Este blog visa apenas dar visibilidade a textos de autores considerados de interesse para a compreensão da História Colonial de Angola. Por abarcar os mais diversas abordagens, é um blog dedicado aos de espirito aberto, que gostam de avaliar assuntos, levantar questões e tirar por si próprios suas conclusões. É natural que alguns assuntos venham a causar desagrado, e até reacções da parte daqueles cujas perspectivas estejam firmemente cristalizadas.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
O "INDÍGENA" AFRICANO E O COLONO "EUROPEU": A CONSTRUÇÃO DA DIFERENÇA POR PROCESSOS LEGAIS"
Maria Paula G. Meneses
Centro de Estudos Sociais
Universidade de Coimbra
Palavras chave: Missão Civilizadora, Portugal, Moçambique, Colonialismo, República
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sábado, 3 de dezembro de 2011
O PENSAMENTO ULTRAMARINO DE ADRIANO MOREIRA DE 1961 A 1963 COMO MINISTRO
domingo, 17 de outubro de 2010
Livro: A Raça Negra: Sob o Ponto De Vista Da Civilização Da Africa Por Antonio Francisco Nogueira
António Francisco Nogueira, o autor deste livro, foi componente da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Mossãmedes em 1850, no início da colonização daquele distrito, autor do livro «A raça negra».
Naqueles tempos em que se exaltavam os povos europeus e rebaixavam os povos de raça negra, estes civilizados, diligentes e progressivos, aqueles em estado primitivo, bárbaro, sem motivação que os fizesse sair do seu atraso ancestral por falta de contacto com gente civilizada, ou até mesmo considerados menos inteligentes, preguiçosos, e incapazes e progressão, Antonio Francisco Nogueira, um dos componentes da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Mossãmedes (Angola) em 1850, no início da colonização daquele distrito, indivíduo negro, culto e civilizado, escreveu e publicou este livro na defesa da sua «raça».
No século XIX as diferenças entre os grupos humanos tendiam a ser explicadas pelas teorias raciais que se apresentavam com um discurso científico (positivista), ainda que por muito tempo ligado a dogmas religiosos. Serviam para legitimar o Imperialismo europeu, a possibilidade de hierarquização do homem de forma a que os europeus ocupassem o topo da evolução da espécie, símbolo maior do progresso e da civilização. Estas doutrinas raciais que ganharam força no século XIX e que já no século XX levaram a Alemanha de Hitler ao holocausto dos judeus, tiveram por detrás autores como Darwin (1809/1882), Spencer (1820/1903), Gabineau (1818-1822) e tantos outros que buscavam explicações para os problemas nacionais e suas soluções através do factor raça. O racismo científico introduzido através dos discursos de uma elite intelectual, ajudou a forjar representações sociais diante dos negros, mestiços, índios, imigrantes, etc., e influenciou fortemente os debates a respeito da mão de obra, sobretudo a partir do último quartel do século XIX, visando a resolução da carência dessa mesma mão de obra, através do trabalho escravo. A partir da Conferência de Berlim (1884/1885) passaram a justificar tal posição através da noção da excelência dos imigrantes europeus sobre os demais tipos de trabalhadores à disposição. Os emigrantes europeus, seriam, portanto os portadores do progresso e da civilização, incutindo no negro o gosto pelo trabalho e a motivação de que a África e ele próprio beneficiariam.
Antonio Francisco Nogueira defende brilhantemente a sua tese, procurando explicar o atraso sem que fosse necessário considerar o assunto do ponto de vista radical como estava acontecendo por influência de tais teorias:
«O negro passa presentemente por um estado pelo qual também passou o branco. Como este pode progredir, aperfeiçoar-se. Esta é a opinião que seguimos , esta a verdade que aqui procuramos demonstrar, baseando-nos tanto nas indicações da ciência, como na atenta observação dos factos. A objecção mais séria que se apresenta contra o possível aperfeiçoamento do negro, consiste no seu pretendido estacionamento de que se julga provar pelo seu estado de atraso, afirmando-se ao mesmo tempo que é o representante de uma raça anterior à do branco. São estes, pois os pontos de que principalmente nos ocuparemos na discussão que vamos encetar.»
MariaNJardim
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
René Pélissier : "Falar de cinco séculos de colonização portuguesa é uma burla!"
O primeiro a estudar a moderna colonização portuguesa
| Não sou um adversário da colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente |
Foi. Quando comecei, fui o primeiro investigador francês a estudar a colonização portuguesa moderna, posterior aos Descobrimentos, à Índia e ao Brasil...
Porque gosto das descobertas pessoais. Tenho uma alma de descobridor, de explorador. Cheguei um pouco tarde: tudo já fora descoberto geograficamente. Mas descobri um mundo que estava completamente fechado aos não-lusófonos pela propaganda, que exaltava os cinco séculos de colonização portuguesa.
Justamente. Mas era preciso prová-lo e demonstrar. Tinha que encontrar uma chave para destruir o mito. E a única chave que estava em meu poder era fazer a história militar da conquista. Avancei num terreno completamente ignorado pelos não-lusófonos.
Em 1965. Angola era difícil para mim.
Sim. O Arquivo Histórico-Ultramarino não estava aberto para os que queriam estudar a época mais recente. Mas não mo disseram frontalmente. Como eram muito hábeis, o diretor disse-me que podia vir ao Arquivo consultar unicamente os livros! Só que, para isso, podia ir a Sociedade de Geografia... Não pude fazer nada e expliquei na minha tese que não tivera acesso ao Arquivo Histórico Ultramarino. Mas os militares deram-me acesso aos arquivos militares na medida em que iam sendo desclassificados. Aproveitei e encontrei coisas que ninguém tinha encontrado antes de mim, como o fim da conquista dos Dembos.
Os relatórios de Paiva Couceiro e João de Almeida
Sim, em Portugal. Nunca aprendi propriamente. Comecei por ler e conversar. E conversando apanhei um pouco da língua. Os militares da época da conquista do Terceiro Império escreviam e publicavam muito. Foi a minha salvação.
