quinta-feira, 14 de Março de 2013

Reconstrução colonial portuguesa e revisionismo colonial alemão Ernst Gerhard Jacob (1899-1974): Portugal como modêlo de uma Colonialística alemã e a "Kolonialschuldlüge" de Heinrich Schnee (1871-1949) Reconstrução colonial portuguesa e revisionismo colonial alemão Ernst Gerhard Jacob (1899-1974): Portugal como modêlo de uma Colonialística alemã e a "Kolonialschuldlüge" de Heinrich Schnee (1871-1949) Reconstrução colonial portuguesa e revisionismo colonial alemão Ernst Gerhard Jacob (1899-1974)


Reconstrução colonial portuguesa e revisionismo colonial alemão
Ernst Gerhard Jacob (1899-1974): Portugal como modêlo de uma Colonialística alemã e
a "Kolonialschuldlüge" de Heinrich Schnee (1871-1949)

Ciclo de estudos Portugal-África-Alemanha-Brasil em Frankfurt a.M. e outras cidades pelos
10 anos do colóquio internacional "Dimensões européias de Portugal" da A.B.E.. Saxônia: Göhren/Grima e vale do Mulde


Aquele que procure considerar a literatura alemã concernente a temas do mundo de língua portuguesa no intuito de estudar o desenvolvimento do pensamento nesse ramo de estudos depara-se com nomes poucos conhecidos. Um deles é Ernst Gerhard Jacob, autor de livros difundidos até um passado relativamente recente.

Surge como autor por excelência de "traços básicos" (Grundzüge) do desenvolvimento histórico de continentes e países. É autor, assim, de livro dedicado a traços gerais da História da África, utilizado por vezes como obra introdutória (Grundzüge der Geschichte Afrikas, Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft 1966). Publicou também livro com traços gerais da História de Portugal e de suas antigas províncias ultramarinas, ainda manuseado por leitores que se interessam por países africanos de língua portuguesa (Grundzüge der Geschichte Portugals und seiner Übersee-Provinzen, Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft 1969). Também para pesquisadores de assuntos brasileiros na Alemanha o seu nome não é desconhecido, sobretudo devido à obra em que oferece traços básicos da História do Brasil (Grundzüge der Geschichte Brasiliens, Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1974).

Ernst Gerhard Jacob surge também como especialista em questões relativas aos Descobrimentos e à história das navegações, como o indica uma seleção comentada de documentos relativos a Colombo (Christoph Columbus-Bordbuch, Briefe, Berichte, Dokumente, Bremen: Schünemann 1956; Berlim, Darmstadt, Wien: Deutsche Buch-Gemeinschaft, 1968). Ainda em 1991, esse livro serviu de base para uma nova publicação, com introdução de Friedemann Berger, em dois volumes, editada em Leipzig.

Ernst Gerhard Jacob reelaborou a tradução de Robinson Crusoe para o alemão de A. Tuhten, de 1886, para uma série de ampla divulgação popular (Leipzig: Philipp Reclam jun. 1958; Universal-Bibliothek 2194-2196a). Como especialista em Daniel Defoe (1660-1731), escreveu o postfácio da tradução de relato do ano da peste de Londres, de 1665 (Ein Bericht vom Pestjahr, London 1665: Beobachtungen oder Erinnerungen der bemerkenswertesten Ereignisse, öffentlicher wie privater, beinhaltend, die sich in London während der letzten großen Heimsuchung im Jahre 1665 zutrugen. Niedergeschrieben von einem Bürger, die die ganze Zeit in London verbrachte. Nie zuvor veröffentlicht. Übersetzt von Ernst Betz, mit einem Nachwort von Ernst Gerhard Jacob, Bremen: Carl Schünemann 1965).

História colonial alemã da África: sob o signo de von Carnap-Quernheimb (1826-1910)

Para localizar Ernst Gerhard Jacob na literatura de interesse para a história colonial, parece ser significativo o fato de ter escrito verbete sobre Georg Hans von Carnap-Quernheimb na Nova Biografia Alemã (Jacob, Ernst Gerhard, „Carnap-Quernheimb, Ernst Karl Georg Hans Leonhard von“, in: Neue Deutsche Biographie 3, 1957,151). Esse pesquisador explorou o litoral do Leste da África em 1885 e 1888 foi um dos líderes da expedição alemã ao Togo. Com esses e outros feitos, entre êles o da chefia de estações de pesquisa em Sansane-Mangu e Jaunde (Camarões), além de participação em outras expedições e em combates contra rebeldes, Carnap-Quernheimb tornou-se um dos nomes mais influentes na história da presença alemã na África.

A partir desse trabalho de Ernst Gerhard Jacob, o leitor atual pode procurar caminhos para compreender o importante papel desempenhado por esse autor como especialista em questões coloniais à época do regime nacionalsocialista. Essa tentativa apenas pode ser um esboco, pois tornar-se-ia necessário levantar as suas publicações e examinar com mais pormenores as suas atividades durante o período. A dificuldade aqui reside no fato de muitas dessas obras terem sido proibidas e excluídas de bibliotecas após o término da Guerra.

A "Koloniale Schuldlüge" no revisionismo colonial - Heinrich Schnee (1871-1949)
Nascido em Grimma, filho de um comerciante, Ernst Gerhard Jacob estudou na Universidade de Leipzig, doutorando-se em 1929. As suas publicações indicam a corrente de pensamento em que se inseriu relativamente à discussão sobre as colonias alemãs perdidas na Primeira Guerra Mundial e, nesse contexto, os seus elos com a história e a política colonial de Portugal. Assim, já em 1929 publicou "Vozes da Suécia, Holanda e Portugal acerca da 'mentira da culpa colonial' (Stimmen aus Schweden, Holland und Portugal über die 'Koloniale Schuldlüge', Leipzig: Jambo 1929).

O emprêgo do conceito de "Koloniale Schuldlüge" indica a proximidade a Heinrich Schnee (1871-1949), autor de obra do mesmo nome, publicada alguns anos antes (Die Kolonialschuldüge, Munique: Süddeutsche Monatshefte, 1927). Heinrich Schnee havia sido governador da África Alemã do Leste. Era membro do partido nacionalsocialista, tendo sido presidente, até 1933, da Liga dos Alemães do Estrangeiro (Bund der Auslandsdeutschen); foi presidente da Sociedade Colonial Alemã (DKG, 1930-1936) antes de sua assimilação no Reichskolonialbund (RKB).

Schnee era, assim um dos mais destacados nomes no empenho de despertar a opinião pública para a recuperação dos antigos territórios coloniais alemães. Significativamente, Henrich Schnee foi o prefaciador de uma das principais obras de Ernst Gerhard Jacob, a "Política Colonial Alemã em documentos, pensamentos e vultos dos últimos cinquenta anos", obra volumosa, de 608 páginas, com ilustrações, mapas e tabelas (Deutsche Kolonialpolitik in Dokumenten, Gedanken und Gestalten aus den letzten fünfzig Jahren, Leipzig: Dieterich'sche Buchhandlung, 1938).

No ano da tomada de poder dos nacionalsocialistas, em 1933, Ernst Gerhard Jacob publicou obra sobre a "dignidade colonial alemã" (Die Deutsche Kolonialehre, Leipzig: Velhagen & Klasing, 1933; Bielefeld 1935). Em 1934, publicou texto a respeito do direito alemão a colonias (Deutschlands Recht auf Kolonien, Leipzig: Verlag d. Afrika-Nachrichten 1934). Seguiu-se, em 1935, uma guia de fontes político-coloniais (Kolonialpolitisches Quellenheft: Die deutsche Kolonialfrage 1918-1935, Bamberg: Buchner 1935).

