domingo, 24 de outubro de 2010

Moçâmedes e a abolição


1838 – A ‘colonização’ a que Sá Nogueira se referira tinha tudo a ver com a aclimatização de comunidades portuguesas em África como unidades produtivas auto-suficientes – na tradição portuguesa do Brasil e inglesa na América do norte – e pouco com o conceito de grandes territórios ultramarinos anexados a uma potência europeia, ao jeito popularizado cinquenta anos mais tarde pelo rei Leopoldo dos Belgas; não devia, por isso, dar-se como o início daquilo que mais tarde se convencionou chamar ‘colonialismo’. Porém, toda a autoridade era então pouca para manter em Luanda o respeito pelo governo Liberal em Lisboa: o ministro Sá Nogueira, agora na pasta da Marinha e Ultramar, nomeia por isso António de Noronha Governador geral, em cujo posto o almirante se mantém aproximadamente um ano, governando Angola segundo o novo figurino, e não já como um capitão-general da antiga tradição ultramarina: é um governador geral com grande autoridade civil em representação da Coroa, à maneira britânica. Noronha dá o primeiro passo da nova política ultramarina portuguesa ordenando a restauração do antigo presídio de Caconda, em parte para demonstrar que existia já uma soberania europeia a sul de 13º latitude sul – desde a seca de 1829 que os hotentotes Orlam entravam a cavalo pela Huíla em busca de gado – e em parte para iniciar o projecto anti-esclavagista imaginado pelo ex-primeiro ministro.

1839 – O almirante Noronha escolhe para chefe da estação naval de Luanda o tenente da Armada Pedro Alexandrino da Cunha: já servia em Angola havia alguns anos, competindo-lhe vigiar os ‘negreiros’ entre Molembo e Luanda, e por isso conhecia bem o envolvimento da praça da capital no contrabando de escravos. Sá Nogueira autoriza uma expedição do tenente ao sul de Benguela, nos moldes da de Furtado e Mendes em 1785: na costa sul de Angola os contrabandistas não tinham ancoradouros, portanto o governador geral terá pensando em radicar ali uma agricultura local, que ocupasse a população escrava e servisse de exemplo ao norte, visto ser impossível ao tesouro do Reino indemnizar os senhores. Por terra, de Benguela a Quilengues – a antiga Caconda – e de aqui à Huila e ao Jau, marcha o comandante daquele presídio, o tenente de artilharia José Francisco Garcia. Pedro Alexandrino comanda, já como capitão-tenente, a corveta Isabel Maria, acompanhando-o o comerciante António Joaquim Guimarães, encarregado de escolher um ponto para estabelecer indústrias de charqueação e curtumes no porto de Moçâmedes, com promessa de ajuda do governo. De caminho, Cunha dá o nome do governador geral à ponta sul da baía de Moçâmedes.

1840 – O tenente Garcia, escolhido para chefiar o novo estabelecimento, vem a bordo do brigue Raimundo I, aprisionado a 19.02 por um navio da Armada britânica que o confunde com um negreiro; quando chega à baía, na corveta Isabel Maria do comando do capitão-tenente Cunha, já ali se encontravam, não só Guimarães, mas também os empresários de Benguela, Jácome Filipe Torres, Manuel Joaquim Teixeira e João Gonçalves Pinto. Finalmente, no dia 13.08 há uma tenda de campanha na praia da baía de Moçâmedes, em que estão presentes os comerciantes, os dois oficiais, e os sobas de Mussungo, Giraúl, Quietena e Jáu: vão estes assinar um acordo com os portugueses, que vêm ali instalar-se para abrir comércio com eles e construir uma fortaleza “que a todos protegesse das frequentes correrias do gentio...” do ‘nano’ 1 , segundo a acta respectiva, 2 assinada por todos os presentes. Fundava-se o presídio de Moçâmedes e, acto contínuo, delimitam-se feitorias nas margens do rio das Mortes, o Mbwelo (‘o de baixo’) dos nativos.

1841 – A portaria de 31.08. determina a construção de um forte na extremidade norte da falésia da baía do porto de Moçâmedes, a que o tenente Garcia, seu construtor inicial, dá por patrono S. Fernado, o santo homónimo do príncipe que D. Maria II desposara cinco anos antes, Fernando de Saxe-Coburgo Gotha.
 1842 – As obras da fortaleza estão suficientemente avançadas para que o estabelecimento agrário do porto de moçâmedes se classifique como presídio, visitado então pelo governador geral José Xavier Bressane Leite (1842-1843).