Exatamente. Não apenas Mouzinho de Albuquerque, mas António Enes e muitos outros. A conquista não foi propriamente um caminho que levasse à santidade: não havia apenas rosas nessa história. Em 1904, mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo 1/10 do território atual. E isso não era confidencial. Estava escrito em "Angola Dois anos de Governo", do governador Paiva Couceiro, um documento notável. João de Almeida, que foi o seu braço direito, contou as suas próprias campanhas. Fez o seu trabalho de conquistador, normal na época. Se empreendeu, a partir de 1845, 180 operações militares, isso significava que a colónia não estava pacificada. Esta foi a chave que demonstrou a falsidade do slogan "Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola". Antes de meados do sec XIX não havia propriamente dito uma colonização portuguesa, salvo em Luanda, no corredor do Cuanza até Malange, em Benguela, Moçâmedes, Novo Redondo e pouco mais. Todo o resto tinha de ser conquistado.
Não sou um historiador militante ou partidário de uma causa - nenhuma. Nada disso. Obtive licença para visitar Angola em 1966. Já tinha escrito pequenas coisas e viram que não era um adversário da colonização. Realmente não sou. Sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente. Visitei praticamente 13 distritos (em 15 que havia na época), vi a situação, que era favorável a Portugal do ponto de vista económico. É incontestável: Angola nunca foi tão próspera e rica como na véspera da morte da colonização portuguesa.
'Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque'
| Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840 |
Indiscutível. Na minha opinião (que não é a opinião de um propagandista e que expus no livro "História de Angola", com Douglas Wheeler), a situação era instável mas provisoriamente favorável aos portugueses. Fiz a minha tese de doutoramento em dois volumes sobre Angola. O primeiro é sobre a conquista, que foi traduzida para português pela Estampa, "História das Campanhas de Angola". O segundo volume, com 700 páginas, ainda não foi traduzido; chama-se "La colonie du Minotaure". E o Minotauro é a colonização portuguesa que devora as suas vítimas africanas. Como sou um homem que ama a descoberta, com alma de explorador, e não queria ficar a vida toda a estudar Angola, passei a Moçambique. Comecei em 1977. A conquista de Moçambique são essencialmente as 150 campanhas ou operações mais importantes nos séculos XIX ou XX - o que significa que não se pode falar de "cinco séculos de colonização". Seria uma burla!
É preciso ser verdadeiramente cego, ou não querer olhar a verdade de frente. Terminei Moçambique em 1983 e continuei pela Guiné. Mais pequena, mas um país relativamente mais difícil de conquistar, em razão da geografia, do clima e da resistência dos guineenses, gente que não estava disposta a submeter-se sem ser vencida.
Não há verdadeiramente um herói. O melhor organizador da conquista durante a Monarquia foi Paiva Couceiro e o seu braço-direito, João de Almeida. A conquista do Sul foi "épica" entre 1885 e 1915.
Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque. Em Angola, não havia a premência de Moçambique, a braços com as ambições de Cecil Rhodes, dos britânicos e até dos alemãos, que olhavam, a partir do norte, o que podiam apanhar dos portugueses.
A pressão de Cecil Rhodes sobre Moçambique
Havia o problema dos alemães e o seu domínio do Sudoeste africano. Mas a pressão alemã era inferior à de Cecil Rhodes, que queria conquistar a Rodésia e aceder ao mar através da Beira. Quem teve a visão mais clara foi António Enes. Enes era um civil: era um autor dramático, foi diretor da Biblioteca Nacional em Lisboa e ministro, e tinha uma conceção relativamente eficaz sobre a organização da conquista. Não tinha poder militar, mas encontrou entre os seus oficiais intermédios gente corajosa e soube ampliar exageradamente a ameaça do Gungunhana. O Gungunhana era um imperialista africano - não há que ter vergonha em dizê-lo. Agora é um herói em Moçambique - cada país encontra os heróis onde pode. Mouzinho de Albuquerque conseguiu o feito apreciável de se apoderar da pessoa de Gungunhana sem resistência, em Manjacaze. Isso deu confiança aos oficiais portugueses, que se batiam com poucos meios e homens e com pouco espírito de organização. Perceberam que, uma vez vencido o Gungunhana, podiam apoderar-se de todo Moçambique - e fizeram-no, lentamente. No início da I Guerra Mundial, o essencial de Moçambique estava conquistado, exceto a parte Norte, os atuais Cabo Delgado e Niassa, que pertenciam a uma sociedade privada comercial, uma pura sociedade de predadores. Os acionistas eram sul-africanos, alemães, franceses, etc. e apenas o presidente era português.
Cheguei à Guiné com muita dificuldade. Porque é muito complicada, ao lado de Angola...
Sim. Quando estudei Angola, tinha uma vantagem: salvo no Sul e no Noroeste, não havia muitas relações (em termos de pesquisa) com os territórios vizinhos. Enquanto a Guiné está completamente rodeada por territórios franceses, pelo que era necessário absorver a história dos povos que também habitam o Senegal e a Guiné Conakry. Fiz, assim, o conjunto das três colónias continentais que nunca tiveram cinco séculos de colonização, que existiu unicamente em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e Goa e territórios adjacentes. E mesmo Goa estava dividida, até à véspera da conquista indiana, em duas partes: as velhas conquistas (um território muito pequeno) e as novas conquistas, feitas no fim do Sec. XVIII. Só me faltava a última colónia onde houve grandes combates: Timor, que acabei em 1996. Depois tive problemas de saúde e pessoais, que me obrigaram a trabalhar mais lentamente. Estabeleci, depois, em termos cronológicos, uma síntese das quatro histórias separadas. Associando as várias conquistas, demonstrei que no principio do sec. XX Portugal esteve em guerra permanente e simultânea em vários territórios. O que impressiona, uma vez que o país era pobre - o Portugal do fim da monarquia não se podia comparar à Bélgica do rei Leopoldo. Portugal é, indiscutivelmente, o país que mais se bateu, e mais tardiamente, para obter o seu terceiro Império. O que foi trágico para Portugal é que, à conquista, não se seguiu uma administração estável. Faltou dinheiro, homens e espírito de continuidade. E isso custou muito caro: era preciso reconstruir perpetuamente. Norton de Matos escreveu, num dos seus relatórios, que "não sabemos colonizar..." Exagerava um pouco, mas havia grande parte de verdade nisso. Fez falta uma continuidade do esforço colonial.
'A República liquidou as elites africanas'
Coitada! Continuou a mesma política, não tendo sido nem mais gentil nem mais reformadora... Liquidou as elites africanas - não no sentido de as ter morto, mas abafou os primeiros movimentos nacionalistas.
Visitei Angola três vezes - a última, em 1973. Não fiquei apenas em Luanda; fui a Teixeira de Sousa, Cazombo, Gago Coutinho, Cuito Cuanavale, Mavinga, Serpa Pinto...
