios de ciências sociais de outros países tínhamos outros investigadores a trabalhar seriamente. Por isso é que quando realizamos o Encontro Internacional de História de Angola temos tido a oportunidade de convidar especialistas americanos como o prof.
John Thornton, o prof. Joseph Neel, o prof. Jean Ganzina, alguns professores portugueses como a prof. Maria Emília, Isabel Castro Henrique, o prof.
Alfredo Margarido, que não o tivemos por problemas de saúde, mas Jean Jacques Veneau … que são especialistas que perseguem as realizações dos angolanos desses períodos mais antigos …

Estava à espera que a apresentação no CAN fosse tão bem recebida pelos angolanos?
Não criei muitas expectativas em relação à reacção das pessoas porque a preparação não teve o tempo que nós pretendíamos. Tenho que reconhecer que estávamos um bocado receosos, não pelos conteúdos mas pela capacidade de representação … o problema era sobretudo do ponto de vista estético, não era dos conteúdos que acreditávamos que os angolanos se iriam reconhecer neles.

A reacção não foi como se os angolanos se tivessem esquecido de si próprios e de repente, afinal ….
Não sei, acho que a reacção foi de bastante deslumbre pela luz, pela cor, mas sobretudo porque o que estava ser reflectido naquela luz eram conteúdos que lhes diziam respeito. É a identificação com os actos que aquelas pessoas estavam aí a representar.

Sobre os museus, temo-los pouco atractivos, ou temos cidadãos pouco virados para a história …
ou a própria vida das cidades não dá espaço para a visita ao museu? Penso que eles não deixam de ser atractivos, os conteúdos são atractivos, mas precisam de ser melhorados e, sobretudo, os técnicos dos nossos museus precisam de mais formação especializada. Quem tem as peças num museu tem de ser capaz de transformar essas peças num apelo a qualquer cidadão, seja ele nacional ou estrangeiro. É preciso ter conhecimento, é preciso saber qual é o significado do acervo, o significado das exposições que montamos, como é que levamos a mensagem do museu para o público, para o atrair, para o informar, etc., há efectivamente um défice desta natureza nos nossos museus e na maior parte das nossas instituições culturais que queremos ir resolvendo.
O ministério concebeu um projecto de formação generalizada para todos os nossos órgãos, nos serviços centrais e nas províncias, numa parceria com a UNESCO. No caso dos museus teremos formações dadas por especialistas em cursos de média e longa duração.
Pretendemos trabalhar com o ensino superior de modo a que consigamos abrir cursos da área da cultura nas nossas universidades porque o pessoal das nossas instituições resulta da formação no exterior, alguns não voltam, e as poucas que voltam, até por razões salariais e outras condições não ficam connosco … nós queremos inverter este quadro num programa de formação direccionado para a formação in situ e fazendo recurso às universidades. Se tivéssemos muitos museólogos esses formariam outros e os técnicos dos museus e isso tornaria mais fácil transformar os museus numa atracção duradoira …

Não está já na hora de se fazer um apelo aos empresários …
A primeira responsabilidade é do Estado, temos de trabalhar mais para conseguir isso… as prioridades ainda não estiveram propriamente voltadas para os museus, mas a perspectiva da política do governo vai neste sentido, temos de preservar os acervos valiosíssimos que temos nos nossos museus e dá-lo a conhecer. Gradualmente chegaremos aos recursos para garantir a preservação do acervo e os apoios que vieram das empresas ou outras instituições serão para os projectos de divulgação e tratamento do acervo.
Estamos agora a espera do parecer da Lei do Mecenato pelo ministério das Finanças, por ser uma lei que tem a ver com os impostos, etc., mas penso que a breve trecho lá chegaremos …

