segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A Colonização das Terras Altas da Huíla. Boeres e colonos madeirenses.



Carroções puxados por juntas de bois (espanas), introduzidos no sul de Angola pelos boers...





Eram veículos cobertos com aparelho especial, que chegavam a ser puxados por quinze parelhas de bois. Próprios para caravanas, eram usados pelos militares para o transporte de armas e munições rumo à fronteira sul de Angola, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto, etc. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada, conforme vem referido por Serpa Pinto, em "Como eu Atravessei a África":

 “O wagon de viagem em África do Sul é uma pesada construção de madeira e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre 4 fortes rodas de madeira e tirado por 24 a 30 bois, jungidos a fortes cangas, presas a uma corrente e grossa, fixa à ponta do cabeçalho no carro.”





Caravana boer atravessando o rio Caculuvar


Caravana boer, estacionada na Rua dos Pescadores em frente a uma "Quitanda", fazendo a distribuição dos víveres


Caravana boer naquela que conheci como Rua dos Pescadores,  ou seja na parte que passa junto de um dos conjuntos de casas térreas de Moçâmedes melhor conservados em 1975.  À dt fica o edifiio de 1º andar de linhas classizantes que pertenceu ao Sindicato da Pesca de Moçâmedes, depois Grémio, que a foto não captou.   A parte deste conjunto que fica mais à dt já foi demolida e deu lugar a.um edificio de 1º andar com frente em  vidro, um edificio moderno que não se ajusta à paisagem.


CARRO BOER
Carro boer puxado por várias juntas de bois (Serpa Pinto)



 Casas de colonos madeirenses

A povoação no início do século XX
LUBANGO SECULO XIX R PINHEIRO CHAGAS
Rua principal do Lubango, nos fins do século XIX; corresponde a actual Rua Pinheiro Chagas
“A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros


A mesma rua em 1965
Trabalho agrícola onde podemos duas mulheres escolhendo batatas, uma parece muhuila, a outra poderá ser uma africana "quimbar". Esta foto desmente a ideia de que os povos indígenas das tribus da região planaltica era refractários ao trabalho nas propriedades dos colonos



"Por iniciativa dos boers promoveu-se a construcçao da estrada na Xella, pondo assim definitivamente o planalto em communicação com Mossâmedes e os carros eliminaram o antigo meio de conducção, o  carregador. Novas estradas foram abertas pelos boers no planalto em  todas as direcções, e os portuguezes incitados pelo exemplo d'esta  raça infatigável sahiram, enfim, da rotina em que viviam, mandando  também vir carros como os d'elles, adoptando o seu modo de trabalho neste mister, comprando bons armamentos, cavallos e gados, e  exercitando-se á caça e ao tiro ao alvo, de forma que se conta hoje  entre elles um numero muito regular de bons atiradores. Pensou-se por fim mais a sério no valor d'aquelle districto e dirigiu-se para alli uma fraca corrente de emigração. Boletim da Sociedade de geographia de Lisboa, 1895."




Casamento boer no então "Planalto de Mossâmedes" ou Terras altas da Huila

Colonos boeres nas terras altas da Huila: o início da fixação 




Foto histórica. 1881. Boeres que foram a Mossâmedes negociar com o governador de então a fixação na Huila



 ...este anno um novo período de colonização se inicia, mas com mais persistência e melhor dotação em recursos. Os cuidados convergem todos para o planalto, visto que as colónias do litoral ou sopé da Chella, estão em condições de caminharem desafogadamente e sem mais auxílios superiores. Muitos boérs que após o grande trek haviam abandonado a Africa do Sul para se subtrahirem á acção inglesa e se haviam internado pelo Calahari á Damaralande e até ás margens do Cubango, sabedores que na colónia portuguêsa se recebiam colonos de raça europeia, chegaram ao Humbe, pedindo para se estabelecerem em território português. O governador de Mossamedes, Nunes da Matta, veiu á Huilla, onde os boérs já se encontravam acampados e, trazendo o sargento Arthur de Paiva como interprete, fixou-lhes os terrenos da Humpata, onde então apenas se encontravam uns dois portuguêses estabelecidos. A emigração fez-se successivamente, em de julho de 1883 contavam já 325 pessoas de ambos os sexos. 

