quarta-feira, 13 de Março de 2013

Tráfico de escravos de Angola para o Brasil: Nos tempos da independência, vários brasileiros fizeram fama e fortuna do outro lado do oceano

DA REVISTA DE HISTÓRIA COM BRASIL

Terra de oportunidades

por Roquinaldo Ferreira
10/12/2008
  • Com a independência do Brasil, Portugal correu o risco de perder, por tabela, outra colônia: Angola. Temia-se que a possessão africana fosse anexada pelos brasileiros. E havia bons motivos para essa preocupação.

    Durante mais de 300 anos, ambas as regiões estiveram nas duas pontas do tráfico de escravos. Quase 70% dos cerca de cinco milhões de africanos que desembarcaram no Brasil vinham do Congo e de Angola. E as relações iam muito além do comércio negreiro: pelo menos desde o século XVII, africanos da costa centro-ocidental e brasileiros estavam unidos por laços mercantis, familiares e culturais.

    Por isso, logo depois da independência, Portugal chegou a enviar centenas de soldados para assegurar o controle de Angola e adiou o retorno a Lisboa de um navio de guerra fundeado em Luanda. E não eram só os portugueses que estavam alertas para manter a colônia africana. Em 1826, no tratado de reconhecimento da independência por Portugal, foi incluída uma cláusula proibindo o Brasil de incorporar qualquer colônia ou território luso no continente – Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, Guiné Bissau e o Forte de Ajudá, no Golfo do Benim. A medida foi uma imposição da Inglaterra, já então envolvida na campanha para abolir o tráfico.

    No ano seguinte, o governo brasileiro mostrou que tinha, de fato, interesses especiais em Angola: enviou para lá três navios de guerra. O objetivo oficial da missão era proteger navios negreiros que operavam na área. A medida era inédita: nenhuma nação independente das Américas tinha ido tão longe na defesa do comércio de escravos. Quase ao mesmo tempo, foi inaugurado um consulado brasileiro em Luanda, sob o comando de Rui Germack Possolo. Numa espécie de governo paralelo, o cônsul ameaçou emitir licenças de partida para navios, atribuição que não lhe cabia, e assumiu o papel de defensor de traficantes brasileiros presos por conta de disputas com comerciantes locais. Não demorou a entrar em choque com o governador de Angola, Nicolau de Abreu Castelo Branco, representante máximo do poder português na colônia.

    O fato é que os brasileiros já se encontravam alojados no coração do poder angolano havia muito tempo, ocupando cargos da administração civil e militar. Muitos deles tinham sido enviados à África como degredados. Aos poucos eles se estabeleceram, ganharam poder e prestígio. Era o caso do baiano Joaquim José da Silva Menezes, que aportou como degredado em Benguela no final do século XVIII e chegou a ficar preso durante quatro meses por um motivo aparentemente fútil: solicitar um cargo ao governador de Angola, sediado em Luanda. O pedido foi considerado uma afronta ao governador de Benguela, que na época travava uma disputa de poder com a autoridade da capital. Menezes foi chamado ao palácio do governo, onde o ajudante-de-ordens disse que ele "só podia servir para carniceiro, ou tambor, chamando-lhe também negro, filho-da-puta e outros mais convícios".Passado o malfadado episódio, Menezes prosperou: de escriba virou alferes das forças locais, depois foi administrador do contrato de sal e não demorou a se tornar negociante de escravos e dono de navio negreiro. Uma trajetória singular, ainda mais pelo fato de que, na Bahia, ele próprio fora um escravo.

    A maioria dos brasileiros em Angola tinha ligações com o tráfico de cativos. Degredados, agentes de casas comerciais sediadas no Brasil e marinheiros não vacilavam em se aventurar pelos sertões angolanos em busca de bons negócios. O caso de Francisco Roque Souto é exemplar. Natural de Salvador, ele era um ex-capitão de navios negreiros que foi tentar a sorte em Luanda, mas acabou morando na vizinha Kisama, que estava fora do controle português. Ali, casou-se com a mucama de um dos chefes locais (sobas). Com o comércio interno de escravos monopolizado pelos reinos de Kasanje e Matamba, Souto intermediou os primeiros contatos diretos entre Luanda e outro reino local, Holo. A manobra de gênio rendeu-lhe grandes lucros e beneficiou negociantes daquela cidade, mas, obviamente, enfureceu os outros dois reinos. O resultado foi uma guerra entre Matamba e os portugueses, em 1744, na qual Souto foi um dos comandantes do exército luso. O conflito resultou na destruição da capital do reino africano (Mbanza da Rainha) e no envio de centenas de nativos como escravos para o Brasil. Mesmo vencedor, Souto sofreu uma devassa que o levou a tentar fugir, mas terminou preso em Luanda por alguns meses.

    Entre tantas idas e vindas transatlânticas, não surpreende que um carioca tenha se tornado governador de Benguela, em 1835. Justiniano José dos Reis havia sido membro da junta do governo provisório da cidade durante o período turbulento que se seguiu à independência do Brasil – quando Benguela foi chacoalhada por rumores de um movimento golpista cujo alvo era sua anexação à ex-colônia tropical.  

    Um dos suspeitos de participar da conspiração foi o carioca Francisco Ferreira Gomes, que vivia em Benguela desde 1800. Também ele um degredado, fora soldado no Batalhão de Henriques, força militar formada só por negros, inspirada no lendário grupo homônimo que existira no Brasil, batizado em homenagem a Henrique Dias, herói negro das guerras contra os holandeses em Pernambuco no século XVII. Promovido a tenente e depois a tenente-coronel, Gomes conquistou rapidamente vários escalões da burocracia de Benguela, tornando-se almoxarife e escrivão da Fazenda Real, proprietário de pelo menos dois navios negreiros e numerosas fazendas. Assim como Francisco Souto, também se casara com a filha do soba de uma região vizinha, o Dombe Grande.

    Em 1822, após a independência brasileira, foi citado como conspirador, ao lado de outros negociantes locais que planejavam prender o governador e “depois de tal sucesso, içarem a bandeira do império do Brasil”. Circulavam rumores de que Gomes usaria uma de suas embarcações para bombardear Benguela. Por precaução, o governador Joaquim Bento da Fonseca ordenou que ele fosse trancafiado num dos seus próprios navios, e para se proteger de um possível ataque, transferiu seu quartel-general para uma embarcação ancorada na cidade. Dali, comandou uma verdadeira ofensiva contra os chamados revoltosos, deportando pelo menos um para o Rio de Janeiro e manifestando a intenção de matar outros três. Fez várias visitas a Francisco Gomes e seus “cúmplices” presos. Numa delas, chamou-os de “ladrões, bodes e negros”, palavras ofensivas que demonstravam que as tensões eram não só políticas, mas raciais. De Benguela, sob ameaça de morte se trocassem palavras entre si, os revoltosos foram enviados de navio para Luanda.

    Mas Francisco Gomes foi rapidamente reabilitado. De volta ao comércio de escravos, enriqueceu ainda mais, ampliando seu prestígio por meio de benfeitorias em Benguela, incluindo o apoio para reformas na igreja local e auxílio ao hospital da cidade. Seu “império” pode ser avaliado pelo número de cativos que remeteu ao Brasil: sete mil (entre 1809 e 1831). Como vários outros negociantes de escravos, ele enviou seu filho, José Ferreira Gomes, para ser educado no Rio de Janeiro e depois retornar a Benguela para assumir os negócios da família. Depois de mais de três décadas vivendo na África, Francisco mudou-se com a esposa para o Rio de Janeiro, de onde fazia visitas esporádicas a Benguela. Quanto ao filho José, depois de retornar a Benguela, não só assumiu a liderança dos negócios do pai como também se tornou juiz de fora da cidade. Em 1835, seria um dos líderes de uma revolta contra os brancos que foi em parte motivada por rumores de que Portugal tentaria abolir o tráfico de escravos. Mais tarde, ele se valeria de um soba da Catumbela – seu parente por parte de mãe – para fugir das autoridades que combatiam o tráfico.

    As trajetórias de Joaquim Menezes, Francisco Souto, Francisco Gomes e seu filho José Gomes revelam a intensidade das relações existentes entre angolanos e brasileiros. Pelo menos enquanto perdurou o tráfico negreiro. Em meados do século XIX, quando Portugal enfim decidiu abolir essa prática, adotou uma medida sintomática: a administração de Luanda passou a registrar todos os brasileiros que chegavam à cidade, além cadastrar os que já moravam lá.

    O fim da escravidão mudou o tipo de relação entre aqueles povos com histórias tão entrelaçadas. E que por pouco não se uniram sob um só país.

    Roquinaldo Ferreira é professor na Universidade da Virginia, nos Estados Unidos, e autor de Bonds of Captivity: Slaving, Trade Networks, and Cultural Exchange in the Atlantic World (Angola and Brazil), Cambridge: Cambridge University Press, no prelo.

    Saiba Mais - Bibliografia:

    ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 2000).

    MARQUES, João Pedro. “Os Sons do Silêncio: O Portugal de Oitocentos e a Abolição do Tráfico de Escravos” (Instituto de Ciências Sociais, 1999)

     http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/terra-de-oportunidades

segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

domingo, 18 de Novembro de 2012

Colonos Judeus Para Angola - As Tentativas Que Fracassaram






Uma página esquecida da História de Portugal[sobre este assunto podem ler aqui


 e também aqui

segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

ESTUDOS GERAIS DESCOLONIZAÇÂO ANGOLA





ICS  Institito de Ciencias Sociais da Universidade de Lisboa

Angola
Sessão de 31 de Agosto de 1995
Intervenientes: general António Soares Carneiro, brigadeiro Fernando
Passos Ramos, brigadeiro Pedro Pezarat Correia, coronel Rui Antunes Tomás.

Sessão de 28 de Agosto de 1996

Intervenientes: brigadeiro Fernando Passos Ramos, brigadeiro Pedro Pezarat Correia,
almirante António Rosa Coutinho, comandante Jorge Correia Jesuíno.

Sessão de 31 de Julho de 1997
Intervenientes: general António Silva Cardoso, brigadeiro Heitor
Almendra, general António Gonçalves Ribeiro.

Sessão de 1 de Outubro de 1998

Intervenientes: Vasco Vieira de Almeida, brigadeiro Passos Ramos.

domingo, 4 de Novembro de 2012

A ocupação efectiva das colónias portuguesas de África


 Quick View
terão saído de Angola muitos milhares de escravos angolanos, com destino ao. Brasil, à América ... No segundo período, de 1861 a 1877, a expansão para o Sul de Angola foi reduzida. ... E no Sul, até à Baía de Moçamedes e à Huila.
VER AQUI

Missão Geológica de Angola (José M. Brandão)

VER AQUI

terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Luanda colonial: Palácio de Ferro (Eifell)

Foto Luanda, 1955

Luanda, Construção do Liceu Salvador Correia

Expressões de Angola. DICIONÁRIO

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    Editado no Facebook por Alipio Mendes
    Expressões e Palavras Utilizadas por Nós
    A B C D E F G I L M P Q R S T V W Z