Falar do mecenato é falar de dinheiro, mas falar de dinheiro na cultura é também falar do turismo cultural, que pode gerar muito dinheiro. Não há incentivo a isso, quem está no Menongue, sobre Luanda ouve falar das praias, das discotecas, de uma ou outra praça, mas e os espaços de cultura?
Como em várias áreas, tivemos dificuldades no turismo, que praticamente não se fazia sentir, por razões óbvias. Terá havido um turismo interno de pessoas arrojadas que não querendo ficar na capital iam de avião a esta ou aquela província … mas isso nem era turismo, era mais um desfrute para ir observar, conhecer determinadas regiões do país. Mas agora, com Angola em paz, sendo possível andar de carro de província para província, e tendo em conta as grandes potencialidades do nosso país nesse domínio, temos de fazer um grande programa para incentivar o turismo cultural. Estamos a fazer projectos nesta perspectiva e acho que este ano ainda anunciaremos algumas novidades, estamos a trabalhar com o ministério do Comércio, através da a Secretaria de Estado do Turismo, para que possam receber de nós alguns produtos que se anunciarão para os pacotes turísticos.
Existem já algumas empresas que já começaram no ecoturismo, levando as pessoas a observar paisagens e até sítios e monumentos históricos, mas nem sempre há o conhecimento adequado para anunciar e divulgar a importância dos locais.
E se formos ver a Welwitchia … A Welwítchia, antes de ter esta designação tinha numa das populações locais que era Tómbwa, ou Tomba, e assim foi registada cientificamente. O primeiro registo do especialista que a encontrou, o Welwitchie, chamou-lhe Tómbw Angolensis, é assim que está registada, mas depois os cientistas decidiram que tinham de fazer uma homenagem ao homem que descobriu uma coisa tão rara no mundo e então ela passou a chamar-se Welwitchia Mirabilis. Muitas pessoas não sabem porquê que o município do Tómbwa tem essa designação, é porque foi lá onde o Welwitchie encontrou pela primeira vez a planta rara. Isto é um dado que deve ser explicado, e que se chama Tombwa porque a planta deita uma espécie de líquido, ou resina que as populações locais usavam para fazer fogo, uma espécie de combustível, isso também é um conhecimento que não é generalizado. Isto também serve para o pacote turístico, este conjunto de informações relacionadas com a história da própria planta, da descoberta de outro mundo, porque as populações nhaneka que ocupavam aquele território …

Mas indo ao Namibe ver a Tombwa, lá passaremos pelas pinturas rupestres do tchitundo-hulo …
Exactamente, vamos passar pelas gravuras …

Que foram ou não destruídas?
Não. De facto elas não estão bem, e não estão bem há muito tempo

Há forma de as conservar?
Por isso é que as queremos inscrever na lista do património mundial, para partilharmos esta responsabilidade com o mundo, tendo em conta o valor, a excepcionalidade que aqueles registos históricos têm. A problemática das pinturas e gravuras rupestres é mundial, na sua preservação. Estou a lembrar-me da luta que os franceses tiveram para preservar uma grande pintura rupestre que é Làscaux, que também se deteriorou com o tempo e estavam a apagar-se os registos. Os arqueólogos franceses, de facto especialistas muito especiais, propuseram ao governo a transformação daquilo quase num laboratório para preservar um elemento importante da história do país. Esta questão das gravuras é universal, a céu aberto é muito complicado garantir a preservação dos rigores do clima. Quanto a nós, acho que é possível limitar o lugar e evitar que qualquer pessoa que por aí passe faça o que bem lhe apetecer. Mas para já temos de fazer um registo exaustivo do que ainda existe de gravura, e são as gravuras que estão em perigo, por que as pinturas dentro da caverna estão protegidas por si, digamos, mas as gravuras têm de ser filmadas, fotografadas para estudarmos os conteúdos.
Não sabemos interpretar ainda as mensagens que estão aí… houve tentativas de arqueólogos que por lá passaram, nas pesquisas que efectuaram nos anos 60 e até antes, os primeiros registos da existência daquelas pinturas creio que são dos anos 30 do século passado… enfim, é esta ideia que nos levou a considerar a inscrição na lista do património mundial.