 "Full text of "Sul d'Angola; relatório de um govêrno de distrito (1908-1910)"




Quem eram os Boers?


Os boeres eram descendentes de colonos calvinistas de origem alemã, francesa e sobretudo holandesa, expulsos da Europa, na sua maioria pela revogação do edito de Nantes, e perseguidos religiosamente em diversos países,  que desde 1652  haviam se fixado no Orange e no Transval (África do Sul), então em guerra de independência com os ingleses.

Em 1870, boeres holandeses, fugindo da guerra entre holandeses e ingleses, e ao domínio dos ingleses, devido jurisdição colonial inglesa, atravessaram o deserto a partir da Ovambolândia,e começaram a chegar a Mossâmedes, onde se refugiaram através da fronteira do Cunene, em 17 Setembro de 1880 (1).

Em 1881,  57 boeres partiram de Mossâmedes rumo ao planalto, região da Humpata, onde estabeleceram um primeiro núcleo de famílias, em terrenos concedidas pelo Estado (100 hectares por cada família),  a troco da obediência às leis portuguesas, fundando a «Colónia de São Januário». (1).
 
O Major Artur de Paiva narra na segunda parte do seu  relatório sobre a campanha do Bié,
a historia  da peregrinação boer do Transvaal á Humpata através do deserto do Kalahari, as fadigas, perseguições e desgraças que os acompanharam, do qual se descreve alguns períodos de interesse  para quem deseje conhecer o carácter e os costumes:

...De caracter tenaz, espirito independente e dotado d'uma força de vontade incomparável, tem comtudo recuado passo a passo em face das exigências d'uma civilisaçào gananciosa, occulta sob a capa humanitária e sympathica do progresso do indiígena, e da engrenagem complicadissima da machina governativa, cuja theoria burocrática inexplicável ao seu modo de pensar, pratico e simples, nào comprehendia. Cioso de liberdade repelle toda a innovaçào tendente a cercear-la. Foi assim que o Transvaal se achou sob o dominio do verdadeiro boer o vooefrekker, cujo typo caracteristico tivemos occasiào de observar. Era de prever que um povo em que predominava o elemento expulso da Europa pela revogação do Edito de Nantes e perseguições religiosas que se seguiram em diversos paizes, descendendo na maior parte de famílias de antiga nobreza, activas e pouco costumadas a dobrar o cerviz, se nào amoldasse nos sertões africanos á vontade, muitas vezes despótica, dos governantes, possuindo vasto campo onde exercer a sua actividade e força para repellir imposições que lhe nào agradassem. Além d'isso a sua educação biblica levava-os a imitar a vida nómada dos antigos patriarchas; e os êxodos em busca de terra promettida succederam-se uns aos outros sem que as authoridades do Cabo lhes podessem pôr impedimento. Os boers são em geral valentes e aguerridos. São tão agricultores como qualquer dos chamados agricultores do plan'alto, e sabem mais sobre o assumpto do que muitos d'elles. Além d'isso, o boer é creador de gado, ferreiro, carpinteiro, sapateiro, curtidor, etc. Sabe das artes mais indispensáveis o bastante para construir a sua casa, concertar o seu carro, curtir o couro com que faz o calçado para si o sua familia, fazer as suas mezas, cadeiras, camas, etc. E' também grande caçador e a mulher e os filhos tomam a seu cargo as plantações se a sua ausência se prolonga. Os seus costumes são simples e honestos. Respeitam muito o ministro da sua religiao, nào consentindo que elle tome uma parte activa nos seus negócios políticos, mas nào despresando também os seus conselhos. Todos elles sabem lêr e escrever ou pelo menos, assignar o seu nome, e sào tào versados na escriptura sagrada como os seus próprios ministros. Quando lhes faltam professores, a sua instrucçào rudimentar é transmittida de pães a filhos com uma persistência digna de louvor. Ocioso será dizer que o colono madeirense comparado com o boer deixa muito a desejar. Boçal, ignorante, vicioso e indolente, escumado das ultimas camadas da população baixa da fiadeira, não produz a quarta parte do trabalho d'aquelle, nem dispõe da energia e coragem para se impor no animo do indígena, que não lhe encontrando outros predicados alem da cor  branca.... 