    A ACA – Expressão que significa, de acordo com a entoação ou situação, enfado, repugnância, surpresa; alegria, alívio, espanto.
    AJINDUNGADO – Temperado com jindungo, picante.
    ALAMBAMENTO – Dote do noivo à família da noiva, regra geral em gado e outros animais domésticos, vestes, mantimentos ou dinheiro. O alambamento, condição fundamental para tramitação do noivado, é tratado entre as famílias dos nubentes, mesmo não se tratando do primeiro matrimónio. As regras variam ligeiramente, de etnia para etnia mas, princípio universal, a família da noiva obriga-se a devolvê-lo caso não se verifique a consumação do casamento ou em caso de divórcio. Também pode ser entendido como “tributo de honra prestado pelo noivo à família da noiva”.
    AMIGO DA ONÇA – Fraco amigo, amigo de “Peniche”.
    ANGOLAR – Antiga moeda que circulou em Angola entre 1928 e 1957 (a sua recolha terminou em 31 de Dezembro de 1959), tendo sido substituída pelo escudo.
    ANGOLENSE – Angolano; o natural, o habitante ou o que pertence ou se refere a Angola.
    ANHARA – Xana, planície arenosa, correspondente africano da charneca, na região central de Angola, atravessada por cursos de água, com vegetação rasteira formada principalmente por gramíneas e arbustos de pequeno porte, podendo apresentar-se alagada. O ongote (planta leguminosa arbustiva, com folhas compostas e flores minúsculas em pequenos cachos, característica da anhara angolana)é a típica personalidade vegetativa da anhara.
    ARMADO EM CARAPAU DE CORRIDAS – Armado em esperto, armado aos cucos.
    APAGAR O MAÇARICO – Morrer, lerpar, bater a caçuleta, fazer uafa.
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    B
    BAILUNDO – Reino do planalto central de Angola, fundado cerca de 1700 por Katiavala. Município e cidade da província do Huambo. Povo Vambalundu pertencente ao grupo etnolinguístico Ovimbundo . A designação Bailundo estendeu-se a todo o grupo. O falante de Umbundo; aquele ou o que pertence ou se refere a este grupo ou região; naturais do Huambo e Bié.
    BALEIZÃO – Gelado, sorvete; “Resultou do apelido de um fabricante desse gelado, o qual, em 1941, se havia estabelecido na cidade de Luanda.”
    BAMBI – (Cephalophus mergens) Pequeno antílope, também conhecido por cabra-do-mato, de pelagem castanha, com uma mancha mais escura ao longo da coluna dorsal; não ultrapassa 1m de comprimento, 55cm de altura ao garrote, 20cm de cauda e chifres direitos e delgados com 9cm de comprimento. Vive em matas fechadas, onde existam cursos de água próximos.
    BANGA – (Di-banga = envaidecer-se) Ostentação, presunção, vaidade; distinção, elegância, garbo. Causar sensação.
    BANZADO – Pensativo, admirado, assombrado, espantado, maravilhado.
    BATUCADA – Acto ou efeito de batucar; percussão do batuque; dança ou festa com batuques; barulho de batuques.
    BATUCAR – Fazer soar ou tocar o batuque; dançar ao som do batuque. Dar pancadas ou bater com as mãos num qualquer objecto a ritmo cadenciado. Bater aceleradamente (o coração).
    BATUQUE – (Ba atuka = local onde se salta e pula) Tuka saltar, pular. Instrumento de percussão; bombo, tambor. Apresenta formas e designações variadas de acordo com a região, aspecto, material utilizado na sua confecção e som produzido. O som produzido pela percussão do instrumento. Dança, divertimento ou festa com acompanhamento de batuques. Esta é a concepção mais moderna de batuque. Pode ter acompanhamento de vocalizações harmónicas, cânticos de cariz social, ou refrães apenas poéticos. Na verdade, o batuque é uma espontaneidade anímica dos povos africanos. Começou por ser uma manifestação que acompanhava os ritos fúnebres, tendente “à satisfação da alma a que se propicia semelhante folguedo, a fim de lhe minorar a tristeza, pelos entes que deixou. Nesta conformidade, as danças obituárias não constituem, como ordinariamente se julga, uma natural manifestação de folia, antes uma forma de expressão religiosa… Os batuques organizam-se de noite, geralmente começando à tardinha. Se respeitam a óbitos, podem durar noites inteiras, mesmo um mês.”
    BEBER ÁGUA DO CU LAVADO – Beber uma pretensa água que deixava um homem caidinho de amores.
    BICANJOS – subúrbios, aldeias.
    BICHINHO DO MATO – Pessoa muito acanhada.
    BICUATAS – Tarecos.
    BITACAIA – Espécie de pulga criada (nos dedos dos pés).
    BICO-DE-LACRE – ( Estrilda astrild angolensis ) Ave passeriforme da família dos Estrildídeos, é um pequeno pássaro com 11,5 cm de comprimento originário de Angola. Devido à sua grande capacidade de sobrevivência em cativeiro emigrou para Portugal e Brasil, após a descolonização, foi solto na natureza e adaptou-se perfeitamente, integrando hoje a avifauna daqueles países. A plumagem é castanho-amarelada e tons de bege no peito, dorso e asas, peito com listras onduladas de branco e preto, ventre rosado, cauda vermelho-escura e bico cor de lacre. Apresenta uma banda ocular vermelha, larga e escura no macho e desmaiada e mais estreita ou inexistente na fêmea. Esta é mais pequena do que o macho e a plumagem é mais vistosa no macho e desmaiada na fêmea. O bico das crias é negro à nascença, torna-se alaranjado na primeira muda e só em adulto adquire o tom que dá o nome à espécie. Desloca-se em bandos numerosos que chamam a atenção pelos gritos estridentes incessantes. Vive em habitats abertos de silvados, savanas de gramíneas e espaços urbanos ajardinados. Alimenta-se no solo, de grãos, sementes e de toda a espécie de insectos, estes principalmente na altura de alimentação das crias. O ninho é construído no solo no meio do capim alto ou sob arbustos. É redondo e provido de um túnel de acesso, construído com raminhos, penas, palha e ervas. O macho constrói o abrigo e a fêmea dá-lhe o acabamento final, transportando penas e capim para o acolchoamento onde irá fazer a postura de 4-6 ovos que serão chocados pelos dois membros do casal, alternadamente de 2 em 2 horas, passando ambos a noite no ninho, durante cerca de 12 dias. Duas semanas depois de nascer as crias estão aptas a voar, embora continuem a ser alimentadas, durante algum tempo mais, pelos progenitores. Designa-se este por bico-de-lacre-comum já que existe outro bico-de-lacre de Angola; é o Estrilda thomensis , o bico-de-lacre-cinzento-de-angola, que tomou esta designação (thomensis) por se julgar, erradamente, ser originário de São Tomé e Príncipe. Difere do bico-de-lacre-comum essencialmente pelo colorido da plumagem, mais escura e sem as listras onduladas.
    BISSONDE – Formiga gigante que ferroava nas pessoas desprevenidas.
    BOMBÓ – Pedaços de mandioca descascada e demolhada. Depois de fermentada ou seca é moída, ou pisada, dando a fuba de bombó. Também se come assado, como acompanhamento para qualquer tipo de alimento.
    BOTECO – Botequim, bar de fracas qualidades.
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    C
    CABAÇA – Fruto da cabaceira, semelhante à abóbora, em forma de pêra, apresentando na parte superior uma espécie de gargalo pronunciado; pode ter a forma de um 8, em que o bojo inferior é maior do que o superior, estando separados por um estrangulamento. Em Angola tem uma grande importância ancestral pois sempre foi o recipiente por excelência para armazenamento de líquidos, depois de seco e oco.
    CABACEIRA – ( Lagenaria siceraria sin. Cucurbita spp) Planta anual vigorosa, trepadeira ou prostrada, da família das Curcubitáceas, que pode alongar-se por 5m de comprimento. Apresenta flores tubulares com 5 pétalas, brancas ou amareladas, com 4,5cm. É originária de África, embora hoje esteja também presente na Europa, Ásia e América. O fruto, a cabaça, é muito utilizado como recipiente.
    CABEÇA-DE-PEIXE – (ou CABEÇA DE PUNGO) São epítetos por que são conhecidos os naturais ou habitantes do distrito de Moçamedes / província do Namibe. O bairrismo das populações pretende as águas separadas: os alexandrenses (naturais de Porto Alexandre) reivindicam a designação cabeças-de-peixe e os moçamedenses cabeças-de-pungo. As designações derivam do facto destas populações viverem essencialmente da pesca.
    CABRA-DE-LEQUE – ( Antidorcas marsupialis angolensis ) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos, a cabra-de-leque, é uma pequena gazela de 75 cm de altura, 1m de comprimento para um peso de 40-50 kg. É uma das gazelas mais velozes, podendo a atingir os 90 km/h e pode, com facilidade, dar saltos de mais de 5 m. A pelagem é castanha-avermelhada, com uma barra castanha-escura nas laterais junto à delimitação do ventre, que é branco. A alvura do ventre prolonga-se pela parte interna das patas. A garganta é branca bem como a face, que apresenta uma lista escura que se prolonga dos olhos ao nariz. No final do dorso onde nasce a cauda, branca, apresenta um triângulo de longos pêlos brancos que se abrem em leque durante a corrida, empreendida sempre que pressente algum predador. O leque destaca-se, brilhante, na poeira levantada pela manada. Esta acção, sempre acompanhada de vistosas cabriolas que mais parecem elegantes passos de ballet, servem para indicar a posição aos companheiros que seguem na retaguarda. O leque abre-se também, dramaticamente, no momento da morte. Os chifres, em forma de lira de pontas convergentes, são pequenos, não ultrapassam os 50 cm, apresentam anéis bastantes vincados e são mais desenvolvidos no macho sendo que na fêmea são mais finos e não apresentam convergência nas pontas. A fêmea atinge a maturidade sexual entre os 7 e os 12 meses, ao passo que o macho a alcança aos 2 anos de idade. O período de gestação é de 6 meses. Vive nas savanas abertas e regiões semidesérticas. Alimenta-se da parte aérea das plantas, de raízes e tubérculos. Se os vegetais de que se alimenta contiverem, no mínimo, 10% de humidade, o animal não necessita de beber.
    CACETE – Pau que serve para dar cacetadas.
    CACIMBA – Cova, lagoa ou poço que recebe água das chuvas; buraco aberto para se procurar ou armazenar água. Estação fria dos trópicos; chuva miudinha, orvalho, relento.
    CACIMBADO – Quem ou o que recebeu cacimbo; húmido, molhado; enevoado, nublado. Neurótico, perturbado, triste, tristonho; aquele que sofre de perturbações psíquicas, mormente dos traumas provocadas pela guerra.
    CACIMBO – É poca das chuvas, Inverno. Humidade própria dos climas tropicais e equatoriais; chuva miudinha, orvalho, relento; época das chuvas.
    CAÇULA – O filho mais novo.
    CADA CARANGUEJO NO SEU LUGAR – Cada macaco no seu galho.
    CAFECO, UFEKO ou UFEKU – Mulher jovem, púbere.
    CAGAÇO – Medo, muito medo.
    CALCINHA – Pessoa toda não-me-toques.
    CALEMA – Fenómeno natural da costa ocidental africana, caracterizado por grandes vagas de mar. A ondulação forma-se no alto-mar e a ressaca origina correntes muito fortes que, dirigindo-se para a costa, rebentam estrondosamente, provocando grandes estragos.
    CALHAU COM OLHOS – Pessoa com muito poucas capacidades intelectuais, pouco inteligente.
    CALONJANDA – Expressão que quer dizer que alguém tem os pés tortos (virados para fora).
    CALULU – R ama da batata-doce. Prato típico de guisado à base de peixe ou carne, tendo como ingredientes (calulu de galinha) cebola, tomate, pau-pimenta, louro, jindungo , couve, quiabo , beringelas, e óleo de palma, engrossando-se o molho com farinha de trigo. Acompanha-se com arroz. Guisado de peixe, fresco e seco, tendo como ingredientes quiabo, abóbora, tomate, cebola, rama de cará ou de mandioca , jimboa e óleo de palma. É acompanhado de pirão ou funje . “Esta designação, usual entre as populações do Sul e Centro de Angola, corresponde, pela identidade da iguaria, à de funje de azeite de palma.
    CAMACOUVE – Comboio de mercadorias que efectuava paragens em todas as estações e apeadeiros transportando correio e materiais diversos.
    CAMANGA – Diamantes.
    CAMANGUISTA – Negociante de diamantes.
    CAMAPUNHO – Pessoa desdentada dos dentes da frente.
    CAMBUTA – Pessoa de baixa estatura, um quase anão.
    CAMUECA – Mal-estar, doença.
    CAMUNDONDO – Natural de Luanda. Rato.
    COMBOIO MALA – Comboio do Caminho de Ferro de Benguela que transportava os passageiros entre a cidade do Lobito e Vila Teixeira de Sousa, mais tarde Dilolo.
    CANDINGOLO – Bebida confeccionada pelos nativos indígenas, sem qualquer qualidade mas com muito álcool, uma espécie de cachaça muito mais forte.
    CANDENGUE – Criança, miúdo, rapaz; o irmão mais novo.
    CANDINGOLO – Bebida licorosa preparada a partir da hortelã-pimenta. “Em sua preparação, entram normalmente as seguintes quantidades de ingredientes: 1 litro de álcool puro, 2 de água, 0,5 de açúcar branco e essência de hortelã-pimenta. Reduzido o açúcar a calda, junta-se esta, depois de esfriada, ao álcool, ministrando-se por fim, a essência.”
    CANDONGA – Permuta, contrabando.
    CANDONGUEIRO – Aquele que faz candonga.
    CANGALHO – Carro velho.
    CANGONHA – Liamba ou Diamba .
    CANGULO – Carrinho de mão.
    CANHANGULO – Arma antiga de fabricação caseira (regra geral).
    CANIÇO – Cana delgada.
    CAPANGA – Esbirro; guarda-costas, indivíduo que faz a segurança pessoal de alguém.
    CAPIM – Nome genérico por que são conhecidas as plantas gramíneas e ciperáceas, geralmente forraginosas; chegam a cobrir enormes extensões de terreno e atingem altura relativamente elevada após as chuvas, formando grandes pastos naturais; erva; relva.
    CAPINA – Capinação, Monda, Sacha. Acto ou efeito de capinar; desbaste do capim.
    CAPINAR – Mondar, Sachar. Cortar o capim, limpar o terreno de capim, mondar.
    CAPINZAL – Terreno coberto de capim.
    CAPOTA – (Numida meleagris) A capota, pintada, galinha-de-angola ou galinha-do-mato é uma ave Galiforme da família Numididae, oriunda de África, que tem a particularidade de apresentar a cabeça nua de penas, com uma crista ou capacete no topo e barbelas por baixo da base do bico. Estes apêndices servem, muito provavelmente, para a ave regular a temperatura do cérebro. A plumagem é cinzenta prateada com pintas brancas. Prefere os habitats semiáridos e a savana, mas também pode ser vista na orla de bosques ou florestas É uma ave monogâmica embora se junte em grandes bandos, fora da época de reprodução. Alimenta-se no solo e abriga-se nas árvores, sempre que isso é possível. O nome específico, bem como as pintas que lhe cobrem as penas por todo o corpo, estão ligadas à mitologia grega: as meleágridas, irmãs do herói Meleagro que morre após matar a própria mãe, ao chorarem a sua morte cobrem-se de lágrimas e são transformadas em aves cuja plumagem se cobre de pintas lacrimais. É uma ave de fácil domesticação.
    CAPUTO – Português; a Língua Portuguesa; aquele ou o que pertence ou se refere a Portugal.
    CARA DE CU À PAISANA – Cara de traseiras de tribunal, cara de poucos amigos.
    CARCAMANO – Sul-africano.
    CARDINA – Bebedeira, pifão, pifoa, piruca, piela.
    CARREIRO – Caminho estreito aberto no mato.
    CARIANGO – Biscato.
    CARÁ – (pomoea batatas) Nome popular porque é conhecida, nas regiões do Sul de Angola, a batata-doce. Utiliza-se na alimentação de duas formas: assado ou cozido, acompanhando uma grande variedade de pratos, ou isoladamente.
    CASA DE PAU-A-PIQUE – Cubata feita com paus e barro.
    CASQUEIRO – Pão
    CASSANJE – (também Ka + sanji = galinha pequena) Vale na região de Malanje, a zona angolana mais produtora de algodão. A “Baixa do Kassanje” é célebre pela cultura intensiva de algodão.
    CATATUA – Arara.
    CATUITUI – ( Uraeginthus angolensis) Pequena ave Passeriforme com 11,5 cm.
    CAVÚLA – Mulher tchingandji.
    CAXIPEMBE – Bebida alcoólica resultante da fermentação de batata-doce ou de cereais e posterior destilação.