O termo "Kolonialschuldlüge" continuou a ser motivo condutor do pensamento de Ernst Gerhard Jacob através da década de trinta, intensificando o seu sentido de moto de militância. Assim, publicou, em 1938, acerca da luta contra a "mentira" (Der Kampf gegen die koloniale Schuldlüge, Hamburg: Hartung 1938) e, a respeito publicou nos cadernos de formação ideológica do próprio partido nacionalsocialista ("Unser Kampf gegen die Kolonialschuldlüge",in Unsere Kolonien, Der Schulungsbrief VI/8, 1939).

A questão colonial, no seu pensamento, é estreitamente vinculada com uma concepção do homem de cunho político, no qual a reinvidicação e a vontade surgem como conceitos importantes (Anspruch und Wille, Leipzig: Dieterich 1937).

Às vésperas e durante a Guerra, Ernst Gerhard Jacob publicou obras sobre o "Deutschtum" colonial, o que poderia ser interpretado como a "essência cultural alemã" colonial e em contextos coloniais (Das koloniale Deutschtum, Bayreuth: Gauverlag Bayerischer Ostmark 1939). Quase que definindo um ramo de estudos, passou a falar de uma "Colonialística Alemã" (Deutsche Kolonialkunde, Dresden: Ehlermann, 1940). Com o objetivo de ampla divulgação, escreveu, para os cadernos Reclam (Nr. 7398), "As Colonias Alemãs no passado e agora" (Die Deutschen Kolonien einst und jetzt, Leipzig: Philipp Reclam Jun., 2a. ed. 1940). Nesse livreto, lembra que o povo alemão era um dos mais antigos povos coloniais do mundo, sendo que sem os alemães grande parte do mundo não teria sido colonizada e cultivada. Para êle, as raízes do pensamento colonial alemão situavam-se 1) no campo cultural, moral-espiritual, 2) no campo político, povístico(völkisch)-estatal e 3) no campo econômico.

Continua... Ver aqui:

 http://revista.brasil-europa.eu/130/Ernst_Gerhard_Jacob.html


 

quarta-feira, 13 de Março de 2013

Tráfico de escravos de Angola para o Brasil: Nos tempos da independência, vários brasileiros fizeram fama e fortuna do outro lado do oceano

Terra de oportunidades

Roquinaldo Ferreira
10/12/2008
  • Com a independência do Brasil, Portugal correu o risco de perder, por tabela, outra colônia: Angola. Temia-se que a possessão africana fosse anexada pelos brasileiros. E havia bons motivos para essa preocupação.

    Durante mais de 300 anos, ambas as regiões estiveram nas duas pontas do tráfico de escravos. Quase 70% dos cerca de cinco milhões de africanos que desembarcaram no Brasil vinham do Congo e de Angola. E as relações iam muito além do comércio negreiro: pelo menos desde o século XVII, africanos da costa centro-ocidental e brasileiros estavam unidos por laços mercantis, familiares e culturais.

    Por isso, logo depois da independência, Portugal chegou a enviar centenas de soldados para assegurar o controle de Angola e adiou o retorno a Lisboa de um navio de guerra fundeado em Luanda. E não eram só os portugueses que estavam alertas para manter a colônia africana. Em 1826, no tratado de reconhecimento da independência por Portugal, foi incluída uma cláusula proibindo o Brasil de incorporar qualquer colônia ou território luso no continente – Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, Guiné Bissau e o Forte de Ajudá, no Golfo do Benim. A medida foi uma imposição da Inglaterra, já então envolvida na campanha para abolir o tráfico.

    No ano seguinte, o governo brasileiro mostrou que tinha, de fato, interesses especiais em Angola: enviou para lá três navios de guerra. O objetivo oficial da missão era proteger navios negreiros que operavam na área. A medida era inédita: nenhuma nação independente das Américas tinha ido tão longe na defesa do comércio de escravos. Quase ao mesmo tempo, foi inaugurado um consulado brasileiro em Luanda, sob o comando de Rui Germack Possolo. Numa espécie de governo paralelo, o cônsul ameaçou emitir licenças de partida para navios, atribuição que não lhe cabia, e assumiu o papel de defensor de traficantes brasileiros presos por conta de disputas com comerciantes locais. Não demorou a entrar em choque com o governador de Angola, Nicolau de Abreu Castelo Branco, representante máximo do poder português na colônia.

    O fato é que os brasileiros já se encontravam alojados no coração do poder angolano havia muito tempo, ocupando cargos da administração civil e militar. Muitos deles tinham sido enviados à África como degredados. Aos poucos eles se estabeleceram, ganharam poder e prestígio. Era o caso do baiano Joaquim José da Silva Menezes, que aportou como degredado em Benguela no final do século XVIII e chegou a ficar preso durante quatro meses por um motivo aparentemente fútil: solicitar um cargo ao governador de Angola, sediado em Luanda. O pedido foi considerado uma afronta ao governador de Benguela, que na época travava uma disputa de poder com a autoridade da capital. Menezes foi chamado ao palácio do governo, onde o ajudante-de-ordens disse que ele "só podia servir para carniceiro, ou tambor, chamando-lhe também negro, filho-da-puta e outros mais convícios".Passado o malfadado episódio, Menezes prosperou: de escriba virou alferes das forças locais, depois foi administrador do contrato de sal e não demorou a se tornar negociante de escravos e dono de navio negreiro. Uma trajetória singular, ainda mais pelo fato de que, na Bahia, ele próprio fora um escravo.

    A maioria dos brasileiros em Angola tinha ligações com o tráfico de cativos. Degredados, agentes de casas comerciais sediadas no Brasil e marinheiros não vacilavam em se aventurar pelos sertões angolanos em busca de bons negócios. O caso de Francisco Roque Souto é exemplar. Natural de Salvador, ele era um ex-capitão de navios negreiros que foi tentar a sorte em Luanda, mas acabou morando na vizinha Kisama, que estava fora do controle português. Ali, casou-se com a mucama de um dos chefes locais (sobas). Com o comércio interno de escravos monopolizado pelos reinos de Kasanje e Matamba, Souto intermediou os primeiros contatos diretos entre Luanda e outro reino local, Holo. A manobra de gênio rendeu-lhe grandes lucros e beneficiou negociantes daquela cidade, mas, obviamente, enfureceu os outros dois reinos. O resultado foi uma guerra entre Matamba e os portugueses, em 1744, na qual Souto foi um dos comandantes do exército luso. O conflito resultou na destruição da capital do reino africano (Mbanza da Rainha) e no envio de centenas de nativos como escravos para o Brasil. Mesmo vencedor, Souto sofreu uma devassa que o levou a tentar fugir, mas terminou preso em Luanda por alguns meses.

    Entre tantas idas e vindas transatlânticas, não surpreende que um carioca tenha se tornado governador de Benguela, em 1835. Justiniano José dos Reis havia sido membro da junta do governo provisório da cidade durante o período turbulento que se seguiu à independência do Brasil – quando Benguela foi chacoalhada por rumores de um movimento golpista cujo alvo era sua anexação à ex-colônia tropical.  