A região que ocuparam, nas terras altas da Huíla, situada a uma altitude de 1887 metros, era dotada de um clima  salubérrimo, com água em abundância e terrenos férteis, prestando-se a todas as culturas de tipo europeu.  A decisão de povoar com eles o sul de Angola não foi do agrado geral.

Por esta altura a influência de Portugal no planalto era insignificante, com apenas pequenos núcleos de portugueses dispersos  pela região da Huíla e do Humbe, resultante de uma primeita tentativa de colonização, na base de degredados, que dependiam da autoridade dos sobas da região. Também havia chegado ali uma colónia alemã que acabara por desaparecer sem deixar vestígios, para além uns poucos colonos livres do norte de Portugal que travavam negócios com povos da área, e da célebre Companhia Militar Agrícola, onde predominavam soldados deportados  que acabara por desaparecer devido a má administração, roubos extorsões aos indígenas, etc. 

Com a fixação dos boeres não tardou que tivessem início sangrentas lutas entre eles e os indígenas da região (2), acostumados que estavam a vencer e a dominar  africanos, a quem rapidamente impunham a sua influência, que passava a ser acatada em beneficio da autoridade portuguesa.  



Conf. J. Pereira  Nascimento, in  O Districto de Mossâmedes" , 1861-1913: 


...Os boers são muito dedicados a Portugal, e tem prestado relevantes serviços na manutenção do nosso domínio nos sertões dos districtos de Mossamedes e Benguella, concorrendo poderosamente pelo seu prestigio e influencia para submetter e avassallar muitos povos rebeldes. É certo que são dotados de um espirito altaneiro e independente e não se subjeitam nem amoldam a leis, códigos e mais formulas de administração publica, pelo que tem sido injustamente mal apreciados, mas é incontestável que são homens de uma raça superior, dotados de inquebrantável força de vontade, honestos, sóbrios e trabalhadores. O districto de Mossamedes e em especial o plan'alto deve-lhes entre muitos melhoramentos a paz octaviana que hoje disfructa em beneficio da sua agricultura e commercio.


...Não comportam os acanhados limites d'este modesto trabalho um (estudo detalhado sobre estes corajosos pioneiros da Africa, sobre a sua influencia na civilisação africana e os longos serviços desinteressadamente prestados a bem do nosso dominio.

...Foram elles que domaram os irrequietos povos indigenas d'este plan'alto, castigando com rigor os roubos e morticinios praticados contra os brancos, que então viviam sob a tutella dos régulos. São elles que nos momentos de angustiosas crises por que passam os poucos portuguezes internados pelos vastos sertões do Kubango, Bihé e Humbe, correm generosamente em auxilio das nossas diminutas forças, incutindo-lhes animo para arrostarem contra as tremendas hordas de selvagens, que ameaçam de vez em quando aniquilar o nosso prestigio, pondo em evidencia as suas altas qualidades de guerreiros afeitos ás inclemencias da vida do matto e vertendo o seu sangue, sacrificando a vida e os bens em defeza dos nossos interesses. As campanhas do Kubango, do Bihé e do Humbe são documentos perduráveis, que attestam a veracidade das nossas palavras."