    CAZUMBI – Alma de um antepassado, alma penada, espírito errante; feitiço.
    CELHA – Pipo de vinho cortado ao meio, e que servia para se tomar banho ou para lavar roupa.
    CHAFARICA – Pequeno estabelecimento.
    CHICORONHO – Natural de Sá da Bandeira.
    CHINGANJIS – (ou Tchinganjis) Homens vestidos com fatos feitos de palha e outros materiais, com máscaras e que diziam ser sobrenaturais.
    CHINGUE – Cubata, palhota. Nalgumas circunstâncias era uma aldeia de palhotas.
    CHIPALA – Cara, face, rosto.
    CHIPRULENTO – Pessoa ciumenta.
    CHITACA – Fazenda, roça.
    CHITAQUEIRO – Dono da chitaca.
    CHORAR LÁGRIMAS DE CROCODILO – Chorar falsas lágrimas.
    CHURRASCO – Frango assado na brasa.
    CIPAIO – Polícia africano, ordenança adstrito às Administrações de Concelho e aos Postos Administrativos. Pertenceu aos Serviços de Administração Civil e actuava junto da população autóctone. O cargo era desempenhado por naturais.
    CONDUTO – Berera, molho para acompanhar o pirão
    COTÓTÓ – Unha de fome, forreta.
    CUANHAMA – Povo pertencente ao grupo etnolinguístico Ambó, de língua Tchikwanyama uma das línguas étnicas de Angola; o falante desta língua; aquele ou o que pertence ou se refere a este povo. Uma antiga lenda pretende explicar a origem da designação Ova-kwa-nyama, “os da carne”: “Uma pequena fracção da tribo donga deslocou-se para a floresta, à procura de víveres. Encontrou tanta abundância de caça e de peixe que resolveu fixar-se ali. Quando deram esta notícia ao soba, ele enviou emissários, ordenando-lhes que regressassem à terra tribal. A aludida fracção da tribo não quis, porém, obedecer à ordem emitida pelo soba. Este acabou por dizer: “Deixai-os lá com a sua carne”.
    CUANZA – (ou Kuanza) O grande rio de Angola.
    CUBATA – Casebre de barro seco, coberto de capim seco, folhas de palma ou mateba. Pode, também, ser de tábuas de madeira ou de aproveitamento de chapas metálicas. Também pode variar a cobertura, principalmente nas zonas urbanas onde se utiliza muito a folha de chapa zincada.
  • CUCA – Marca de cerveja.
  • CÚRIA – Comida, refeição.
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    D
    DENDÉM – (ou Dendê ) Fruto (drupa) do dendezeiro, de cor laranja-avermelhado quando maduro, composto por uma capa fibrosa (epicarpo), uma noz e uma amêndoa da qual se extrai o óleo ou azeite de dendém, muito utilizado em culinária. Pode ser consumido como petisco, cozido ou assado. Em doçaria prepara-se uma iguaria macerando o fruto em açúcar e erva-doce. Azeite de dendém, óleo de dendém, azeite de palma ou óleo de palma . O óleo ou azeite preparado a partir do dendém.
    DENDEZEIRO – (Elaeis guineensis) Variedade de palmeira originária da África tropical que atinge 20-25m de a. Do seu fruto, o dendém, prepara-se o azeite ou óleo do mesmo nome. As folhas são utilizadas na cobertura de habitações tradicionais e da sua seiva prepara-se o malavo.
    DIAMBA ou Liamba – (Cannabis sativa) Planta herbácea da família das Canabináceas, variedade de cânhamo, cujas flores e folhas, depois de secas, são utilizadas fumando-se como droga alucinogénia. A droga fabricada a partir desta planta. O seu consumo provoca habituação.
    DÁ-ME LICENÇA QUE O TOPE? – Expressão usada no gozo, pondo os dedos indicador e médio em círculo, no olho
    DOIS E QUINHENTOS – Vinte e cinco tostões.
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    E
    EMBALA – (banza, libata, quimbo ou sanzala) Aldeia ou sanzala do soba; palácio real, morada do chefe supremo. Genericamente na embala vivem o soba, as suas mulheres, filhos, noras e respectiva descendência. As casas estão dispostas em rectângulo ou círculo formando um terreiro interior onde existe, pelo menos, uma árvore, geralmente uma mulemba, à sombra da qual o soba se reúne com o conselho de anciães para resolução de conflitos e administração da justiça.
    ERVA SANTA MARIA – Erva medicinal.
    ESPIRRA CANIVETES – Pessoa muito magra.
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    F
    FAROFA – Farinha-de-pau preparada a frio como salada: cebola picada, azeite, vinagre e água suficiente para descompactar. Original e tradicionalmente o vinagre é substituído por óleo de palma.
    FAZER CAPIANGO – Fazer gamanço, rapinar.
    FEIJÃO KALONGUPA – Feijão encarnado.
    FEIJÃO MACUNDE – Feijão-frade, “ciclistas”.
    FRUTA-PINHA – Variedade de anona ou Sape-sape.
    FUBA – Farinha moída em grão muito fino, a partir de batata-doce, mandioca, massambala, massango ou milho. Farinha de bombó, farinha de mandioca fermentada. Farinha de quindele, farinha de milho.
    FUBEIRO – Comerciante que vende fuba; comerciante reles; pessoa reles.
    FUNJE – Pasta de farinha de mandioca. Prepara-se batendo ou amassando a farinha com o luico, em água a ferver, até adquirir uma consistência pegajosa e sedosa. É acompanhado com caldo de peixe fresco, peixe seco ou muamba de carne, legumes e um molho próprio (para a confecção do funje ver FUNGERARD).
    FUNJADA – Funje com um bom conduto.
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    G
    GABIRU – Malandrão, sacripanta, vígaro.,
    GÂMBIAS – Pernas altas.
    GANDULO – Malandrão.
    GINGUBA – ( Macoca , Quifufutila ou Quitaba) Amendoim, planta da família das Faseoláceas ou Leguminosas, também conhecida por amendoim. As folhas apresentam quatro grandes folíolos ovados. As flores são amarelas e reunidas em espiga nas axilas das folhas. Depois de fecundada, a estrutura que envolve o ovário alonga-se e penetra no solo, onde amadurecem os frutos, vagens oblongas com 1-4 sementes. As sementes são comestíveis e delas se extrai um óleo alimentar. É utilizada na alimentação, torrada ou cozida, em variados pratos e em doçaria.
    GOMA – Instrumento musical de percussão; batuque, bombo, tambor. Tradicionalmente é construído de um tronco escavado de mafumeira, com as duas extremidades abertas. Uma delas é depois coberta com pele de antílope ou veado, apertada sob tensão. O seu tamanho varia de região para região, podendo atingir 1,5 m de comprimento, motivo pelo qual o tocador monta ou se encavalita no instrumento. A afinação é feita por aquecimento da pele. Apresenta formas e designações variadas de acordo com a região, aspecto, material utilizado na sua confecção e som produzido.
    GONGA – Gavião, ave de rapina.
    GUELENGUE – Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos endémico que atinge 200 kg de peso, com a estatura de 1,20 m e 90 cm ao garrote. A pelagem é de tom castanho-acinzentado muito claro; o ventre, branco, é separado dos flancos por uma barra preta; a face é branca com riscas pretas na zona dos olhos e rodeando a parte alta do focinho; a cauda, de crina longa, é preta bem como as patas, acima dos joelhos. Ambos os sexos apresentam chifres, em forma de lança, anelados, longos e voltados para trás e para o alto, sendo os da fêmea (1m) mais compridos e mais finos do que os do macho (75cm). Habita territórios secos, em zonas semidesérticas de pequena pastagem e savanas abertas fazendo, por vezes, incursões aos bosques abertos em busca de pastagens. Alimenta-se de herbáceas, raízes, tubérculos e rizomas. Passa vários dias sem beber e pode ser encontrado muito longe das fontes de água.
    GULUNGO – (Tragelaphus scriptus) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos. O gulungo é um antílope africano de porte médio, com 1-1,5 m de comprimento e pesa de 25 a 80 kg. Distribui-se pelo Leste de Angola. Tímido e desconfiado, emite balidos quando perseguido ou perturbado. Vive, solitário ou aos pares, em bosques densos, pequenas montanhas ou savanas arbustivas, sempre perto de cursos de água permanentes. Alimenta-se de herbáceas, folhas, rebentos e frutos. As hastes do macho são curtas e espiraladas com pontas afiadas. O costado, percorrido por uma crina branca, é arqueado, tem orelhas grandes e cauda espessa. A pelagem é castanho-avermelhada com riscas brancas verticais nas partes laterais do tronco e manchas também brancas nas espáduas, quartos traseiros e face. A fêmea, que não possui armação, é mais pequena do que o macho e a sua pelagem é menos vistosa. Atinge a maturidade sexual dos 11 para os 12 meses, tem um período de gestação de 6 meses, com 1 cria por parto.
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    I
    IMBAMBAS – Tarecos, as coisas de uma casa.
    IMBONDEIRO – (Adansonia digitata) Árvore de porte gigante, da família das Bombacáceas. O tronco é grosso e bojudo, podendo atingir 20 m de altura e 10 m de diâmetro, chegando a armazenar 100.000 litros de água. Há exemplares que atingiram a idade de 3.000 anos. O seu fruto é a múcua. “… o imbondeiro é venerado no Leste de Angola e encarregado pela tradição de albergar determinados espíritos…”
    IMPALA – (Aepicerus melampus) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos com 50-60 kg de peso, a impala apresenta pelagem castanho-avermelhada, escurecendo no dorso e rosto, sendo que o ventre, os queixais, a linha dos olhos e a cauda são brancos. Uma zona de pêlos mais compridos do que o normal, de cor preta, cobre-lhe os calcanhares. Os chifres, esbeltos e só existentes no macho, podem atingir 1 m de comprimento e desenvolvem-se em forma de lira. A maturidade sexual é de 1 ano para os machos e 20 meses para as fêmeas com um período de 195 a 200 dias de gestação. É um antílope que vive na savana, em grandes manadas. Prefere zonas onde exista capim de porte baixo ou médio, com uma fonte de água por perto, condição que pode ser desprezada caso a erva seja abundante.
    IPUTA – Pirão.
    IR Á TUJE – Ir “a outra parte”.
    IR AOS GAMBUZINOS – Partida feita a um novo morador.
    IR PASTAR CARACÓIS – Ir pentear macacos, ir chatear outro.
    ISTO NÃO É CONGO ! – Expressão usada aquando das confusões naquele País.
    ISTO NÃO É DA MÃE JOANA ! – Aqui não é a casa da sogra!
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    J
    JINDUNGO – ( ou Gindungo ) Espécie de malagueta muito ardente e aromática, utilizada no tempero dos alimentos e confecção de molhos. Fruto do jindungueiro.
    JINDUNGUEIRO – Planta da família das pimentas, Solanáceas, nativa dos trópicos, que atinge 60-80 cm de altura e cujo fruto, o jindungo, é muito utilizado em culinária.
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    K
    KUANZA , Cuanza, Kwanza ou Quanza – O maior rio nascido em Angola, com uma extensão de 965 km e uma bacia hidrográfica de cerca de 148.000 km2. Nasce junto a Mumbué, no distrito do Bié, a uma altitude de 1.450 m e desagua no Atlântico, 40 km ao Sul de Luanda. É navegável até ao Dondo, a 200 km da foz. São seus afluentes, entre outros, os rios Kuiva, Luando e Lucala.
    KUATA – Agarra, apanha, pega, segura. Guerras de kuata! kuata! Guerras empreendidas, na época da escravatura, quer pelo exército português, quer pelos reinos angolanos mais poderosos, com o intuito de fazer escravos.
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    L
    LARICA – Estar cheio de traça, ter muita fome.
    LAUREAR O QUEIJO – Passear.
    LOMBI – ( LÔMBUAS ou SUANGA) Rama de alguns arbustos para condutos.
    LOSSAKAS E QUIABOS – Frutos verdes que se usam nos condutos.
    LUICO – Espécie de grande colher de pau ou bastão comprido com que se amassa ou bate o funje.
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    M
    MABOQUE – (Maboke ) Fruto do maboqueiro, de aspecto semelhante ao da laranja mas de casca muito dura (pericarpo ósseo) contendo inúmeras sementes envolvidas por uma abundante polpa gelatinosa com sabor agridoce ou sub-ácido. É também conhecido por laranja-do-natal e laranja-dos-macacos. Come-se ao natural ou temperado com açúcar. Pode também ser constituinte de salada de frutos, dando-lhe um sabor especial.
    MABOQUEIRO – ( Strychnos spinosa ) Arbusto de porte arbóreo, da família Lagoniaceae, muito ramificado. As pernadas e ramos são revestidos de uma grossa casca, com aspecto semelhante à cortiça. Produz um fruto muito apreciado, o maboque.
    MAFUMEIRA – ( Ceiba pentandra) (Eriodendron anfractuosum) Árvore frondosa da família das Bombacáceas que pode atingir 35 a 40 m de altura. O tronco é cilíndrico, sólido e grosso e atinge 3 m de diâmetro. A copa, arredondada ou plana, pode apresentar uma cobertura até 50 m. As folhas, caducas, são alternas e aglomeram-se nas extremidades dos ramos. As flores, dispostas em fascículos nas axilas de folhas que tenham caído, são grandes, com cinco pétalas brancas, rosadas ou douradas, muito perfumadas. O fruto é uma cápsula cheia de uma espécie de lã vegetal, designada capoca ou sumaúma, que envolve as sementes. A capoca é utilizada em colchoaria e das sementes extrai-se o óleo de capoca, usado no fabrico de sabões. A madeira é muito leve e suave e é, por isso, utilizada no fabrico de dongos isto é canoas compridas e relativamente largas.
    MACA – ( MAKA ) Conversa, dito, fala. Na tradição oral angolana as maka são “histórias narrativas de acontecimentos reais e verdadeiros ou tidos como tais… Evoca factos e acontecimentos do passado, uns verdadeiros, outros de origem lendária e fruto da imaginação, mas que se foram impondo como se de factos reais se tratasse.” Conversa decisória, conversação, assembleia pública ou familiar. Altercação, confusão, discussão, problema, sarilho.
    MAQUEIRO – Pessoa zaragateira.
    MALUVO – ( Marufo, Maruvo ) Bebida resultante da seiva fermentada das palmeiras, principalmente de palmito, bordão e matebeira. É uma bebida muito apreciada no Norte de Angola onde tem funções sociais precisas, como seja a cerimónia do alambamento, o final de uma maca ou o agradecimento ao voluntariado comunitário nas zonas rurais. Segundo uma lenda, o primeiro homem a extrair o marufo e a preparar o azeite de dendém foi Lenchá, escravo do Rei do Congo. A partir dessas descobertas nunca faltaram estas delícias na mesa do rei. Mas Lenchá levou as suas experiências ao ponto de deixar fermentar a seiva da palmeira, durante três dias. O rei achou o néctar delicioso e bebeu em doses elevadas. Apanhou a primeira bebedeira da sua vida . Com o rei viviam nove sobrinhos. Makongo, o mais velho, vendo o rei em tal estado julgou-o às portas da morte. Fez crer às mulheres do rei que tal situação resultava do veneno que lhe fora ministrado por Lenchá. Chamou os oito irmãos, levaram o escravo para longe de Banza Congo e queimaram-no vivo. O rei, ao acordar da bebedeira, estranhou a presença dos sobrinhos junto ao seu leito. Perguntou por Lenchá, o seu escravo querido. Posto ao corrente da situação proferiu sentença imediata contra a acção estúpida dos sobrinhos: seriam queimados, como o haviam feito ao seu servo. Antes, porém, que a sentença fosse executada, os nove sobrinhos fugiram da cidade e, atravessando o rio Zaire, formaram os nove reinos que passariam a constituir Cabinda.
    MANDA CHUVA – Patrão.
    MANDIOCA – ( Manihot utilíssima) Planta herbácea tuberosa, da família das Euforbiáceas, de grandes folhas divididas, flores pouco vistosas dispostas em cacho, muito utilizada na alimentação. É a base alimentar de muitos povos de Angola. Os tubérculos são utilizados de formas variadas. Expostos ao calor e moídos produzem a farinha de pau e a fuba de bombó com que se confecciona o funje. Também se consome em cru. Com as folhas prepara-se a quizaca. Tiras de mandioca secas ao sol, as macocas
    MANDIOQUEIRA – Termo popular que também designa a mandioca.
    MANGA – Fruto da mangueira. É uma drupa de forma ovóide oblonga com 15-25 cm de comprimento, de cor verde-amarelada, amarela ou avermelhada quando madura. A polpa é amarela, sumarenta e fibrosa.
    MANGA DE CAPOTE – Macarrão.