1844 – O governo Liberal concede distinções aos colonos do norte de Angola que se sobressaiam na agricultura, como o cafeicultor do Cazengo agraciado nesse ano com o Hábito de Nossa Senhora de Vila Viçosa; seria, porém, evidente em Lisboa que fundir grilhetas em enxadas tão perto do reino do Congo seria obra demorada.

1845 – No ano em que o ministro da Marinha, o persistente coronel Sá Nogueira, agora barão de Sá da Bandeira, decide nomear dois governadores para África, especialmente escolhidos para executarem o decreto de 1836, em Angola não há ninguém mais credenciado para o cargo que o chefe da Estação Naval: Pedro Alexandrino é promovido a capitão-de-fragata e simultaneamente empossado em 31.05, e envia imediatamente o antigo companheiro de exploração, o tenente Garcia, para o planalto de Moçâmedes – hoje ‘da Huíla’ – para iniciar outra colónia, substituido-o interinamente na costa António Joaquim de Freitas. O novo governador geral (1845-1848) dá, assim, o primeiro passo do projecto do capitão-general pombalino, D. Francisco Inocêncio da Sousa Coutinho, de construir uma linha de presídios entre a costa e o rio Zambeze.

1846 – O tenente da Armada, Francisco António Correia, é nomeado chefe do presídio de Moçâmedes. A 06.10, a rainha D. Maria II chama ao paço o Primeiro ministro, Duque de Palmela e, zangada, demite-o: ostensivamente, porque Sá Nogueira, novo ministro da Guerra, também demitira e transferira numerosos oficiais de tendências conservadoras. É menos claro, mas plausível, que se tenham movido influências de Luanda, já que dos implicados no contrabando de escravos pelas rusgas navais ordenadas pelo governador geral Pedro Alexandrino, um é o director das alfândegas de Angola, irmão do juiz presidente de Luanda, que 18 meses antes se perfilara no cais da Alfândega do irmão para saudar o novo Governador geral.

1847 – Quase exactamente doze meses depois da queda do governo de Palmela, e depois de perder duas batalhas, Sá Nogueira tem que aceitar um armistício proposto por um oficial inglês enviado pelo lado ‘conservador’. No porto de Moçâmedes o conde de Bonfim, ali desterrado por actividades a favor dos Cartistas em Portugal, tenta um levantamento e é deportado, tentando contudo evadir-se da escuna Conselho. No Brasil explode em Dezembro a revolução Praieira: o ‘Nativismo’ 1 que, desde a vitória do movimento Liberal brasileiro em 1844, alimentara a “extrema esquerda” brasileira, reacende o antigo antagonismo entre as duas comunidades, “nativa” e portuguesa, do Nordeste. Sob o caudilho conservador português Costa Cabral – o primeiro Ministro favorecido na corte de D. Maria II – assiste-se ao espectáculo, em Angola e Lisboa, de um governador-geral de Angola ser levado a juízo por impor leis incómodas a alguns homens influentes de Luanda.
1848 – Em Fevereiro a influência conservadora da monarquia francesa está inteiramente defunta: quando mais uma revolução Liberal inicia em Paris a 2ª República Francesa, em Lisboa é rapidamente nomeada uma comissão parlamentar e elaborado um decreto de abolição que se aplica a todo o Ultramar entre Maio e Agosto. Neste ano em que o Governador geral Pedro Alexandrino da Cunha é exonerado – o processo que lhe fora movido pelo comerciante de Luanda não chegara a tribunal – a compra de escravos de Molembo e Ambriz era, finalmente, criminalizada. Paradoxalmente, é então que, no Brasil, a meados do ano, o terrorismo contra a comunidade portuguesa no Nordeste é tal – gritava-se “mata que é ‘marinheiro’” – que um obscuro professor português de liceu, tão apegado à causa absolutista de D. Miguel que se exilara voluntariamente em Pernambuco, decide-se a escrever ao maior Liberal de Portugal pedindo-lhe asilo para si e outros Portugueses “nas Áfricas ou na Índia”: a petição de Bernardino Freire de Abreu e Castro vem directamente ao encontro dos planos do chefe da Repartição de Angola do Conselho Ultramarino, o extraordinário combatente Liberal, tipógrafo, médico da Armada e historiador, Simão José da Luz Soriano: sacode a poeira ao relatório de Pinheiro Furtado, escrito 63 anos antes, e apresenta ao ministro da Marinha, o indestrutível Sá Nogueira – por agora visconde de Sá da Bandeira – a ideia de colocar o professor Absolutista e os seus seguidores numa das “Áfricas”, a do porto de Moçâmedes. O financiamento do transporte de cento e setenta emigrantes, e dois engenhos de açúcar, é prontamente arranjado, mas entretanto os agricultores do vale do rio das Mortes sofrem o primeiro ataque do gentio do Nano, cujos chefes linhageiros eram antigos beneficiários do tráfico: é uma acção que vai repetir-se, somando-se os seus efeitos psicoógicos aos dos outro grande problema administrativo ainda por resolver: o destino a dar à escravaria de Angola.