    Um dos suspeitos de participar da conspiração foi o carioca Francisco Ferreira Gomes, que vivia em Benguela desde 1800. Também ele um degredado, fora soldado no Batalhão de Henriques, força militar formada só por negros, inspirada no lendário grupo homônimo que existira no Brasil, batizado em homenagem a Henrique Dias, herói negro das guerras contra os holandeses em Pernambuco no século XVII. Promovido a tenente e depois a tenente-coronel, Gomes conquistou rapidamente vários escalões da burocracia de Benguela, tornando-se almoxarife e escrivão da Fazenda Real, proprietário de pelo menos dois navios negreiros e numerosas fazendas. Assim como Francisco Souto, também se casara com a filha do soba de uma região vizinha, o Dombe Grande.

    Em 1822, após a independência brasileira, foi citado como conspirador, ao lado de outros negociantes locais que planejavam prender o governador e “depois de tal sucesso, içarem a bandeira do império do Brasil”. Circulavam rumores de que Gomes usaria uma de suas embarcações para bombardear Benguela. Por precaução, o governador Joaquim Bento da Fonseca ordenou que ele fosse trancafiado num dos seus próprios navios, e para se proteger de um possível ataque, transferiu seu quartel-general para uma embarcação ancorada na cidade. Dali, comandou uma verdadeira ofensiva contra os chamados revoltosos, deportando pelo menos um para o Rio de Janeiro e manifestando a intenção de matar outros três. Fez várias visitas a Francisco Gomes e seus “cúmplices” presos. Numa delas, chamou-os de “ladrões, bodes e negros”, palavras ofensivas que demonstravam que as tensões eram não só políticas, mas raciais. De Benguela, sob ameaça de morte se trocassem palavras entre si, os revoltosos foram enviados de navio para Luanda.

    Mas Francisco Gomes foi rapidamente reabilitado. De volta ao comércio de escravos, enriqueceu ainda mais, ampliando seu prestígio por meio de benfeitorias em Benguela, incluindo o apoio para reformas na igreja local e auxílio ao hospital da cidade. Seu “império” pode ser avaliado pelo número de cativos que remeteu ao Brasil: sete mil (entre 1809 e 1831). Como vários outros negociantes de escravos, ele enviou seu filho, José Ferreira Gomes, para ser educado no Rio de Janeiro e depois retornar a Benguela para assumir os negócios da família. Depois de mais de três décadas vivendo na África, Francisco mudou-se com a esposa para o Rio de Janeiro, de onde fazia visitas esporádicas a Benguela. Quanto ao filho José, depois de retornar a Benguela, não só assumiu a liderança dos negócios do pai como também se tornou juiz de fora da cidade. Em 1835, seria um dos líderes de uma revolta contra os brancos que foi em parte motivada por rumores de que Portugal tentaria abolir o tráfico de escravos. Mais tarde, ele se valeria de um soba da Catumbela – seu parente por parte de mãe – para fugir das autoridades que combatiam o tráfico.

    As trajetórias de Joaquim Menezes, Francisco Souto, Francisco Gomes e seu filho José Gomes revelam a intensidade das relações existentes entre angolanos e brasileiros. Pelo menos enquanto perdurou o tráfico negreiro. Em meados do século XIX, quando Portugal enfim decidiu abolir essa prática, adotou uma medida sintomática: a administração de Luanda passou a registrar todos os brasileiros que chegavam à cidade, além cadastrar os que já moravam lá.

    O fim da escravidão mudou o tipo de relação entre aqueles povos com histórias tão entrelaçadas. E que por pouco não se uniram sob um só país.

    Roquinaldo Ferreira é professor na Universidade da Virginia, nos Estados Unidos, e autor de Bonds of Captivity: Slaving, Trade Networks, and Cultural Exchange in the Atlantic World (Angola and Brazil), Cambridge: Cambridge University Press, no prelo.

    Saiba Mais - Bibliografia:

    ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 2000).

    MARQUES, João Pedro. “Os Sons do Silêncio: O Portugal de Oitocentos e a Abolição do Tráfico de Escravos” (Instituto de Ciências Sociais, 1999)

     http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/terra-de-oportunidades

segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

domingo, 18 de Novembro de 2012

Colonos Judeus Para Angola - As Tentativas Que Fracassaram






Uma página esquecida da História de Portugal[sobre este assunto podem ler aqui


 e também aqui

segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

ESTUDOS GERAIS DESCOLONIZAÇÂO ANGOLA





ICS  Institito de Ciencias Sociais da Universidade de Lisboa

Angola
Sessão de 31 de Agosto de 1995
Intervenientes: general António Soares Carneiro, brigadeiro Fernando
Passos Ramos, brigadeiro Pedro Pezarat Correia, coronel Rui Antunes Tomás.

Sessão de 28 de Agosto de 1996

Intervenientes: brigadeiro Fernando Passos Ramos, brigadeiro Pedro Pezarat Correia,
almirante António Rosa Coutinho, comandante Jorge Correia Jesuíno.

Sessão de 31 de Julho de 1997
Intervenientes: general António Silva Cardoso, brigadeiro Heitor
Almendra, general António Gonçalves Ribeiro.

Sessão de 1 de Outubro de 1998

Intervenientes: Vasco Vieira de Almeida, brigadeiro Passos Ramos.

sábado, 10 de Novembro de 2012



Foto: Reprodução de uma fotografia oferecida pelo fotografado a Acácio de Oliveira. Lêem-se, registadas, no reverso, as notas bibliográficas que se seguem: «Meu muito amigo Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da colónia que primeiro veio para Mossãmedes, de cuja povoação foi o núcleo em 1849. Homem, para todos os que conheciam as suas qualidades, muito estimado, - pugnador incansável dos benefícios dos pobres e dos órfãos... e mais útil aos estranhos que a sí próprio». (a) Acácio de Oliveira. 


 EVOCANDO A MEMÓRIA DE BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO ABREU E CASTRO

                                                      O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES

Apesar de figura pouco referida e até já esquecida nos nossos agitados dias,  BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO ABREU E CASTRO, considerado o fundador de Moçâmedes (Namibe, Angola), foi uma figura por demasiado importante que não pode nem deve ficar sepultado nas brumas da História.

Assim resolvemos seleccionar alguns textos, que no seu todo poderão transmitir-nos uma imagem o mais possível real daquele que foi o grande timoneiro do início da colonização do Distrito de Moçâmedes:

"...Recordai, hoje e sempre, com admiração, o homem, o herói e o mártir que fundou Moçâmedes

Terá Moçâmedes esquecido o seu fundador?
Responde-se: de todo, não. Mas talvez não lhe tenha dado ainda o preito de justiça, de amor, de gratidão à altura dos seus méritos.

Em 1960, o Sr Dr. António Abrantes Tavares visitou a cidade de Moçâmedes. Regressando à Metrópole escreveu uma carta ao Sr Dr. Vasco de Campos relatando o que nessa cidade lhe fora dado observar. Transcrevemos a carta:

"Moçâmedes é uma cidadezinha fresca, limpa e agradável, com um hotel muito bom e bem arejado. A baíanão é grande, mas é bonita. Tem uma bela avenida, quase marginal, e bons prédios.

Estive na Câmara, um belo edifíc antigo, onde os bárbaros já se meteram a fazer asneiras.
Cavaquei longo tempo com o Secretário, homem já cheio de anos, e lhe disse que iria à Fazenda dos Cavaleitros.  Soube por ele que vivia na cidade um parente do Patriarca de Moçâmedes e, portanto,
seu parente também, e foi comigo procurá-lo para mo apresentar. É um senhor já de setenta e muitos anos, bem conservado e dono de uma cerâmica. Suponho que tem meios de fortuna. Chama-se José de Pina Martins Abreu e Castro, e disse ter nascido na Quinta da Pelada, e ser sobrinho do Dr. João Martins. Conhece ai os nossos sítios e lá esteve a recordá-los comigo. Dei-lhe conta da parentela que por ai tinha, e despedimo-nos depois de bem cavaquear.