    MANGONHA – Farsa, mentira. Indolência, moleza, preguiça.
    MANGONHAR – Dar-se à mangonha, mandriar, molengar, preguiçar.
    MANGONHEIRO – Indolente, calaceiro, mandrião, molengão, preguiçoso.
    MANGUEIRA – ( Mangifera indica) Árvore da família das Anacardiáceas de copa densa e arredondada, tronco grosso, que chega a atingir 20 m de altura, com ramos numerosos que lhe dão um porte majestoso. As folhas de cor verde-escuro são perenes, coriáceas, simples, de forma lanceolada ou oblonga, com 15-30 cm de comprimento. As flores, que nascem em panículas piramidais terminais, são pequenas e de cor verde-amarelada. O fruto, a manga, é muito apreciado.
    MANGUITO – Gesto obsceno.
    MARIMBA – Instrumento musical do grupo dos idiofones, semelhante ao xilofone e constituído por uma cadeia de cabaças, servindo de caixa de ressonância, encimada por uma série de faixas de madeira ou metal (teclas) que são percutidas com uma baqueta apropriada. Pode apresentar corpo direito (recto) ou curvo, com quinze a dezanove teclas, havendo notícia de marimbas com mais de vinte teclas. Em cerimónias religiosas é comum uma marimba ter tamanho reduzido, apenas duas a quatro teclas.
    MASSAROCAS – Espigas de milho.
    MATA-BICHO – Pequeno-almoço (de faca e garfo).
    MATABICHAR – Tomar o pequeno-almoço.
    MATACO – Bunda, nádegas, traseiro.
    MATARRUANO – Patego.
    MATETE – Papa de farinha de milho.
    MATRINDINDE – Insecto ortóptero saltador, semelhante ao gafanhoto, com 7-10 cm, de cor arroxeada que, com a vibração das asas, produz um som semelhante ao da cigarra. O seu aparecimento indicia o início da época do cacimbo. Chega, por vezes, a constituir uma praga.
    MATUMBO – Estúpido, tacanho, ignorante, inculto, provinciano.
    MERENGUE – Ritmo de dança muito animado.
    MESSENE – Mestre, mestre de ofício, professor.
    MILONGO – Medicamento, remédio; qualquer fármaco.
    MISSANGA – Pequenas contas de vidro ou outro material com que se confeccionam colares, pulseiras e outros adereços, também utilizadas nas tranças dos penteados tradicionais. Há designações variadas para as missangas usadas em cerimónias tradicionais. Variedades de missangas adoptadas em colares ou relicários consagrados aos espíritos.
    MOKOTÓ – Pé de boi preparado para confeccionar comida.
    MORINGA – Bilha de água de gargalo estreito.
    MORRO – Monte, outeiro.
    MUAMBA ou Moamba – Líquido ou molho oleoso obtido por cozedura de massa de dendém pisado. Prato típico de guisado de galinha ou outras aves, carne de vaca ou peixe, com o referido molho, tendo como temperos e ingredientes azeite, alho, cebola, quiabo e jindungo. Dizendo-se simplesmente Muamba, está a referir-se a de galinha. Sendo de outra carne ou de peixe é necessário especificar, Muamba de… Tradicionalmente é acompanhado de funje ou pirão, mas também o pode ser com arroz. Também designa contrabando, negócio ilegal.
    MUCANDA – Carta, bilhete, papel; qualquer escrito. Recado.
    MÚCUA – Fruto do imbondeiro, constituído por uma massa ácida comestível e um emaranhado de fibras que envolvem as sementes.
    MUCUBAL – Povo Ovakuvale do grupo etnolinguístico Herero , que vive essencialmente da pastorícia.
    MUKENKO – Murro.
    MULEMBA – (Ficus thonningii sin. F. welwitschii) Figueira africana. Árvore sarmentosa da família das Moráceas, de seiva leitosa. Apresenta um porte elevado, chegando a 15-20m de altura, e a copa é volumosa e muito ramificada, sendo muito apreciada pela sombra que produz. Dá-se em terrenos secos e arenosos. Apresenta raízes aéreas, conhecidas popularmente por barbas. Os frutos, figos, que nascem nas axilas das folhas, com 8-12 mm de diâmetro, atraem uma grande variedade de pássaros. É a árvore real angolana, já que à sua sombra se reuniam os chefes e reis. Mulemba-xietu a mulemba da nossa terra.
    MULEQUE – Rapaz, criado, moço de recados. Malandro, preguiçoso, vadio.
    MUSSEQUE – Começou por designar os terrenos agrícolas pobres e arenosos, situados fora da orla marítima e em redor das cidades. A designação tornou-se extensível ao bairro de lata, bairro pobre, na cintura urbana das grandes cidades, principalmente em Luanda.
    MUXIMA – Vila e município da província do Bengo, na margem esquerda do rio Cuanza. É célebre a Igreja de Nossa Senhora da Muxima, ou da Conceição, de culto à Virgem Maria.
    MUXITO – Mata ou bosque denso.
    MUZONGUÊ – Guisado com peixe seco e fresco, com bastante jindungo e farinha de pau.
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    P
    PEITO-CELESTE – Este nome advém do colorido das penas do peito, azul celeste vivo no macho, sendo que as fêmeas além de um colorido menos vivo apresentam o ventre bege. O canto do macho é agradável e vigoroso. Vive em pequenos bandos, preferindo os terrenos cultivados, o campo aberto e a savana, mas também frequenta os limites urbanos desde que haja charcos de água por perto. Embora no campo seja mais fácil ocupar os ninhos abandonados pelos tecelões e outros pássaros, também constrói o seu próprio ninho com pedacinhos de mato seco e capim, chegando a fazê-lo na cobertura de colmo das cubatas. A sua postura é de 3 a 4 ovos. Alimenta-se de insectos, grãos, sementes e verdura fresca.
    PENEIRENTA – Pessoa vaidosa.
    PICADA – Estrada de terra batida de 3.a categoria.
    PILDRA – Prisão, chossa, xilindró.
    PILIM – Dinheiro, taco, carcanhol, bago, kumbú.
    PIPI – Pessoa vaidosa, calcinhas.
    PIRÃO – Iguaria gastronómica. Coze-se, conjuntamente, peixe fresco e seco com batata-doce ou mandioca. A água da cozedura, ainda quente, é temperada com óleo de palma ou azeite de oliveira, cebola e tomate, formando um caldo leve, o muzonguê. Acompanha-se com farinha de mandioca embebida no caldo. Embora o termo se tenha generalizado para o prato em si, é à farinha assim preparada que a designação é devida. Por acomodamento, em Angola deve chamar-se funje a massa confeccionada com fuba de mandioca e pirão a confeccionada com fuba de milho e similares. O pirão é característico das regiões do centro e Sul de Angola.
    PIRAR A ROSCA – Entrar em parafuso, ficar meio choné.
    PITANGA – Fruto comestível da pitangueira, de forma globosa, polarmente achatado, sulcado longitudinalmente e de aspecto brilhante. A polpa, alaranjada ou vermelha quando madura, tem um sabor adocicado, levemente ácido ou agridoce.
    PITANGUEIRA – Planta arbustiva da família das Mirtáceas, originária da América do Sul, muito provavelmente do Brasil. Pode atingir o porte de árvore, com 6 a 10 m de altura, com copa piramidal, tronco de 30 a 50 cm de diâmetro e cujo fruto, a pitanga, é muito apreciado. As folhas variam do vermelho ao verde-brilhante, da juventude à idade madura. As flores, genericamente, são brancas e aromáticas com floração abundante.
    PÓPILAS! – Chissa! Possa! Arre! Porra!
    PUNGO – Peixe perciforme marinho.
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    Q
    QUIABEIRO – (Hibiscus esculentus) Erva anual da família das Malváceas, de porte erecto que atinge cerca de 1m de altura, cultivada pelas folhas, frutos, sementes e fibras. O fruto, o quiabo, é muito utilizado em culinária.
    QUIABO – Fruto do quiabeiro , também designado quingombo , em forma de cápsula cónica, de consistência viscosa quando maduro, muito utilizado em culinária, nomeadamente na muamba.
    QUIMBANDA – (Kimbanda, Kimbandeiro, Quimbandeiro) Curandeiro; aquele que pratica a medicina tradicional. O quimbanda na tradição cultural bantu, como supremo ocultista, tem uma amálgama de poderes: é, simultaneamente, adivinho, curandeiro e feiticeiro.
    QUIMBO – (Embala, Libata, Sanzala) Aldeia rural tradicional, aldeia indígena, povoado, sanzala.
    QUINDA – Cesto sem asas, que servia para transportar cereais.
    QUISSÂNGUA – Bebida fermentada feita com milho ou com fuba.
    QUISSANJE ou Quissange – Instrumento musical do grupo dos lamelofones, constituído por uma tábua ou placa de madeira, onde estão fixadas várias palhetas ou lâminas de bordão, bambu ou metal, presas a um cavalete. Apresenta de sete a dezasseis palhetas, ou mesmo vinte e duas (muito raro). Pode ser-lhe adaptada uma cabaça truncada que serve de caixa de ressonância ou amplificador. O instrumento mantém-se preso entre as duas mãos e os dedos polegares fazem vibrar as palhetas.
    QUITANDA – Banca, tenda ou loja de comércio; negócio, venda; tratava-se, originalmente, de produtos hortícolas frescos, tendo-se esta acepção tornado extensível a qualquer tipo de comércio praticado nas mesmas condições. Tabuleiro, maleta ou quinda onde o vendedor ambulante transporta os produtos.
    QUITANDEIRO – Aquele que faz negócio em quitanda, dono de quitanda, pequeno comerciante, vendedor ambulante.
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    R
    REBITA – ( Massemba ) Farra de sanzala. Embora considerada tipicamente angolana, proveniente da área do quimbundo, resultou da aculturação, provavelmente de grupos étnicos portugueses. Posteriormente à sua formação, este bailado, em nova incorporação lusitana, foi, por esses elementos, designada por rebita. E o termo, antes restrito ao seu meio, generalizou-se à massa popular. Este género de diversão foi muito usado pelas gentes de Benguela, Catumbela e Bié.
    REVIENGA – Finta de corpo, movimento rápido em zig-zag, volteio rápido.
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    S
    SACANA – Malandro, sacariôto, sacripanta.
    SANGA – Cântaro ou pote de barro para transportar ou conservar água. Pote onde cai a água, filtrada por pedra porosa própria para purificá-la, ou o próprio conjunto pedra/pote.
    SANZALA ou SENZALA – Aldeia rural tradicional.
    SAPE-SAPE – ( Annona spp) Árvore da família das Anonáceas, também conhecida por anoneira. A árvore pode atingir 15 m de altura. As folhas, alternas, são perenes e de cor verde-escura. O fruto, cordiforme e coberto de saliências espinhosas, é segmentado, com um diâmetro de 10-12 cm, coloração exterior variando do amarelo-esverdeado ao vermelho quando o fruto está amadurecido e polpa branca de sabor adocicado. As folhas são utilizadas na medicina tradicional.
    SECULO – Ancião, velho; conselheiro do soba; homem respeitável. Corresponde a Cota, entre os quimbundos.
    SEMBA ou REBITA – Dança tradicional angolana caracterizada pelas umbigadas (sembas) dos dançarinos. Na sua forma mais genuína a dança é acompanhada por coros de sátira social a acontecimentos do quotidiano ou políticos.
    SÉTIMO ANO DE PRAIA – 4.a classe.
    SIPAIO – Polícia africano, geralmente adstrito às Administrações de Concelho e aos Postos Administrativos. Pertenceu aos Serviços de Administração Civil e actuava junto da população autóctone. O cargo era desempenhado por naturais.
    SIRIPIPI ou SERIPIPI – ( Colius castanotus) Pássaro frugívero, da família dos Coliídeos, o siripipi-de-benguela, também conhecido por rabo-de-junco-de-rabadilha-vermelha, é uma ave com 35 cm de comprimento e 45-60 g de peso nativa de Angola, característica por apresentar, em ambos os sexos, uma crista e cauda duas vezes superior ao tamanho do corpo. A plumagem é cor-de-canela, a face é negra, o peito e garganta cinzentos, o ventre alourado pálido e a rabadilha vermelha. O ninho, em forma de taça, é construído pelo casal, oculto entre a vegetação e por vezes junto ao solo, com materiais vegetais e penas. A fêmea põe 2-5 ovos que são incubados por ambos, durante 2-3 semanas. A incubação começa no momento da postura do primeiro ovo, o que provoca que o ninho tenha crias em vários estádios de desenvolvimento. Os juvenis estão aptos a voar ao fim de 17 dias. Vive em matas e na orla das florestas. Voa pausadamente, dado o comprimento da cauda, em bandos de 5-8 indivíduos em fila indiana. Alimenta-se de rebentos, folhas e frutos de vegetação variada.
    SOBA – Autoridade tradicional, chefe do quimbo ou sobado; chefe tribal, régulo. O soba, em certas regiões, é escolhido pelo conselho de sobas; noutras a sucessão é matrilinear, sucedendo-lhe um sobrinho, filho de uma irmã.
    SOBADO – Território sob administração de um Soba.
    SUMAÚMA – Enchimento seco mas muito fofo para almofadas e colchões.
    SURRIADA GALINHA ASSADA – Expressão acompanhada de gesto com os dedos, a fazer pouco de outra pessoa
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    T
    TABAIBEIRA – (Opuntia ficus indica) Figueira-da-índia; Piteira.
    TABAIBO – Designação que se dá no Sul de Angola, por influência madeirense, ao fruto da figueira-da-índia ou tabaibeira. De forma ovóide, achatado nos pólos e recoberto de inúmeros espinhos, tem uma polpa muito sumarenta e sabor agridoce.
    TACANHO – Panhonha, patarôco.
    TACULA – (Pterocarpus tinctorius) Árvore de grande porte que chega a atingir 20 m de altura, endémica das matas de Angola. A madeira, de grande dureza e resistência, branca ou vermelha com veios vermelhos, é usada em mobiliário. É uma madeira de enorme beleza.
    TAMARINDEIRO – (Tamarineiro, Tamarinheiro, Tambarineiro) (Tamarindus indica) Árvore de tronco grosso, folhas pinadas e flores amarelo-avermelhadas, que fornece boa madeira e frutos comestíveis, o tamarindo.
    TAMARINDO – Fruto do tamarindeiro, comestível e também utilizado em farmacologia.
    TCHINDELE – Homem branco
    TEMPO DE CAPARANDANDA – Há muito tempo, tempo antigo.
    TIPOIA – Palanquim de tecido p/ transportar pessoas.
    TORTULHOS – Cogumelos grandes.
    TRINCA-ESPINHAS – Pessoa muito magra.
    TUQUEIA – Peixe miúdo (seco) pescado nas anharas de Camacupa e do Moxico.
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    U
    UMBUNDO – Povo do grupo etnolinguístico Ovimbundo e uma das línguas étnicas de Angola. O falante desta língua; aquele ou o que pertence ou se refere a este grupo.
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    V
    VENDER A BANHA DA COBRA – Vender com muita lábia, vender bem aquilo que não presta.
    VIMBAMBAS – Tarecos, as coisas de casa.
    VISSAPA ou Bissapa – Moita, sarça, silvado.
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    W
    WELWITSCHIA – ( Welwitschia mirabilis) Planta descoberta pelo botânico austríaco Frederico Welwitsch no século XIX. “A primeira informação que deste vegetal chegou à Europa transmitiu-a o seu descobridor a Sir William Hooker, reputado homem de ciência, em carta, escrita de Luanda, a 16 de Agosto de 1860… Tem a Welwitschia o tronco obcónico, de cor acastanhado, que se eleva poucas polegadas acima do terreno e é na parte superior achatado, bilobado e deprimido lateralmente, atingindo por vezes catorze pés de circunferência no seu máximo desenvolvimento. Segue-se-lhe, internando-se pelo solo, uma forte raiz, que só muito para a extremidade se ramifica e se divide em radículas. Das origens dos dois lóbulos nascem duas únicas folhas, largas, rijas e persistentes, que se estendem pela superfície da terra, fendendo-se com a idade. E junto à inserção das folhas partem duas hastes ou pedúnculos sustentando pinhas escarlates, em cujas escamas se abrigam flores solitárias. A Welwitschia é curiosíssima, não apenas por invulgar, mas ainda por se apresentar sempre repetida quase exclusivamente de numerosos indivíduos da mesma espécie que dão ao terreno um aspecto especial deveras interessante… A Welwitschia não existe, porém, somente no Distrito de Moçâmedes.
    topo
    X
    XANA ou Chana – Planície, savana, charneca africana.
    XINDELE – Branco, indivíduo de raça branca; Amo, senhor, patrão.
    XINGAR – Injuriar, praguejar.
    XITACA ou Chitaca – Pequena propriedade agrícola de subsistência; terreno para plantação; lavra.
    topo
    Z
    Zamberenguenjê – estar com os azeites, estar zangado.Ver mais

