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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Entrevista com Adriano Moreira : "Tive um poder enorme como ministro do Ultramar"

Actualmente, Adriano Moreira é presidente da Academia das Ciências de Lisboa

Actualmente, Adriano Moreira é presidente da Academia das Ciências de Lisboa Foi o todo-poderoso ministro do Ultramar. Delfim de Salazar, entrou em litígio com Marcello Caetano e conseguiu o milagre único de transitar para a democracia. (Contém versão integral da entrevista que foi publicada na edição do Expresso em banca)

Ana Soromenho e José Pedro Castanheira


Transmontano, de 86 anos, Adriano Moreira foi o único ministro de Salazar que fez uma transição tranquila para a democracia. Foi presidente do CDS, deputado e vice-presidente da Assembleia da República. No plano académico nunca deixou de exercer a tutela científica no "seu" Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

Recebeu-nos na Academia das Ciências de Lisboa, a que preside, e que tem marcado com um notável dinamismo. Nessa manhã, Adriano Moreira acordara às quatro da madrugada para ir ao aeroporto receber pessoalmente, cavalheiro como sempre, Graça Machel, que veio a Lisboa representar o marido, na homenagem prestada pela Academia a Nelson Mandela.

Para breve, está anunciado o lançamento do aguardado livro de memórias, A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Vésperas, editado pela sua velha editora, Almedina. Esta conversa, marcada semanas antes, tinha o propósito de um balanço de vida. Mas, logo de início, Adriano Moreira avisou que a entrevista teria que se cingir às matérias do livro. De fora ficaram os dias da revolução, a ressaca que constituiu o saneamento do ISCSPU, os dois anos de exílio no Brasil, o regresso à academia e à vida política activa, a sua transformação, em suma, em grande senador. Ao longo das três horas de conversa que, por vontade dele, incidiu exclusivamente sobre o Estado Novo, o professor nunca pronunciou a palavra "ditadura".

Comecemos então pelo livro. Está prometido há mais de dez anos

Não tenho recordação de ter prometido este livro a ninguém, só tenho recordação de me terem solicitado que escrevesse um livro de memórias. Tenho sempre uma prevenção em relação a este tipo de livros. A memória é muito condescendente connosco. Tem a piedade de aligeirar as coisas. Por isso, este título: Espuma do Tempo. A essas memórias procurei ser fiel. Tive alguma dificuldade material em realizá-lo, porque não tenho documentação. A que tinha, guardava-a no Centro de Estudos do ISCSPU e durante a revolução desapareceu. Não faço ideia do que lhe aconteceu.

Foi destruída?

Estou a dizer que não sei o que lhe aconteceu. Desapareceu.

Nunca escreveu diários?

Não. Recorri a alguns apontamentos.

E aos arquivos?

Também não. Os historiadores tratarão de encontrar referências, não estou preocupado com isso. Quis escrever sobre o meu sentimento, recordação e valoração do que o meu espírito conserva.

Falou com pessoas?

Falei comigo. É da minha exclusiva responsabilidade e do meu diálogo íntimo.

Fê-lo por uma necessidade de deixar o testemunho para a história, ou por uma vontade de ser o professor a escrever a sua história?

Não foi isso. O livro começa com uma carta, que data de Abril de 1974. Nunca mais escrevi durante anos. A carta era uma mensagem para os meus filhos e foi com esta decisão íntima que resolvi continuá-la.

Escreveu à mão?

Sempre. Escrevia à máquina, mas verifiquei que muda o estilo. Já não me reconhecia quando me traziam o texto. Voltei à minha caneta. Mostra o bolso interior do casaco.

Azul ou preta?

Não faço muita questão, cores vivas é que nunca. Não tenho essa necessidade de identificação. Tira a Montblanc de aparo.

São as mesmas com que assinava os seus despachos como ministro do Ultramar?

As canetas também se perdem. Estas são as que estão agora de serviço.

Quanto tempo demorou a escrever o livro?

Fi-lo em duas etapas. Com uma interrupção de quase dez anos, não tinha pressa nem grande apego à publicação. Houve um momento em que acelerei porque vieram pedir para me fazer uma biografia.

Tenta manter o tom e a distância do observador.

É capaz de ser defeito de professor. É complicadíssimo separar participação e meditação.

Retoma o subtítulo "Tempo de Vésperas", o mesmo das crónicas que escreveu em 1971.

CONT....

http://aeiou.expresso.pt/tive-um-poder-enorme-como-ministro-do-ultramar=f459552

sábado, 23 de maio de 2009

Processo de Descolonização: Melo Antunes rompe o silêncio


mota[1].jpg

CCPD - Processo de Descolonização:
Melo Antunes rompe o silêncio

De:Augusto Carvalho
Ernesto Augusto Melo Antunes, tenente-coronel e conselheiro da Revolução, é, ao mesmo tempo, um dos homens mais conhecidos e um dos mais desconhecidos. Porque Melo Antunes foi elevado à categoria de símbolo. E de bode expiatório para os inimigos do processo da independência das ex-colónias e para os anticomunistas de vários matizes que não lhe perdoam ter vindo à Televisão em 25 de Novembro dizer, no fundo, que em nome da democracia o PC não podia ser eliminado.

Foi Melo Antunes o teórico do “Grupo dos Nove”, opondo-se ao projecto inegemónico do PCP e tentando, depois contrariar, no plano internacional, a sua estratégia política. A direita colou-se-lhe, então, por razões de ocasião, uma parte da mesma direita que agora o ataca enquanto símbolo. E o PCP deixou de o atacar por razões opostas.


António de Spínola critica-o duramente no “País Sem Rumo” e diversos órgãos de Comunicação Social não cessam também de o atacar. Sem conhecimento de causa. Emocionalmente. A história do processo da descolonização não foi, porém, feita até agora. Por isso mesmo o EXPRESSO resolveu ouvir os intervenientes mais responsáveis por ela ao nível das cúpulas políticas de então. E não podia de deixar de ouvir Melo Antunes que continua a assumir toda a sua actuação.

Como parece não assumir, por exemplo, Mário Soares que quisemos ouvir, mas não teve tempo para nos receber. Esperamos, entretanto, a oportunidade prometida. Pedimos, por isso, a Melo Antunes que nos desse a sua versão de como correram as coisas, que se pronunciasse sobre o livro do general António Spínola, que pensa do comportamento de Mário Soares, de então e de agora e quais as suas relações com o PCP.

Melo Antunes falou longamente da sua experiência e revelou alguns episódios até agora pouco conhecidos e alguns mesmo inéditos, entre eles, o encontro em Amesterdão entre ele próprio, Almeida Santos e Óscar Monteiro da FRLIMO. Situa, também, o célebre texto dactilografado que tanta admiração causaria no major Casanova Ferreira, se entendermos ao que sobre o assunto disse o general Spínola.

E muito mais. A entrevista aí fica. Entrevista de um político-militar que continua a gozar de vasta audiência em diversos sectores do mundo africano. Uma entrevista que o EXPRESSO pensa fará história. A que outrAs certamente se seguirão – A. de C.
O meu silêncio não significa arrependimento ou prudência

EXPRESSO – O tenente-coronel Melo Antunes é um dos homens mais em foco no processo que levou à descolonização de Moçambique. Um dos mais em foco e um dos mais atacados. Atacado pela chamada direita e silenciado pela chamada esquerda.

Foi atacado recentemente pelo general António de Spínola no livro “País Sem Rumo” e o próprio Mário Soares secretário geral do PS, parece ter-se solidarizado com as afirmações do ex-Governador da Guiné e primeiro Presidente da República a seguir ao 25 de Abril. Já passou muito tempo. Já vários livros foram publicados e o tenente-coronel Melo Antunes tem-se mantido silencioso. Como interpretar tal silêncio? Arrependimento ou prudência?


CONTINUA...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

LIvro Negro da Descolonização

Consulte aqui o LIVRO NEGRO DA DESCOLONIZAÇÂO

LIVRO NEGRO DA DESCOLONIZAÇÃO

LUIZ AGUIAR / 1977

I * II * III * IV * V * VI

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Angola... Quem vos tramou...

A desgraça dos povos não é natural...
é proporcional às riquezas da terra,
porque os fazedores de guerras
sabem como explorar os bens alheios.

CLICAR AQUI

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Cuito Cuanavale revisitado

Cuito Cuanavale revisitado

por Piero Gleijeses

Mapa de Angola. Este ano decorre o 20º aniversário do início da batalha de Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, quando as forças armadas da África do Sul do apartheid enfrentaram o exército cubano e as forças angolanas. O general Magnus Malan escreve nas suas memórias que a campanha foi uma grande vitória para as forças de defesa sul-africanas (SADF) mas Nelson Mandela não podia discordar mais: "Cuito Cuanavale – afirmou – foi a viragem para a luta de libertação do meu continente e do meu povo do flagelo do apartheid".