Um pouco... Visitei todos os distritos, menos dois: o Zaire e o Kuanza-Sul.
Em 1966, a Junta de Investigações do Ultramar, dirigida por um homem notável: Carlos Cruz Abecassis. Foi honesto comigo e eu com ele. Escrevi um livro que se chama "Explorar. Voyages en Angola et autres lieux incertains", em que descrevo a visita à prisão de S. Paulo, em Luanda, com São José Lopes, o diretor da PIDE em Angola.
Fui até lá. Fez-me visitar de noite a sua prisão que estava vazia.
Não sou ingénuo. Se há historiador ingénuo, não sou eu. Estava quase vazia. Fui depois ao campo de concentração de Missongo; vi os prisioneiros, falei com eles, fiz um pequeno inquérito sobre as origens religiosas e políticas; os portugueses tinham sido astutos e hábeis, tinham misturado os FNLA com os MPLA para ter 'bufos' dos dois lados... Não se deve desprezar a astúcia dos portugueses. Há autores estrangeiros que o fazem. Eu não. É preciso reconhecer qualidades aos portugueses. Ninguém consegue aguentar três guerras durante 14 anos, em dois milhões de quilómetros quadrados insalubres, sem ter uma resistência fora do comum. Os seus adversários, salvo o PAIGC, não estavam tão bem organizados nem eram tão numerosos como a FLN argelina contra a França - mas, apesar disso, é preciso tirar-lhes o chapéu. E eu tiro-o. Mas eles estavam militarmente num beco sem saída.
Reportagem mal-tratada pelo 'Le Monde'
Duas vezes. Paguei uma vez, mas não vi muita coisa, fui apenas à Beira, Lourenço Marques e Gaza. A segunda foi em 1973; paguei a viagem até África e na Beira fiquei a cargo das autoridades militares e da administração. Visitei Tete (pouco depois do escândalo do massacre de Wiriamu), Metangula, Vila Cabral, Nangade (no Rovuma). Escrevi um artigo para o "Le Monde" sobre Nangade, que aliás foi mal-tratado por um jornalista da redação, que cortou o que eu dizia de bem dos portugueses, acusando-me de ser um propagandista da causa colonialista...
Nunca. O que era normal. Gosto dos jornalistas, porque põem perguntas embaraçosas. E na Guiné sabiam que eu poria questões muito embaraçosas, a que não poderiam responder sem violar completamente a verdade.
Nunca. Nunca fui à África lusófona depois da independência. Fui a Goa por minha conta em 1979 e verifiquei que estava marginalmente mais desenvolvida que no tempo dos portugueses.
Não e isso é uma pena. Tenho cinco livros e meio traduzidos para português (ao todo, cerca de 3500 páginas). Sou provavelmente o único historiador estrangeiro a ter cinco livros traduzidos em português: "História das campanhas de Angola", "História de Moçambique", "História da Guiné", "Timor em Guerra" e "As campanhas coloniais de Portugal" (que é a síntese dos quatro). E escrevi, juntamente com Douglas Wheeler, "História de Angola".
Sim. O "Minotauro" nunca foi. Procuro um editor, mas são mais de 700 páginas. Não é apenas a guerra em 1961, é também a administração portuguesa nas véspera das revoltas.
Recensões sobre livros publicados em 52 países
Sou um explorador do passado.
Sobre Moçambique, mais ou menos mil livros e artigos; 1100 sobre Angola, pelo menos 400 sobre a Guiné e mais de 300 sobre Timor.
Não. Li e utilizei-os para compor os meus próprios livros. Além disso, publico recensões de livros recentes sobre a colonização portuguesa moderna (os cinco PALOP e Timor) e um pouco sobre Goa e Macau. Publiquei mais de três mil recensões desde 1964. É um serviço de informação para o público.
Não fui eu que interrompi a minha colaboração. Gostaria bem de a manter. A revista mudou de programa, depois de ter publicado 27 crónicas bibliográficas minhas. E a tradução custava dinheiro!
Francês, português, espanhol, catalão, italiano, inglês, alemão, holandês (aprendi por causa de Timor) e um pouco de dinamarquês. Quando não leio uma língua, peço ao autor que me envie um resumo, o que já aconteceu com livros escritos, por exemplo, em finlandês, checo e polaco. O mais exótico que recensei foi o primeiro livro em hebraico sobre Angola, da primeira embaixadora de Israel em Luanda.
Eu não leio e pedi à autora que me desse um apanhado. Tenho recensões sobre livros publicados em 52 países - na Índia, Nicarágua, Colômbia. Rússia, Roménia, no país basco (sobre missionários em Angola), etc.. É uma cobertura internacional... Publiquei parte dessas recensões num livro enorme (748 páginas) chamado "Angola, Guinées, Mozambique, etc. Una bibliographie internationale critique (1990-2005)". Às vezes muito crítica.
Uma biblioteca com 12 mil títulos
Tento, mas é muito difícil. Enquanto crítico, preciso que os meus trabalhos sejam publicados rapidamente. É a mesma atitude que um jornalista: é preciso que saia rápido, atendendo às motivações do editor.
Sim. Vocês fazem o mesmo trabalho que eu, mas com uma faca na garganta: o tempo e, por vezes, o chefe-de-redação. Eu tenho bastante mais tempo e menos constrangimentos.
Não. Eu estou na fronteira. Sou um homem curioso e sistemático. Em França, um grande jornalista é o que trabalha num grande jornal. Eu não trabalho em nenhum jornal e só o faço para pequenas revistas confidenciais, que geralmente não interessam aos editores comerciais. Pelo que sou eu que todos os anos compro uma centena de livros para a minha biblioteca. Além dos livros enviados para a comunicação social, que analiso sempre.
Doze mil. Incluindo livros sobre a Índia e Macau e sobre os territórios espanhóis de África, área de que também sou especialista. Unicamente para o período 1840-2010.
'Um bom livro é o que me traz coisas novas'
Sim, mas não há mais espaço! Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc. a partir de 1840. Mas isso custa uma fortuna.
É uma escolha difícil. Talvez o do americano John Marcum, sobre Angola, em dois volumes e alguns do grande Charles Boxer até 1825.
Há muitos, visto que também leio romances, na condição que falem da situação e do drama colonial. Enquanto historiador, destaco o livro de António Monteiro Cardoso, "Timor na Segunda Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires". Gosto também de um precursor que escreveu a primeira história séria de Angola, chamado Ralph Delgado; era um autor colonialista, mas com visão de historiador e fez um trabalho de pioneiro. E eu respeito os pioneiros.