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sábado, 6 de Outubro de 2012

  EXPEDIÇÂO DE HENRIQUE DE CARVALHO À LUNDA : !884-1888                                              [PDF] 

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA ...

www.teses.usp.br/teses/.../2010_ElaineRibeirodaSilvadosSantos.pdf

ou AQUI

quinta-feira, 4 de Outubro de 2012

INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA: LEMBRANÇAS DE UM MOMENTO HISTÓRICO

AUTOR: Beatriz Bissio (*)Completam-se 35 anos do fim do último grande império colonial, que fora iniciado noséculo XV quando os navegantes portugueses dominavam os mares. Um impérioderrotado no século XX em território angolano, num dos mais dolorosos episódios doprocesso de emancipação do continente africano. A América Latina esteve presentenesse processo através de dois protagonistas com papeis diferentes, porém igualmentedeterminantes: um no plano diplomático e o outro no terreno militar, Brasil e Cuba.Uma data que suscita uma reflexão sobre o custo em vidas humanas e em sacrifíciosque alicerçou o caminho para a Angola do século XXI

continua....  AQUI

domingo, 30 de Setembro de 2012

Colonização de Sá da Bandeira (Lubango): Odisseia de uma gente - I


 

CARRO BOER
Réplica à escala de 1- 5 m (construído por Jorge Rodrigues )



1884 – PRIMEIRA PARTE

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Duma Ilha para um continente
A 19 de Novembro de 1884, o vapor “Índia” acosta na baía de Moçâmedes. A bordo uma carga humana de 222 almas constituída por homens, mulheres, adolescentes e crianças. Esta carga humana, ao aportar, havia já passado pelos sacramentos do baptismo e do crisma com o nome de “Primeira Colónia de Madeirenses” destinada ao povoamento do planalto Huilano.
Registe-se que seis meses antes, este “Índia”, nesta mesma baía, “descarregou” 44 emigrantes entre estes 16 oriundos da Madeira. Esta gente foi despachada a pé para a Humpata, 1800m de altitude, 180km de Moçâmedes. A caminhada foi calcorreada pela íngreme portela do Bruco, via “Colónia Penal do Txivinguiro”. Por via do choque térmico – calor de Serra – Abaixo contra a exposição às chuvas e frias noites do planalto - muitas pessoas adoeceram. O envio destes colonos para a Humpata constituiu, por intenções óbvias, o embrião do estabelecimento de portugueses para ombrear com a irrequieta e problemática comunidade bóer ali instalada em Janeiro de 1881. Recorde-se que no local onde foram fixados estes recém-chegados, existiam alguns casebres degradados obra de sete homens e uma mulher, parcela proveniente da fracassada e dissolvida colónia “Júlio Vilhena”, de Pungo-Andongo/Malange, composta por 41 salteadores e vadios requisitados às cadeias de Lisboa. Esta fracção, expirado o período das regalias de subsídio a juntar a ocorrência dum homicídio por esfaqueamento, abandonou a Humpata deixando as terras como no dia em que ali chegou – Março de 1883.


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Navio Índia – Internet Álbum de Navios Portugueses´


Tem assim início a realização do sonho de Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, partidário do funesto liberalismo do inconstante D. Pedro IV, (primeiro imperador do Brasil!). Foi este general sem um braço, perdido em combate no Alto da Bandeira contra o exército Miguelista que, feito Marquês de Sá da Bandeira e depois Ministro da Marinha e Ultramar, no reinado de D. Maria II, concebeu um plano para o povoamento, por portugueses, do planalto da Huíla. 