O debate sobre o significado de Cuito Cuanavale tem sido intenso, em parte porque os documentos sul-africanos relevantes continuam classificados. Entretanto, pude estudar os documentos nos arquivos fechados cubanos e também muitos documentos norte-americanos. Apesar do fosso ideológico que separa Havana e Washington estes documentos relatam uma história com impacto pela semelhança que têm

Analisemos os factos. Em Julho de 1987 as forças armadas angolanas (FAPLA) lançaram uma ofensiva de grande envergadura no sudeste de Angola contra as forças de Jonas Savimbi. Mas ao ver que a ofensiva estava a ter êxito as SADF, que controlavam as partes mais meridionais do sudoeste de Angola, intervieram no sudeste. Em princípios de Novembro das SADF haviam encurralado as melhores unidades angolanas na aldeia de Cuito Cuanavale e preparavam-se para aniquilá-las.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas exigiu que as SADF se retirassem incondicionalmente de Angola, mas a administração Reagan assegurou que esta exigência fosse uma Resolução sem maior transcendência. O secretário de Estado Adjunto dos Estados Unidos para África, Chester Crocker, disse ao embaixador da África do Sul nos Estados: "a resolução não prevê sanções e não estabelece nenhuma assistência a Angola. Isto não é por acaso e sim o resultado dos nossos esforços para manter a resolução dentro de certos limites" [1] . Enquanto isso, as SADF aniquilariam as unidades de elite das FAPLA.

Em princípios de 1988, fontes militares sul-africanas e diplomáticas ocidentes asseguravam que a queda de Cuito era iminente. Isto significaria um golpe demolidor para o governo angolano.

Mas a 15 de Novembro de 1987 o presidente cubano Fidel Castro havia decidido enviar mais tropas e armas para Angola: seus melhores aviões com os seus melhores pilotos, suas armas anti-aéreas mais refinadas e seus tanques mais modernos. A intenção de Castro não era só defender o Cuito, era retirar as SADF de Angola de uma vez e para sempre. Mais tarde ele descreveu sua estratégia ao líder do Partido Comunista Sul Africano, Joe Slovo: Cuba travaria a investida sul-africana e a seguir atacaria em outra direcção, "como o boxeur que com a mão esquerda o mantém e com a direita o golpeia" [2] .

Aviões cubanos e 1500 soldados cubanos reforçaram os angolanos e Cuito não caiu.

Tanque Olifant sul-africano capturado por soldados cubanos. A 23 de Março de 1988 os sul-africanos lançaram seu último assalto de maior envergadura contra Cuito. Tal como o descreve o coronel Jan Breytenbach, o assalto sul-africano "foi travado abrupta e definitivamente" pelas forças conjuntas cubanas-angolanas.

A mão direita de Havana preparou-se para golpear. Poderosas colunas cubanas estavam a avançar no sudoeste de Angola em direcção à fronteira da Namíbia. Os documentos que nos poderiam dizer o que os líderes sul-africanos pensaram desta ameaça continuam classificados. Mas sabemos os que as SADF fizeram: cederam terreno. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos explicaram que os sul-africanos se retiravam porque estavam impressionados com a rapidez e a força do avanço cubano e porque consideravam que um combate de maior envergadura "teria acarretado grandes riscos" [3] .

Quando criança, na Itália, escutei meu pai falar da esperança que ele e seus amigos sentiram em Dezembro de 1941 ao ouvir na rádio que as tropas alemãs haviam tido que abandonar a cidade de Rostov do Don. Era a primeira vez em dois anos de guerra que o "super homem" alemão fora obrigado a retirar-se. Recordei-me das suas palavras – e do profundo sentimento de esperança que elas implicavam – quando li a imprensa sul-africana e da Namíbia em meados de 1988.

Aeródromo de Cahama. A 26 de Maio de 1988 o chefe das SADF anunciava que "forças cubanas e da SWAPO fortemente armadas, integradas pela primeira vez, avançaram em direcção ao sul a uns 60 quilómetros da fronteira com a Namíbia". A 26 de Junho o administrador general sul-africano da Namíbia reconhecia que MIGs-23 cubanos estavam a voar sobre a Namíbia, uma mudança dramática em relação àqueles tempos em que os céus pertenciam às SADF. Acrescentava que "a presença dos cubanos havia provocado uma onda de ansiedade na África do Sul".

Contudo, estes sentimentos de ansiedade não eram compartilhados pelos negros sul-africanos: eles viam a retirada das forças sul-africanas como uma luz de esperança.

Enquanto as tropas de Castro avançavam rumo à Namíbia, cubanos, angolanos, sul-africanos e estado-unidenses enfrentavam-se na mesa de negociações. Dois pontos eram chave: se a África do Sul aceitava a implementação da Resolução 435 do Conselho de Segurança das Nações Unidas que exigia a independência da Namíbia e se as partes poderiam por-se de acordo sobre um cronograma da retirada das tropas cubanas de Angola.

Os sul-africanos pareciam estar cheios de esperança: o ministro dos Negócios Estrangeiros Pik Botha esperava que a Resolução 435 fosse modificada. O ministro da Defesa Malan e o presidente PW Botha afirmavam que a África do Sul se retiraria de Angola só "se a Rússia e os seus títeres fizessem o mesmo". Eles nem sequer mencionavam retirar-se da Namíbia. A 16 de Março de 1988 o Business Day informava que Pretória estava "oferecendo retirar-se para a Namíbia – não da Namíbia – em troca da retirada das forças cubanas de Angola. Ou seja, a África do Sul não tem qualquer intenção de retirar-se do território em nenhum futuro próximo.

Mas os cubanos haviam revertido a situação no terreno e quando Pik Botha apresentou as exigências sul-africanas Jorge Risquet, que estava à frente da delegação cubana, caiu-lhe em cima com uma tonelada de tijolos: "a época das aventuras militares, das agressões impunes, dos seus massacres de refugiados acabou". A África do Sul – disse – estava a actuar como se fosse "um exército vencedor ao invés do que é na realidade: um exército agressor golpeado e em retirada discreta... A África do Sul deve compreender que não obterá nesta mesa de negociações o que não pode alcança no campo de batalha" [4] .

Ao terminar a ronda de negociações no Cairo Crocker enviou um telegrama ao secretário de Estado George Shultz dizendo que as conversações haviam tido "como pano de fundo a tensão militar crescente devido ao avanço em direcção à fronteira da Namíbia de tropas cubanas fortemente armadas no sudoeste de Angola... o avanço cubano no sudoeste de Angola criou uma dinâmica militar imprevisível" [5] .

A grande pergunta era: deter-se-iam os cubanos na fronteira? Para obter uma resposta a esta pergunta Crocker procurou Risquet. "Tem Cuba a intenção de deter o seu avanço na fronteira entre a Namíbia e Angola?" Risquet respondeu: "se eu lhe dissesse que não se vão deter estaria a proferir uma ameaça. Se eu lhe dissesse que se vão deter estaria a dar-lhe um meprobamato e eu nem quero ameaçar nem quero dar-lhe um calmante... o que disse é que só os acordos sobre a independência da Namíbia podem dar as garantias" [6] .

No dia seguinte, 27 de Junho de 1988, MIGs cubanos atacaram posições das SADF junto à barragem de Calueque, onze quilómetros a norte da fronteira da Namíbia. A CIA informou: "a maneira exitosa com que Cuba utilizou sua força aérea e a aparente debilidade das defesas anti-aéreas de Pretória" sublinhavam o facto de que Havana havia conseguido a superioridade aérea no sul de Angola e no norte da Namíbia. Uma poucas horas depois destes ataque com êxito dos cubanos, as SADF destruíram uma ponte próxima a Calueque, sobre o Rio Cunene. Destruíram-na – opinou a CIA – "para dificultar à tropas cubanas e angolanas o cruzamento da fronteira com a Namíbia e para reduzir o número de posições que devem defender" [7] . O perigo de um avanço cubano sobre a Namíbia nunca antes havia parecido tão real.

Os últimos soldados sul-africanos saíram de Angola a 30 de Agosto, quando os negociadores nem sequer haviam começado a discutir o cronograma da retirada cubana de Angola.

Apesar de todos os esforços de Washington para impedi-lo, Cuba mudou o curso da história da África Austral. Até Crocker reconheceu o papel de Cuba quando disse a Shultz num telegrama de 25 de Agosto de 1988: "descobrir o que pensam os cubanos é uma forma de arte. Estão preparados tanto para a guerra como para a paz. Fomos testemunhas de um grande refinamento táctico e de uma verdadeira criatividade na mesa de negociações. Isto tem como pano de fundo as fulminações de Castro e o desdobramento sem precedentes dos seus soldados no terreno" [8] .