A chegada dos boeres a Angola foi proveitosa para a agricultura e para os transportes. Eles deslocavam-se em carroções compostos de 4 grandes rodas de madeira protegidas com aros de ferro, puxados por 10, 12 ou 18 juntas de bois (espanas), conforme o peso das cargas, e com mais duas ou três espanas de reserva ligados por "cangas". Serpa Pinto, em "Eu atravessei a África", descreve-o: 

 “..O wagon de viagem em África do Sul é uma pesada construção de madeira e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre 4 fortes rodas de madeira e tirado por 24 a 30 bois, jungidos a fortes cangas, presas a uma corrente e grossa, fixa à ponta do cabeçalho no carro."
  

Próprios para caravanas, eram usados pelos militares, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada. Serpa Pinto, em Como eu Atravessei a África, descreve-o: 

 ",,,Os bois eram de estirpes domesticadas e desde há muito adaptadas aos climas da África do Sul.    Os boers levaram  consigo para a Humpata, uma centena de cavalos, 300 espingardas e 2.000 bois, para além de inúmeros cavalos e burros, igualmente adaptados a África, e não obstante a doença desconhecida a "horse sickness" que os atacava de modo pestilento, fazendo autenticas razias no gado, conseguiam curar algumas doenças e estes prevaleceram. O resultado foi que em pouco tempo monopolizaram os meios de transportes e imprimiram uma outra dinâmica de que Angola necessitava para seu progresso. 

Foram os boers que em cooperação com o Governador de Mossâmedes ajudaram a pacificar a região, a capturar e a substituir o Soba dos Gambos, e foram eles que deram uma grande contribuição para o desenvolvimento do sul de Angola na abertura de «picadas» (estradas), que abriram novas rotas de comércio entre a Huila e Mossâmedes e também para as longínquas terras do além Cunene.

Mas a presença boer no território, por sua vez, preocupava a autoridade portuguesa, temerosa do alemão, do boer,  dos avanços britânicos sobre o sul de Angola. Houve que atrair agricultores portugueses para o local.  

Em 1883, Pinheiro Chagas, ministro da Marinha e Ultramar, tentou minorar o perigo com colonos madeirenses. Para contrariar a grande diáspora protagonizada durante mais de 2 séculos pelos madeirenses, rumo aos remotos Hawai, Demerara, California, Guiyanas, etc, medidas foram tomadas, exortando à emigração para Terras Altas  e humosas de Moçâmedes (Huila), através de editais colocados no adro das Igrejas e publicados em jornais. Por sua vez, para contrariar o fluxo boer  e para que Portugal precaver-se face a ambição das potências europeias reunidas em Berlim para a "partilha de África" (1884 e 1885), começaram a chegar a Moçâmedes as primeiras «levas» de colonos provenientes da Ilha da Madeira, (1) destinados à fundação das colónias madeirenses do Lubango, na Huila, de S. Pedro da Chibia e da Humpata/Palanca, constituida por camponeses que, ao contrário dos boers, para além de serem mais afáveis na convivência com os autóctones, apenas tiveram direito a 2 hectares de terreno irrigável, entre rios, nas terras altas da Huíla.   Sabe-se que boeres, que até então eram únicos senhores a fértil e salubre região planáltica, cultores do seu viver austero e pouco exuberante, possuidores de casas bem construídas, espaçosas, cómodas e organizadas, desgostaram-se da proximidade dos novos e turbulentos vizinhos, os concorrentes madeirenses que pot sua vez constantemente os acusavam de terem conseguido a melhor partilha na divisão dos terrenos pela autoridade, e sobre a partilha das águas. 

Note-se que na 1ª colónia de madeirenses não houve lugar a selecção e  com a pressa de colonizar, Câmara Leme, o  promotor da fixação, deixou embarcar indivíduos de baixa esfera, indolentes e viciosos que contribuiram para a difamação do grupo. Em consequência, os boeres venderam os seus terrenos e foram estabelecer-se na Palanca, e alguns mesmo, os mais descontentes, tomaram a resolução do regressar para o Transvaal,  na época em que findaram os seus contratos, em 1885.  