Ainda no sul, com todo este património, há um outro, imaterial, importante, embora a responsabilidade se possa partilhar com outros países, que é a língua dos san, uma população e cultura a preservar …
Os san estão em várias partes do nosso país, estão no Cunene, no Moxico, no Kuando Kubango e na Huila … Estamos a falar de uma língua em perigo em Angola? Sim. Não só a língua, o meio de comunicação, mas sobretudo a própria população. Deverão ser desenvolvidas políticas direccionadas àquela população, de modo a que não se violente a sua identidade, porque há uma atracção muito grande para as “bantuizar”, mas que esse processo decorra da sua própria opção. Neste momento existem dificuldades do espaço vital, porque essas comunidades são caçadoras-recolectoras, ora, se o espaço onde eles irão buscar o alimento estiver esgotado que outro recurso terá essa população? É um trabalho a ser feito por especialistas no sentido de lhes garantir um direito que os assiste como angolanos no nosso território.

Conhecemos pouco das suas histórias, das suas mensagens …
Há trabalhos que estudaram aquelas comunidades, tanto no interior de Angola como na Namíbia e na África do Sul, por isso é que quisemos, no CAN, trazer um registo da presença deles como representantes de comunidades que têm como indicativo o de serem os primeiros povoadores da África austral e de Angola. Os registos que temos ditam isso, antes dos bantos existiam os san, com quem os bantos se foram integrando e eles ficaram numa sobrevivência de pequenas bolsas nas províncias que dissemos. Dai que tivéssemos ido buscar um canto san, para que haja essa lembrança de que somos um povo resultante dessa integração e de uma origem que tem essa população como ponto de partida.

Nesta parte do património temos os artistas, os pintores e os escritores …
estamos a escrever pouco quando ainda temos como referências apenas pessoas que o são há 20, 30 anos? Manuel Rui, Pepetela, Luandino Vieira … não estão a despontar com muita força novos nomes. Os músicos vãose multiplicando … É um percurso silencioso, o crescimento literário. Naturalmente que existem nomes com pouca projecção, mas poucos nomes, e isso indica que o nosso ensino precisa de afinar esta parte da capacidade inovadora dos angolanos … CONTINUA... in Grande Entrevista O País Online
http://www.opais.net/pt/opais/?det=10305&id=1647&mid=322

segunda-feira, 29 de março de 2010

‘FICHEIROS SECRETOS DA DESCOLONIZAÇÃO EM ANGOLA, DA AUTORIA DE LEONOR FIGUEIREDO“


Edições Alêtheia, 16€ (à venda nas livrarias a partir de 7 de Agosto)

Quiseram correr com os brancos de Angola"

Leonor Figueiredo e Pré-publicação do seu livro

"Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola"


O pai desapareceu em angola há 34 anos. A filha investigou e escreveu um livro que revela uma rede de prisões clandestinas E uma lista oficial de nomes de portugueses desaparecidos.