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2.6. As colónias de Moçâmedes


1849 – A última etapa da Abolição passa a decorrer da acção colonial desenvolvida a partir do presídio de Moçâmedes pelo Ministério da Marinha e Ultramar, habilmente aconselhado pelo autodidacta Luz Soriano. O major do Exército Ferreira da Horta é nomeado por portaria de 30.03 para planificar o estabelecimento da colónia que se prepara em Pernambuco, e o decreto de 19.04 nomeia o tenente da Armada António Sérgio de Sousa primeiro governador do novo distrito, talhado do de Benguela e que inclui parte da actual Huila. Os colonos sob a chefia do austero e conservador Abreu e Castro tomam o seu lugar na barca Tentativa Feliz que, escoltada pelo brigue Douro, vai fazer um travessia extraordinariamente lenta, de mais de dois meses, nas calmarias do Atlântico sul: são pessoas de ambos os sexos e todas as idades, empregados do comércio, operários, algumas com as suas famílias – todas “marinheiros” das cidades do Nordeste – por quem o governador geral Adrião da Silveira Pinto espera em vão na baía do Namib, regressando a Luanda por necessidade de serviço. A colónia aporta afinal a 04.08.


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 1850 – Aporta a Moçâmedes na barca Bracharense mais um grupo de refugiados do Nordeste brasileiro: o Governo português não financiara esta ‘segunda colónia’ mas o desejo de vir para as Áfricas ou as Índias, na expressão de Abreu e Castro, era tal que o fizera ela própria por colecta em Pernambuco; nesse ano a seca e a inexperiência conjugam-se para reduzir muitos membros das duas ‘colónias’ do Namib à indigência; de Luanda vem o generoso auxílio que permite a uns sobreviverem durante o ano e a outros emigrarem para Benguela e a Huíla; os dois engenhos da ‘primeira colónia’ e o da ‘segunda’ são montados e a seu tempo funcionam, empregando a mão-de-obra que abunda ainda em Benguela. Pedro Alexandrino da Cunha toma posse em 29.05 como governador de Macau.

1851 – Com a fundação da alfândega de Moçâmdes, exporta-se o primeiro açucar. O governador de Macau é encontrado morto em 06.07: assassinado, aparentemente.

1852 – Estabelece-se o julgado municipal de Moçâmedes.

1853 – Apenas três anos após a Conferência de Berlim, o Capitão de mar-e-guerra António Ricardo Graça manda ocupar o porto de Mpinda como forma derradeira de impedir o contrabando em seres humanos no território de Angola, que agora inclui o ‘Congo português’. A mão-de-obra escrava não pode, contudo, deixar de ser utilizada na produção de açúcar do vale do rio Bero; o ministro Sá Nogueira, agora marquês de Sá da Bandeira, insiste para que se fomente uma indústria da pesca no distrito de Moçâmedes.