O secretário da Câmara mostrou-me um mapa em tela, mandado elaborar pelo velho governador local, onde estão assinaladas as terras das margens do rio Bero distribuidas aos colonos. Lá está marcada a grande Fazenda dos Cavaleiros. Prometeu-me uma cópia daquele documento, indispensável para a história da colonização de Moçâmedes. Se o receber farei o possivel para lhe mandar também uma cópia.
Finalmente meti-me num táxi, e lá fui para a Fazenda. Atravessei as chamadas "Hortas de Moçâmedes", onde vi belos olivais, vinha, batatais, feijoais, tomatais e demais primores, conjuntamente com bananeiras e citrinos em bordadura.

A Fazenda do seu tio-avô fica a mais de três quilómetros de distancia, e por caminho em parte bastante mau. Levava a ideia de fotografar a velha amoreira, se existisse, e bem contente fiquei quando apareceram uma vultuosas figueiras indígenas que delonge me pareceram amoreiras. Cheguei bem carregado de pó, pois a parte da Fazenda que vi é agora um areal estéril.





Num alto, dominando toda a extensão do dominio rural, erguem-se as ruinas de uma velha casa, que supunha ter sido a casa do fundador. Perto do local há umas cubatas de pretos, e um velho deu-me uma correcta informação dos donos da Fazenda. Foi de um branco - disse. Depois goi da Companhia - a Companhia do Sul de Angola - e depois do Venância - Venâncio Guimarães, e agora é de um fulano de quem disse o nome, mas eu não o retive. Segundo o preto, as ruinas eram da casa do branco.
Da amoreira, o preto não soube dar fé.

No salão nobre da Câmara, no lugar de honra, lá está o retrato a óleo do velho Bernardino, rodeado de outros notáveis, Gostei de ver, e ergui uma breve prece por aquele que foi, sem dúvida, um corajoso pioneiro e homem de acção.

Aqui tem uma breve reportagem, e lamento não ter tido tempo para cavaquear com os velhos, para ver o que haveria ainda na tradição oral.

Digo-lhe porém que a lembrança do velho Bernardino vive, como um protector da cidade, na lembrança de toda a gente, incluindo a rapaziada desportiva. Quando disputam futebol com Sá da Bandeira, invocam Bernardino, e quando começam a falar nele, nada lhes resiste. Ainha há pouco tempo estavam a perder um jogo e começavam da assistência a animar os jogadores: "Ber-nar-dino! Ber-nar-dino!" Pois acabaram ganhando, e atribuiram ao incitamento e apoio espiritual de Bernardino!

Veja pois, como está viva a memória do grande pioneiro!".

                                                                                         ***
Tudo isto é muito, mas não basta. É preciso erguer no coração de Moçâmedes um grande monumento ao fundador! É preciso erguer nio coração de Nogueira do Cravo, um grande minumento ao maior filho daquela ridente povoação!

Do livro: "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes" Padre José Vicente (Gil Duarte). Agência Geral do Ultramar, 1969.






Bernardino - o intelectual, o militar, o patriota, o exilado que se fez colono, "Fundador de Moçâmedes"
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, português, é considerado pelos historiadores portugueses como o fundador da cidade do Namibe, no sul da República de Angola, a antiga cidade de Moçâmedes da época colonial portuguesa, fundada em meados do sec. XIX por colonos portugueses, quando o areal imenso do deserto do Namibe bordejava por inteiro a baía do soba Mossungo.

Exilado em Pernambuco, do então Império do Brasil, Bernardino foi o mentor da 1ª colónia agrícola de povoadores portugueses, que, também eles, radicados em Pernambuco, de lá saíram no dia 23 de Maio de 1849 (166, entre homens, mulheres e crianças) com rota ao novo porto de Moçâmedes e com chegada àquele porto no dia 4 de Agosto desse ano.

As políticas de povoamento das possessões portuguesas de África estavam a ser implementadas pelo então governo português cujo reconhecimento da costa fora mandada pelo Barão de Moçâmedes, governador geral da "Província de Angola" do Reino de Portugal, em finais do sec XVIII.

A chegada desta colónia ao estabelecimento de Moçâmedes, hoje Namibe, revestiu-se de importância crucial para o desenvolvimento rápido da agricultura, especialmente das culturas da cana do açúcar e do algodão, fazendo também desenvolver no plano agrícola a região planáltica da Huíla, com a introdução de novos colonos.

Uma biografia de Bernardino conta a história duma vida dedicada à política, à pesquisa histórica, ao ensino e mais tarde, em Moçâmedes, à agricultura. História que merece ser recontada para conhecermos melhor a personalidade dum líder carismático, os seus ideais, a fidelidade às suas convicções políticas, pessoa que se ouvia proferir o seu nome como o fundador de Moçâmedes sem todavia conhecermos a sua vida e as suas lutas.

AS LUTAS DE UM GRANDE LÍDER E O PATRIOTA


Nasceu em Nogueira do Cravo região beirã perto de Coimbra e foi baptizado em 1809, ano do seu nascimento, ao que se supõe. Estivera matriculado na Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829 e no 2º. ano em 1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos sentimentos e princípios de sua família e se alistara no exército de D. Miguel," voluntários realistas, como tenente de caçadores. Fizera a guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o exército liberal de D. Pedro IV.

A guerra civil (1826-1834) fora dura e sangrenta e originara muitas baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu e em 26 de Maio de 1834-tinha 25 anos de idade-assinava-se a convenção de Évora Monte, de que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos seriam dissolvidos e partiria para o exílio no dia 1 de Junho, desse ano.Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa que defendia e passou à clandestinidade em Lisboa, faz-se jornalista e colabora no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo, ainda, os princípios do absolutismo. Enquanto isto, outros companheiros continuam em armas contra o governo, organizam guerrilhas. Torna-se célebre o chefe de guerrilha Remexido que actuava no Baixo Alentejo e Algarve, chegando mesmo a tomar pelas armas Albufeira. Curiosamente conheci duas tetranetas do guerrilheiro, que me disseram que, se D. Miguel tivesse ganho a guerra civil, o seu tetravô, hoje, faria parte da galeria dos grandes heróis nacionais. Remexido tinha o seu quartel general na Serra de Monchique e foi mais tarde aprisionado, condenado e fuzilado no Largo da Trindade em Faro, em 48 horas, por ter sido capturado de arma na mão, segundo a lei. A tomada de Albufeira tomou contornos duma verdadeira chacina e Remexido fora responsabilizado. Uma das vítimas dessa chacina foi Jacintho d´Ayet, que deu nome a um largo de Albufeira e curiosamente, a sua viúva e seu filho, com o mesmo nome, seriam os padrinhos duma minha tia-bisavó, nascida em Olhão em 1840.