A proeza dos cubanos no campo de batalha e o seu virtuosismo na mesa de negociações foram decisivos para obrigar a África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Sua defesa com êxito do Cuito foi o prelúdio de uma campanha que obrigou a SADF a sair de Angola. Esta vitória repercutiu-se para além da Namíbia.

Muitos autores – Malan não é senão o exemplo mais recente – tentaram reescrever esta história, mas documentos norte-americanos e cubanos relatam o que verdadeiramente se passou. Esta verdade foi expressa com eloquência por Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, em Dezembro de 2005: "hoje a África do Sul tem muitos novos amigos. Ontem estes amigos referiam-se aos nossos líderes e aos nossos combatentes como terroristas e nos acossavam a partir dos seus países sempre que apoiavam a África do Sul do apartheid... hoje esses mesmos amigos querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. A nossa resposta é muito simples – é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos o que corre profundamente na terra africana e nutre a árvore da liberdade na nossa Pátria".

10/Julho/2007
Notas
1) Secretário de Estado, na embaixada dos EUA, em Pretória, 5 de Dezembro de 1987, Freedom of Information Act (FOIA).
2) "Transcripción sobre la reunión del Comandante en Jefe con la delegación de políticos de África del Sur (Comp Slovo)", Centro de Información de las Fuerzas Armadas Revolucionarias.
3) Abramowitz (Gabinete de Inteligência do Departamento de Estado) ao secretário de Estado. 13 de Maio de 1988, FOIA.
4) "Transcripción no oficial. Conversaciones RPA-CUBA EEUU-RSA (Reunião Quadripartita) sessão da tarde de 24-6-88. "Arquivo do CC, La Habana." (en adelante, ACC)
5) Crocker ao secretário de Estado 26 de Junho de 1988. FOIA.
6) "Entrevista de Risquet con Chester Crocker, 26-6-88, ACC.
7) CIA, "South Africa-Angola-Cuba, ¨ 29 de Junho de 1988. FOIA; CIA, "South África-Angola-Cuba," 1 de julio de 1988, FOIA
8) Crocker ao secretário de Estado, 25 de Agosto de 1988, FOIA

Ver também:
  • Livro destaca internacionalismo dos voluntários cubanos em Angola , de Mary-Alice Waters, publicado em 03/Setembro/2002.


  • O original encontra-se em www.cubadebate.cu

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    ANGOLA, A GUERRA INJUSTA



    General Del Pino (foto TV 2006)

    Neste excelente livro o general Del Pino relata minuciosamente o que se passou em Cuba e na guerra em Angola. Sugerimos vivamente a leitura deste livro a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização de Angola. Colocámos a cor diferente as partes mais críticas para melhor localização. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do autor. Obrigado.

    Pg. 155. - No entanto, somente sete meses mais tarde se apresentou a Fidel outra conjuntura que prometia melhores dividendos que o país sul-americano: os militares portugueses em 25 de Abril derrubaram a ditadura de Marcelo Caetano.

    Com este acontecimento transcendental apresentava-se não somente a possibilidade de influir uma viragem à esquerda no país lusitano senão muito mais que proveitoso ainda, facilitava-se a sempre esperada oportunidade de poder intervir directamente nas antigas colónias portuguesas sem correr risco algum. De todas, a fruta mais madura era Angola e o almirante vermelho Rosa Coutinho se encarregou de oferecê-la em bandeja de prata.

    Pg. 156/167. - Em 15 de Fevereiro de 1975, fui citado para uma reunião especial no Ministério das Forças Armadas. Ali fui encarregado da missão de seleccionar um grupo de oficiais especialistas da força aérea, capazes de garantir as condições mínimas necessárias num aeródromo para o seu funcionamento e a recepção de aviões de transporte.

    Não obstante o grande segredo que se mantinha sobre a planificação daquela operação, tiveram de comunicar me onde e para quê se necessitava de activar um aeródromo, pois era a única maneira de poder organizar o grupo dos homens capazes de cumprir essa missão.

    Para meu assombro, que não estava seguindo o desenvolvimento dos acontecimentos nas colónias portuguesas de África, causou me grande surpresa saber que o aeródromo em questão se encontrava nada mais nada menos que no profundo do território da longínqua e afastada Angola.

    As explicações posteriores me foram tirando do meu desconhecimento até que cheguei a ter uma ideia aproximada do que se pretendia fazer pelo Alto Comando de Cuba. Tinham começado os planos para futura "Operação Carlota".

    Em 25 de Abril de 1974, um levantamento militar tinha derrubado a ditadura de Marcelo Caetano. Uma das principais medidas anunciadas pelo novo governo foi a decisão de dar a independência às suas antigas colónias da Guiné Bissau, Cabo Verde, Moçambique e Angola. No caso das três primeiras não existiam maiores dificuldades, pois estava bem definido o movimento independentista que tinha encabeçado a luta contra os colonialistas portugueses; no entanto, com Angola existia a dificuldade de que três movimentos independentistas que tinham lutado contra a antiga metrópole se adjudicavam separadamente a legítima representação das aspirações do povo angolano. O novo governo de Portugal consegue sentar à mesa de negociações os três líderes destes movimentos e em 15 de Janeiro de 1975 assinam na costa portuguesa do Algarve o acordo de Alvor.

    Este acordo estabelecia como data da independência o dia 11 de Novembro de 1975. Até esse dia o país seria regido pelo Alto Comissário português, um governo provisório integrado pelos três movimentos de libertação os quais teriam três ministérios cada um e o primeiro ministro seria rotativo equitativamente entre os três movimentos. Em Outubro deveriam fazer-se eleições livres para eleger a assembleia constituinte.

    O Acordo de Alvor previa forças armadas angolanas compostas por 8.000 efectivos de cada um dos três movimentos. Por sua vez permaneceriam no país 24.000 soldados portugueses para garantir a paz os quais começariam a ser evacuados paulatinamente deste o primeiro dia de Outubro até onze semanas depois de proclamada a independência no dia 11 de Novembro.

    Depois de inaugurado o governo provisório de transição em Luanda no dia 31 de Janeiro de 1975, deu-se início a uma desenfreada corrida ao armamento entre o MPLA apoiado pelos soviéticos e a FNLA apoiado pelo chineses, romenos e norte coreanos. Centenas de toneladas de armas procedentes de esses países começaram a chegar a Angola por diferentes vias para armar estes movimentos que não tardaram a enfrentar-se numa luta sem quartel.

    O Alto Comissário português almirante Rosa Coutinho, conhecido como o "Almirante Vermelho" pelas suas ideias comunistas, foi factor decisivo para que o MPLA se impusesse nesta luta pelo poder ao permitir todo o tipo de liberdade de acção à desmesurada entrada de armamento soviético e aos primeiros contingentes oficiais cubanos que, como é lógico, acudiam em ajuda ao movimento apoiado pela URSS.

    Encarniçados e violentos combates entre o MPLA e a FNLA se davam diariamente nas ruas de Luanda, até que a FNLA se viu na necessidade de abandonar a capital e estabelecer-se no norte do país.

    Em 4 de Julho de 1975, duzentos e cinquenta recrutas da UNITA foram massacrados em Luanda pelo MPLA na cidade de Luanda. Perante estes factos, a direcção da UNITA decidiu retirar da capital e concentrar-se nas cidades do planalto central de Angola. Desta maneira só ficava em Luanda o MPLA esperando a partida dos portugueses.

    Desde o início de 1975, em diversas conversações secretas tidas em La Habana entre o governo cubano, oficiais esquerdistas portugueses e dirigentes do MPLA se acordou enviar grupos de oficiais cubanos para que servissem como assessores em diversas escolas e centros de treino militar que foram organizados em vários lugares dos país. Além disso estes oficiais cubanos deviam preparar as condições necessárias que garantiram uma escalada ulterior com o envio de grandes contingentes de tropas regulares.

    A organização dos centros de treino militar correu totalmente a cargo dos cubanos, empregando armamento e equipamento militar que era fornecido pelos soviéticos em quantidades fabulosas desde Agosto de 1974. Somente nos últimos meses deste mesmo ano o MPLA chegou a receber mais de dez milhões de dólares em armas de diferentes tipos.


    O general Del Pino cumprimentando Agostinho Neto. (foto livro)

    Começou uma rápida corrida contra relógio. O eixo Cuba-URSS-MPLA considerava que quem estivesse na posse da capital no dia 11 de Novembro, data assinalada no Acordo de Alvor para a proclamação da independência, seria quem alcançaria o poder. Ainda que só a periferia urbana estivesse nas mãos do MPLA e o resto dos 1.246.000 quilómetros quadrados do imenso território angolano foi controlado totalmente pelos outros movimentos de libertação, aqueles que se encontravam em Luanda poderiam informar o mundo que eram os legítimos governantes.