A 17 de Janeiro de 1883, a Humpata ascendeu à categoria de concelho, com uma Comissão Municipal formada por boers, sendo administrador o alferes Artur de Paiva, o qual vem a casar com a filha do chefe da colónia boer, Jacobus Friederich Botha.



Carregamento dos carros Boers com o material de guerra.e viveres para as forças que avançam sobre o Sul de Angola. Foto de Teles Grilo 



Lentamente  os colonos portugueses começaram a absorver as tecnologias boeres bem adaptadas a África, e o povoamento europeu começou timidamente a consolidar-se, graças aos carroções, que iam abrindo caminhos por onde passavam, e faziam o transporte de pessoas, víveres e mercadorias entre povoações, inclusive para a vila de Mossâmedes, bem como a ligação com povoações da costa, tendo em vista fins comerciais.  Os carroções boeres foram também requisitados pelo exército português, quando da ocupação territorial do sul de Angola e demarcação definitiva  de fronteiras.
 

Para além do transporte de pessoas e de mercadorias, e do serviço mercenário nas guerras, os boeres dedicavam-se à caça. Eram enérgicos e trabalhadores, grandes conhecedores do interior de África, bem adaptados à vida do mato e facilmente identificáveis pelas suas características fisionómicas e pela linguagem própria que haviam desenvolvido para si mesmos, o "afrikaans". Não eram propriamente agricultores, tendo os mais proeminentes enriquecido com o comércio de marfim obtido em caçadas de elefantes, mas desbravaram e cultivaram terras virgens, dirigiram explorações agrícolas em moldes evoluídos e deram pelo seu trabalho e iniciativa exemplos aos nativos, ajudando a criar condições de vida. Também conseguiram bastantes ganhos com o fabrico de manteiga e queijo, tendo aplicado os lucros na construção de moradas definitivas, na abertura de estradas, na fruticultura e na prospecção mineira. Como seus companheiros, tinham os bochimanos ou mukankalas, aqueles que segundo a história foram o primitivo povo da África sub-saariana. 

Toda esta situação é contemporânea da célebre  Conferência de Berlim, levada a cabo em 1884-1885, que teve como objectivo organizar, na forma de regras, a ocupação de África pelas potências coloniais e resultou numa divisão que não respeitou, nem a história, nem as relações étnicas dos povos do Continente. Nesta  Conferência foi estabelecido o «princípio da ocupação efectiva», isto é, os territórios africanos deveriam pertencer a quem tivesse os meios para os ocupar de facto. O direito histórico que Portugal reclamava deixara de ter qualquer valor. Portugal, apesar do seu pouco peso político internacional, possuía vastos territórios ultramarinos entre os quais os mais ricos e extensos eram Angola e Moçambique, dos quais, à semelhança do resto do continente, apenas o litoral era conhecido e efectivamente ocupado. Em 1886 era apresentado o célebre "mapa cor-de-rosa", com o qual Portugal pretendia que lhe fossem reconhecidos os direitos às regiões entre Angola e Moçambique, facilitando o comércio e o transporte de mercadorias. Apesar de todos concordarem com o projecto, Inglaterra, supostamente um antigo aliado dos portugueses, surpreendeu com a negação face ao projecto e fez em 1890 um ultimato (3), ameaçando com guerra se Portugal não acabasse com o projecto. Portugal acabou por o abandonar. Como resultado desta conferência, a Grã-Bretanha passou a administrar toda a África Austral, com excepção das colónias portuguesas de Angola e Moçambique e o Sudoeste Africano alemão, toda a África Oriental, com excepção do Tanganica e partilhou a costa ocidental e o norte com a França, a Espanha e Portugal (Guiné-Bissau e Cabo Verde); o Congo – que estava no centro da disputa, o próprio nome da Conferência em alemão é “Conferência do Congo” – continuou como “propriedade” da Companhia Internacional do Congo, cujo principal accionista era o rei Leopoldo II da Bélgica; este país passou ainda a administrar os pequenos reinos das montanhas a leste, o Ruanda e o Burundi.
  