Se um livro me traz coisas novas, considero-o bom; se me traz muitas coisas novas, é excelente, qualquer que seja a tendência política do autor. Como não tenho nenhuma opção política, se fizer bem o seu trabalho, não tem nenhuma importância que seja de esquerda ou de direita. Desde que faça bem o seu trabalho...
Parte que interessa a Angola da Versão integral da entrevista publicada no Expresso de 31 de Julho de 2010, Caderno Atual, páginas 38 a 40
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Pacto colonial e industrialização de Angola (anos 60-70) Adelino Torres Instituto Superior de Economia
De 1961 aos anos 70 verificou-se uma viragem na política colonial portuguesa, especialmente no que se refere a Angola.
O pacto colonial tradicionalmente aplicado pelo colonialismo português foi substituído por uma política «desenvolvimentista» de que resultaram, para o aparelho produtivo e para o próprio conjunto societal angolano, profundas transformações.
Depois de observar alguns aspectos dessa nova orientação nos sectores das indústrias extractivas e transformadoras e no sector bancário, o objectivo deste trabalho é tentar demonstrar, ainda que parcialmente, que o processo de «industrialização/desenvolvimento» da colónia traduzia finalmente a passagem do antigo pacto colonial (Angola fornecedora de matérias-primas, economia de exploração e mercado das indústrias transformadoras e do vinho metropolitano) a um novo pacto colonial de que a industrialização de Angola era, paradoxalmente (pelo menos na aparência), a condição básica.
Essa reestruturação global, ao mesmo tempo da metrópole e da colónia, passava pela deslocalização das indústrias no interior do «espaço económico português» e respondia aos imperativos da integração progressiva de Portugal na CEE, que começava a preparar-se. Para poder suportar, com uma certa «margem de manobra» económica, mas também política, a concorrência da chamada ordem económica internacional, Portugal propunha-se alterar previamente certas coordenadas do seu espaço metropolitano-colonial. No termo de etapas forçosamente gradativas, a economia portuguesa pretendia alcançar um estádio «europeu» onde a sua classe dirigente detivesse o controlo dos principais mecanismos do poder económico moderno: a tecnologia, as finanças, o domínio de um mercado interno (interterritorial) alargado, a participação crescente nos recursos não renováveis e a disponibilidade, de uma mão-de-obra barata na área neocolonizada africana.
O crescimento registado em Angola de 1961 a 1974 inseria-se portanto, antes de mais, na estratégia global de um projecto de reconversão da própria economia e da sociedade portuguesa, confrontada, por seu turno, com a mundialização progressiva da economia internacional.
Até aos anos 60, Angola foi, como dissemos, essencialmente um reservatório de matérias-primas e de produtos primários e um mercado dos produtos semitransformados da economia metropolitana. As estruturas industriais eram praticamente inexistentes na colónia, os investimentos desencorajados e a penetração dos capitais estrangeiros severamente regulamentada.
A era das independências africanas veio, contudo, exercer uma pressão externa considerável, completada, em 1961, pela revolta do movimento nacionalista angolano. 1961 marca, por consequência, o início de um novo período e a década caracterizar-se-á por modificações importantes na acção colonialista. O território foi aberto aos investimentos nacionais e estrangeiros. Progressivamente, as exportações de ferro e de petróleo ocuparam lugares cimeiros ao lado de produtos «tradicionais», como o café e os diamantes, e as importações para equipamento tornaram-se realmente significativas. Os II e III Planos de Fomento, respectivamente de 1959-64 e de 1968-73, consagraram grande parte dos investimentos previstos às infra-estruturas económicas - transportes, comunicações, indústrias extractivas e indústrias transformadoras.
Nos princípios da década de 70, a taxa de crescimento da economia angolana atingia níveis elevados e o período iniciado em 1961 apresentava um balanço onde eram evidentes as modificações estruturais decorridas.
A produção diversificara-se, o sistema bancário expandira-se e o capital apresentava fortes indícios de concentração em vários ramos de actividade. Apesar disso, a colónia não perdeu a raiz extrovertida do seu aparelho produtivo e continuou a caracterizar-se por uma profunda dependência em relação ao exterior, evidenciada, em particular, na acumulação dos saldos negativos da sua balança de pagamentos.
Em Novembro de 1971, com a publicação do Decreto-Lei n.° 478/71, assistiu-se a uma nova viragem da política portuguesa em Angola. Pretende-se «solver o défice» da balança de pagamentos, «proteger» as indústrias transformadoras locais e impulsionar «um arranque económico equilibrado» no quadro da «interdependência» dos territórios no «espaço económico português».
Na verdade, projectada a progressiva integração na Comunidade Económica Europeia, consagrada pelos acordos de Bruxelas de 1972, a classe dirigente metropolitana preparava uma profunda reestruturação da economia, através da descolonização de indústrias e capitais no interior do espaço metrópole/colónias, numa dinâmica que lhe permitisse conciliar as forças centrífugas expressas na aproximação à Europa e nas alterações inevitáveis do estatuto colonial.
Essa dinâmica passava justamente pela industrialização (relativa) de Angola e pela deslocalização para aquela colónia das indústrias portuguesas «subalternas». O mercado único português não era mais do que uma nova redistribuição de funções nas esferas da circulação e da produção dentro de um bloco politicamente dominado.