1854 – José Rodrigues Coelho do Amaral chega a Luanda como Governador geral (1854-1860); acompanha-o Fernando da Costa Leal, um capitão do Exército de 28 anos escolhido pelo Geral e que vem nomeado como governador de Moçâmedes, onde toma posse a 26.02. Das primeiras iniciativas que toma, uma é localizar a foz do rio Cunene, o que faz por terra, já que por mar a foz é encoberta por uma barra de areia a maior parte do ano; baptiza o rio mas o nome de “Elefantes” nunca é popular; tem melhor sucesso noutra área: “Obras paralisadas havia muito tempo, como a Igreja, que não andava desde 1849, são rapidamente concluídas. Outras, como a Fortaleza de São Fernando, iniciam-se ainda nesse ano e sem delongas se aprontam.” 1 Mas a mais importante é a concessão das primeiras licenças de pesca comercial, na Baía das Pipas. Em 14.12 é decretada com efeito imediato a libertação dos escravos do Estado: calcula-se que em toda a Angola houvesse então ainda cerca de 60.000 escravos nas mãos de senhores particulares.

1855 – A povoação do porto de Moçâmedes é elevada à categoria de vila: consistia então de dois alinhamentos de habitações, as melhores frente à praia, com uma rua de permeio, de 400 metros de comprimento. Neste ano de eleição da primeira vereação da Câmara Municipal, tendo com seu primeiro presidente Bernardino de Abreu e Castro, chefe da primeira colónia, é ocupada a Praia do Baba e a rainha D. Maria II envia 1000 anzóis ao governador do distrito.

1856 – No ano em que o hospício de Moçâmedes é inaugurado, o decreto de 15.06 decreta a Abolição em todo o território então sob a soberania portuguesa. Os primeiros armadores portugueses estabelecem-se nas Luciras.

1857 – Segundo o governador Leal, estão agora instaladas em Moçâmedes 16 pescarias, com 40 escaleres e 280 escravos, e mais 4 nas praias do Norte: Baía das Pipas, Baba, Lucira e Catara. Mas por outra preocupação, o governante desloca-se aos Gambos acompanhado pelo presidente da Câmara municipal de Moçâmedes: Bernardino Abreu e Castro mais tarde descreve ao Govenador geral o patria potestas banto, verdadeiro motor da escravatura africana. 2 A visita relacionava-se com a resolução de um litígio com o novo soba dos Gambos, ‘Xipalanga’, 3 que o governador dava por usurpador, e foi o prelúdio de pequenas operações militares lançadas da colónia do Lubango pelo governador, contra o parecer da Câmara e a opinião do experiente e educado viajante e comerciante entre os Cuanhamas, Bernardino José Brochado, estabelecido em Moçâmedes. Como o clima de guerra na Huíla convencesse alguns dos colonos do Lubango a deslocarem-se para a costa, a 25.11 o governador Leal assentou praça a dois deles: seguiu-se o protesto da Câmara, a dissolução desta pelo governador, a sublevação dos colonos e o embarque do governador para Luanda. O incidente – reflexo da antiga tradição de independência municipal ibérica, vestígio da colonização Romana e travão perene contra os desmandos dos barões feudais – tem sido, contudo, mal visto por habitantes mais recentes do Namib angolano, onde, por esse ponto de vista mais obediente, naquele tempo “uma indisciplina latente constituía permanente ameaça.” 4
 1858 – O Governador geral vem a Moçâmedes acompanhado do governador Leal, manda deter os cabecilhas da revolta, dissolve a Câmara – Brochado é nomeado presidente da Vereação (1858-1860) – e reconduz Leal. Resta pouca dúvida, porém, que a iniciativa militar do jovem governador de trinta e dois anos, inexperiente das “Áfricas” mas assoberbado pelo apoio que teria em Luanda, terá ajudado a acender um fogo entre os povos aguerridos do sul de Angola que só veio a apagar-se meio século mais tarde, depois de outro incidente, o de Naulila. Sai o decreto de 29.04 que estabelece aos senhores particulares um prazo improrrogável de 20 anos para a libertação final dos seus escravos, metade do qual na condição de servitude livre.

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1859 – O Governador Fernando da Costa Leal deixa o distrito de Moçâmedes para ir trabalhar com o marquês de Sá da Bandeira na compilação da primeira carta geográfica de Angola
1860 – Dez anos depois da chegada dos portugueses vindos do Brasil começa a colonização dos algarvios que para aqui se deslocam nos seus próprios barcos, em viagens de autênticos aventureiros honrando bem os seus antepassados navegadores: o primeiro é José Guerreiro de Mendonça, de Olhão.