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Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo Marquês de Sá da Bandeira
 


Os planos de Sá da Bandeira (falecido em 1876) foram humanamente bem intencionados. Mas, passados à prática na vigência do ministro Pinheiro Chagas (crítico de Sá da Bandeira), como se verá neste breve esboço no tratamento dado aos madeirenses, todos os intervenientes nos preparativos de recepção e fixação destes, não deixaram saudades. No dia 20 de Novembro o governador de Moçâmedes, capitão Sebastião Nunes da Mata, nomeia Câmara Leme director desta primeira colónia baptizada de Sá da Bandeira. Este Câmara Leme, também madeirense, já conhecia bem a região inclusive o local para onde seria conduzida esta “Primeira Colónia”.
Debilitados devido ao enjoo, péssima alimentação e deficiente higiene nos 36 dias que durou a viagem, os “passageiros” são levados em pequenos botes para terra (a ponte cais, obra de Câmara Leme, encontrava-se já assoreada). Ali, o que viram e sentiram? No horizonte, o desolador deserto; sob os pés, muitos deles descalços, areia escaldante; sobre a cabeça, um sol impiedoso. Em grande sofrimento, clamavam por água para matar a secura e um tecto que os aliviasse da inclemente insolação. Apelo inútil: a água foi distribuída a conta-gotas, e um tecto simplesmente não havia sido providenciado e nulas as possibilidades de o improvisar.
 
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Da capa do livro: "Escravos e camponeses no sul de Angola: 1840-1826
   
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Da capa do livro: "Escravos e camponeses no sul de Angola: 1840-1826


Esgotada a paciência, na presença do governador, os até aí submissos ludibriados, enfurecidos, em uníssono, exigiam a sua imediata repatriação. O governador apela à calma e paciência enquanto, ao mesmo tempo, astuciosamente, evocava os contratos assinados e os subsídios de 30$000 réis avançados no momento do engajamento na Madeira. Entre os habitantes que indignados assistiam ao triste espectáculo, um deles, pescador de profissão, colocou à disposição um armazém para instalação precária dos recém-chegados.
 Aparentemente amainados os ânimos, com crianças e bagagem às costas, foram-se amontoando, qual rebanho de carneiros, no disponibilizado armazém. Ante tamanha adversidade, a confiança e a esperança que os animou ao embarcarem na Madeira foram esmorecendo.
Para aumentar o desânimo daquela pobre gente, por desleixo das “autoridades”, nem os meios de transporte para o Lubango haviam sido garantidos. Só nesse momento foram solicitados (via terrestre) à Bibala, Capangombe, Bumbo e Humpata os carros possíveis. Os solicitados ao Bumbo, por recusa do proprietário, foram tomados à força. Por tal incúria, de uns 10 dias previstos de permanência na inóspita vila de Moçâmedes, prolongou-se – calculo – por entre 20 e 40 dias.
Os efeitos dessa vergonhosa negligência foram deveras nefastos e desesperantes. Enquanto os homens deambulavam pelas tascas a afogarem as suas desilusões em aguardente e a provocar desacatos, as mulheres e crianças, amarguradas, regavam com suas lágrimas as areias escaldantes do deserto; lágrimas de saudade da sua “Miséria na Madeira”, agora tão distante, para onde nem lhes era permitido escreverem: não fossem as desanimadoras notícias desmotivar os conterrâneos das angariações em curso para aquele enganoso “eldorado”…
Do mar para a serra – penosa viagem
Com intervalos consideráveis, conforme as distâncias de origem, os carros (4 rodas puxados por espanas de 20 bois) e carroças (2 rodas puxadas por 10 bois) foram chegando a Moçâmedes. Porque para além do preço da viagem era cobrada certa importância por cada dia de espera, a “Colónia” foi fraccionada em três grupos, com partidas entre princípios e fins de Dezembro.  


CARRO BOER
Carro boer puxado por várias juntas de bois (Serpa Pinto)
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Carro boer puxado por várias juntas de bois
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Carro boer atravessando o Caculuvar
 

Primeira etapa – Nas referidas viaturas, com toldos montados, sobre as bagagens foram amontoadas as mulheres e crianças. Os homens e adolescentes, por falta de espaço nos carros e necessidade dos seus braços, marcharam a pé na vanguarda do “comboio”, com a tarefa de suavizar os buracos da “estrada”. Devido ao forte calor e escassez de água o percurso pelo deserto até próximo da Bibala, era feito, salvo imprevistos, em dois “trekes” (jornadas) de 3 horas: a primeira, das 5 às 8; a segunda, das 17 às 20, a uma média de 3km/h. De dia, sob a rala sombra das esparsas espinheiras, as pausas eram aproveitadas para confecção de alimentos e pasto dos bois. A da noite, para “repouso” das pessoas e descanso dos bois a ruminarem o insuficiente e seco capim.

 
PORTELA DO BRUCO
PORTELA DO BRUCO “ A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
 

Segunda etapa – Ao 12 º dia, percorridos 170km, o “comboio” chega à Bibala (Vila Arriaga desde 1912), 800m de altitude, na falda da imponente escarpa da cordilheira da Chela. Para a gente e bois, os dias de sufocante calor e carestia de água tinham terminado. Mas faltavam ainda 80km, agora com as condições climáticas invertidas – chuva e frio – para alcançarem a “Terra da Promissão”.
A partir da Bibala o trajecto da íngreme ascensão para contornar a alcantilada escarpa, exigia dos peões tapa-buracos, muitas vezes encharcados, esforços redobrados. Os “trekes”, face aos perigos da precipitosa e esburacada “estrada” e de um possível ataque de leões, passaram a ser percorridos em marcha mais lenta: das 6 às 9 h e das 15 às 18. Os peões e “tripulações” (trios) dos carros rapidamente improvisavam, com estacas e rama, uns cobertos para abrigo e protecção das fogueiras, atiçadas durante a noite.
Galgada a serra – talvez numa semana – a primeira fracção da “Primeira Colónia de Madeirenses”, contornada a portela da Quilemba, avista o planalto huilano: a “Terra da Promissão”. E a 25 de Dezembro de 1884, sexta-feira, de zero para 1750m de altitude, acampa finalmente na margem direita do rio Caculuvar, onde é “despejada”.


Sem Título-1
Rio Caculuvar (foto internet de de João M. Neto)
      

Mais desencantos – Barracões
Usei o termo “despejada” por considerar o mais ajustado e consentâneo à realidade episódica por que passou esta primeira colónia. Enquanto estes aguardavam em Moçâmedes pelos meios de transporte, foi confiado a um agricultor da Copola – Serra-Abaixo – admitido como colono, para com o auxílio do chefe da Huíla, capitão Pedro Augusto Chaves, proceder à construção de barracões para acampamento temporário dos colonos. Só que à chegada destes ao local, previamente preferido, encontraram apenas o lugar, o “colono extra” de braços cruzados e alguns machados à espera de homens para os manejar. Do chefe da Huíla, que por obrigação do cargo deveria estar presente, nem sinais. Este encontrava-se – onde por sistema permanecia por longos períodos – na Chibía, a gerir o seu monopólio comercial, os grandes campos de cana-doce e os alambiques a destilarem aguardente; prova de absoluto desrespeito pelos insignificantes colonos chegados à área do concelho à mercê da sua autoridade. Por abrigo para os colonos, à deriva, do rigor da chuva, valeu-lhes a boa-vontade dos donos dos carros, permanecendo ali por alguns dias e a cedência de duas lonas estendidas sobre uma armação de paus com uma elevação em ângulo obtuso.  

CASA DE COLONOS CHIBIA
Casa de colonos – Chibía



Um dia após a chegada da colónia, homens e adolescentes, enquanto uns empunhando os machados davam início ao corte de paus na área circundante, outros os transportavam, aos ombros, para o local da construção. Terminada a estrutura do primeiro barracão, por falta do capim – em Janeiro esta poácea está ainda a meio crescimento – preferido para coberturas, este foi coberto provisoriamente com várias camadas de rama até atingir o grau de inclinação necessário para escoamento das chuvas. Nas paredes, de pau-a-pique, para protecção do vento, foi também aplicada uma espessa camada de rama presa por varas transversais atadas com malói.
Concluído o primeiro barracão segue-se a construção de outro, talvez com o reforço do pessoal do segundo grupo (não encontrei registo da data da chegada deste). A 18 de Janeiro de 1885 chega ao local o terceiro grupo, ficando assim para triste alegria de todos, reunificada a “Primeira Colónia de Madeirenses”. A inauguração oficial da colónia Sá da Bandeira teve lugar a 19 de Janeiro de 1885 – Segunda-Feira.
Já que principiei vou concluir a história dos barracões. Depois dos dois atrás descritos, a um ritmo mais lento, foram construídos mais dois. Em meados de Maio a espécie de capim “Muhóque”, próprio pela qualidade e tradição para coberturas, está pronto para corte. Porque os bois mesmo em verde mal lhe tocam e resiste às pragas de insectos e lagartas, a sua vegetação espessa, em terrenos abertos, abunda em todo o centro e sul de Angola. Assim, foi fácil a ceifa da quantidade necessária para cobrir os quatro barracões e reserva para algum remendo. As coberturas foram trabalhadas por homens proficientes na arte de colmar. Em simultâneo, todas as paredes, de pau-a-pique, foram barreadas. Por estes barracões passaram as sete colónias de madeirenses: as duas de 1885, e as anuais – 1888 a 1892. Em 1890 serviram ainda de abrigo durante a instalação da colónia do Caculuvar – de má memória – a historiar em capítulo próprio.
Cumprida a sua utilidade, os barracões, votados ao abandono, foram-se degradando e as madeiras, ressequidas, acabaram em cinzas nas trempes do povo das redondezas. Anos depois, como sinal de sentido respeito pelo sítio e pela gente que lhe deu vida, foi erigida uma réplica destes, assistida com os indispensáveis cuidados de conservação até a década de quarenta. Este, descurada a manutenção, aos poucos, teve o mesmo fim dos primeiros. Próximo deste foi erigida uma pequena capela a tijolo e telha e em simultâneo murado o cemitério onde repousam os que ali pereceram.

    
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Desde o primeiro ano da chegada dos madeirenses, 115 anos decorreram. A odisseia dessa gente passou à história; mas os símbolos permanecem indeléveis: O 19 de Janeiro consagrado a feriado da cidade do Lubango; o Lugar conserva o nome de Barracões; a Capela mantém-se erecta e de portas abertas; o Cemitério, incólume e silencioso, esconde no seu seio os que ali dormem até à consumação dos séculos. E, em posição de relevo, a assinalar o Sagrado Lugar, o memorável Monumento no qual, na face orientada ao Atlântico, gravada a Saudosa e Justa Homenagem:
  

NESTE LOCAL INSTALARAM-SE

 OS PRIMEIROS COLONOS MADEIRENSES

 EM 1885

  
BARRACÕES 8 A
 
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Monumento aos colonos madeirenses  Foto de Armindo Ferreira da Colorama Luanda
           
Segunda Colónia
A 19 de Junho de 1885, o barco de guerra “África” lança âncora na baía de Moçâmedes. A bordo um contingente de 336 emigrantes, provenientes da Madeira, com destino, tal-qualmente à primeira colónia, ao planalto da Huíla. Este contingente passa a ser conhecido por “Segunda Colónia de Madeirenses”. Ao desembarcarem, para descrédito e vergonha dos governantes da vilória de Moçâmedes, assiste-se à repetição do episódio ocorrido com a primeira colónia sete meses antes: não foram providenciados atempadamente os meios de transporte para o destino final. Motivo? Porque o governo pagava (quando pagava…) tarde e mal os serviços prestados pelos transportadores. Daí os proprietários dos carros – na maioria bóeres – só aceitarem trabalhos mediante pagamento adiantado.
Sem outra alternativa o governador viu-se obrigado a entrar em negociações com os “temidos” bóeres da Humpata. Ultrapassado o delongo impasse, os carros desceram a Moçâmedes; e a 1 de Agosto, após uma enervante espera de 40 dias, a colónia, em conjunto, enceta viagem em caravana formada por 30 grandes carros-bóer.
O percurso desta segunda colónia, comparado aos dramas da primeira, contados nos capítulos anteriores, pode-se considerar sofrível. Em Moçâmedes, essa gente, embora mal acomodada, ali e até ao sopé da Chela, graças à época de cacimbo, o calor foi suportável. A partir dali, gradualmente, foram sentindo o frio das altitudes; mas, em compensação, livres da chuva e consequentes atoleiros que muito contribuiu para a redução do tempo do trajecto. E o mais importante, a expectativa destes na indescritível consolação do reencontro com os seus patrícios, com tecto preparado para os acolher, cumprido no dia 19 de Agosto de 1885 – Quarta-Feira.
   