CONTINUA
[PDF]
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Fronteiras de Angola e a evolução histórica
Página 1 de 13 Efectivamente, este tratado, relativo ao regime de excepção no tráfico de escravos (o terceiro após os celebrados a 19 de Fevereiro de 1810 no Rio de Janeiro, e a 22 de Janeiro de 1815 em Viena), propôs-se, ao contrário dos dois primeiros, fixar matematicamente, com uma grande precisão geográfica, os limites fixados àquele regime de excepção, declarando que os territórios em que os súbditos portugueses continuariam a ter liberdade de tráfico, pela única razão (indicada nos tratados de 1810 e 1815), de pertencerem esses territórios à coroa portuguesa, eram: 1º Todos os efectivamente possuídos por essa coroa entre o paralelo 18º e o 8º lat. S. 2º Aqueles sobre os quais Portugal declarara que reservava os seus direitos, chamados Molembo e Cabinda, na costa oriental de África, desde o paralelo 5º 12’, ao paralelo 8º lat. S. Esta determinação pretensiosamente definitiva, geográfica, precisa, dos diplomatas de 1817, não podia de facto ter sido mais desastrosa. Em primeiro lugar, porque se lançaram na Costa Oriental os territórios de Molembo e Cabinda. E curiosamente só dois anos depois, esse erro foi corrigido, sob a modesta qualificação de um “erro verbal” - a verbal mistake -, pela convenção adicional de 30 de Abril de 1819. Em segundo lugar, e contrariamente às inofensivas consequências da inexacta localização geográfica de Cabinda, a factura a pagar pela fixação dos paralelos geográficos como limites dos territórios referidos, foi extraordinariamente avultada. Ao norte, os “domínios de Portugal”, que se estendiam ao Cabo de Lopo Gonçalves, 0º 36’ lat. S., o cabo Lopez da carta Inglesa, que no século XVII a convenção de Madrid de 1786 acabou por acolher no princípio fundamental que lhe deu origem e que teve por fim definir: “A França não contesta nem pretende diminuir os direitos soberanos de Portugal na costa do norte e no grande rio africano, e nenhum embaraço e nenhuma objecção põe a essa soberania e ao seu exercício”, retraiu-se até ao Chiloango, paralelo 5º 12’. Portugal “perdeu” pois 5º de costa. Assim mesmo, poderia argumentar-se que os tratados anteriores fixavam já a Costa de Molembo como limite extremo. Todavia esses mesmos tratados referiam tão-somente os territórios de Molembo e Cabinda, sendo que este último termina na embocadura do rio Zaire, na ponta do Diabo (a red point das cartas inglesas, em 5º 44’S.), ou quando muito na ponta Banana, em 6º 2’., e a aludida convenção absurdamente situava esse mesmo limite a 8º S. além mesmo do Ambriz, alargando assim a área dos territórios sobre os quais Portugal “reservava direitos” ou, o que é o mesmo, reduzindo aqueles que eram positivamente reconhecidos “domínios efectivos” da coroa portuguesa, cerceando-lhes nem mais nem menos do que toda a região compreendida entre o paralelo 8º e a margem direita do rio, incluindo-o. Se este erro se não tivesse cometido, nunca se teria levantado a famosa Questão do Ambriz e, possivelmente, tão pouco a que se lhe seguiu, a não menos célebre Questão do Zaire. Os direitos reservados continuariam a abranger apenas os territórios de Molembo e Cabinda. Para o sul, incluindo o rio, haveria somente o “domínio efectivo”, claramente afirmado e nunca posto em dúvida, de Portugal, à face dos tratados de 1810 e de 1815, e perfeitamente de acordo com a convenção de Madrid de 1786. Apesar de tudo, só em 1846 se verificaram as consequências do pouco auspicioso tratado de 1817. Nesse ano, e a propósito da apreensão e do julgamento regular de um navio negreiro do Brasil, ao norte do Ambriz, pelas autoridades portuguesas, o representante inglês em Lisboa observava ao Governo português que o seu governo apenas reconhecia a soberania portuguesa, do paralelo 8º para o sul, segundo o texto do tratado de 1817, começando dali para o norte, a região, sobre a qual Portugal reservara direitos, mas que a Inglaterra, na opinião do diplomata inglês, não reconhecia. A nota do representante inglês em Lisboa, data de 24 de Novembro de 1846. Dias depois, na sequência do julgamento por um Tribunal português, de um navio português apresado pelas autoridades portuguesas, na latitude de 7º 36´sul, outra nota do Governo inglês, desta feita do próprio Lorde Palmerston, ratifica e reproduz a doutrina da primeira, comunicando o receio de alguns membros da comissão mista luso-britânica (criada pelo tratado de 3 de Julho de 1842 entre Portugal e a Grã-Bretanha, para julgar as presas feitas por crime de tráfico) (1), de que Portugal fizesse valer (forced) os seus direitos de soberania entre o 5º 12´ e o 8ºS., prejudicando os traficantes ingleses que negociavam livremente naquela parte da Costa. Paradoxalmente, porém, Lorde Palmerston afirmava expressamente nesse documento que, por um lado, Molembo era o território extremo setentrional da soberania reservada de Portugal não reconhecida efectivamente (actually) pela Inglaterra, e que o Ambriz era o ponto extremo daquele lado do território sobre o qual a Inglaterra reconhecia essa soberania. O paradoxo resulta precisamente do facto de que, ficando o Ambriz a 7º 52’, isto é, ao norte do paralelo 8º, aquele reconhecimento colidia com tais limitações fixadas pelo tratado de 1817, irrelevando as correspondentes alegações inglesas. Curiosamente, a 9 de Novembro de 1850, o Embaixador inglês em Lisboa dignou-se explicar ao Governo português que Lorde Palmerston apenas em 1847 soubera realmente, pelos comissários britânicos de Luanda, que o Ambriz ficava ao norte do paralelo 8º. Surpreendente de facto! A estranheza dessa justificação é tanto maior quanto se sabe que à data abundavam já os mapas ingleses, alguns até oficiais, que determinavam a posição exacta do Ambriz. De qualquer forma, ainda que reconhecendo o equívoco, o Governo inglês não abriu mão da contestação ao direito português de ocupação do Ambriz, arguindo que um erro geográfico não prevaleceria sobre o texto e a interpretação dos tratados. Acresce a esta sequência de controvérsias a nota de 26 de Novembro de 1853, que, repetindo as declarações anteriores, vem aduzir que é certo que “Portugal adquiriu no século XV” o direito à soberania da região compreendida entre o 5º 12’e o 8ºS., mas que esse direito se acha prejudicado pelo abandono, “suffered to lapse”, porque não ocupara (2). O governo português, em reacção, e verificando que efectivamente não havia nesse lugar autoridades permanentes que afirmassem a sua soberania e se opusessem ao tráfico (limitando-se a polícia às visitas de cruzadores), resolveu pôr termo à Questão do Ambriz, mediante a sua ocupação efectiva por uma expedição militar chefiada por José Baptista de Andrade, em 6 de Junho de 1855, ocupação projectada de há muito e terminantemente ordenada pelo Governo português em 20 de Janeiro daquele mesmo ano. Resolvida a ocupação, Portugal resolveu ao mesmo tempo mantê-la, fossem quais