1861 – No Governo geral de Sebastião Lopes Calheiros de Menezes (1861-1862) o levantamento dos povos do baixo Cunene – herança do governo do capitão Leal – obriga à constituição do Batalhão de Caçadores 3 com seis companhias, das quais a 1.ª e 2.ª se vão estacionar na Huíla, a 3.ª nos Gambos, a 4.ª no Humbe; a 5.ª C. caç. é colocada em Capangombe e constroem-se os fortes dos Cavaleiros e Boa Esperança, no vale do rio Bero: a guerra do Nano descia à cidade. Famílias de pescadores de Moçâmedes estabelecem quatro feitorias na ponta do Pinda, adjacente à antiga angra das Aldeias, o porto Alexander das cartas náuticas do almirantado britânico.

1862-5 – A reacção dos chefes tribais do sul de Angola ao aparecimento dos destacamentos militares não se fazem esperar, inaugurando um longo período de instabilidade para os colonos do planalto. Em Luanda o Governador geral é o militar que pacificara os Dembos e subtraíra finalmente o Ambriz às atenções britânicas; é, no entanto, durante este período conturbado da primeira vigência do notável Governador geral José Baptista de Andrade (1862-1865) que, na costa do distrito de Moçâmedes, se radicam pescadores algarvios não só em Moçâmedes, mas também na Baía das Pipas, Baba e Baía das Salinas: os do Baba mudam-se para o porto Alexandre, onde em 1863 já há seis feitorias de gente de Moçâmedes; iniciam-se as obras do hospital de Moçâmedes (1863), a construção do troço Bruco-Chela da estrada Moçâmedes-Huila e a fundação de uma indústria de tecelagem em Moçâmedes (1864), e se inaugura a estrada de Moçâmedes à pousada da Pedra Grande (1865); neste ano, os algarvios atingem na enseada do Leão, na enorme Great Fish-bay da marinha inglesa: o jogo de sombras às listas nas dunas da costa sugerem-lhe o nome moderno, ‘baía dos Tigres’, e a falta de água obriga-os a fazer um plano. 

1870 – No ano em que o marquês de Sá da Bandeira deixa definitivamente a política, as estradas para a Huila estão acabadas, não só na antiga passagem por Capangombe à Huíla, pelo Bruco, mas também para a Bibala, pelo Munhino; e há um numeroso grupo de pescadores algarivos na baía dos Tigres, que para ali transportam a água potável nas suas frotas. Governa Angola novamente, por um breve período, o enérgico Coelho do Amaral (1869-70).

1876 – Morre Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, o marquês de Sá da Bandeira, e em sua memória é decretada para o dia 29.04 – dois anos antes do previsto em 1859 – a libertação dos poucos escravos que ainda existem em território português.

1884 – Os oficiais da Armada Hermenegildo Brito Capelo e Roberto Ivens partem de Moçâmedes para Tete, no rio Zambeze, na sua travessia de África até Moçambique: é que as potências internacionais interessam-se por partilhar o sempre difícil continente e o Governo português toma precauções, uma delas o convite de muitas famílias da populosa e pobre ilha da Madeira a estabelecerem-se nas ‘Áfricas’. São pescadores e agricultores, aqueles com destino a Moçâmedes – a maioria ao Baba, outros a Porto Alexandre – estes em rota para a colónia de Lubango, na Huíla. De resto, a imigração portuguesa para Angola encontra-se agora facilitada, 1 e pela primeira vez se pensa em Angola como uma ‘província’ aberta a todos os Portugueses particulares, como as do continente europeu.

1885 – Por decreto do Ministro da Marinha e Ultramar, a vila do Lubango passa a conhecer-se pelo título do marquês cuja iniciativa humanitária e denodo político lhe dera origem: Sá da Bandeira.





Tozé




ORIGEM: Kamussel Foruns

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

ANGOLA, 50 ANOS DE PETRÓLEO

“Só me faltava mais esta!”
Frase atribuida a Salazar em 1966 quando lhe disseram que tinha jorrado petróleo em Cabinda em quantidades mais do que animadoras.
«A produção petrolífera de Angola aumentou mais de 550% desde 1980 e é de esperar que essa tendência se mantenha, na sequência de uma série de grandes descobertas feitas na segunda metade do anos 90 que, nas palavras de um analista, fizeram de Angola «“...indiscutivelmenete, o local mais promissor do Mundo para a exploração petrolífera”».De: Angola Do Afro-Estalinismo ao Capitalismo Selvagem de Tony Hodges, Editora Principia Cascais Junho 2002.
«O sucesso é o pior inimigo de si próprio, um convite à cupidez e à extravagância.» David S.Landes em A Riqueza e a Pobreza das Nações, Gradiva 2001.