Já conseguiu fazer o luto do seu pai?
Acho que este livro me veio ajudar a fazê-lo. Conheço pessoas que nunca fizeram o luto de um familiar desaparecido. Nem conseguem abordar o assunto. Estou muito satisfeita por falar no meu pai e nas muitas vítimas desconhecidas e escondidas da descolonização de Angola que descobri. Passou muito tempo. Quando era adolescente, nem queria falar no assunto porque pensava que o que tinha acontecido ao meu pai era uma coisa extraordinária. Mas não. Houve muitas centenas de portugueses que foram vítimas da guerra política em Angola.
Publica uma lista inédita, do MNE (Ministério dos Negócios Estrangeiros), com mais de duas centenas de nomes de portugueses desaparecidos em Angola. Como pode ter sido abafada tantos anos?
A pasta tinha sido desclassificada há pouco tempo. E mesmo assim não estavam lá os documentos todos. Nos arquivos do nosso Estado, há muitas coisas que não podes consultar. São secretas; são muito secretas. E portanto, nunca virão à leitura do público. Esta, por acaso, foi desclassificada e eu tive a sorte de dar com ela, porque ia precisamente à procura do meu pai.
O seu pai consta dessa lista, tal como outras pessoas com quem falou para escrever este livro.
Exactamente. Eu tinha este know-how da minha adolescência, de ouvir a minha mãe e outras pessoas contar histórias de Angola que não eram faladas em Portugal. O meu pai desapareceu, mas alguns dos “desaparecidos” vieram depois a aparecer nas prisões, com acusações absurdas. Não estou a dizer que são todos inocentes. Mas o ambiente era de repressão e qualquer coisa servia para atingir os fins políticos.
Essas prisões eram ilegais, clandestinas...
Claro. O que quer dizer que Portugal entregou Angola ao MPLA muito mais cedo do que se pensava. Cerca de meio ano antes.
O próprio MNE admitiu, em 1977, segundo os documentos que pública, que o MPLA prendeu portugueses antes da independência?
Exactamente.
Como define então a descolonização?
A descolonização de Angola ainda tem muito para revelar. As pastas governamentais têm que ser todas desclassificadas. Um balanço faz-se com números, com casos, não se pode ficar eternamente a divagar em teorias ou preconceitos e a ouvir sempre os mesmos.
Parece-lhe possível que desapareçam algumas das pastas que estão classificadas?
É evidente. Eu própria, nas pastas que tive acesso, vi que faltavam muitos documentos.
Como é que teve coragem para começar esta investigação?
Nunca tinha pensado em pegar no assunto, até que, há uns anos, começaram a ser publicados livros de fotografias de Angola e Moçambique. Eu fiz essa reportagem, e nessa altura, em conversa com a Zita Seabra [editora da Alêtheia], que procurava material sobre as ex-colónias, disse-lhe a brincar: ‘se eu algum dia contasse a história da minha família...’. Diz-me ela: “escreva que eu publico”. E esta pequena conversa veio abrir um cofre que estava fechado a sete chaves, há muitos anos. Nós não mandamos na nossa cabeça, não é? Saltou qualquer coisa e decidi: ‘vou escrever a história do meu pai.’ Eu sempre achei que nós, retornados – e eu odeio esta palavra –, fomos mal compreendidos cá.
A ideia que se fazia cá de Angola estava desvirtuada...
Completamente. Angola era um território moderno, independentemente do sistema político que vigorava. E ainda bem que houve o 25 de Abril. A descolonização é que foi muito mal conduzida. As Forças Armadas Portuguesas – que representavam o Estado português na ainda colónia – não acautelaram minimamente a vida desta gente. Pela documentação que consultei, verifiquei que os vários altos-comissários de Angola pediam, repetidamente, tropas especiais, porque aquilo estava num caos. Mas de Lisboa nunca lhas enviaram. O livro fala de Luanda em 1975. Lembro-me de estar no quintal, e de repente ver o céu cor-de-laranja e de sentir a terra a tremer. Dos bombardeamentos. Íamos todos os dias apanhar as balas ao quintal. Na esquina de minha casa não havia semáforos, mas sim guerrilheiros. Quando eles paravam de atirar, podia-se passar.
Que idade tinha?
17-18 anos. Eu vim para Lisboa em Junho de 75, um mês antes do meu pai desaparecer. E quando cheguei aos 50 anos pensei que seria altura de escrever um livro sobre o que vivi lá, mas dei-me conta que não sabia nada daquela terra. Durante dois anos, li livros compulsivamente. E escrevi a história do meu pai, mas quando cheguei à parte do desaparecimento dele, decidi mergulhar nos arquivos, onde descobri estas histórias inéditas.