CARRO BOER  DE PASSAGEIROS – HUMPATA “A Colonização das Terras Altas da Huila”de Carlos Alberto Medeiros   



CARRO BOER – MOSSÂMEDES “A Colonização das Terras Altas da Huila”) de Carlos Alberto Medeiros
    
Breve pausa
Vou interromper aqui a história das Colónias Madeirenses para lembrar, em poucas linhas, um pormenor deveras desonroso para os fautores e de meditação e tristeza para todos os huilanos que se prezam. 
O Lubango – pré Sá da Bandeira
Topografia – Tratava-se de uma colina plana, abraçada a noroeste, oeste e sudoeste pela Cordilheira Marginal; e a norte, este e sul por densa mata de espécies lenhosas, arbustivas e frutíferas. Situava-se entre os rios Mapunda e Mucufi. Estes detalhes poderão ser apreciados num esboço cartográfico de 1890, a anexar.
Toponímia – Existem duas versões sobre a origem do nome: “Caluvango”, nome dum soba dali; e “Lubango”, nome dum rio, afluente do Mucufi. Esta terra, entre altas serras e rios de curso permanente, representava o território real embelezado com a sua “Ombala”, sob frondosas mulembas, residência do soba (Rei) e da sua corte. Em derredor desta habitavam os súbditos do monarca a cuidar dos arimbos e gados. Em 1874, descoberta esta pequena e edénica terra, foi logo cobiçada e eleita para estabelecimento de colonos: madeirenses e outros. Todavia, a zona teria que ser primeiro “desnegrada”!...
O governador de Moçâmedes, sem efectivos militares à altura para expulsar o soba e a sua gente, confia a “obra” ao capitão Nestor da Costa, latifundiário na região da Bibala no cultivo de algodão, para exportação, e cana-doce para produção de aguardente. Este capitão, com a mira no saque e uma oportunidade para a captura de escravos para as suas plantações, com uma força formada por seus serviçais e outros indígenas da zona (impelidos), ataca o temível soba conhecido por “Cabeça Grande”. Os invasores, após breve escaramuça, foram repelidos e perseguidos até grande distância.
O referido soba, ao tomar conhecimento de que estava a ser preparada nova invasão, esta com o auxílio dos aguerridos bóeres, a cavalo, fugiu para a Cuama. Sem o seu rei o povo dispersou-se deixando a região deserta. Asneira semelhante havia sido praticada em 1881 quando, para a instalação dos bóeres na Humpata, muitas famílias indígenas foram dali deslocadas. Mas com uma diferença; “foram gratificadas!”: fazendas no valor de 46.080 réis (o equivalente a 8 vacas) e três ancoretas de aguardente (60 litros) comprada em Capangombe a 160 réis a canada (1,4 l). Muito generoso esse Nunes da Mata, governador de Moçâmedes! Muito mais gastou ele na deslocação para presidir à cerimónia de inauguração da colónia bóer, chamada de “S. Januário”, a 19 de Janeiro de 1881.
 
Disseminação dos madeirenses


Sob a “direcção” do emproado e prepotente Câmara Leme os 558 colonos, amontoados nos Barracões, foram assim distribuídos: Chibía-44 (director desta nova colónia, o capitão Joaquim Afonso Laje); Humpata-55; sede do concelho da Huila – 32 (não assinalados). Nestas localidades a população branca anterior era: Chibía – 3; Humpata – 44 (além de cerca de 350 bóeres); Huíla – à volta de 100. Após este desmembramento ficaram nos barracões 424 pessoas. Estes números poderão ser apreciados nos mapas a inserir mais adiante.


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 Palácio de Câmara Leme - “Os Colonos ”de Dr. António Trabulo


Nascimento físico da colónia Sá da Bandeira
Ainda em 1885, homens e adolescentes, enquanto uns poucos ficavam de guarda nos barracões, os demais, ao amanhecer, de enxadas e pás aos ombros, calcorreavam os 5km até aos antigos domínios reais, agora “desinfestados”. Face aos perigos de emboscadas da gente do soba “Cabeça Grande” que embora escorraçado não se deu por vencido, o grupo era escoltado por três praças e uma dúzia de colonos (que nunca tinham visto uma arma de fogo) armados com obsoletas e ferrugentas espingardas de “pederneira” do século XVII. A cavalo, chicote na mão e revólver de tambor à cinta, seguia o D. Câmara Leme. Os primeiros trabalhos consistiam no rasgo de levadas a partir dos rios já referidos, na desmatação da área prevista para a abertura das ruas, construção de casas e arroteamento de pequenas parcelas para culturas diversas. Ao entardecer o grupo volta aos barracões. Esse vaivém prolongou-se por alguns meses. Para além dos perigos das emboscadas dos nativos havia também o perigo de ataques de leões que abundavam na zona; daí não serem aconselháveis saídas à noite.    


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LUBANGO SECULO XIX
Lubango século XIX       
LUBANGO SECULO XIX R PINHEIRO CHAGAS
Rua principal do Lubango, nos fins do século XIX; corresponde a actual Rua Pinheiro Chagas
“A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
   
RUA PINHEIRO CHAGAS
LUBANGO 1969 RUA PINHEIRO CHAGAS  “A Colonização das Terras Altas da Huila”
de Carlos Alberto Medeiros
 



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A Colonização das Terras Altas da Huila”
de Carlos Alberto Medeiros    

Mais contingentes e seus frutos


De 1888 a 1892 as populações das colónias já citadas foram aumentando com a chegada de mais madeirenses aos Barracões e em seguida deslocados gradualmente até um total de: Chibía – 667; Humpata – 91; Huíla – nada consta! … Os restantes – 823 – ficaram nos Barracões, com destino à colónia Sá da Bandeira e a do Caculuvar. A movimentação e números descritos constam de mapas oficiais a incluir mais adiante.
Em Sá da Bandeira, com os números de homens válidos a aumentar a cada ano, foram abertas novas levadas, distribuídos talhões para a construção de casas de pau-a-pique e capim e alargadas, com arados, as áreas para a cultivo de: cereais, legumes, leguminosas, espécies tuberculosas e bulbosas. Foram também plantadas, para ensaio, algumas espécies de árvores frutíferas.
No primeiro e segundo ano os resultados agrícolas foram desanimadores. Causas: insuficiência de bois de tracção para as charruas; sementeiras efectuadas fora das estações próprias; sementes de má qualidade; e o pior, incompetência e teimosia dos pseudotécnicos agrários importados de Portugal. Graças aos conhecimentos levados da Madeira e as experiências adquiridas no terreno, os proveitos foram melhorando progressivamente. Há que reconhecer, embora pouco amistosos, a utilidade dos bóeres na venda de bois mansos, cangas, peaças, brochas, etc. Artes que, na época, só eles dominavam.


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TRABALHOS AGRICOLAS LUBANGO XIX
TRABALHOS AGRICOLAS LUBANGO XIX “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros


Imperdoável – símbolos perdidos


Lamentavelmente, para nossa vergonha, da “Ombala” nenhuma mulemba foi poupada nem sequer assinalado o seu lugar. O rio “Lubango”, devido ao seu desvio na fonte para as levadas, desapareceu: nem uma simples rocha foi colocada a assinalar o local do seu assoreado leito. Sorte semelhante sofreu o rio “Mucufi”. Não obstante mais caudaloso que o rio “Lubango”, por causa das sucessivas captações na sua cabeceira, o remanescente, ainda no seu curso superior, foi açudado, desviado para a levada que irrigava os campos de trigo do bairro da Machiqueira (de Machico). Esta levada acaba represada para mover os rodízios duma moagem de cereais. A partir dali, às curvas e contracurvas, transforma-se em regato e volta ao leito materno já confluído com o rio Mapunda, originando o Caculuvar que deu nome aos barracões e à maldita colónia. Depois de lhe roubarem toda a água, o Mucufi passou a expressão de mulola e reservatório de lixo. O rio Caculuvar vai engrossando ao receber os rios Nompaca, Tximúcua, Lupolo (ou Huíla) Txipumpunhime e alguns riachos. Depois de oferecer um pouco do seu caudal para regar os grandes campos dum outro Caculuvar, Txahungo e Missão Católica da Txihíta (Quiíta) entrega as suas águas ao rio “Cunene”, cujo nome corrompido de “Inênê”, significa enorme.
 
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Entre a maledicência e a verdade
Pelos fracassos, em todas as áreas, de colonização dirigida, a culpa era sempre assacada aos madeirenses, apodados de: preguiçosos, incompetentes, bêbados, etc. e nunca assumida pelos irresponsáveis mandões. Confirmando-se assim um desabafo do ministro Sá da Bandeira: “Que os fracassos do desenvolvimento de Angola deviam-se aos maus governantes em Portugal e aos péssimos afilhados enviados para Angola”. Sem pretensões a juízos maniqueístas o que descrevi e o que irei acrescentar corresponde à verdade.
Foram esses humildes madeirenses, tão maltratados fisicamente e ridicularizados moralmente pelos “senhores” idos de Portugal e até por um conterrâneo, com todos os defeitos que injustamente lhes têm sido imputados, ninguém, minimamente esclarecido, se atreveria a desacreditar o seu gratificante legado. Foram eles, fustigados pela chuva, sol, vento e frio que desbravaram, aplanaram e – milagre (!) – conquistaram a merecida confiança e aproximação dos dóceis muílas tão hostis – com sobejos motivos – aquando da usurpação das suas terras.
  
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Foi graças  ao labor desses “analfabetos”, que em 1889 a colónia Sá da Bandeira foi elevada a concelho. Lamentavelmente como primeiro administrador o famigerado Câmara Leme. Foi ainda por mercê das obras dos colonos que se “abriram as portas” da Chela para a entrada de emigrantes portugueses europeus – entre eles gente de qualidade – que, com capitais próprios, diversificaram os ramos de actividades: Indústria, pecuária, agricultura e, por inerência, o comércio. Foi pelas mãos calejadas e assisadas iniciativas que essa gente, antes separada pelo Atlântico, agora lado a lado, degrau em degrau, imprimiram, económica e demograficamente, mais vitalidade justificando, em 1901, a criação do distrito da Huíla com capital e nome de Vila Sá da Bandeira, com 1248 habitantes (contra os 1020 de Moçâmedes).
Após 18 anos (obras públicas à portuguesa) desde o início do assentamento da mini linha-férrea (bitola 0,60m) em Moçâmedes, esta atinge o Lubango em 18 de Maio de 1923 e, sobre os seus carris, chega e apita o primeiro mini comboio, e a vila Sá da Bandeira categorizada a cidade. (Em 1939 foram iniciados os trabalhos do seu alargamento para bitola 1,067m).
“Colónia do Caculuvar” – colónia ou campo correcional? 
Em 1890, a uns 4km a sueste dos barracões, foi constituída a colónia do Caculuvar orientada por um subdirector (anónimo!...) subordinado ao director da colónia Sá da Bandeira, Câmara Leme. Nesta “sucursal” foram colocados 247 colonos dos 701 chegados ao Lubango nesse ano. O tempo de vida (omitido) desta colónia foi de curta duração. Motivo? Péssima administração e os inconcebíveis abusos do repugnante subdirector, de conivência com Câmara Leme. João de Almeida, no seu livro Sul de Angola, pagina 296, sobre os desmandos cometidos pelo referido subdirector, deixou-nos o seguinte testemunho:
“Tendo este, uma loja por sua conta, obrigava todos os colonos a comprar-lhe os géneros por preços excessivos, não permitindo que fossem adquiri-los a outra qualquer parte, antes prendendo e castigando corporalmente, duma forma bárbara, aqueles que transgrediam a proibição, correctivo que também aplicava àqueles que se permitiam à liberdade de fazerem observações quanto ao verdadeiro rumo a tomar na abertura das levadas ou direcção dos trabalhos. Este Director da Colónia foi degredado para Moçambique”. Grande castigo, louvável justiça!...
Consequências – A colónia foi extinta, posto termo à imigração por contrato, regresso de alguns colonos à Madeira, enquanto os outros, voluntariamente, transferiram-se para novos lugares menos opressivos.
 “O Cavalo-marinho e cascos d´aço        
Ao trazer à tona os “feitos” do carrasco da colónia do Caculuvar, não devemos olvidar o cruel Câmara Leme (alcunhado de “navio” por andar sempre de proa empinada, possuir câmara e leme), sempre de “cavalo-marinho” na mão aplicando-o com frequência sobre o “lombo” dos seus concidadãos. Conta-se que na origem dos elevados impostos e outras exigências incomportáveis face ao baixo rendimento dos colonos, estes, encabeçados por Manuel Henriques, marcharam até à administração em sinal de protesto contra os referidos excessos. A resposta do administrador do concelho, Câmara Leme, foi rápida e “satisfatória”, (para ele!). De chicote nas patas e biqueira d’aço nos cascos flagelou e escoiceou o indefeso e pacífico Manuel Henriques, abandonando-o num estado lastimoso. Esta barbaridade pode ser confirmada pelos seus numerosos descendentes.
Admite-se que não foi por acaso a transferência de Câmara Leme para a Ilha de S. Tomé no final do século XIX.
Recompensa 
Cerca de meio século após o enunciado nos capítulos anteriores, foi colocado, no liceu Diogo Cão, como professor, o Dr. Mendonça, mais conhecido, devido à sua compleição atlética, por “Mendonça das Forças”, natural da Madeira. À sua estatura física sobrepunha-se o saber e competência na profissão que abraçara. Admirável qualidade, mas excedida pelo seu nobre carácter e sentimentos filantrópicos, em especial para com os seus conterrâneos no Lubango, já na ordem dos vinte mil.
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Liceu Nacional Diogo Cão