1 - História
O interesse pelo petróleo angolano começou logo que o automóvel fez a sua entrada em Angola em 1912. Imediatamente no imaginário angolano começaram as histórias e as lendas sobre petróleo.
Mas antes, em 1910, uma firma comercial antecipou-se e conseguiu, em Lisboa, uma concessão para perfuração de petróleo entre Santo António do Zaire (Soyo) e Novo Redondo (Sumbe). Foi outorgada uma concessão de100 000 km2 à PEMA, tendo esta iniciado os trabalhos em 1915. Perfuraram mais de 500 m sem qualquer exito. Desistiram.
Era vulgar ouvir dizer que em tal parte o petróleo jorrava do solo como se fosse água. Nas anharas humidas em Angola a vegetação rasteira sofre putrefacções, após chuvas persistentes, formando pastas densas e negras, com laivos de gordura, dando a ilusão de que é petróleo. Existir petróleo em Angola era uma frase que os colonialistas não gostavam de ouvir, não fosse ela ouvida pelas multinacionais e, pior, não fosse ela verdadeira. Para susto bastou a PEMA.
Eles intuiam que o petróleo iria inviabilizar a presença portuguesa nas colónias. O raciocínio estava correcto porque logo que o petróleo em Cabinda começou a jorrar abundantemente, imediatamente irrompeu a independência.
A existência de asfaltos, um indiciador de petróleo, no norte de Angola, mais convencia os angolanos de que a descoberta de petróleo era apenas uma questão de tempo. Os asfaltos são um parente pobre dos petróleos mas que fornecem uma pista.
Em 1938, inquieto com a inépcia dos transportes em Angola, o capitão Joaquim Félix, radicado em Angola, empreendeu experimentos, do seu bolso, com os asfaltos dos Libongos. A imprensa apoiou-o, mas as entidades oficiais achincalharam-no. Decorreriam mais 24 anos para que a colónia começasse a pavimentar as estradas, com os seus próprios asfaltos betuminosos, dando razão ao visionário capitão Félix. As autoridades argumentavam que o asfalto dos Libongos não era apropriado para estradas, mas os belgas compravam-no e usavam-no em pavimentações no Congo Belga já na década de 40.
Em 1952 o governador-geral Silva Carvalho pugnou, com veemência, em Lisboa acabando por convencer Salazar a autorizar a prospecção de petróleo. Desta vez ao sul de Luanda, no Parque Natural da Quiçama. Mas tudo em pequeno, a área escolhida não era muito farta em petróleo.
Em 1954 jorrou petróleo, pela primeira vez em Angola, pelo poço Benfica situado nos arredores de Luanda. Um ano depois começou a sua extracção comercial, desta vez reforçada com um novo poço batizado de Tobias mais a sul. Em 1955 a concessionáia-Carbonang- foi autorizada a montar uma refinaria em Luanda para processamento do promissor petróleo angolano. Os produtos desta refinaria destinavam-se, inicialmente, ao mercado de Angola.
Em Maio de 1957 a refinaria, construída em tempo recorde, entrou em funcionamento com processamento de 100 mil toneladas anuais. Angola ficou auto-suficiente em combustíveis. Em 1960 já se processavam 179 mil toneladas de petróleo bruto das quais 65 mil foram absorvidas pelo mercado angolano, o resto destinou-se à exportação.
O petróleo próximo de Luanda nunca atingiu as grandes expectativas geradas entre a população. Poços rasos de pouco rendimento eram suficientes para o abastecimento interno a para alguma exportação. Apesar de modesta em termos mundiais, esta produção teve o seu merito porque formou quadros medios e inferiores na difícil tecnologia do petróleo. Era já uma incipiente tecnologia de petróleo.