Lembra-se do dia em que ele desapareceu (a 16 de Julho de 1975)?
Lembro.
Como é que recebeu essa notícia?
Eu estava em casa de umas pessoas amigas, porque viemos de Angola à pressa e não tínhamos onde ficar. Foi uma dessas pessoas que me deu a notícia.
O que é que lhe disse?
“O teu pai desapareceu.” Desapareceu!? “O teu pai desapareceu!” E eu dei a interpretação de uma miúda de 17 anos: desapareceu? Como? O que é que isso quer dizer?
Teve irmãos e a sua mãe para a ajudarem a fazer essa interpretação?
Claro. Mas nunca mais se soube nada do meu pai. As informações que tivemos, ao longo do tempo, foram sempre contraditórias. Eu não sei que motivos poderia haver para o seu desaparecimento. Possivelmente, não era da mesma cor do MPLA. O que deve ter acontecido a muita gente que vem nessa lista.
É verdade que a maioria dos presos era acusada de pertencer à UNITA ou à FNLA ou de manter contactos com os seus dirigentes?
Foi o que conclui da documentação que consultei.
O seu pai era empresário em Luanda, como era a vida dele? Tinha ligações políticas?
Não, ele era uma pessoa muito discreta. Não falava de política.
Era um homem influente?
Conhecia muita gente, foi para Angola muito cedo. Com 18 anos.
Ele emigrou com o objectivo de enriquecer?
Não. Ele tinha sessenta e tal anos quando tudo aconteceu e considerava aquela a sua terra. Amava-a profundamente, como muitos outros portugueses. Não queria vir. Dizia que morria lá.
O que a leva a crer que tivesse sido raptado?
Pelo que descobri nos arquivos, as pessoas eram raptadas porque lhes cobiçavam o carro, os bens, ou porque não eram da cor política. Por variadíssimas razões. Acho que quiseram correr com os brancos de Angola que estavam lá radicados há mais tempo.
Acredita que no caso dele foi por lhe cobiçarem os bens?
Não sei. Houve casos tão absurdos que qualquer coisa pode ter servido de pretexto.
A sua família seguiu alguma estratégia para o encontrar?
Através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com cunhas a ministros e cartas à Presidência da República.
Cunhas?
Sim, para nos receberem. Eles não recebiam os familiares destas pessoas, porque lhes era um assunto incómodo. Lembro-me de ter ido uma vez com a minha mãe falar com o ministro Melo Antunes.
Das denuncias feitas pelos familiares dos portugueses desaparecidos, desde o MNE, à Presidência da República, à Cruz Vermelha, quais destes organismos oficiais intercederam realmente a favor dos desaparecidos?
Certamente que se empenharam, mas pouco resultou. Uma coisa não fizeram: denunciar a situação à comunidade internacional.
Politicamente, Portugal estava interessado em questionar?
Não. Aliás, todos estes portugueses me contaram como havia instruções rigorosas para não falarem à Imprensa. E esta é a primeira vez que eles contam a história. Eu encontrei-os porque lhes queria mostrar a fotografia do meu pai. Pensava que, se eles foram presos antes da independência, e como o meu pai desapareceu nessa altura, se tivesse sido preso, ter-se-iam encontrado. Só que, de facto, pelo que se percebe, havia várias hierarquias de presos e prisões e uns nunca viam os outros.
E nunca ninguém viu o seu pai?
Há manuscritos que dizem que sim, mas eu pergunto-me: ‘serão verdadeiros?’
Faz ideia sobre como é que ele terá morrido?
Há a hipótese de ter sido fuzilado, como foram outros portugueses, nomeadamente, durante o 27 de Maio de 1977. As prisões em Angola, não tinham a lista dos que entravam, só dos que saiam. E isso vem reconhecido por um diplomata português, num telegrama. Não sabemos quantos ficaram pelo caminho...
Só em 1999 conseguiram obter a certidão de óbito dele. Porquê tão tarde?
Como não há corpo, a morte tem que ser presumida. E têm que passar esses anos para ser oficializada.
A sua família viveu sempre com algum sentimento de injustiça, de impunidade?
Evidentemente.
Fala no seu livro, 'en passant', do calvário da sua mãe por não saber do paradeiro dele. Como foram vividos estes momentos?
Com muita dor. Houve um ano em que recebemos um telegrama a dizer que ele estava bem e deveria regressar a Portugal no Natal. Mas os anos passaram e nada aconteceu. E a partir de uma dada altura, ele já teria uma certa idade, deixámos de pensar nesses termos...
O que aconteceu aos prisioneiros após a independência?
Só falei com alguns, mas o livro refere os tormentos por que passaram muitos outros.
Como é que foram tratados estes prisioneiros?
Está aí tudo no livro. Eu acho que eles eram tratados pior que animais. Passavam fome, frio, não tinham sol, sofriam torturas inenarráveis. Não havia médicos, muitos morreram. Acusados sem julgamento. Este é o pedaço da nossa História Contemporânea que falta contar. O que se passou foi escandaloso.
Quando fala de escândalo refere-se à forma como os portugueses foram deixados lá pelo Governo português?
Sim e de como foi a própria descolonização.
O livro fala de ligações da polícia portuguesa e das Forças Armadas portuguesas com o MPLA. Qual era o interesse?