Mas, o que poderia ter acontecido a Bernardino, se D. Miguel tivesse ganho a guerra civil? Fiel que sempre fora aos seus princípios e ao juramento que fizera, certamente não se teria exilado. A 1ª. colónia, organizada por ele, em Pernambuco, não teria existido. A fundação de Moçâmedes não seria a 4 de Agosto de 1849, (data da chegada da colónia). Não seria invocado, nesse dia, ano após ano, nos jogos interselecções, em aclamação e em uníssono pela claque, BER...NAR...DI...NO... BER...NAR...DI...NO, empolgando jogadores e público, para que a sua alma ajudasse a selecção de Moçâmedes a conquistar a vitória. O que é certo é que ninguém se lembra duma derrota da selecção, nesses dias festivos de comemoração do 4 de Agosto, o dia da cidade. Seria bem diferente a Moçâmedes da minha recordação, naquele velho estádio ao fundo da avenida, "memorial vivo" do desporto rei da terra, passado cheio de glória, numa época em que o desporto associativo era seguido com particular entusiasmo, avivando "bairrismos" nos jogos interselecções e amor clubista nos campeonatos distritais, antes do advento dos campeonatos provinciais. "Memorial" esse vergastado a golpes de camartelos e picaretas nos anos 1960, apesar dos defensores de memórias se terem oposto à sua demolição.

Após a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio Pernambucano. Escreve livros de carácter didático, como a História Geral em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º. sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º. sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do Brasil.Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico " Nossa Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de Guararapes, na região do Recife.As saudades da Pátria e da sua terra são enormes, Bernardino escreve: "Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! Vocábulo sem par! Que inveja fazes a tantos povos, os quais, por que te não sentiram, não te souberam exprimir. Ditosa língua que tal expressão possuis! Ditosa terra que tal língua tens! Ah!. Pátria minha! Tu o foste! Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade que te envia o desterrado filho teu."

Mas os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. As perseguições são particularmente intensas nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro de 1847. Arruaceiros espancam pelas ruas da cidade quantos portugueses encontram. As turbas amotinadas gritam «mata marinheiros» e «não escape um só», entravam desenfreadas nos estabelecimentos comerciais, casas, a ferir e a matar, arrastando os cadáveres pela via pública.

Bernardino decide-se embarcar para solo português. O objectivo agora é sair de Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África.Organiza uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em Pernambuco e avança com o projecto.Escreve para o Ministério da Marinha e Ultramar a solicitar relatórios sobre Angola. Simultâneamente pedia auxílio material, a fornecer pelo Estado, que permitisse o transporte de pessoas e bens desde o Recife até local a escolher, em terras angolanas.

Era funcionário do Ministério Luz Soriano, que se interessou pelo caso e enviou um relatório detalhado intitulado "Memória sobre a Angra do Negro". A seu ver, o local mais indicado para fixação europeia.O relatório, mapas e tudo o que é conhecido recebe Bernardino de Luz Soriano. O governo propõe ao parlamento o projecto para fixação no Presídio e Estabelecimento de Moçâmedes, dos portugueses fixados em Pernambuco, no Brasil.

É dado apoio material aos colonos (18.000 reis, transporte e víveres) para a viagem. Adquiriu-se 3 engenhos de açúcar, que custaram 8.000 reis e seriam entregues a 3 sociedades ou a 3 concessionários, para exploração. O valor seria resgatado com o produto de 3 safras, sendo o primeiro resgate na terceira safra de laboração dos engenhos. Providenciou-se o apoio aos doentes para que não faltasse os alimentos próprios a estes e aos convalescentes. Uma vez chegados, o território destinado à colónia seria dividido de forma a que não faltasse o terreno para construção de uma habitação e formar maior ou menor estabelecimento agrícola. Era também fornecido, nos primeiros 6 meses, farinha e legumes pelo governo para sustento da colónia, etc.etc..


O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES


A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.
Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos íam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.
Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.


No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas improvisadas.Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam em Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.

Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim".O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando.

Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7 anos antes. Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província.Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo, 3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla.

Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura.Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.

Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa fora uma espécie de hospedaria ao visitante. Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ído em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla.

Não se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado. Memoriais: sòmente o grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto muito simples no jardim, plantado cerca de 90 anos depois da sua morte. As autoridades portuguesas não prestaram a homenagem devida. Os sobas Mossungo, Giraúl, Moeni-Quipola e muitos outros deviam ter dado voltas nas sepulturas pela falta de reconhecimento das autoridades locais ao amigo que pugnou pela justiça e igualdade entre os povos e não admitia escravos na sua fazenda, porém quase ostracizado pelas autoridades da terra. O povo é que nunca o esqueceu e demonstrava-o nas competições interselecções quando a claque o invocava em uníssono BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a alcançar a vitória.

A história da vida de Bernardino irá perder-se como papéis imprestáveis nas prateleiras de algum arquivo. A guerra civil de Angola após 1974, entre os movimentos de libertação, criou uma nova diáspora em Portugal: a dos filhos de Moçâmedes. Nunca mais será invocado o seu nome na cidade que fundou. A população que o invocava e o respeitava já lá não se encontra a viver. Criou raízes em Portugal e só a visita para matar saudades da infância ou rever todo um passado deixado para trás.

Acreditemos que em algum ponto do universo, exista plasmado, um registo eterno de vidas justas e verdadeiras de heróis humanistas, como foi a vida de Bernardino, para que a ciência um dia a possa trazer de volta e ajudar na concepção de um Homem novo que esta Terra tanto necessita.

Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da República de Angola.
 
Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
publicado por Cláudio Frota em www.memoriaseraizes.blogspot.com



Do livro “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação  efectiva” de António Augusto Martins Cristão:



«...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

«...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas».

Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.»

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:
«...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»

Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»

Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:

«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»

Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes.
Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».

In “Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão.


 III

 POBRE NA VIDA, POBRE NA MORTE

Sim. A Historia regista o seu nome como o de um dos meiores obreiros da pátria. Embora não lhe tenha sido prestada verdadeiramente a justiça que lhe é devida.

Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha sessenta e dois anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Cauda da morte: uma pneumonia dupla.

Não receberam bens de fortuna os seus herdeiros. Bernardino não fora para África para ser africanista, no sentido vulgar desta palavra. Para explorar os nativos, fazer fortuna e vir depois para a Metrópole com réditos de nababo que lhe dessem para viver à grande e ainda para com eles fazer ostentação de caridade-vaidade.

Pobre na vida, pobre na morte. Tão pobre que nem sequer se sabe em que local exacto foi sepultado no cemitério que mandara fazer, na cidade que fundara. Nem isto lhe falta para ser grande.

Sabe-se que Bernardino distribuia generosamente os seus bens pelos companheiros mais necessitados. Distribuia-os com a mão esquerda sem que a direita se apercebesse, o que quer dizer: sem vaidade, sem outro motivo que não fosse a verdadeira caridade.

A sua casa era uma espécie de hospedaria. Nela se acolhiam os homens do mar que aportavam em Moçâmedes. Nela se congregavam pobres e ricos, que para todos chegava o pão. O seu desejo era que todos os habitantes de Moçâmedes se sentissem bem na cidade, e pela cidade, e por aquela região de Angola, trabalhassem sem desfalecimentos. Escreveu um dia: "Portugal tornaria a florescer tanto ou mais do que quando possuia o Brasil, se soubesse aproveitar-se da utilidade que lhe podia resultar de ser senhor do centro de Angola."

Vinte anos depois da morte de Bernardino, isto é, em 1891, exactamente a 2 de  Junho de 1891, era concedida à cidade de Moçâmedes o Brasão de Armas, para distintivo honorífico do seu município. Termos sob os olhos esse brasão, cuja leitura é : um escudo aquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana-de-açucar, postos em aspa; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca, verde, sobre o mar, e no quarto, em campo vermelho, um arado de oiro; em contrapartida, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;  sobre o escudo a corôa mural, e, por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de oiro.