2 - O petróleo de Cabinda
Mas em 1966 houve um sobressalto: jorrou petróleo em Cabinda em volumes mais do que promissores. Este facto originou a célebre frase, atribuida a Salazar e transcrita acima. Nesse ano já Portugal estava atenazado, por todos os lados, para tomar uma resolução que resolvesse o anacronismo colonial em que estava envolvido. O petróleo de Cabinda foi um catalisador da independência de Angola.
A produção de Cabinda foi aumentando de ano para ano. Em 1973 as receitas do petróleo sobrepujaram as do café. Em números: petróleo com 147 068 barris diários totalizando 230 milhões de dólares (em 2005 corresponderia a 2,30 mil milhões de dólares); café com 213 407 toneladas totalizando 203 milhões de dólares (em 2005 corresponderia a 2,04 mil milhões de dólares).
A cifra mil milhões (em matemática 109) corresponde ao bilião no Brasil e nos Estados Unidos. Como esclarecimento adiantamos que a terminologia mil milhões está consentânea com o SI (Sistema Internacional de medições) aceite por todas as nações mundiais com excepção dos E.U.A. No sistema SI (agora também adotado pela Inglaterra) o peso é referido em N (newton) e seus multiplos e a massa é referida em gramas (g) e seus multiplos

Fig 1 Plataforma petrolífera no on-shore (águas rasas) em Cabinda, nos anos 70 do século passado. Em primeiro plano uma “tocha” queimando gás natural uma “obscena” maneira de se verem livres do gás que acompanha, normalmente, a produção de petróleo. Naqueles anos o petróleo era abundante mas o consumo mundial era pequeno. Queimar o gás era a maneira mais cómoda e barata de se obter o petróleo.Ainda hoje o gás natural embaraça a extracção petrolífera em Angola, embora já se faça o seu aproveitamento.
 
3 - O petróleo em offshore de Angola


Em relação às jazidas em terra ou em água rasas (até 500 m) os geólogos Richard C.Duncan & Walter Youngquist escreveram um sugestivo artigo na Net (The World Petroleum Life-Cycle 1998) sobre as jazidas de petróleo em todo o mundo (43 países) explicitando-as com curvas de produção ao longo dos anos. Estas levam em consideração o petróleo já extraído e o que pode ser extraído. As curvas abaixo referem-se aos calculos daqueles eminentes geólogos. No caso de Angola não foram incluidas as reservas off-shore descobertas em 1998, após a elaboração das curvas. A nova curva reforça as expectativas angolanas pois augura uma maior “esperança de vida” para o petróleo de Angola.


Fig 2 Curva elaborada por Duncan & Youngquist (1998). A escala vertical refere-se à produção anual e à unidade mil milhões (biliões no Brasil e Estados Unidos). Pormenorizando: 0,35 corresponde a 350 milhões de barris anuais ou sejam 958 904 barris diários. A seguir, em baixo, a mesma curva, adaptada por nós, para barris diários.Não é considerada a existência do petróleo offshore, descoberto após a eleboração deste gráfico. O ramo da curva até 2005 está de acordo com a realidade.

Muitas vezes temos pensado no facto de a independência de Angola ter sido desencadeada atabalhoadamente (com total desconhecimento das realidades e, principalmente, das consequências), a partir de 1974, dando origem a uma descolonização desmiolada (unica na história mundial pelo ineditismo e irresponsabilidade dos “estadistas” que a conduziram). Foi precisamente em 1973, um ano antes, que as multinacionais do petróleo começaram a ver que Angola estava a transformar-se em um promissor campo petrolífero. É uma interessante coincidência, mas mais do que previsível especialmente para aqueles que, naquela época, tinham o privilégio de estudar geo-estratégia mundial.


Fig 3 A curva elaborada pelos geólogos Richard Duncan e Walter Youngquist em 1998 acima referida.A escala vertical à esquerda refere-se a mil milhões (biliões nos E.U.A e Brasil)e a escala à direita refere-se a milhares de barris diários A escala à direita refere-se a barris diários. Observa-se o grande salto em 1970, a quebra em 1976 (independência) com recuperação em 1980, e o grande salto de 1985 até 1995. Em 1992/1993 registou-se uma ligeira perturbação devida à segunda guerra civil.

Em 2005 nesta curva, é visível o declínio da produção, que se vai acentuando ao longo dos anos. Esta curva não leva em conta a produção off-shore descoberta mais tarde. Com a nova estimativa, a partir de 2003 a curva sofrerá uma inflexão para cima, melhorando substancialmente as expectativas dos angolanos.