    O eixo Cuba-URSS tinha valorizado muito bem que a situação mundial favorecia amplamente os seus planos. O colapso sofrido pelos Estados Unidos da América do Norte no Vietname lhe impossibilitava de acometer qualquer acção de envergadura contra a aberta intervenção comunista em Angola.

    Os soviéticos não eram bem vistos em África, mas possuíam mas tinham uma insubstituível carta de trunfo: O Cavalo de Tróia das tropas cubanas.

    Por sua vez, Cuba soube aproveitar muito bem as raízes africanas do seu povo enviando nos primeiros grupos de oficiais a maior quantidade de descendentes daquele continente que de imediato ganhou a aceitação por parte dos nativos.

    Tudo era questão de esperar e resistir sem perder a capital. Uma incrível concentração de armas e equipamento bélico esperavam dentro dos enormes aviões de transporte AN-22 o sinal para partir de diferentes aeroportos da União Soviética em direcção a Luanda, enquanto comboios de barcos zarpavam dos portos de Mariel em Cuba e Riga na URSS em direcção à África austral.

    A descomunal maquinaria bélica comunista tinha começado a andar e nada era capaz de detê-la. As tropas portuguesas comandadas pelo "Almirante Vermelho" permitiam livremente todo o tipo de movimento às forças do MPLA e aos assessores cubanos assim como a recepção e desembarque dos carregamentos de armas que ininterruptamente chegavam à capital angolana.

    Na reunião para que fui convocado em 15 de Fevereiro de 1975, eu tinha proposto o envio inicial de dois especialistas qualificados da força aérea que exploraram o terreno e depois nos informaram das condições existentes para poder enviar o resto do grupo. Desta forma a finais de Março de 1975 chegaram a Luanda o coronel Jaime Archer Silva, piloto de combate e ex-chefe da base aérea de Santa Clara na província cubana de Las Villas e o tenente coronel Ángel Botello de Ávila, especialista em logística de aviação, graduado na URSS e quem até ao momento da sua designação tinha estado como chefe dos serviços de retaguarda, também na base aérea de Santa Clara.

    A missão fundamental destes altos oficiais consistia em determinar todas as necessidades existentes para poder operar no aeroporto de Luanda independentemente dos especialistas portugueses e angolanos que ali se encontravam, assim como a base aérea de Henrique de Carvalho (Saurimo) situada no extremos norte do país.

    Em finais de Junho desse ano, somente a dois meses de se ter dado o colapso do governo pro-norte americano do Vietname do Sul, ordenaram-me partir para Saigão com o fim de estudar os diferentes aviões e tecnologia militar do ocidente ocupadas pelos Vietcong. Isto fez com que me alheei um pouco dos planos que se levavam a cabo para a nossa intervenção em Angola e no meu regresso encontrei o coronel Archer recém chegado de África com toda a informação necessária.

    Os portugueses permaneciam em Luanda mas tinham entregue ao MPLA a base aérea de Henrique de Carvalho (Saurimo). Esta apresentava o inconveniente de se encontrar muito longe da capital, a quase 1.200 quilómetros no profundo território angolano pelo que se dificultava o envio de meios logísticos para as operações dos voos que ali deviam de aterrar, fundamentalmente o combustível.

    Não obstante, para manter activo aquele aeródromo e operar os seus meios de comunicações e outras instalações enviámos em fins de Agosto, conjuntamente com o coronel Archer que partia novamente, dois técnicos de comunicações, um técnico de iluminação de pista, um engenheiro de telecomunicações, um técnico de energia especialista em geradores e centrais eléctricas, vários especialistas e operadores de equipamento de rádio-ajuda à navegação, um engenheiro em combustíveis e lubrificantes, um engenheiro em equipamento de segurança logística de aviação com a responsabilidade de atender os abastecedores de combustíveis, centrais auxiliares de arranque dos aviões (APU), equipamentos de oxigénio, etc.

    Além disso enviou-se o capitão Armengol, piloto de transporte especializado em aviões ligeiros para servir de contacto e um mecânico de aviação. Posteriormente, nos primeiros dias de Setembro enviámos o coronel Juan Céspedes, também piloto de transporte, para que voasse exclusivamente como piloto pessoal do general Diaz Arguelles, chefe principal das tropas cubanas em Angola.

    Este grupo especial da Força Aérea manteve operacionais as instalações da base aérea de Henrique de Carvalho (Saurimo) até que o general Diaz Arguelles decidiu que partissem para Luanda tendo permitido as autoridades portuguesas todo o tipo de operação no próprio aeroporto da capital e tornando-se desnecessário realizá-las ocultamente em Saurimo.

    Os portugueses entregaram vários aviões de transporte DC-3 a este primeiro grupo de cubanos da Força Aérea para que começassem a realizar voos de abastecimento logístico para diferentes zonas do país onde se encontravam oficiais cubanos, formando aceleradamente o novo exército do MPLA. Também se conseguiu autorização das autoridades portuguesas para por à disposição dos cubanos dois aviões de transporte turbo-hélice modelo F-27 e dois DC-3, todos pertencentes à companhia angolana TAA (Transportes Aéreos de Angola). Do Congo Brazzavile já se tinham trazido dois aviões de transporte militar Nord Atlas cedidos pelo presidente dessa nação Marian Nguabi e outro de Moçambique entregue por Samora Machel.

    Com todos estes aviões formamos um esquadrão de transporte que ininterruptamente durante o dia e noite começou a fazer missões de abastecimento às tropas cubanas e às do MPLA: transporte de feridos, de armamento, missões de exploração e, fundamentalmente, o transporte de Brazzaville até Luanda dos contingentes militares cubanos que continuavam chegando àquela localidade em aviões Britannia procedentes de La Habana. Para poder operar este esquadrão de transporte, desde meados de Setembro tínhamos enviado de Cuba três pilotos da Cubana Aviação, os oficiais da reserva da Força Aérea, Francisco Cuza, José Ramos Pagan e Elias Moisés Pasto aos quais se uniram os capitães no activo da Força Aérea, Efraín Muñoz Cordove, Amaury Léyva e Raul Ortiz. Junto a este pilotos cubanos participaram amplamente dois pilotos angolanos de nome Sampayo e Yardini.

    Os meses de Outubro e Novembro de 1975 foram sombrios e angustiantes. Sabíamos que a missão era manter Luanda a todo o custo pois posteriormente se efectuaria a mudança radical mas as tropas da FNLA acercavam-se perigosamente à capital pelo norte e pelo sul as forças da UNITA avançavam a uma velocidade vertiginosa apoiadas por unidades blindadas sul-africanas que começaram a penetrar em território angolano em 23 de Outubro desse ano. Não obstante ter-se recebido um considerável reforço nos primeiros dias de Outubro com a chegada de barcos cubanos que transportavam armamento e tropas, parecia totalmente que ia ser impossível deter o avanço da FNLA e da UNITA. A balança começava a inclinar-se perigosamente em favor do inimigo. Os projecteis da artilharia pesada de 140mm das forças de Holden Roberto começavam a detonar nos subúrbios da cidade.

    Pelo Este, perigosas colunas da UNITA avançavam ao longo da linha do caminho de ferro (CFB) que atravessa todo o centro de Angola unindo o porto do Lobito no Oceano Atlântico com o Zaire e Zâmbia. Estas colunas encontravam-se às portas da cidade do Luso (Luena) com a intenção de tomá-la e desenvolver a ofensiva em direcção a Teixeira de Sousa para apoderar-se por completo desta estratégica via férrea. A situação não podia ser mais alarmante.

    No dia 23 de Outubro as tropas da FNLA arremetem contra as forças cubanas ao norte da capital e são derrotadas. Cinco combatentes cubanos ficam isolados atrás das linhas inimigas e arrastando-se vários quilómetros durante a noite conseguem chegar às suas posições anteriores.

    A FNLA reagrupa as suas forças e na manhã do dia 6 de Novembro lança um segundo ataque com mais de 64 veículos blindados apoiados por uma forte e intensa preparação de artilharia. É derrotada novamente e as nossas tropas conseguem capturar os três primeiros mercenários brancos de origem portuguesa. A FNLA tinha encontrado uma forte resistência e apercebe-se de que as tropas à defesa não tem possibilidades de contra atacar e que paulatinamente se vão debilitando.

    No dia 5 de Novembro tinham partido de La Habana vários aviões Bristol Britânnia de Cubana Aviação transportando várias unidades das nossas tropas de elite das tropas especiais de assalto com o fim de reforçar a direcção norte e poder fixar o inimigo nessa frente. Simultaneamente, no próprio dia 6 ordena-se aos oficiais cubanos da Força Aérea tomar o aeroporto civil de Luanda para garantir a chegada e o desembarque das nossas tropas de elite. Ao anoitecer desse mesmo dia, o coronel Jaime Arvher conjuntamente com os oficiais da Força Aérea mais uma companhia das FAPLAS composta por 95 homens, penetram com vários transportadores blindados BTR-60 no aeroporto civil e o tomam.