O brasão é quanto a nós a mais expressiva homenagem às virtudes do fundador da cidade. Nas armas de Portugal está assinalado o seu fervor patriótico. No ramo de algodoeiro, na cana-de-açucar e no arado, o seu amor à agricultura. No barco de pesca, o incremento que deu às pescarias da região. A legenda resume admiravelmente a constante do carácter de Bernardino: o seu amor ao trabalho.

Desse amor ao trabalho de Bernardino e seus companheiros nos dá conta Alfredo Felver, em artigo escrito a 04 de Agosto de 1926 no Jornal de Moçâmedes "O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a quatro de Agosto de 1859, ao festejarem o seu sécimo aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero, que tiveram de conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraúl, três, no Bumbo, duas; em S. Nicolau, três;  no Carunjamba, uma; no Curoca, três; na Huila, sete; e, ainda a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Molondo, persorrenso o Sul de Angola em todas as direcções, com as suas caravanas, e levando a sua penetração até além Cunene, aonde iam buscar o marfim.

Pela Alfândega de moçâmedes tinham exportado: em 1858 e em 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte  e um mil couros, cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batatas, e dezasseis toneladas de carne seca."

E termina o articulista:

"Que queriam que fizessem? Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção de um sacerdote, ao abrir o relicário para mostrar a Hóstia Sagrada. Faço-o perante o altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus." 

Obra sem par, a obra de Bernardino e seus companheiros. Henrique Galvão, na sua obra Angola -- Para uma nova política, volume 1, pág. 197, diz da obra em causa que ela foi "uma das notáveis obras portuguesas de povoamento, constituindo o único triunfo sério e respeitável em tal matéria". 

Com razão nos orgulhamos de Bernardino, considerando-o um dos maiores beirões de todos oa tempos. Um daqueles "varões assinalados em quem poder não teve a morte".

 

"Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes / Padre José Vicente (Gil Duarte). ... In: Dokumentation zum staatsstreich in Guine-Bissau : im November 1980 = Documentação sobre o golpe de Estado na Guiné

IV    

 PERNAMBUCO E ANGOLA



...«A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira.

A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavaminteressados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.

Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar.

O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferirpara a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e ummensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849.

Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello · http://www.fgf.org.br/bvjagm Proibida a reprodução sem prévia autorização.
Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956
FONTE





                                           AINDA DA COLECÇÃO  ALBERTO LAMEGO

                                                                               (excerto)


«(...) Um outro volume de MSS. Contém narração muito interessante e atual, pois está ligada a fatos da Rebelião Praieira, e diz respeito à fundação da colônia de Moçâmedes, em Angola, por portugueses que abandonaram Pernambuco em conseqüência dos maus-tratos aqui recebidos, quando da campanha antilusitana que precedeu aquela rebelião. A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas chegou até a agressão física e morte de portugueses de Pernambuco, por ocasião dos célebres movimentos chamados “mata mata marinheiro”. A narrativa não tem indicação de autor, mas é baseada em documentos oficiais, citados em notas, e tem em apenso alguns papéis originais, contendo o relatório de 1850 do diretor da colônia. Intitula-se "A Colônia de Moçâmedes. História de sua fundação segundo os documentos existentes nos Arquivos de Marinha e Ultramar". Começa: "No ano de 1848, grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, Império do Brasil, desgostosos e indignados pelos vexames e insultos de que eram alvo por parte de certas classes de brasileiros que haviam declarado guerra implacável ao elemento português, dirigiram uma representação à Rainha, sra. d. Maria II, declarando que muito desejariam estabelecer-se n'alguma das nossas possessões africanas. E para levar a efeito seu desejo, e atendendo a que eram bons colonos, mas pobres, pediam ao governo de S.M.F que lhe prestasse os necessários auxílios. "O governo resolveu aceitar o oferecimento dos colonos portugueses que desejavam abandonar Pernambuco, e para esse fim, em 26 de outubro de 1848, fez expedir uma portaria ao cônsul português naquela Cidade, Joaquim Batista Moreira, para que juntamente com o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, organizasse uma Comissão, para dirigir oportunamente a viagem dos colonos, para o porto que escolhessem, em qualquer das províncias d'África". A comissão, composta das duas pessoas já citadas e dos portugueses Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Mello e Miguel José Alves, começou a funcionar em 27 de Março de 1849. Em maio estava tudo pronto para o embarque. Infelizmente o relatório não menciona o número exato dos emigrantes, nem a composição do grupo. Eram porém, mais de sessenta homens, afora mulheres e crianças. Quanto à ocupação, diz o documento que "entre os colonos iria gente muito útil para estabelecer (em Moçâmedes) a rendosa agricultura da cana-de-açúcar e para elaborá-la com conhecimento, além de conhecer a cultura do tabaco, café e algodão. Também iam igualmente artistas de quase todos os ofícios mecânicos"... "Os colonos portugueses que haviam resolvido abandonar o Brasil pelas perseguições e insultos de que ali eram alvo e estabelecer-se n'uma das nossas possessões em África, saíram do porto de Pernambuco a bordo da barca Tentativa no dia 23 de Maio de 1849 às 4 h. da tarde. Fundearam nessa noite no Lamarão. Ali estiveram durante todo o dia de 24, que se passou em dar algum arranjo e a possível comodidade aos colonos, na perspectiva de demorada viagem. A barca fez-se de vela no dia seguinte, 25 de maio, seguida pelo brigue Douro, navio da marinha de guerra portuguesa, encarregado de acompanhar a barca". A viagem durou 74 dias, e durante a travessia sobreveio uma epidemia de bexigas, havendo em certo momento 46 doentes a bordo: "entretanto, com cerca de 200 pessoas a bordo, entre colonos e tripulantes, só morreram 8 pessoas, 3 maiores e 5 menores"... Finalmente chegados à África, o diretor da Colônia, que era o próprio Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que acompanhava os colonos, passou a inspecionar a região em que teriam de se fixar e, em especial, a "extensíssima várzea do rio das Mortes" que lhe pareceu "toda produtiva, e se o for de cana, como estou inclinado a acreditar, pode ser terreno para nove laboratórios de açúcar", diz ele em seu relatório. Seria interessante poder verificar até que ponto a "experiência brasileira" dos colonos teria influído na escolha da agricultura do açúcar, de preferência a outra, e como se teria desenvolvido até os dias de hoje a colônia de portugueses de Pernambuco emigrados para Moçâmedes. E já em abril de 1850 o diretor Bernardino Freire "enviara com entusiasmo para o ministério da marinha a primeira amostra de aguardente fabricada em Moçâmedes. Conquanto a matéria-prima não fosse dos terrenos da colônia, fora contudo destilada nos alambiques que o governo português dera aos colonos"... (...) »
in: http://bvjagm.fgf.org.br/obra/Imprensa/030404-00008.pdf.

            
                                                                                                          

                                 Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

 
«Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia. Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar. O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo.
O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levandoem sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".

Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.



Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro 1809 - 1871



Nasceu em Nogueira do Cravo, pensa-se que na Rua do Saco, filho de Alexandre Campos de Abreu e Vasconcelos e de D. Rita de Figueiredo, foi baptizado em 1809, ano do seu nascimento. Manteve sempre o seu estado civil de Solteiro nunca tendo casado. Estivera matriculado na Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829 e no 2º. ano em 1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos sentimentos e princípios de sua família e se alistara no exército de D. Miguel," voluntários realistas, como tenente de caçadores. Fizera a guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o exército liberal de D. Pedro IV.