Com a implementação das ferrovias de penetração, a partir de 1903, e o surgimento dos primeiros veículos automóveis, 1910, finalmente tornou-se mais fácil a fixação de colonos no interior. Acabou também a dependência em relação aos carregadores, fonte de azedumes e de violências. A partir de então já se podiam importar as maquinaria pesada como as pesadas máquinas de cerâmica, que vieram revolucionar, entre outras, a construção de habitações. A passagem de feitoria a colónia teve início em 1910, muito embora só tenha tomado expressão a partir de 1920, o que veio facilitar o povoamento de Angola por europeus.





A maioria dos boers acabaram por sair em 1926, voltando à sua terra. Muitos poucos ficaram para sempre.


 
 
Pesquisa e texto  MariaNjardim
 

(1) A instalação deste 1º núcleo teve a permissão do Ministro da Marinha e do Ultramar, o Visconde D. Januário, chefiada por Jacobus Friederich Botha e como represente de Portugal junto da comunidade holandeza fora promovido o jovem alferes Artur de Paiva, empossado pelo Governador do Distrito de Mossâmedes, Coronel Nuno Matta, em 10 de Janeiro de 1882. A sua fixação ficou a dever-se a  diligências efectuadas entre o Padre espiritano Duparquet e o Governo de Lisboa. Este Padre Espiritano em 1866 tinha subido a Chela onde começara a exploração das terras altas, em missão científica e evangelizadora.


(2)  Entre 1850/60 haviam sido firmados tratados de vassalagem em nome da Coroa portuguesa com os sobados da Huila e da Humpata, garantindo o livre trânsito e a fixação pacífica dos comerciantes brancos nas suas terras, bem como a segurança africana às caravanas até Moçâmedes, contra outros africanos belicosos. Em 1885, deu-se uma inssurreição entre Cuanhamas. Por essa altura era ainda grande a carência de meios militares portugueses. 

(3)  A reacção do governo inglês chegou no dia 11 de Janeiro de 1890, sob a forma de um ultimato, no qual se exigia que todas e quaisquer forças militares portuguesas que se encontram nas regiões entre Angola e Moçambique se retirassem sob a pena de corte de relações entre os dois países. A resposta à Inglaterra seguiu nesse mesmo dia: "Na presença de uma ruptura iminente de relações com a Grã-Bretanha e de todas as consequências que dela poderiam talvez derivar, o Governo de S.M. resolveu ceder às exigências formuladas (...) e vai expedir para o Governo Geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha". Portugal não tinha condições de competir com potências industrializadas, ávidas de matérias primas e de mercados consumidores. Este foi também um período de grande fervor patriótico, com o qual se procurava reabilitar o duramente atingido orgulho nacional.







Bibliografia Consultada:



Medeiros, Carlos Alberto Medeiros , "A Colonização das Terras Altas da Huíla "

Nacimento, J. Pereira , "O Districto de Mossâmedes" 1861-1913

Brunschwig, Henri, A Partilha da África, Publicações D. Quixote, Lisboa

Para saber mais: Livro sobre  BOERS
Ver tb AQUI

Ver tb AQUI

sábado, 28 de outubro de 2017

Angola e integração dos africanos nos ultimos tempos do tempo colonial: fotos dizem mais que palavras





Primeira comunhão na Lunda
Primeira comunhão na Lunda


Primeira comunhão na Lunda
 iva de África

Departamento de análise e certificação de diamantes, inteiramente composta por técnicos africanos.
Diamang.
Coro de um dos bairros do Dundo
Diamang
Hospital pediátrico da Lunda. Enfermeiros e socorristas.
Escola primária do Dundo, sem barreiras de sexo, raça e etnia.
 Maternidade do Dundo.
 Equipa de basquetebol do liceu do Dundo.
 Dundo. Coro de um dos bairros
Dundo Africano vencedor a intensamente aplaudido
Dundo Escola Preparatória

Diamang
Sessão de cinema infantil.