    Às 21.00 hora local aterrou o primeiro Britannia tripulado pelo capitão Wilfredo Pérez e dirigiu-se ao lugar que lhe indicou a torre de controle. Esta última tinha sido também tomada pelo piloto Francisco Cuza para garantir a aterragem e a posterior direcção da aeronave em terra. Minutos mais tarde aterraram o resto dos aviões.

    As tropas recém chegadas dirigiram-se ao aquartelamento do Grafanil na periferia da cidade o qual já tinha sido entregue pelos portugueses aos cubanos, vestiram os seus uniformes de campanha e partiram directamente para a frente.

    No dia seguinte, 7 de Novembro, chega a Ponta Negra no Congo Brazzaville um barco soviético transportando grande quantidade de armamento e entre ele várias baterias de artilharia reactiva BM-21. Cinco destas máquinas com os seus módulos de projécteis foram transbordadas para o barco cubano "La Plata", o qual as conduziu directamente para o porto de Luanda. Depois de desembarcadas foram montadas no lugar durante a noite de 8 e levadas ocultadamente para a direcção perigosamente ameaçada de Quifangondo.

    Na frente sul a situação não podia ser mais desalentadora e preocupante. As colunas da UNITA apoiadas pelos blindados sul-africanos, que em 23 de Outubro tinham iniciado a sua rápida ofensiva para o norte, chocam dias mais tarde com os instrutores cubanos do centro de treino militar Nr.2 de Benguela, cercam esta cidade e o porto do Lobito e marcham aceleradamente para a capital pelas estradas que bordeiam a costa atlântica.


    Del Pino tripulando um MIG23 (foto Net)

    No dia 28 de Outubro, perante as notícias incertas e confusas que se recebiam em Luanda acerca dos nossos combatentes que tinham chocado com a UNITA na direcção de Benguela, o general Diaz Arguelles, chefe das tropas cubanas, é transportado em avião pelo coronel Céspedes até ao aeroporto da referida cidade que ainda estava nas nossas mãos. Depois de aterrar o general Arguelles ordena a Céspedes para realizar um voo de reconhecimento algumas milhas para o sul da cidade para determinar com mais exactidão qual era a posição real do inimigo. No seu regresso, depois de ter sido submetido a um intenso fogo antiaéreo Céspedes informa o general que o inimigo avança em todas as direcções com numerosas unidades blindadas e de infantaria.

    O general Diaz Argüelles ordena-lhe pedir a Luanda urgentemente outro avião de transporte para evacuar pelo ar os feridos e o resto do pessoal. Céspedes cumpre a ordem e permanece na torre de controle para garantir a aterragem deste avião pois o controlador civil, aterrado pelo que estava sucedendo abandonou o seu posto e fugiu. Aproximadamente à meia noite chegou o piloto Francisco Cuza tripulando um Nord Atlas; recolheram os feridos e o resto do pessoal, pegou fogo aos armazéns e instalações e saiu em direcção à capital. O general Diaz Arguelles apercebe-se do desaparecimento de um grupo de combatentes cubanos e decide permanecer na cidade procurando localizá-los. Não o conseguindo abandona o lugar, ameaçando com a pistola um patrão de um barco que os transporte por mar até Novo Redondo onde já se está combatendo e tratando de conter as forças da UNITA que avançam nessa direcção.

    Neste intervalo, Céspedes realizou várias missões de reconhecimento sobre as linhas inimigas e num desses voos é atingido pelo fogo antiaéreo do inimigo que lhe avaria um motor e outras partes do aparelho.

    As forças cubanas que tinham conseguido romper o cerco em Benguela e retirar-se tratam desesperadamente de conter o avanço do inimigo que no dia 8 de Novembro ameaçava apoderar-se de Porto Amboim.

    Na noite do dia 9 de Novembro duas companhias das tropas de elite chegadas a Luanda na noite de 5 são transportadas via aérea da capital até à pequena pista de Porto Amboim iluminada apenas com os faróis dos jeeps que se situaram em uma das suas cabeceiras. Com este esforço se conseguiu conter o inimigo momentaneamente e depois explodiram a ponte sobre o rio Queve para deixá-lo retido nessa direcção sem que pudessem passar para Novo Redondo.

    Aquilo se converteu numa verdadeira batalha contra-relógio. Por um lado a UNITA e a FNLA intentando a todo o custo penetrar na capital no dia 11 de Novembro, data fixada para a proclamação da independência e por outro as nossas unidades tratando de contê-los para procurar estabilizar as frentes na espera da chegada do grosso das nossas tropas para passar a acções ofensivas.

    A situação tinha-se tornado muito mais crítica pelas deserções em massa das tropas do MPLA que cheias de pânico abandonavam os cubanos em todas as frentes.

    A partir de 28 de Outubro, a contenda converteu-se para todos os efeitos numa guerra entre cubanos e as forças da UNITA e da FNLA.

    Aproximadamente às nove da manhã desse mesmo dia, o mecânico de aviação Vicente Hermán dirigia-se à frente norte para levar uma mensagem quando se apercebe que pela estrada que conduz a Luanda marchavam vários carros blindados BRDM tripulados por soldados angolanos do MPLA que aterrados se retiravam em direcção à capital. Hermán pára o seu jeep num lado da estrada, saindo do mesmo e de pé no meio da estrada começa a fazer-lhes sinais com os braços para que se detivessem. Expondo-se a ser atropelado pelo veiculo que encabeçava o grupo, consegue detê-los a menos de dois metros do seu corpo. Salta para cima do primeiro carro e apontando a sua AKM, obriga o condutor a retornar para a frente.

    Parecia que tudo se desmoronava. As colunas da UNITA marchavam sobre a cidade do Luso (Luena) a leste do país e as tropas do MPLA fugiam espavoridas sem enfrentar o combate deixando abandonados armas e equipamentos militares de todo o tipo. Vários dos chefes desta unidades chegaram à cidade de Henrique de Carvalho totalmente bêbados e desmoralizados.

    O Estado Maior das tropas cubanas apercebe-se das intenções da UNITA de continuar a marcha em direcção a Teixeira de Sousa com o objectivo evidente de se apoderar desta cidade e assim poder controlar toda a estratégia do caminho de ferro que une o Porto do Lobito na costa atlântica de Angola com o Zaire e a Zâmbia. Se a UNITA conseguia este propósito, ao ficar o país virtualmente dividido em duas partes, demonstraria ao mundo a sua enorme força beligerante.

    No Este deste país não existiam tropas cubanas pois as mesmas estavam fundamentalmente em Luanda tratando de impedir que o inimigo penetrasse na capital. Este dia os nossos pilotos recebem a missão de transportar urgentemente um batalhão de tropas cubanas recém chegadas a Cabinda para o aeródromo de Henrique de Carvalho. Prepararam-se quatro DC-3, um Nord Atlas e dois F-27. A operação começou a realizar-se de noite debaixo de uma condições metrológicas infernais.

    Um dos DC-3 caiu numa tormenta severa e depois de suportar muitos embates perde-se na obscuridade da noite, não consegue encontrar o aeródromo de destino e sem outra alternativa regressa a Luanda. O resto dos aviões, depois de múltiplas peripécias, conseguem aterrar em Cabinda. Essa noite foram transportados 165 homens. No dia seguinte conseguem transportar os 450 homens restantes. Esta força consegue deter o avanço impetuoso da UNITA em direcção a Teixeira de Sousa e desta maneira frustrar o seu objectivo de apoderar-se da estratégica via férrea.

    Como as tropas cubanas tinham ficado combatendo praticamente sós contra a UNITA, para garantir que de nenhuma maneira pudesse estabelecer-se o domínio desta sobre esta importante via de comunicações, o comando cubano deu a ordem de fazer uma ponte aérea fronteiriça entre Angola e Zaire.

    Na manhã do dia 10 de Novembro, na Frente Norte muito próximo da capital, as tropas do FNLA começam a mover-se pelo amplo e raso Vale de Quifangondo apoiadas por veículos blindados e tropas do Zaire decididos a quebrar as defesas cubanas e penetrar na capital antes da proclamação da independência.

    As tropas de elite cubanas que tinha ido a reforçar essa frente com baterias de artilharia reactiva BM-21 (Órgãos de Estaline ?) colocadas de maneira oculta desde a noite anterior, esperaram pacientemente que as tropas da FNLA estivessem todas nomeio do vale. Os soldados marchavam tão confiantes que avançavam cantando canções e bailando.

    Exactamente às 09.35 hora local começou a cair sobre eles uma chuva de fogo e chumbo que fez em pedaços as suas colunas em escassos minutos. No campo de batalha só ficou sucata fumegante e montes de cadáveres. O resto das forças inimigas, tomadas de pânico, fugiram espavoridas por todo o vale, abandonando veículos, feridos e armas.