Achavam talvez que fosse legitimo que o MPLA tivesse o poder. Mas, de facto, Portugal assinou acordos com os três movimentos. E quem fazia parte dos outros movimentos não podia ter sido marginalizado.
Era uma traição à pátria...
Claro que sim. Então, deixam-se compatriotas num sítio quando se sai de lá para sempre, sabendo que eles ficam naquelas condições? Porque eles sabiam o que se passava.
Conte-me o que descobriu sobre os movimentos clandestinos dos partidos políticos angolanos antes da Independência?
O que mais me chocou foi a Polícia Judiciária, muitos meses antes da independência, ter agentes seus a trabalhar com seguranças do MPLA – o que legitimava as prisões. E outra das coisas que me impressionou, foi saber que a PJ – que não tem nada a ver com esta de cá – era quem seleccionava os presos portugueses que eles deixavam embarcar.
O MPLA apresentou diversos presos como criminosos que fariam oposição ao processo de descolonização e de Independência de Angola. Fez-se propaganda com eles?
Fez-se: o MPLA deu uma conferência de imprensa, quatro dias após a independência, exibindo-os como mercenários. Não era verdade para todos. O próprio MPLA reconheceu que os aprisionara e não os tinha entregue às autoridades portuguesas, que era o que lhe competia.
Nenhum deles nunca foi julgado, pois não?
Não, nenhum.
Qual foi a história que conta no livro que mais a impressionou?
A da médica, porque ela desmentiu um boato: a imprensa do MPLA publicou uma notícia a dizer que tinham sido encontrados órgãos humanos numa das delegações da FNLA. Isso era mentira, porque tinham roubado esses órgãos do teatro anatómico da maternidade de Luanda, onde essa médica trabalhava. Foi ela que desmentiu o boato contra a FNLA. E isso levou a que a tivessem raptado. Ela é uma das desaparecidas. É preciso explicar o porquê.
O MPLA tinha ecos na Imprensa portuguesa?
Tinha. Portugal vivia em 1975 o Verão Quente, o PREC, as esquerdas estavam todas em alvoroço. Foi neste cenário que tudo aconteceu. Independentemente disso, abandonaram lá portugueses.
Escreveu um livro ao estilo de reportagem. Pretende que fossem os sobreviventes das prisões clandestinas em Angola a contarem o que se passou?
Quis dar voz a quem ainda não a teve. Por isso ponho as pessoas a falar à vontade. Mas há muita gente que não quer.
É traumatizante não é?
Claro que sim.
Sente esse trauma?
Agora libertei-me dele. Mas, durante muitos anos, foi um grande peso que senti na alma.
Procurou a ajuda de algum psicólogo ou psiquiatra?
O que mais me ajudou foi conversar com pessoas que passaram por situações semelhantes. Foi este livro.
De certa forma, sente que está a fazer justiça ao publicar o livro?
Nunca se poderá fazer justiça a toda esta injustiça. É demasiado grande. Mas acho que temos que começar a abrir os ficheiros secretos da descolonização. E ainda há muitos.
Sabe se algum familiar destes desaparecidos, ou dos presos, alguma vez apresentou um processo judicial contra o Estado português?
Acho que vontade não faltou.
O que é que estes Ficheiros Secretos pretendem principalmente denunciar do processo de descolonização?
Pretendem contar histórias ainda desconhecidas. De cidadãos portugueses que foram abandonados e de decisões políticas e militares que se revelaram desastrosas. Está tudo documentado.
O que é que descobriu?
As autoridades portuguesas estiveram lá, na última etapa, como se não estivessem. Se formos ver o que se passou, eles fizeram muito pouco pelos portugueses que lá estavam e que sempre lá estiveram. Viam-nos quase como se não fôssemos portugueses, mas como os brancos que “se meteram” com os movimentos. Tiveram o mérito da ponte aérea – com muita ajuda estrangeira. Angola foi abandonada, com portugueses dentro. E as coisas têm que ter dignidade. Admiro os países que trazem para a pátria os seus mortos de guerra e lhe conferem essa dignidade. Em Portugal é o contrário. Ainda temos corpos de soldados portugueses da I Guerra Mundial na Europa e ainda há corpos de soldados portugueses nas ex-colónias africanas. O Estado português não dignifica os seus mortos. E portanto não se dignifica a si próprio.
PERFIL
Leonor Figueiredo, de 52 anos, foi jornalista do Correio da Manhã e depois, 21 anos, do ‘DN’, título onde tencionava publicar o trabalho que deu origem a este livro.
FICHA DO LIVRO ‘FICHEIROS SECRETOS DA DESCOLONIZAÇÃO EM ANGOLA’, DA AUTORIA DE LEONOR FIGUEIREDO
Edições Alêtheia, 16€ (à venda nas livrarias a partir de 7 de Agosto)
Durante mais de 30 anos, a jornalista Leonor Figueiredo procurou pistas sobre o desaparecimento do pai em Angola, em Julho de 1975. Nos arquivos do Estado, descobriu mais de 250 portugueses que foram ‘esquecidos’ propositadamente. Encontrou cinco antigos presos em Luanda, na esperança de que conhecessem o seu pai. Resultado: pouco escreveu sobre o pai mas recolheu para este livro arrepiantes testemunhos da prisão e do abandono na ex-colónia.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O ensino colonial destinado aos indígenas de Angola. Antecedentes do ensino rudimentar instituido pelo Estado Novo