Lunda, década de 1960. Posto móvel para o rastreio da tuberculose. Um dos mais avançados sistemas de saúde preventiva de África




Festa de Carnaval na piscina do Dundo



O problema em Angola era o sistema, não as pessoas brancas de côr, na maioria simples imigrantes, ou já filhos da terra, que vivendo dedicados inteiramente ao trabalho, no mais completo afastamento com relação à politica e aos politicos, no quadro de um sistema ditatorial não só tinham voz na matéria como eram perseguidos aqueles que tomavam posição oposta.  O sistema começou a abrandar e a situação foi-se modificando , com  a cidadania  abrangendo maior número de africanos, os ditos assimilados com iguais direitos que os brancos. Apesar de todos os erros cometidos na matéria pelo salarazismo , acabou por ser com Salazar que Angola conheceu uma explosão de desenvolvimento, foi pena o tempo que se perdeu para trás e não apenas nada se fez como aquilo que se fez foi muito mau. 
 
Refiro-me ao facto de terem transformado Angola  durante séculos num entreposto para trafico de escravos para o Brasil e Américas, situação que só acabou oficialmente com a independência daquela colónia americana, em 1822, e  com a publicação em 1836 do Decreto da abolição, continuando por muitas décadas ainda a fazer-se na clandestinidade, e seguindo o trabalho negro compelido, o indiginato e o  contrato, etc etc. Esse o grande erro que não deixaria prever nada de bom para o futuro.
 
Mas seria necessário também avaliar a situação do povo português metropolitano na mesma época que representava 90% da população, constituído especialmente por camponeses, que produziam alimentos, roupas, etc, com alguns burgueses, artesãos e operários. A maioria trabalhava muitas horas, de sol a sol, e de forma muito dura. Do que produzia, uma grande parte era entregue ao senhor, como renda e devia ainda prestar outros serviços, como a reparação das muralhas do castelo, e outros impostos, como os que devia pela utilização do moinho, do forno ou do lagar. Vivia em aldeias próximo do castelo do senhor. Morava em casas pequenas, de madeira ou pedra, com chão de terra batida e telhados de colmo, e com apenas uma divisão. A base da alimentação do povo era o pão e o vinho, legumes, ovos, toucinho, queijo, peixe e carne muito raramente, geralmente em dias de festa. O seu vestuário era simples. E andavam descalços. A verdade é que no início do século XIX, o regime vigente em Portugal era o Absolutismo, a sociedade das 3 ordens fundada nas ideias do Antigo Regime. Portugal apesar de Império (1) era no início do século XIX um pais pobre, rural e analfabeto (95% de analfabetismo). A  Revolução Francesa de 1789, a qual tinha sido antecedida pela Revolução Americana de 1776, veiculava ideias que preocuparam o governo português e a Corte de então. Também uma outra revolução , a Revolução Industrial avançava na Europa tendo a comandá-la a Inglaterra e que em breve iria ter as suas implicações. Inda assim  Portugal mantinha presença em cinco continentes, onde não deveria ultrapassar os cinco milhões de habitantes. Toda esta conjuntura foi fortemente abalada pelas invasões francesas que foram de extrema gravidade para Portugal estimando-se que no fim das mesmas , em 1810, cerca de 200.000 pessoas tenha perecido; a pequena  indústria, as vias de comunicação e infra-estruturas diversas, destruídas; a agricultura e o comércio, destruído ou desarticulado. Em 1820 com o rei e a corte no Brasil (1908-11), fugidos das invasões francesas, e após alguns anos de governação inglesa, com a  propagação das ideias liberais pelas lojas maçónicas precipitou-se a Revolução Liberal, que obrigou a corte a regressar à Metrópole, precipitou a independência brasileira (1822) e esteve na origem da guerra civil entre liberais e Miguelistas que durou entre 1828 e 1834. E toda a 1ª metade do século XIX foi perpassada por lutas primeiro entre liberais e absolutistas, depois no seio do próprio liberalismo. A debilidade política, as divisões existentes, o modo atrabiliário em que tudo se foi processando e a contínua debilidade económico-financeira, fez Portugal mergulhar em crises político-sociais sucessivas que vieram a desembocar em nova guerra civil, em 1847, a Patuleia, que só viria a findar com uma intervenção militar estrangeira, anglo-espanhola, em 1851, com o pais completamente arrasado.
 