    As tropas cubanas tinham conseguido para a tarde do dia de 10 de Novembro estabilizar todas as frentes de combate. A partir daquele momento, acompanhados pelas escassas e contadas forças do MPLA que não tinham desertado, começava a grande batalha dos cubanos contra a UNITA e a FNLA.

    A primeira missão tinha sido cumprida e com ela o primeiro e mais importante objectivo se tinha conseguido. Em 11 de Novembro, Agostinho Neto unilateralmente proclamava ao mundo a independência de Angola. A primeira fase da "Operação Carlota" tinha alcançado resultados positivos.

    Tradução livre

    Fonte: Memorias de Angola ( http://pissarro.home.sapo.pt/memorias0.htm )

    sábado, 17 de janeiro de 2009

    Angola: Os dias da Vergonha

    PREFÁCIO

    PALAVRAS DO GENERAL SILVINO SILVÉRIO MARQUES ANTIGO GOVERNADOR GERAL DE ANGOLA

    Um dia, que esperamos a justiça dos homens não faça esperar muito, será classificado o que se passou no Ultramar Português, e especialmente em Angola, no que se refere à chamada «Descolonização». Nessa altura haverá revelações que multo surpreenderão o nosso povo.
    Entretanto, a verdade dos acontecimentos está sendo, aos poucos, descoberta por testemunhas atentas e sensíveis que, numa tessitura aqui e além romanceada, vão contando o que efectivamente presenciaram, ainda sem grande preocupação, ou possibilidade, de aprofundar as respectivas causas.
    Deste modo se estão produzindo verdadeiras monografias do dia a dia vivido naquilo que constituiu não uma epopeia igual aos descobrimentos, como impudicamente foi dito, mas a maior tragédia (e vergonha) da nossa História: a «Descolonização» e o «Retorno».
    Num tempo em que generalizada crise de carácter se reflecte na acomodação cobarde de muitos e na amnésia de quase todos, dos responsáveis às próprias vítimas, o aparecimento dessas monografias dos acontecimentos deve ser saudado como verdadeira pedrada neste charco.
    Assim fui entendendo Os Dias da Vergonha, à medida que desfolhava as suas páginas. E ficou-me um sentimento, complexo e amargo, de saudade, vergonha e desespero...
    Todos, em Angola, conhecemos Reis Ventura das suas numerosas obras literárias, da sua colaboração permanente num jornal da província, da sua fluente e empolgante oratória em momentos his
    Fontetóricos da vida do País e de Angola.
    Numa prosa simples, acessível a todos, e rica de sensibilidade e de expressão, retraía agora, nos sentimentos, nas atitudes e nas actuações, horas cruciais vividas em Angola, naquele período de infelicidade e amargura que sucedeu ao 25 de Abril.
    Nesta Crónica dos Dias da Vergonha ficam fixados factos que então ocorreram e que será crime esquecer.
    A Reis Ventura passamos a dever, os "retornados» verdadeiros, e os que o somos espiritualmente e todos quantos conhecemos e compreen-demos Angola e continuamos a sofrer o destino que lhe foi preparado e imposto, a gratidão por mais este trabalho.
    Reavivar assim a memória é serviço prestado a muitos de nós. E também à História.