A guerra civil (1826-1834) fora dura e sangrenta e originara muitas baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu e em 26 de Maio de 1834-tinha 25 anos de idade assinava-se a convenção de Évora Monte, de que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos seriam dissolvidos e partiria para o exílio no dia 1 de Junho, desse ano. Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa que defendia e passou à clandestinidade em Lisboa, faz-se jornalista e colabora no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo, ainda, os princípios do absolutismo. Após a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio Pernambucano. Escreve livros de carácter didáctico, como a História Geral em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º. sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º. sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do Brasil. Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico " Nossa Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de Guararapes, na região do Recife.

As saudades da Pátria e da sua terra são enormes, Bernardino escreve: "Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! Vocábulo sem par! Que inveja fazes a tantos povos, os quais, por que te não sentiram, não te souberam exprimir. Ditosa língua que tal expressão possuis! Ditosa terra que tal língua tens! Ah!. Pátria minha! Tu o foste! Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade que te envia o desterrado filho teu."
Mas os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. Bernardino decide-se embarcar para solo português. O objectivo agora é sair de Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África. Organiza uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em Pernambuco e avança com o projecto. Escreve para o Ministério da Marinha e Ultramar a solicitar relatórios sobre Angola. Simultaneamente pedia auxílio material, a fornecer pelo Estado, que permitisse o transporte de pessoas e bens desde o Recife até local a escolher, em terras angolanas.

A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos iam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES. Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.

No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros. No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura. Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.

Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa fora uma espécie de hospedaria ao visitante. Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla. Não se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado.

Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
Uma vida de luta, sacrifício e dor na procura dos ideais que tanto ansiava, onde certamente nem sempre foi valorizado devidamente nem na vida nem na morte. Passados quase duzentos anos do seu nascimento, são muitos os que na sua terra natal desconhecem a história de tão nobre homem, no entanto já anteriormente muita gente quis honrar seu nome. Exemplo disso mesmo, é o “Jornal O Catre”, um jornal da década de 80, que era dirigido pelo Grupo de Jovens Unidos a Cristo, que já em Novembro de 1985 publicava a história de Bernardino pedindo que se fizesse justiça ao nome de tão grande figura. Em Fevereiro de 1987, o mesmo Jornal pedia que se atribuísse a uma Rua Nogueirense, o nome deste, e em Maio de 1988, lembrou a Autarquia que o seu pedido ainda não tinha merecido a melhor atenção, tendo vindo mesmo a ser feita a vontade dos Jovens e a devida homenagem a este grande homem.

Está também planeado, para a data em que se assinalam os 200 anos do nascimento de Bernardino, o erguer de um busto do mesmo na terra que o viu nascer. Iniciativa louvavél em que certamente será necessária a colaboração de todos para que se consiga alcançar esse objectivo. Que esta pequena e abreviada biografia sirva, para além de dar a conhecer a história de vida de tão grandiosa figura, para mover a população Nogueirense e não só, a colaborar e a divulgar tão nobre e justa causa.

RF/CM
in:
http://olharnogueiradocravo.blogspot.com/2007_10_01_archive.html 
                                   

                                                      «REVISTA UNIVERSAL LISBONENSE. 29»

Já se acabaram mais cinco casas na povoação pertencentes á gente da segunda expedição que dahi veio, e estão fazendo mais; esquecia-me dizer-lhe que no Giraú (perto das borlas) se arranjaram umas salinas, e os autores foram muito felizes, pois tem tirado sal, igual ao de Setúbal, e com muita abundancia.

Mossamedes, a primeira vista, atterra os ânimos mais resolutos, mais depois de se examinarem os seus contornos, já se cria outra alma ; o homem sente-se com toda a anterior coragem ; fique certo que o não estar mais prospera esta Colonia deve-se ao Bernardino. Ha dias chegaram do Rio de Janeiro dez colonos, e esperamos 8 navio «General Etegowde» lá cora mais outra expedição, em que dizem vem duzentos mocetões, i-eremos: assim como que o governador desta recebeu aviso do Ministro da Marinha para esperar outra expedição do Maranhão. A exportação de Mossamedes em o anno de 1849 o 1850 em cera, marfim, urzella e peixe secco, foi de 120:000 000 réis. Ahi deve ter chegado o Pavão que dahi saiu , o qual sendo governado pela mulher , aqui não quiz ficar , apezar de ganhar por dia 2/300 réis ; veja se elle ahi ganhava similhante jorna. O Manjericão parece que se quer retirar, o que também não admira , visto ter mulher e filhas, e pôde ser verdade que duas dellas estavam falladas para cazarem , como aqui alguém me diz. Fique certo , caro estima , que Mossamedes é uma terra muito boa, e ha-de ser feliz quem se dedicar ao campo, a fazer progredir a agricultura, tendo saúde ponto em que felizmente muito ganha, esta província, presentemente, ao Brazil; aqui sabemos o que ainda está succedendo em essa província , na Bahia , Rio de Janeiro , Pará e outras. Se tiver alguma carta para mim, fará favor de ma remetter ainda que seja pelo Rio, pondo a direcção para casa de J. C. de Billancourt. — Saúde e felicidade, e sou de v. attento venerador e criado.— José Antonio Pinto Guimarães.

P. S. O Rangel e o Coutinho foram para os Gambios, o primeiro encarregado de fazer uma pequena fortaleza.



                                                             
                                                                   
                                                                         CURIOSIDADES

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«Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes». Era seu Autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa.

Nesse livrinho, a páginas 14, vem referido um episódio, que procurarei resumir. Alguns anos antes, tinha-se deslocado a Lisboa um indivíduo de certa projecção social em Angola com os apelidos «Freire de Figueiredo Abreu e Castro». O Dr. Augusto Abranches Freire de Figueiredo (bisavô do confrade Nuno Canas Mendes), dirigiu-se imediatamente ao hotel onde ele se encontrava hospedado para inquirir sobre o grau de parentesco que os unia e obteve a seguinte resposta: «Não. Não somos parentes. A coincidência de apelidos explica-se desta forma: na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem. Assim aconteceu aos meus antepassados, que não são, de facto, consanguíneos de Bernardino.»
É, pois, muito natural que a mudança de apelidos de seu Bisavô e irmãos se insira nesta curiosa moda que surgiu em Moçâmedes.

Ao rever o citado livro para lhe dar esta resposta, encontrei dentro um recorte do «Diário de Notícias» (sempre tive a mania de guardar papéis), com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Moçâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo – me leva a conjecturar que também fosse da sua família.
(...)Cumprimentos,
José Caldeira »
in www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=117179&fview=e
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Nota sobre Bernardino: Confirma-se a ascendência nos Reis de Portugal. Para mais informações consulte: http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=584348



                                                                                             


 O Chefe da Primeira Colonia
           ( «Moçâmedes» 1º Volume, de Manuel Júlio de Mendonça Torres)
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Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro foi o ilustre chefe dessa plêiade ousada de portugueses, que, vinda há um século do Brasil, iniciou, no sul de Angola, a obra de civilização que admiramos.

Temos sobre a nossa mesa de trabalho um dos seus melhores repretos. Observando-o atentamente, recordamo-nos do que ouvimos a alguns dos seus contemporâneos, e, sobretudo, apreciando os seus escritos, e estudando os livros e documentos que se lhe referem, vamos diligenciar representá-lo em breves linhas.