fossem as consequências. E manteve-a. O fundamento dos direitos portugueses assentava: 1º na prioridade do descobrimento; 2º na posse conservada durante séculos; 3º na introdução da civilização pelo cristianismo; 4º na conquista pelas armas; 5º no reconhecimento do seu domínio pelos indígenas (3). Desde que o Governo inglês, pela nota de 26 de Novembro de 1853, insinuou que Portugal “havia deixado cair o direito que pela prioridade da descoberta tinha a essa parte da costa porque a não havia ocupado”, o Governo português resolveu “...fazer uma ocupação efectiva que permitisse acabar com o tráfico da escravatura, proteger e promover o comércio lícito e exercer o seu direito de soberania” (4). Todavia a Inglaterra não desarmou e opôs-se tenazmente a que Portugal estendesse a ocupação para o norte, como era seu propósito nessa data. Ameaçando o uso da força, dirigiu deste modo em 1860, a nota seguinte ao Embaixador de Portugal em Londres: “Qualquer tentativa para estender a ocupação encontrará a oposição das forças navais inglesas. Neste sentido foram dadas, em tempo, instruções aos comandantes dos cruzadores ingleses da costa ocidental de África. As autoridades portuguesas de Ambriz e Angola foram por mais de uma vez, desde 1855, informadas destas instruções. Estas instruções continuam em vigor e qualquer interferência dos navios de guerra ou autoridades portuguesas para impedir o comércio de navios ou súbditos britânicos em Quissembo encontrará a oposição das forças navais inglesas”. Perante a ameaça inglesa, Portugal teve de submeter-se e para evitar que o conflito se agravasse, desistiu da ocupação de Cabinda, tentada em 1875 (5), limitando-se a, periodicamente, lembrar o fundamento dos seus direitos e propor uma solução do caso em aberto (6). Página anterior - Página seguinte >> | |||||||||||||||
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Entrevista com Adriano Moreira : "Tive um poder enorme como ministro do Ultramar"
Actualmente, Adriano Moreira é presidente da Academia das Ciências de Lisboa Foi o todo-poderoso ministro do Ultramar. Delfim de Salazar, entrou em litígio com Marcello Caetano e conseguiu o milagre único de transitar para a democracia. (Contém versão integral da entrevista que foi publicada na edição do Expresso em banca)
Ana Soromenho e José Pedro Castanheira
Transmontano, de 86 anos, Adriano Moreira foi o único ministro de Salazar que fez uma transição tranquila para a democracia. Foi presidente do CDS, deputado e vice-presidente da Assembleia da República. No plano académico nunca deixou de exercer a tutela científica no "seu" Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).
Recebeu-nos na Academia das Ciências de Lisboa, a que preside, e que tem marcado com um notável dinamismo. Nessa manhã, Adriano Moreira acordara às quatro da madrugada para ir ao aeroporto receber pessoalmente, cavalheiro como sempre, Graça Machel, que veio a Lisboa representar o marido, na homenagem prestada pela Academia a Nelson Mandela.
Para breve, está anunciado o lançamento do aguardado livro de memórias, A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Vésperas, editado pela sua velha editora, Almedina. Esta conversa, marcada semanas antes, tinha o propósito de um balanço de vida. Mas, logo de início, Adriano Moreira avisou que a entrevista teria que se cingir às matérias do livro. De fora ficaram os dias da revolução, a ressaca que constituiu o saneamento do ISCSPU, os dois anos de exílio no Brasil, o regresso à academia e à vida política activa, a sua transformação, em suma, em grande senador. Ao longo das três horas de conversa que, por vontade dele, incidiu exclusivamente sobre o Estado Novo, o professor nunca pronunciou a palavra "ditadura".
Comecemos então pelo livro. Está prometido há mais de dez anos
Não tenho recordação de ter prometido este livro a ninguém, só tenho recordação de me terem solicitado que escrevesse um livro de memórias. Tenho sempre uma prevenção em relação a este tipo de livros. A memória é muito condescendente connosco. Tem a piedade de aligeirar as coisas. Por isso, este título: Espuma do Tempo. A essas memórias procurei ser fiel. Tive alguma dificuldade material em realizá-lo, porque não tenho documentação. A que tinha, guardava-a no Centro de Estudos do ISCSPU e durante a revolução desapareceu. Não faço ideia do que lhe aconteceu.
Foi destruída?
Estou a dizer que não sei o que lhe aconteceu. Desapareceu.
Nunca escreveu diários?
Não. Recorri a alguns apontamentos.
E aos arquivos?
Também não. Os historiadores tratarão de encontrar referências, não estou preocupado com isso. Quis escrever sobre o meu sentimento, recordação e valoração do que o meu espírito conserva.
Falou com pessoas?
Falei comigo. É da minha exclusiva responsabilidade e do meu diálogo íntimo.
Fê-lo por uma necessidade de deixar o testemunho para a história, ou por uma vontade de ser o professor a escrever a sua história?
Não foi isso. O livro começa com uma carta, que data de Abril de 1974. Nunca mais escrevi durante anos. A carta era uma mensagem para os meus filhos e foi com esta decisão íntima que resolvi continuá-la.
Escreveu à mão?
Sempre. Escrevia à máquina, mas verifiquei que muda o estilo. Já não me reconhecia quando me traziam o texto. Voltei à minha caneta. Mostra o bolso interior do casaco.
Azul ou preta?
Não faço muita questão, cores vivas é que nunca. Não tenho essa necessidade de identificação. Tira a Montblanc de aparo.
São as mesmas com que assinava os seus despachos como ministro do Ultramar?
As canetas também se perdem. Estas são as que estão agora de serviço.
Quanto tempo demorou a escrever o livro?
Fi-lo em duas etapas. Com uma interrupção de quase dez anos, não tinha pressa nem grande apego à publicação. Houve um momento em que acelerei porque vieram pedir para me fazer uma biografia.
Tenta manter o tom e a distância do observador.
É capaz de ser defeito de professor. É complicadíssimo separar participação e meditação.
Retoma o subtítulo "Tempo de Vésperas", o mesmo das crónicas que escreveu em 1971.
http://aeiou.expresso.pt/tive-um-poder-enorme-como-ministro-do-ultramar=f459552
domingo, 15 de março de 2009
Cronologia da Colonização portuguesa no século XIX
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
José Henriques e Silva: O bom colono
Texto de Ana Soromenho
Ali Uacate já pode morrer. Ele tinha dito que estava muito cansado, que não queria viver mais. Pediram-lhe para esperar um ano. Que esperasse só mais um ano, para ver a exposição de fotografias do senhor engenheiro. Então ele prometeu e esperou um ano inteiro. Ali é um homem antigo, tão antigo como o tempo colonial. Ele ainda não entendeu porque é que o engenheiro foi morrer tão longe de Nacala e não foi enterrado debaixo do cajueiro, que é o lugar onde os macuas cuidam dos seus mortos. O engenheiro Silva partiu em 1983, mas o velho cozinheiro continua a não querer acreditar que ele nunca mais volta à praia de Fernão Veloso.