    Silvino Silvério Marques


    EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA

    Neste livro se relatam factos que aconteceram em Angola desde 25 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975.
    Começa ainda sob o signo da esperança, no engano do programa Inicial do Movimento das Forças Armadas, que preconizava a defesa da Nação Pluricontinental, e das promessas dos seus homens mais responsáveis. Mas termina em gritos de desespero, porque bem depressa a realidade mostrou que era tudo mentira, vergonha e traição.
    Há muito boa gente da melhor do Portugal desta hora aziaga) que se admira de que os homens de Angola, tão corajosos e resolutos nos dias trágicos de 1961, se tenham mostrado tão resignados e submissos depois do 25 de Abril de 1974.
    Compreendemos esta atitude, porque até nós próprios choramos de raiva, ao pensar que poderíamos ter altivamente salvo a terra dos nossos filhos, em vez de vir mendigar para a desolada Pátria de nossos pais. Correria sangue, que nós não queríamos, e haveria uma inevitável ruptura temporária com o Governo da Metrópole, que nunca deixou de ser a terra da nossa saudade. Mas não aconteceria a entrega de Angola aos russos, nem a ignóbil traição ao Ocidente, nem a tremenda desgraça de milhões de brancos, pretos e mestiços, nem a confrangedora e multimoda vergonha de uma velha e nobre Nação, nem a rápida e completa derrocada do que podia ser um grande e próspero País.
    Se os brancos, pretos e mestiços que não andaram aos tiros nas matas, mas construíram a Angola moderna, tivessem decidido assumir o poder na sua terra, nunca os laços fraternos com a Mãe Pátria se quebrariam definitivamente; e dali poderia vir, a curto prazo, a força e a ajuda necessárias para salvar este velho Portugal, integrado numa efectiva e grandiosa Comunidade de Nações Lusíadas.
    Mas é agora, depois dos acontecimentos, que tudo isto se vê com facilidade e clareza. No decurso deles era diferente. E é preciso tê-los vivido, no confuso clima dos primeiros meses da Revolução dos Cravos, para compreender a atitude dos portugueses de Angola.
    Em 1961 tínhamos Salazar em Lisboa, um governador-geral bem português em Luanda (a) e a Nação inteira ao nosso lado.
    Acordávamos com esse tremendo hino «Angola é nossa!», que parecia — e era — um clamor imperativo da alma milenar da Grei. Estávamos sem armas e sem soldados, mas sabíamos que todo o povo português acompanhava emocionadamente a nossa resistência e rezava pela nossa vitória. Durante a noite do cerco terrorista à pequenina povoação de Mucaba, houve na Metrópole muita gente que não dormiu. Tínhamos connosco a ansiedade e o apoio moral de todos os portugueses.
    Depois do 25 de Abril de 1974, o mais pequeno gesto de resistência em Angola constituía pretexto para detenção imediata, à ordem dos novos senhores, que logo saltaram sobre aquela terra como lobos esfaimados. E o sofisma da «agressão ideológica» foi um látego de esclavagista nas mãos de Correia Jesuíno... Todos os homens e mulheres que tinham apoiado Salazar e Marcelo Caetano na sua decisão de defender o Ultramar ficaram imediatamente sob suspeita, quando não sob atenta vigilância. O general Costa Gomes teve o cuidado de substituir sem demora nem aviso prévio todos os comandos das Forcas Armadas de Portugal em Angola. Não se podia escrever uma palavra em defesa da acção portuguesa naquela terra, sem ser logo apodado de reaccionário e fascista. Os videirinhos de sempre trataram de alinhar na condenação de tudo quanto antes se tinha feito. A colaboração do autor deste livro para a Emissora Oficial foi suprimida por sugestão de antigos elementos da União Nacional. Quando o governador-geral Santos e Castro, tão vivamente entusiasmado com o progresso daquela portentosa terra, tomou o navio do regresso, o porto de Luanda foi fechado, para que ninguém se despedisse dele.
    A independência de Angola, que primeiro se declarou dependente da vontade de todas as populações, rapidamente se tornou uma decisão ditatorial e irreversível do Governo de Lisboa. As notícias da Metrópole eram tão más que os melhores portugueses do que foi a maior província de Portugal compreenderam que nada podiam esperar desse lado. E o dr. Mário Soares declarava então, para quem o queria ouvir, que os nossos soldados abririam fogo contra os brancos do Ultramar que tentassem qualquer aventura.
    Mas há outra realidade ainda mais importante: e é que os brancos de Angola foram torpemente levados de engano em engano, precisamente porque os vendilhões da Pátria sabiam que a sua reacção seria inevitável, se em tempo oportuno pudessem imaginar o que lhes viria a acontecer.
    Todos os governantes de então declaravam que Angola era um caso especial. O general António de Spínola disse que a escolha do governador-geral de Angola era mais importante do que a nomeação do primeiro-ministro. E ainda hoje não somos capazes de compreender porque deu ouvidos aos emissários do MPLA, que vieram a Lisboa caluniar o general Silvino Silvério Marques, e substituiu esse homem íntegro, leal e sabedor por uma criatura tão reles e tão comprometida com os comunistas, como o almirante Rosa Coutinho.
    Muito mais se poderia aqui dizer sobre a maneira covarde e nojenta como foram ludibriados os bons portugueses de Angola. Mas acrescentaremos apenas que o próprio general Costa Gomes afirmou bem alto estar convencido de que Angola continuaria portuguesa e várias vezes tranquilizou amigos íntimos, assegurando-lhes que os brancos seriam sempre consultados e tudo se faria para conservar aquela terra ligada à Metrópole da melhor forma possível.
    Foi neste deslizar de engano em engano que os brancos de Angola, ainda com soldados portugueses e autoridades portuguesas naquela terra, chegaram até à situação de se verem inteiramente dependentes dos movimentos de libertação, que tinham ocupado todas as posições abandonadas pela nossa tropa no Norte da província e já em princípios de 1975 faziam em Luanda tudo quanto lhes apetecia, agredindo, incendiando e roubando, à vista da polícia e dos nossos soldados, alguns dos quais eu vi chorar de raiva, porque os não deixavam fazer-se respeitar.
    Com o decorrer do tempo as nossas Forças Armadas, sobretudo o Exército, ficaram tão infiltradas por elementos comunistas, propositadamente enviados de Lisboa, que assistiam, sem um gesto, a toda a espécie de infâmias praticadas contra os brancos. E no que respeita à defesa das valiosíssimas estruturas da economia angolana, comportavam-se com a mesma indiferença.
    Bem me recordo ainda de como, durante um dos dias em que os empregados da Petrangol foram impedidos de entrar na Refinaria do Alto da Mulemba por piquetes da UNTA (União Nacional dos Trabalhadores de Angola), que era — e é — uma organização do MPLA, os Unimogs da nossa tropa paravam junto das centenas de empregados acumulados à entrada do grande complexo industrial, e os nossos soldados riam da cena, inteiramente desinteressados do enorme prejuízo económico resultante da paralisação da unidade. Houve até alguns mais atrevidos (ou mais progressistas...) que foram buscar dois estrangeiros para fotografar aquele belo quadro da descolonização exemplar. Tudo uma tristeza!...
    Foi neste clima humano que decidi publicar este livro no jornal A Província de Angola, pela única forma então possível, escolhendo para narrador e principal personagem um jovem angolano, que sinceramente desejasse, com dignidade e bom senso, a independência de Angola.
    Não direi o seu nome, nem a sua raça, nem a sua religião.
    Nada disto é da sua escolha. Usa o nome que outros lhe deram; tem a cor da pele com que nasceu; professa o culto de seus pais.
    Citará o nome de outros homens, as suas ideias políticas e religiosas, a cor do seu rosto. Mas ele — o principal personagem deste livro — é apenas um homem, com o idealismo de todos os jovens, com raízes bem mergulhadas na terra de Angola, com as ambições e limitações da condição humana. Um homem com virtudes e pecados, com sonhos e desilusões, com os olhos ávidos da juventude. Um homem em que muitos homens se podem encontrar, se abstraírem de pequenas diferenças, olhando apenas o que é essencial no seu corpo e na sua alma de filhos de Deus sujeitos às tentações do diabo.
    Um homem que pensa, que fala, que julga o presente, que interroga o futuro, que vive na convivência de outros homens.
    O seu bilhete de identidade não é da sua iniciativa. Não foi convidado a nascer, não escolheu as linhas ou a cor do seu rosto, não influiu na posição social de seus pais. Ninguém o consultou sobre a terra da sua naturalidade. Na sua realidade mais profunda, é apenas um homem.
    Mas esse jovem angolano existe e, felizmente, continua vivo.
    Reproduzo, por vezes textualmente, afirmações que lhe ouvi. Creio ter interpretado as suas ideias e sentimentos, com respeito e fidelidade. Nem sequer fechei os olhos à sua arrepiante desgraça e à sua amarga desilusão que, por incrível que pareça, também aconteceu.
    Não estou arrependido desta decisão, que me permitiu fixar, neste volume, o que foi uma forte e muito expressiva tendência da Juventude Angolana, na sequência da revolução de 25 de Abril de 1974. Na verdade, e sem falsa modéstia, parece-me de alguma utilidade para os futuros historiadores que se tenha anotado, ainda em cima dos acontecimentos, como foi que tantos angolanos, honestamente adeptos da independência de Angola, passaram da esperança ao desespero.
    O meu ideal sempre foi outro.
    Desde que me conheço, em livros, artigos, discursos e conferências sempre defendi a continuação de Portugal no Ultramar Português. Sonhei uma Pátria Grande, desde o Minho a Timor, onde coubessem todos os portugueses, em igualdade de direitos e deveres, com idênticas possibilidades de acesso ao trabalho e aos seus frutos, de participação na administração pública e suas responsabilidades, de completa integração na carne e na alma da Nação.
    Queria que um preto de Luanda, um mestiço de Cabo Verde ou S. Tomé, um indiano de Goa, um fula da Guiné, um m acarta e de Moçambique ou um montanhês de Timor, qualquer deles, sem distinção de raça, cor ou religião, apenas pelas suas virtudes pessoais e com a sua dignidade de português, pudesse ascender à Suprema Magistratura da Nação.
    Sonho grande demais?
    Não há sonhos demasiadamente grandes, «se a alma não é pequena».
    Esse ideal não morreu: — mataram-no! Mas eu nunca o reneguei.
    Em Angola, mesmo durante os dias malditos, as semanas da traição e todo o tempo da vergonha, continuou a existir muita gente fiel ao belo sonho da Pátria multirracial e pluricontinental.
    Em 4 de Maio de 1974, na minha primeira crónica do jornal A Província de Angola, publicada depois do 25 de Abril, escrevi o que a seguir transcrevo:
    «Perante a viragem política efectuada pelas Forças Armadas de Portugal, eu, que sempre defendi os governantes agora depostos, poderia ceder à tentação de me remeter ao silêncio.
    Era cómodo, mas indigno.
    Mantenho inalterado todo o meu respeito pela figura histórica de Salazar.

    Mantenho inalterada e inalterável a admiração que sempre manifestei ao sr. professor Marcelo Caetano, antes e depois de ele ser Presidente do Conselho de Ministros.
    Considero que o sr. engenheiro Santos e Castro, que meras circunstâncias políticas afastaram do Governo Geral de Angola, fez aqui um bom trabalho e se revelou profundamente dedicado a esta terra. Quando, no último sábado (27 de Abril findo) fui ao Palácio dar-lhe um abraço de despedida, encontrei-o a arrumar, numa das malas da sua bagagem particular, as bandeiras de todos os distritos de Angola. E isso comoveu-me quase até às lágrimas.
    Sempre vivi do meu trabalho e espero poder continuar a viver.
    Saiu há cerca de dois anos, numa edição de cinquenta mil exemplares, um texto meu, subordinado ao título UMA PÁTRIA PARA TODOS.
    Não por minha iniciativa mas com o meu consentimento, essa pequena brochura foi a única das minhas obras que saiu sem o meu nome, porque a outros pareceu que assim produzia melhor efeito.
    Julgo do meu dever, neste momento, assumir a responsabilidade do que então escrevi e representa o que penso sobre a Nação Portuguesa.»
    Escrevi estas palavras, sem medo nem arrogância, em plena sinceridade, apenas porque a consciência assim mo pediu. E nunca pensei que tal atitude pudesse desencadear a catadupa de telefonemas e de telegramas de apoio e aplauso, alguns em voz embargada pela emoção, vindos de várias regiões de Angola.
    Recordo este pormenor de ordem pessoal, porque de algum modo documenta a afirmação que acima faço e quero deixar aqui, bem clara e peremptória: mesmo durante os dias malditos, nunca deixou de haver em Angola, entre brancos, pretos e mestiços, muita gente fiel a Portugal!
    Completamente abandonados pelos novos governantes da sua Pátria, vilmente caluniados pela imprensa, rádio e televisão de Lisboa e Porto, repentinamente privados do clarão de esperança que para eles representou o Governo do general Silvino Silvério Marques, obrigados ao silêncio pela ditadura antiportuguesa de Rosa Coutinho —, esses bons portugueses, que continuavam a querer uma Angola portuguesa, viveram numa angústia permanente, esperando um líder que lhes marcasse o rumo, orientasse os passos e aglutinasse as dispersas energias.
    Assim o exprimem algumas das suas atitudes, desde as sensatas às desvairadas, como a reacção ao estrangulamento dum motorista de táxi no Muceque Rangel, a greve dos camionistas, a invasão do Palácio para interpelar o Almirante Vermelho, ou essa vaga de incontível entusiasmo que deles se apoderou em 7 de Setembro, perante as notícias que vinham de Lourenço Marques, através da Rádio Clube de Moçambique...
    O desejado líder nunca apareceu. Os brancos foram desarmados. Uma a uma, caíram todas as ilusões. E, só então, os melhores portugueses de Angola, que sempre estiveram dispostos a segurar nas suas mãos a mais rica parcela da sua Pátria, só então é que aflitivamente se agarraram à derradeira esperança: uma independência real e verdadeira para todos, embora sob um governo da maioria negra.
    Dessa última fase dá testemunho o pescador português Manuel da Costa Marques, quando, já durante o Governo de Transição, o ministro Johnny Eduardo vai ao porto pesqueiro recomendar a reactivação das pescas.
    — Eu fico por todos estes pescadores — respondeu-lhe Manuel da Costa Marques — porque os conheço a todos. Aqueles que por aqui aparecem, de noite, para roubar e com ameaças, são desconhecidos. (...) Todos nós queremos trabalhar. E é o que eu tenho feito desde que para aqui vim, em 1957. Olhe as minhas mãos, Excelência (e mostrava-Ihas, possantes e bem calejadas...). E não estou arrependido. Tenho filhos mulatos. A minha casa é um paraíso com todas as cores e sinto-me feliz: Agora, humilhado é que eu não quero ser. Mandem-me embora mas não me humilhem!
    — Ninguém o vai mandar embora! — interveio o ministro. E esta foi apenas uma das muitas promessas não cumpridas...