O ensino colonial destinado aos indígenas de Angola. Antecedentes do ensino rudimentar instituido pelo Estado Novo  . Revista Lusófona de Educação 2003
 CONSULTAR   AQUI
Vidé tb «Os Ossos da Colonização 1»

domingo, 20 de dezembro de 2009

Page 1 ESCRAVIDÃO E REVOLTAS DE ESCRAVOS EM ANGOLA (1830-1860) Roquinaldo Ferreira*



Foram várias as investidas para aumentar a presença portuguesa em
Angola entre 1836 e 1860. Três destas iniciativas tiveram grande visibilidade. O Ambiz, uma região sem soberania definida, foi ocupado em 1855. Fundou-se, em 1848 uma colonia, Mossamedes, com portugueses quc saíram de Pernambuco fugindo do clima de antilusitanismo durante a Revoluçáo Praieira. Além destas iniciativas, a partir de 1836, desencadeou-se um ciclo de investidas militares para submeter as regiões a leste do Rio Kwango. Nào se trata aqui de aferir o quanto tais iniciativas tiveram exito. Mossamedes. por exemplo, não teve êxito imediato. Apesar disto, é claro o esforço reordenador português em Angola a partir de 1836. E o fim do tráfico ilegal, é preciso dizer, ao afastar os riscos à soberania portuguesa, tambéin fez parte desta reordenação.
O fim do táfico ilegal significou igualmente transformações ime-
diatas no perfil demográfico de Luanda. Entre 1845 e 1850, a população total de Luanda aumentou de 5.605 para 12.656 pessoas; um aumento anual de cerca de 1 392 pessoas. Dois grupos em particular foram privilegiados por tal crescimento: os escravos e os pretoslmulatos livres. os escravos aumentaram de 2.749 para 5.900. Por esta razáo, quase metade da população total de Luanda era formada por escravos. em1850. Já os pretos e mulatos livres. aumentaram de 1.255 para 5.305. conformee indica a tabela:'

Continua....


Para saber mais 
idem