 Mas falta ainda lembrar que as populações ao longo de quase 300 anos carregou com uma das instituições mais temidas em Portugal. Para garantir uma fé católica com elevado grau de pureza, milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas e mortas na fogueira. Nenhuma heresia escapava ao Santo Ofício. Todas as denúncias eram aceites, uma carta anónima ou um boato constituíam   factos suficientes para iniciar um processo inquisitorial que permanecia secreto para a maioria. Os inquisidores tinham centenas de pessoas ao seu serviço e dispunham de uma rede de informadores a quem atribuíam recompensas e privilégios, como a isenção de pagar impostos, por exemplo. Trabalhar para a Inquisição, como ficou conhecido o tribunal do Santo Ofício, era também uma promoção social. 

Os poderes conferidos aos inquisidores eram quase ilimitados. Podiam prender, julgar, castigar e torturar sem que os acusados pudessem escolher a sua defesa. O crime tinha de ser confessado e, não menos importante, tinha de haver lugar para o arrependimento, as almas que a Igreja conseguia salvar do inferno. Para isso, os inquisidores dispunham de métodos de interrogatório tão eficazes que o suspeito ou sucumbia nos instrumentos de suplício ou, como acontecia quase sempre, dizia-se culpado. As sentenças eram proclamadas e executadas em sessões públicas, mais tarde chamadas autos-de-fé. As cerimónias mais famosas eram publicitadas e encenadas como se se tratassem de espetáculos de entretenimento, para atrair, excitar e comover a população; muitos contavam com a presença do rei e da família real. As penitências aplicadas incluíam açoites, prisão temporária ou perpétua, condenação às galés, desterro, confisco de bens e execução pelo fogo. Porém, o direito canónico não permitia que os juízes do Santo Ofício condenassem ninguém à morte, essa parte cabia às autoridades civis, o que é mais uma prova da ligação entre a Igreja e Estado . A Inquisição entrou em Portugal em 1536, quando as viagens dos Descobrimentos afirmavam a nação lusa no mundo. Os reis queriam sobretudo “uma nova arma de centralização régia”, sem protestantes, e as  perseguições aos hereges duraram 285 anos. O golpe final chega em 1861, um ano depois da revolução liberal. Entre 1543 e 1684, a Inquisição condenou em Portugal 19 247 pessoas, das quais 1 379 foram queimadas, e centenas morreram na prisão enquanto esperavam julgamento.
 
 A revolução liberal foi pois libertadora, mas o Portugal necessitaria ainda de meio século para se reabilitar e partir para um novo paradigma colonial, passando a olhar com outros olhos para as colonias portuguesas de Africa, sobretudo para Angola a nova joia da corôa, plena de riquezas para explorar, que deveria substituir o Brasil independente em 1822.
 
 
(1)Na Europa, com o Continente e os Arquipélagos dos Açores e Madeira; Na América com o Estado do Brasil, que ocupava só por si, metade da América do Sul; em África, Cabo Verde; a costa da Guiné que incluía Casamança; a Fortaleza de S. João Baptista de Ajudá; Cabinda, o Ambriz e os reinos de Luanda e Benguela, além de S. Tomé e Príncipe; na África Oriental toda a costa que ia de Lourenço Marques até à ilha de Moçambique; na Ásia, Goa, Damão e Diu e Macau; e na Oceânia as ilhas de Timor, Solôr e Flores. Mas a maioria da população portuguesa era pobre e analfabeta.