    (a) O dr. Silva Tavares.


    Continua
    ....


    quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

    O FIM DO ULTRAMAR PORTUGUÊS ERRO E TRAIÇÃO

    O FIM DO ULTRAMAR PORTUGUÊS

    ERRO E TRAIÇÃO

    Abril de 1994

    Kaúlza de Arriaga

    A DESCOLONIZAÇÃO

    SÍNTESE

    A chamada descolonização do Ultramar Português, realizada logo após o "25 de Abril", foi, na sua essência, um erro, diria um erro maior, e , no relativo à Pátria Portuguesa, que era, e às populações portuguesas metropolitanas e ultramarinas, que o eram, uma traição, diria, uma alta traição.

    I. O ERRO

    O erro maior, resulta de duas realidades que, na ocasião, dominavam a conjuntura – o grau de desenvolvimento das populações ultramarinas e a situação internacional.

    1. As Populações

      A primeira realidade contém a verdade, verdade importante, das populações ultramarinas da época, não só não terem o menor sentimento nacional próprio, mas apenas sentimentos fortemente tribais, como terem por única ligação consistente, entre si, a sua qualidade portuguesa.

      Também, nesta realidade, se contém outra verdade, esta certamente decisiva. As mesmas populações usufruiam de um esforço imenso que se fazia, nos anos 60 e começo dos anos 70, no sentido da sua promoção em geral e especialmente nos planos da educação, civismo, saúde, nível de vida e desempenho de cargos políticos, este sempre que a qualidade o aconselhava. Mas, mesmo assim, essas populações não possuíam, ainda, características que lhes permitissem autodeterminações minimamente autênticas e governações, se disso fosse o caso, minimamente capazes. As autodeterminações seriam forçosamente uma obtusidade e, no caso das independências, estas seriam fatalmente o caos.

      Como, de resto, sucedeu factualmente e por forma trágica. Aqui há que afirmar, com nitidez e desmentindo frontalmente quem, por ignorância ou má fé, propagandeie o contrário, que se mais cedo tivesse sido feita a descolonização, mais generalizado e profundo teria sido o caos.

      Dentro de cerca de três décadas, a partir de 1960, isto é, nos anos 90, e se continuasse o esforço de promoção referido, talvez, sim, as populações, principalmente as de Angola e Moçambique, tivessem atingido um grau de desenvolvimento permissivo de autodeterminações autênticas no bastante e de governações, se fosse esse o caso, suficientemente capazes.

      A não consideração das verdades acabadas de expôr foi o erro.

      1. A Situação Internacional

    A segunda realidade dizia respeito à situação internacional então vivida, mas vivida intensamente. Era a confrontação Leste-Oeste no seu auge, que, na estratégia indirecta da URSS e durante algum tempo também da China Continental, continha, como grande objectivo, a conquista do controle da África Austral, fonte importantíssima de minérios essenciais à vida normal do Ocidente e ao seu esforço militar, e base de possíveis intervenções no fluxo do petróleo, não menos essencial, que vindo do Golfo Pérsico, abastecia a Europa e mesmo os EUA. Esse controle era, até então e na ocasião, exercido pelo Ocidente, através de Portugal - Angola e Moçambique - , da República da África do Sul e da Rodésia.

    Nesse sentido da conquista do controle da África Austral e independentemente de um curto período em que os EUA - administração Kennedy - paternizaram uma infeliz intervenção no Noroeste de Angola, a URSS e a China Continental transformaram, em seus tele-satélites, os países fronteiriços a Norte da África Austral, os, hoje, Congo, Zaire, Zâmbia e Tanzânia. E, a partir destes países, lançaram-se na promoção, apoio e condução de ofensivas subversivas em Angola e Moçambique, com a finalidade de atacarem a África do Sul e o que, hoje, é a Namíbia, e conseguirem o seu objectivo anti-ocidental – o referido controle da África Austral.

    Deste modo, qualquer autodeterminação ou independência de Angola ou Moçambique teria, como consequência imediata e inexorável, o seu domínio pela URSS e pela China Continental.

    Como, de resto, sucedeu factualmente e por forma dramática em relação à URSS, dada a desistência da China Continental. Aqui, há, igualmente, que afirmar, com nitidez e desmentindo frontalmente quem, por ignorância ou má fé, apregoe o contrário, que se mais cedo tivesse sido a descolonização, mais depressa se teria verificado esse domínio de Angola e Moçambique pela URSS.

    Dever-se-ia, em Angola e Moçambique, aproveitando e reforçando a paralização da guerra, verificada por impossibilidade do MPLA e da FRELIMO, isto é, o sucesso português em termos de contra-subversão, ter esperado pelo fim da URSS, o que teve lugar em 1991 e que era, mais década menos década, previsível, como eu próprio o previ, em conferência pública, proferida em 1966, no então Secretariado Nacional de Informação. E ter esperado, também, pela desistência da China Continental, o que teve lugar mais cedo.

    A não consideração da realidade acabada de expôr foi mesmo erro maior.

    II. A TRAIÇÃO

    A Pátria é uma entidade estrutural, mais espiritual do que física, indiscutível e perene, e que se sobrepõe às diversas e sucessivas situações conjunturais nacionais que se vão vivendo.

    E há Pátrias com vocação para gerarem outras Pátrias. É o caso de Portugal. Porém, isso só, exclusivamente, quando as Pátrias em gestação tenham já possibilidades factuais de realmente o serem, quer no relativo a sentimentos nacionais, quer no relativo ao seu desenvolvimento e quer no relativo ao seu enquadramento político internacional. E isso, também, só, exclusivamente, quando as populações da Pátria mãe, na execução da sua vocação, e as populações das Pátrias em gestação, o expressarem conscientemente, maioritariamente e empenhadamente.

    Sempre que alguém pretenda afectar a estrutura da Pátria, no seu espírito ou no seu âmbito físico, sem que as populações interessadas se tenham expressado, como se disse, em consciência, maioritáriamente e com empenho, esse alguém está a praticar ou a tentar praticar um acto de traição ou de alta traição.

    No caso do Conjunto Português, vigente em 1974, além de se não verificarem, como já se considerou, as condições citadas relativas a sentimentos nacionais próprios, ao desenvolvimento e ao enquadramento político internacional, as populações não expressaram minimamente qualquer desejo de que se formassem novas Pátrias. Isto, no referente às populações metropolitanas, com excepção de alguns, muito poucos: medíocres em demasia, ou cegos pelo ódio político; ou, ainda, servidores de interesses estrangeiros. E, no referente às populações ultramarinas, com excepção talvez em parte das da Guiné e de algumas pequenas parcelas de etnias de Angola e Moçambique, cujo "habitat" se situava de um e de outro lado das fronteiras com países tele-satélites da URSS e da China Continental, onde eram sujeitas a intensas lavagens cerebrais, verdadeiras intoxicações políticas. Assim, a esmagadora maioria das populações interessadas considerava-se bem, muito bem, na sua condição portuguesa.

    E a descolonização em causa, efectivada, traiu a Pátria Portuguesa e traiu aquelas populações. A descolonização foi, pois, uma traição. O grau de traição elevou-se quando essa descolonização apenas consistiu na entrega, que se lhe sabia inerente e, deste modo, premeditada, dos territórios em causa à URSS. A descolonização foi mesmo alta traição.

    III. OS ANOS 90

    Se o "25 de Abril" não tivesse feito desaparecer os estadistas do Poder em Portugal, não teria tido lugar a descolonização efectivada e ter-se-ia esperado pelos Anos 90, nos quais se poderia oferecer a autodeterminação às populações de Angola e Moçambique, com a certeza de que, se tivesse continuado o esforço de sua promoção exercido nos anos 60 e começo dos anos 70, estas saberiam tomar as opções certas e de que não haveria intervenção alguma da URSS e da China Continental.

    Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe poderiam ser Regiões Autónomas Portuguesas, segundo o modelo da Madeira e dos Açores.

    Idêntica solução talvez fosse de encarar para Timor e Macau.

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