José Henriques e Silva foi para Nacala com 38 anos. Apaixonou-se por esta terra, onde viveu durante 23 anos, e pela sua gente, com quem estabeleceu uma relação pouco usual para um colono branco. Era um homem culto e inquieto, um curioso que gostava muito de fotografar, que andava sempre com uma Leica pendurada no ombro e que, quase acidentalmente, acabou por construir um considerável espólio fotográfico: mais de cinco mil registos a preto e branco sobre os pescadores macuas, os habitantes deste segmento de costa suaíli do norte de Moçambique.
No ano em que chegou, 1957, Nacala não era mais do que uma pequena vila da província de Nampula com meia dúzia de casas em redor da estação de comboio, o único meio de ligação entre a costa e o interior. Nampula fica a cerca de 300 quilómetros. Contam os velhos que viveram naquele tempo que os leões ainda apareciam às portas da vila. Tudo o resto era mato e uma imensa e deslumbrante baía aberta sobre o Índico.
José Henriques e Silva era engenheiro civil e tinha vindo da metrópole para iniciar as obras do porto. Instala-se em Nacala para dar seguimento ao projecto de desenvolvimento da futura cidade. A construção de um porto naquela costa era uma aposta da política colonial, uma obra imprescindível na ligação ao interior, que passaria a garantir o escoamento da produção do norte do país assente nas grandes culturas do caju e do algodão. É num ambiente de pequeníssima sociedade, provinciana e longínqua - Lourenço Marques, a capital, ficava a mais de dois mil quilómetros de distância para sul -, que José Henriques da Silva vai dirigir as obras do porto. Ele pertence à élite dos engenheiros, frequenta o clube de ténis, os chás das senhoras, participa nas tricas dos pequenos acontecimentos mundanos de uma sociedade bem instalada nas colónias e que a seu modo também reproduz o estilo de vida que os portugueses praticavam em África.
O grande crescimento da cidade, que teve início com as obras do porto e com a instalação da fábrica de cimentos de Champallimaud, faz-se sentir na década de 60. Quando a guerra em Moçambique rebenta mais a norte, na província de Cabo Delgado, constrói-se em Nacala a base aérea que passa a funcionar como retaguarda militar de apoio à guerra colonial. José Henriques da Silva também participa nas obras do novo aeródromo militar. A vinda dos militares e das respectivas famílias dá um novo fôlego à vida da colónia. Na encosta que desce sobre a grande baía de Fernão Veloso começa a edificar-se a nova cidade com os típicos complexos de habitação de traçado modernista, os arruamentos largos e as novas avenidas que rasgam a paisagem africana e dominam sobre as praias de coral.
O «Silva», como lhe chamavam os amigos, era casado com uma portuguesa de quem teve dois filhos. A família divide o tempo entre Nacala e Portugal e ele passa longas temporadas sozinho. Longe da actividade das obras de engenharia e da vida social constrói uma casa na praia, uma palhota em madeira e «makuti», como as casas dos africanos, típicas daquela região. Este lugar, junto ao mar, foi o seu refúgio de fim-de-semana e de longas temporadas isoladas da vida citadina. Era aqui que tinha os seus livros, as revistas que assinava e o mantinham em contacto com a cultura europeia, era onde lia o «Le Monde» e escutava a Radio France. Mas, mais do que lugar de eremita, a casa da praia - cuja placa com a irónica indicação «Regulado Independente Palhota Pai Silva» ainda hoje se mantém - era o lugar de transição entre dois mundos que não se tocam e por onde o engenheiro Silva circula com o olhar curioso de fotógrafo branco, fascinado pelos gestos e pelos rituais daquele povo litoral, tão particular, da África islamizada que são os macuas.
A fotografia acabará também por funcionar como um motivo de aproximação ao universo dos pescadores e da sociedade macua. Fotografando, ele atravessa essa fronteira. Para além de um olhar meramente documental ou etnográfico, o espólio de José Henriques e Silva revela uma intimidade nos registos quotidianos pouco usual na fotografia feita sobre o mundo africano na época colonial. Sempre que pode, de madrugada e ao fim do dia, o fotógrafo está na praia, recolhe imagens, observa, entra quanto pode naquela vida.
Chehane Omar, 45 anos, conta, por exemplo, o encontro que teve com «senhor engenheiro» quando ainda era um rapaz e trabalhava nas obras do porto. Vivia ao pé da praia, a mesma para onde hoje aponta com o dedo, ali foi o lugar da história: «Ele andou uns dias a observar-me e depois chamou-me para me perguntar se eu sabia pescar. Eu fui trabalhar para a casa e pescava para ele. Quando ia fotografar, levava-me sempre. Eu carregava as máquinas e falava com os pescadores para lhes dizer o que é que tinham de fazer.» Chehane mima os gestos de José Henriques e Silva com a câmara à frente dos olhos. Mostra as dunas de areia dura e o modo como o engenheiro tinha andado dias inteiros a observar e fotografar aquelas rochas até descobrir um ribeiro que levava a água doce à praia. Depois lembra-se das festas com os tocadores de batuque que «Pai Silva» organizava, aos sábados, e dos almoços de cabrito para os quais convidava os pescadores a aparecerem depois das sessões de fotografias. Também conta o fascínio do fotógrafo pelas mulheres macuas, as que cobriam a cara e o corpo com o pó branco que lhes deixava a pele mais sedosa. Silva foi apanhado por esse ambiente de sensualidade africana e, rapidamente, criou uma cumplicidade pouco usual para um branco na comunidade dos negros muçulmanos.