Tinha o rosto oval, de tez acentuadamente morena. Iluminavam-no olhos pequenos, mas vivos com expressões de mansidão, reflectindo a um tempo, sentimentos de energia e de bondade. O cabelo era fino, corredio, azevichado. A fronte, espaçosa. O nariz, grosso. Trazia rapado o bigode , e usava barba de colar, que a fotografia nos apresenta branca, correndo, muito curta, em estreita faixa, de orelha a orelha, sob o mento. A fisionomia, simpática; as maneiras, insinuantes. A sua presença agradava.

No prestigioso chefe da primeira colónia foram surpreendentes a tenacidade com que organizou o grupo de colonos de 49 e a presteza que desenvolveu, junto do Governo Central e do seu alto representante da Colónia, para o bom êxito do empreendimento. Obstáculos, contratempos, oposições, que grandemente lhe dificultaram a acção, tudo venceram a sua infatigável obstinação e a dua férrea vontade.

Bernardino de Figueiredo nasceu em Nogueira do Cravo, povoação do concelho e comarda de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, província da Beira Alta.

Em face da cópia paleográfica que consultámos, do seu assento de baptismo, extraído do Livro de baptizados da freguesia de Nogueira do Cravo de 1806 a 1830, tivemos conhecimento de que fora baptizado «em os quatorze dias do mês de Dezembro de mil houto centos e nove». (sic)

Nãi se encontra neste assento, lavrado, a fls. 18, daquele livro, existente no Arquivo e Museu de Arte da Universiadde de Coimbra, a data do seu nascimento. Mas podemos conjecturar, com grandes visos de exactidão, ter nascido no ano em que foi baptizado. . Não é costume ser a data dos baptizados muito distanciada da dos nascimentos. Assim , tendo sido baptizado em 14 de Dezembro de 1809, último mês do ano, deveria ter nascido nesse mês, ou em qualquer dos outros desse ano. Parece-nos, pois, que, se não acertámos, não estaremos muito longe da verdade, declarando haver nascido em 1809.

Guidos por este documento e pela árvore genealógica da família Abranches, cujo exame nos foi obsequisosamente facultado, em dua casa, de Galizes, povoação do Concelho de Oliveira do Hospital, pelo Sr. Dr. Vaz Pato, inteiramo-nos de que foram seus pais Alexandre Campos de Abreu Vasconcelos e D. Rita de Figueiredo; seus avós paternos, Manuel Nunes de Campos e D. Joaquina de Campos, e seus avós maternos, Francisco Abranches Freire de Figueiredo e D. Josefa Maria de Abreu e Castro, da Casa da Torre, hoje pertencente ao nosso amável informador.

Lemos no dicionário histórico Portugal, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues (Lisboa, 1906), «que era estudante de Coimbra, quando, levado pelos princípios e sentimentos de sua familia, se alistou nos voluntários realistas, seguindo o partido de D. Miguel e fazendo toda a campanha às ordens dum seu próximo parente, general das armas da província». Da árvore acima citada, consta também que fora tenente de caçadores do exército de D. Miguel.

Após a Convenção de Évora Minte, que, em 1834, pôs termo à guerra civil, e extintos todos os bandos de partidários, despersos pelo País, veio para Lisboa, onde se conservou, durante três anos, desde 1837 até 1839, colaborando na redacção do Portugal Velho, órgão do absolutismo.

Em 1839, partiu para Pernambuco: alí se dedicou ao exercício do magistério. E, ao mesmo tempo que desempenhava funções professorais, escrevia livros. São dele algumas obras didacticas e um romance.

Fez parte do corpo docente do Colégio Pernambucano, onde leccionou latim, história e geografia.

Manuseámos um primeiro volume dum compêndio seu, intitulado História Geral, dividido em seis volumes, que se denominam: o primeiro, História Sagrada do Antigo Testamento; o segundo, História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias; o terceiro, História Antiga e Grega; o quarto, Hostória Romana e da Idade Média; o quinto, História Moderna; o sexto, História de Portugal e do Brasil.

O primeiro volume que tivemos entre mãos, História Sagrada do Antigo Testamento, é dedicado ao director do Colégio Pernambucano, José Soares de Azevedo. Escreveu-o sob o seguinte tema, consignado na obra: A verdade da Religião, sua antiguidade e santidade, até se demonstram de alguma sorte por sua própria grandeza (P. de Pascal). Nele se declara a empresa e o ano em que foi impresso: Tipografia de Santos & Companhia, Pernambuco, 1841. E nele ainda se lê o anúncio que se segue: «está a entrar no prelo: Resumida notídia da História da Língua e Literatura Portuguesa, do mesmo autor.

Também nos foi dado compulsar uma outra obra de Bernardino de Figueiredo, Nossa Senhora de Guararapes, romance histórico, descritivo, moral e crítico, epígrafe a que estão sobpostos os seguintes dizeres: «Não vos conto alheias cousas».

Guararapes é a denominação dos montes que se erguem nas imediações de Pernambuco, onde os portugueses, sob o comando de Francisco Barreto de Meneses, alcançaram, em 1648 e 1649, duas memoráveis batalhas contra os Holandeses, a última das quais foi extraordinariamente sangrenta, mas gloriosa e decisiva.

Como as forças portuguesas eram muito reduzidas em confronto com as numerosas tropas holandesas, foi a vitória atribuida convictamente a milagre.

O romance de Bernardino de Figueiredo faz alusão ao facto.

Sobre o acontecimento, é interessante recordar, a propósito, a existência do quadro a óleo «A batalha de Guararapes» do distinto pintor brasileiro Vitor Meireles de Lima, falecido em 1902, autor de inúmeros trabalhos pictóricos, como «Descobrimento e Primeira Missa do Brasil», «Combate de Riachelo», «Panorama da Baía e cidade do Rio de Janeiro», «Flagelação de Cristo» etc. ..

O romance de Bernardino de Figueiredo foi impresso em Pernambuco, na Tipografia de M.F. de Faria, em 1847.



OUTROS TEXTOS  CORRELACIONADOS

Sobre a revolução praieira:


Segundo Joaquim Nabuco em «Um estadista do Império»: 


"O povo pernambucano acreditava que possuia dois inimigos que o impediam de ganhar a vida e desfrutar algum bem estar . Eles eram os portugueses que monopolizavam o comércio das cidades e os senhores de engenho que monopolizam a terra no interior. A guerra dos praieiros era feita contra estes dois elementos, daí o seu carácter social mais do que político."

Sobre a «rebelião praieira» sabe-se que
em 1848 os discursos radicais dos jornais agitaram de tal modo a população contra os portugueses que ali trabalhavam e a violência tomou proporções tais que levou a que pela primeira vez na história de Pernambuco, um grupo de 177 imigrantes tivesse pedido a ajuda da Corôa portuguesa para abandonar o Brasil e fundar uma nova colónia em Moçâmedes, Angola, onde tentaram uma nova vida com suas alfaias agrícolas e os seus engenhos de aguardente de cana. Um ano depois, nova leva de 125 colonos acompanhados das famílias, chegaram a Moçâmedes. 

Ainda sobre Bernardino: Na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem. 


A memória destes pioneiros encontra-se ainda hoje representada nas lápides mais antigas do Cemitério de Moçâmedes.

Mais inf. em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/263/26304509.pd
http://www.memorialpernambuco.com.br/memorial/paginas/historia/124revolucao_praieira_1848.htm

http://www.pernambuco.com/diario/2004/01/27/opiniao.html
http://www.culturabrasil.pro.br/praieira.htm
Revista Lisbonense (troca de corresponência entre colonos de Mossãmedes e familiares em Portugal

ver tb annais Cons Ultramarino 1879
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