A este homem, culto mas em contrapartida humilde, (discípulo de Baco), se ficou a dever uma louvável acção jamais pensada pelas gentes do Lubango. Foi este homem que proporcionou grande alegria a um grupo de colonos, alguns octogenários, entre eles o citado Manuel Henriques, organizando e acompanhando esse grupo até à Madeira numa romagem de saudades aos cantinhos que os viu nascer. BEM-HAJAS, “MENDONÇA DAS FORÇAS”! E que o lugar no cemitério dos Barracões, onde dormes, seja honrado de harmonia com a tua conduta nessa terra que tanto amaste e onde viveste, feliz, a maior parte da tua vida.
Os porquês da emigração dos madeirenses para Angola 
Afinal qual a política que animou os madeirenses a emigrar para a longínqua Angola quando outros mundos havia, mais convidativos? Este capítulo, que deveria constituir o exórdio deste meu escrito preferi inseri-lo aqui. Mais, porque ficaria truncado sem uma pitada relativa à história da Madeira, aqui fica o essencial da intenção em mente.
O arquipélago, nomeado de Madeira, já havia sido avistado pelos navegadores espanhóis que colonizaram as ilhas Canárias, no século XIV. Todavia foi João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, em 1418, e Zarco e Bartolomeu Perestrelo, em 1419, os primeiros a pisar, respectivamente, as inabitadas ilhas de Porto Santo e da Madeira. Como recompensa, pelo achado, estas ilhas foram divididas em três capitanias: Funchal, para Gonçalves Zarco; Machico, para Tristão Teixeira; Porto Santo, para Bartolomeu Perestrelo.
Estes senhores, endinheirados, inteligentes e bons empreendedores, com homens recrutados em Portugal e noutros pontos da Europa, lançam mãos aos trabalhos primordiais: abertura de canais de rega (levadas), construção de paredões em pedra para nivelamento dos poios (socalcos), desmatação e arroteamentos. À medida que os trabalhos avançavam iam sendo ensaiadas diversas culturas: gramíneas, leguminosas, vinhas, cana-doce, árvores de frutos tropicais, mediterrânicos, etc. Foi também introduzido gado, principalmente bovino e suíno. Os resultados foram satisfatórios. Em poucos anos a ilha goza de auto-suficiência alimentar. Zarco e Tristão não chegaram a saborear os frutos dos seus empreendimentos, conquanto os seus herdeiros empenharam-se, com determinação, na continuidade da obra.
Mais tarde o povoamento foi alargado em donatarias a favor dos servidores do rei (D. Manuel I), como recompensa de serviços prestados à Coroa ou à ordem de Cristo. No século XVI foi intensificado o seu povoamento (entre eles um pequeno número de escravos negros e das Canárias) para a preservar de cobiças estranhas. Todavia, em 1801 – 1802, por alguma justificação, foi ocupada pela Inglaterra, e novamente em 1807 – 1814, como prevenção a uma possível investida de Napoleão Bonaparte. Estas ocupações vieram a revelar-se proveitosas, traduzidas no alargamento das relações comerciais entre as duas partes.
A partir dos finais do século XV até meados de XVII, a Madeira viveu períodos de apreciável prosperidade resultante das exportações de trigo, açúcar de qualidade, vinhos afamados, manteiga, pescado, etc., etc. Porém, abandonado o cultivo de trigo a juntar as abundantes produções de açúcar do Brasil e outras partes da América obtidas com o vergonhoso trabalho de escravos – mais barato, portanto – os produtos da Madeira, à excepção do vinho, perdem competitividade. Em consequência instala-se a carestia e a ilha entra em declínio. Para pioria da momentosa situação, a “guerra” entre os irmãos D. Miguel, absolutista, e o fanático e ganancioso D. Pedro IV, liberal, contagiou também a Madeira provocando agitações e, como aconteceu em Portugal, a política foi roubar os bens da Igreja, e dos vencidos miguelistas, em benefício dos oportunistas liberais.
Com o declínio da economia à vista, parte da população – já numerosa – envereda pela emigração para as Américas e África do Sul. Mas, para efectivar o objectivo, tinham que dispor de dinheiro para as passagens. Como nem todos, com o desejo de emigrar, possuíam qualquer pecúlio, os menos capacitados profissionalmente, tiveram que sujeitar-se a trabalhar para os donatários em regime parciário: uma parte para o senhor das terras e quatro para os trabalhadores, alojados em sanzalas. Os proveitos obtidos, mal davam para a sua alimentação.
Ora, com tal modo de vida e sem esperanças de melhores dias, aquela gente, para se libertar do jugo dos seus senhores, facilmente concordou emigrar para Angola aceitando as condições dos contratos que consistiam no seguinte: transporte da Madeira ao Lubango; fornecimento de sementes; alfaias agrícolas; objectos para uso pessoal e para defesa; gado bovino e suíno; atribuição de 2ha de terreno; abono de 30.000 réis no acto do contrato na Madeira; subsídio diário, durante um ano, de 300, 200 e 100 réis para, respectivamente, homens, mulheres e aos menores de 18 anos. Metade destas importâncias nos seis meses seguintes. Como argumentos convincentes os contratadores fizeram-lhes a imagem paradisíaca do Lubango, encobrindo quão difícil seria lá chegar. Sobre o abono de 30.000 réis desconheço se foi por pessoa ou por agregado. Para aquela gente, literalmente carente, confiante na oportunidade oferecida, decerto com um “seja o que Deus quiser”, rumaram ao seu destino. Mas, pelo o que descrevi e o que irei acrescentar, a aventura dos primeiros tempos foi-lhes bem adversa. 
Destes subsídios – nem sempre pagos pontualmente – era descontada certa percentagem para a construção do palácio de Câmara Leme!
Para se compreender o valor da moeda réis, vou dar os preços de alguns artigos, por quilo e litro e, entre parêntesis, o custo na Metrópole: açúcar, 600 réis (260); azeite, 800 (360); vinho, 400 (100). O preço médio de um boi bravo (não preparado para tracção) era de 12.000 – 15.000 réis; um boi de carro (de canga), 20.000 – 30.000; um carro bóer, 700.000. Para comparação, os preços de alguns frutos produzidos pelos agricultores, conforme as leis de abundância e escassez, em réis e por quilo eram: trigo 60-100; milho, variedade dente de cavalo (branco) e catete (amarelo), 30-60; batata, 30-50; batata-doce (cinco bicos), alimentação predilecta dos madeirenses, 15-20 réis.
Esclarecimento 
Nomes, factos e datas desde o primeiro recrutamento – 1884 – na Madeira até ao último parágrafo, servi-me de apontamentos extraídos das obras “Sul de Angola” e “Terras Altas da Huíla” da autoria de João de Almeida e Carlos Medeiros, respectivamente. Lamentavelmente com lapsos imperdoáveis: Citam nomes e feitos de gente originária de Portugal mas dos madeirenses, mesmo com as consultas aos arquivos com os registos dos colonos, nenhum nome nem local de nascimento foi mencionado. Encontrei apenas números!...
Quanto às peripécias e desenganos sofridos pelos “anónimos” madeirenses, foram-me transmitidos, há 26 anos, por meus primos José e Ricardo, nascidos nos princípios do século XX, que lhes foi contado por seus pais Maria e João Ladeira, que os viveram ou ouviram de quem os viveu.
Ainda e por oportuno, eis algumas passagens do livro “OS MADEIRENSES NA COLONIZAÇÃO DO BRASIL”, de Maria Licínia Fernandes dos Santos: “Na história da Madeira, a problemática da sua participação na colonização do Brasil tem permanecido à margem das dominantes preocupações dos estudiosos. De facto, desconhecemos estudos aprofundados sobre a emigração de madeirenses para o Brasil nos séculos, XVI, XVII e XVIII. Dada a função crucial da emigração em todos os planos (económico, social, demográfico e cultural), esta situação não pode deixar de surpreender. Simultaneamente, sabemos que as condições técnicas da produção de açúcar, (…) depois de testadas na ilha da Madeira, foram transplantadas (…) para o Brasil, assim como as primeiras socas de cana.
Esta singular realidade e a insólita situação, constatada no decurso das nossas pesquisas, de os historiadores se referirem frequentemente ao fluxo emigratório de açorianos para o Brasil (…) quase esquecendo o importante contributo dos madeirenses nesse processo, constituíram para nós um estímulo acrescido na realização deste trabalho.
As nossas pesquisas começaram na Universidade de Coimbra, Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, prosseguindo no Funchal e no Recife, terminando no Rio de Janeiro. Note-se que também Santa Catarina, região que não tivemos oportunidade de visitar, deverá ter documentação de suma importância para melhor conhecimento da presença madeirense, no Brasil. (…) Quantos pormenores não poderíamos revelar se conseguíssemos encontrar alguns desses documentos?
Filhos da diáspora no período áureo da História Portuguesa, os madeirenses manifestam no decurso dos séculos uma tendência bem marcada para a emigração e, de entre os seus destinos, o Brasil. Particularmente significativo foi o fluxo madeirense para o Brasil não só de soldados e agentes da burocracia régia, como também de colonos para o arroteamento das terras e de operários especializados que construíram os engenhos e os colocaram em movimento.
De referir ainda que o embarque clandestino, a partir de 1779, levou muitos madeirenses para o Brasil. A porta mais segura de saída clandestina para aqueles emigrantes eram, então as ilhas Desertas. (…) De preferência a Deserta Grande, onde os deixavam na véspera de passagem de um veleiro que navegava periodicamente entre a Madeira e o Brasil.
Acrescente-se ainda a fuga à justiça por parte de muitos madeirenses que partiram para o Brasil como homiziados.
Finalmente, a intolerância religiosa vai ela, também fomentar a emigração madeirense para o Brasil. Com efeito, observa-se a fixação de muitos cristãos-novos da Madeira na área de Pernambuco, assim como outras famílias, que se transferem para a nova colónia, principalmente ao longo da segunda metade do século XVI, a que não é alheia a decadência da produção açucareira madeirense.
A Madeira foi entreposto, estação de passagem para o Brasil (…). Canas-de-açúcar, espécies vegetativas, gado, tudo foi daí … Que documentos haverá disso? Foram daí as vinte primeiras famílias que fizeram sementeiras de brasileiros … Haverá documentos disso? Até o nome lhe não sabemos …
Infelizmente, continuamos a desconhecer os registos sobre estas famílias. No entanto, estamos certos da presença madeirense no Brasil desde o início da colonização (…). Assim e como os documentos nos indicam, D. João III, em 1530, enviou Martim Afonso de Sousa num navio que, segundo alguns Historiadores, levava cana-de-açúcar da Madeira, para um determinado local do litoral do Brasil (…). Que na ilha da Madeira um cristão-novo pediu licença para embarcar com a esposa e quatro filhos menores (…). A este propósito, parece-nos perfeitamente plausível a hipótese (…) de que terão sido os ocupantes da armada de Martim Afonso que baptizaram o hoje bem conhecido morro Pão de Açúcar, possivelmente porque este morro tem a forma do conhecido Pão de Açúcar Madeirense.
Outro aspecto interessante a realçar e a reforçar a ideia de madeirenses nesta armada é o facto de, na mesma época, ter sido dado o nome de Ilha da Madeira a uma ilha de Guanabara, depois ilha das Cobras. Por outro lado, sabemos que o rei, por alvará de 1515, ordenou ao feitor e oficiais da Casa da Índia que “procurassem e elegessem um homem prático capaz de ir ao Brasil dar princípio a um engenho de açúcar; e que se desse uma ajuda de custo e também todo o cobre e ferro e mais coisas necessárias.
Quem melhor que um madeirense para levar a cabo esta tarefa?
(…) E, nessa época, um quase monopólio desse conhecimento estava nas mãos dos madeirenses. Aliás, o padre João António Andreone publicou uma espécie de manual de agricultura colonial, onde tratava também do açúcar, livro que foi apreendido e destruído, logo após a sua publicação, para que não se divulgasse conhecimentos considerados um exclusivo madeirense”.
Esta breve transcrição – da extensa dissertação do citado livro – vem confirmar o efeito duma reportagem, do grande profissional Brandão Lucas, para a Televisão Portuguesa, nos lugares pertinentes. Lato, claro e despretensioso na narração, valendo-se de documentação histórica e da preciosa colaboração da gente local, mostra os primeiros engenhos de tracção animal (em desenho); os movidos a energia hidráulica (conservados); e as enormes usinas a vapor (ultrapassadas, mas conservadas). E mais imagens sobre feitos militares, cultura e tradições madeirenses.
CONTINUA.... http://sandularte.blogspot.pt/2011/11/odisseia-de-uma-gente.html