Ainda hoje, Ali Uacate, o cozinheiro que o serviu durante todo o tempo em que Silva permaneceu em África, mora na casa que o engenheiro lhe construiu na antiga estrada de Fernão Veloso. Ele está sentado à sombra de um cajueiro centenário, levanta-se e vem ao nosso encontro rodeado de mulheres. Não sabe a idade que tem. Mas lembra-se, como se fosse hoje, do dia em que o engenheiro o convenceu a tirar a carta de condução porque o tempo colonial tinha acabado. Foi ele, inseparável do «senhor engenheiro», quem lhe ensinou os costumes de África, e só foi aprender a guiar porque o patrão se ia embora e ele nunca mais iria querer servir alguém. Durante os anos da guerra civil, na década de 80, todos os dias Ali Uacate percorreu a estrada entre Nacala e Nampula na coluna militar, para fornecer de gasolina a empresa onde trabalhava, e todos os dias viu gente a ser atacada pelos homens da Renamo. Nunca lhe aconteceu nada. E é por isso que acredita que alguém o protegeu no céu. Estava cansado e não queria viver mais. Mas, mesmo assim, esperou. Esperou porque a Joana lhe tinha prometido que as fotografias dos «Pescadores Macua» iriam voltar à praia de Fernão Veloso.
Joana Pereira Leite, hoje economista e fotógrafa, foi para o Norte de Moçambique quando fez seis anos. Toda a sua infância se cruzou com o engenheiro Henriques da Silva com quem estabeleceu uma amizade muito particular. Mais tarde, já adulta, irá herdar todo o espólio fotográfico dos «Pescadores Macua». Lembra-se de Silva aparecer na casa de Nacala, à hora do chá, sempre cheio de histórias e novidades sobre a vida dos colonos: «Tinha um sentido de humor muito particular e toda aquela mundanidade colonial o divertia. Andava sempre de máquina fotográfica, registava tudo, depois brincava com os negativos e construía histórias muito engraçadas sobre aquele universo dos brancos de Nacala.» Eram os tempos em que o Silva a levava no Volkswagen a entrar pelo mato dentro, naquele mundo indefinido a que os brancos não acediam. «Ele enchia o banco de trás com fotografias, ia pela estrada fora, e então entrava por aquelas estradas de terra vermelha impossíveis de penetrar. Entrava a buzinar, os amigos aproximavam-se e ele ia distribuindo fotografias. Levava-me sempre. De manhã ia-me buscar e eu passava o dia na praia dele quando estava a fotografar. Foi um grande privilégio porque eu comecei a aperceber-me desse mundo, que era muito diferente. Nós éramos extremamente urbanos e ele deu-me a conhecer uma outra dimensão africana.»
Só muito mais tarde, já depois da independência de Moçambique e um ano antes de regressar a Portugal, em 1978, é que Henriques e Silva toma consciência do seu trabalho fotográfico junto dos macuas da costa suaíli, os pescadores da baía de Fernão Veloso. Tinha já começado enviar todos os negativos a Joana Pereira Leite que, entretanto, já estava em Lisboa. Juntos elaboram um esboço de um projecto documental sobre os macuas. Num testamento informal faz um apelo emocionado: «Estive 23 anos em Moçambique e verifico que o que fiz não foi realizado completamente. Agora, que não tenho possibilidade de voltar, é que constato o muito que ficou por fazer (…) Nacala sempre foi a minha base. Se alguém tiver a possibilidade de alguma vez lá voltar, que se dirija a Fernão Velozo e procure os nomes que vou citar. Esses sim, darão bons elementos se falarem no meu nome.»
Poucos anos depois de escrever este testemunho, José Henriques e Silva volta a Moçambique. Samora Machel convida-o a ir trabalhar para Nacala como responsável pela construção das novas estradas. Silva regressa em Janeiro de 1982. «Ele volta para preencher as lacunas do trabalho fotográfico sobre os pescadores porque toma consciência do material que tem em mãos e quer terminar esses trabalho», diz Joana Pereira Leite. Durante algum tempo mantém uma correspondência com a amiga na qual descreve, emocionado, o seu encontro com as gentes de Fernão Veloso. Um ano depois de ter regressado a Nacala, José Henriques e Silva volta subitamente para Lisboa. Está gravemente doente e vem morrer a Portugal.
Durante os anos que se seguem à morte do amigo, Joana Pereira Leite fica depositária dos negativos e tenta organizar o material fotográfico que tem em mãos, de modo a poder mostrá-lo em Nacala. Ainda em 1983, organiza uma primeira exposição no Arco, em Lisboa, quando Samora Machel visita Portugal. Em 1992, quando a guerra civil termina, volta a Nacala para saber se os amigos de Silva ainda estão vivos e, nessa altura, entrega uma colecção ao Arquivo Histórico de Moçambique. Em 1998, quando a Câmara Municipal de Lisboa se interessa pelo espólio, em parceria com a Comissão Nacional dos Descobrimentos Portugueses (CNCDP), no âmbito do projecto Culturas do Índico, realiza-se uma exposição composta por 150 fotografias e um livro, cujo trabalho gráfico foi criado pelo fotógrafo Vítor Palla. É a partir dessa altura que começa a desenhar-se a possibilidade de uma exposição «Pescadores Macua» para ser mostrada nas praias onde José Henriques e Silva as fotografara.
Em Setembro deste ano, na antiga praia de Fernão Veloso, que agora se chama Neherengue, os pescadores macuas puderam ver as fotografias tiradas por José Henriques e Silva há mais de vinte anos. Junto ao mar construiu-se um espaço ao ar livre em madeira e «makuti». Este encontro, planeado por Joana Pereira Leite, comissária da exposição, e financiado pela Comissão dos Descobrimentos, foi um momento de festa simples e comovente, onde os amigos do fotógrafo reviveram a passagem de um tempo delicado e povoado de memórias.
Só duas décadas depois da morte do fotógrafo, quando regressa a Nacala para realizar um documentário, é que Joana Pereira Leite toma conhecimento das circunstâncias da morte do amigo: «Em 1982, quando regressa a última vez a Nacala, Silva acredita que vai voltar a viver em Moçambique. Só que já não é possível. Ele apercebe-se disso num dia em que está a acompanhar as obras da barragem, a 30 quilómetros de Nacala, e chama a atenção para o trabalho que está mal feito. Os trabalhadores não aceitam a ordem de um branco. Mandam-no embora, dizendo-lhe que o tempo colonial acabou. O Silva fica extremamente chocado. Tem consciência de que não se pode alterar a história. E, no fundo, era isto que ele seria sempre: um bom colono». É a partir desse momento, que o engenheiro Silva fica profundamente deprimido. Abandona o carro na barragem e volta para Nacala a pé. Anda 30 quilómetros, vai para a sua casa da praia e depois isola-se. Não quer ver ninguém. Ali Uacate, encontra-o sozinho e doente e percebe que o patrão quer morrer naquele sítio, junto do seu cajueiro ao pé dos pescadores.
in: Expresso