Fig 4 A parte verde (à esquerda) diz respeito ao petróleo já extraído (até 2003) em um total de 5 mil milhões de barris. A parte azul (à direita) diz respeito ao petróleo por extrair, mas não incluindo aquele que foi descoberto recentemente em águas profundas.A nova curva, neste caso, sofrerá uma inflexão para cima a partir de 2003.Segundo Tony Hodges (Angola-Do Afro-Estalinismo ao Capitalismo Selvagem) as reservas petrolíferas angolanas ascendem a mais de 13 mil milhões de barris. O Departamento de Estatística dos E.U.A. refere-se a 9 mil milhões.
Fig 5 As concessões de petróleo em Angola. Toda a orla marítima, de Cabinda ao Cunene, está tomada por elas. A maior parte está a mais de 100 km da costa (off-shore). Esta exploração é toda em FPSO (Floating Production Storage Offloading) ou seja a produção o armazenamento e a transferência para petroleiros são efectuadas em uma plataforma; dali é transferida para os navios de transporte a longas distâncias. Os angolanos não se apercebem como decorrem estas operações.

É, de certo modo, confortável a possança petrolífera de Angola. Fazendo fé nos números de Tony Hodges (13 mil milhões), devidos às novas jazidas off-shore descobertas depois de 2000, o país tem petróleo para mais 17 anos (2027) admitindo uma produção diária de 2 milhões de barris ou 730 milhões de barris anuais. Se adoptarmos o otimismo petrolífero angolano, que tem coincidido com novas descobertas, podemos imaginar um aumento de produção nas concessões mais a sul de Luanda.
Fig 6 Os blocos mais rentáveis no off-shore angolano. Girassol e Dália são do Bloco 17. Está assinalado o poço Tobias que catalisou o entusiasmo dos angolanos sobre o futuro da então colónia.
Fig 7 Esquema das produções petrolíferas actuais em redor da foz (em estuário) do rio Congo ou Zaire.
 
4 - As FPSO (Floating Production Storage Offloading)


As FPSO começaram a ser ensaiadas em 1970 mas só se tornaram exequíveis nos anos 90. Elas dispensam os pilares de apoio no fundo do mar e o uso de longos e dispendiosos pipelines. Armazenam o crude “sugado”dos fundos oceânicos e depois passam-no para os navios tanques. Quando “secam” os poços, a FPSO levanta as âncoras e vai para outro local. Quase todas provêm de antigos petroleiros que são reforçados e convertidos em sofisticadas estruturas de extração e armazenamento. Quando são construídas de raiz são as FSU (Floating Storage Unit).

Numa FPSO (Produção, estocagem e transbordo em um único barco) faz-se a extração com armazenamento temporário até 2 milhões de barris; posteriormente virá um navio, a cada 4 dias, para receber o transbordo e fazer o transporte para qualquer parte do mundo.

A maior FPSO até hoje construida foi a actual Seawise Giant, um antigo petroleiro que usou os nomes de Knock Nevis, Happy Giant e Jahre Viking. O petroleiro tinha 458 m de comprimento, 69 m de largura e 32 m de altura fora da água. O calado (parte dentro da água) por ser muito profundo não podia passar no canal do Suez e no canal do Panamá. Este petroleiro foi danificado quando atravessava o estreito de Ormuz durante a guerra Irão-Iraque nos anos oitenta. A carcaça foi reconvertida em FPSO e opera no Qatar.

Fig 8 FPSO Knock Nevis,ex- maior petroleiro do mundo: comprimento de 458 m largura de 69 m calado de 30 m. Não podia passar nos canais de Suez ou Panamá. Ficou semi-destruído na guerra Irão-Iraque quando atravessava o estreito de Ormuz. Foi convertido em FPSO e está em ação no Qatar. Na gravura (a vermelho) uma comparação do seu comprimento com diversos emblemas mundiais.
Fig 9 Os blocos em exploração em 2009 situam-se entre Cabinda e Luanda, O Bloco 17 alberga 4 FPSO muito produtivas: Girassol, Dália, Rosa e Jasmim.Estão “em frente”de N´Zeto (ex-Ambrizete).

O Bloco 17 do off-shore de Angola tem uma reserva de 1000 milhões de barris. A plataforma FPSO Girassol extrai por dia 200 mil barris de crude. Esta plataforma está a 135 km da costa de Angola e opera a uma profundidade de 1350 m. Perto, a 10 km, está a plataforma Dália, com as mesmas características e igual rendimento.

A plataforma Girassol saiu da Coreia, puxada por 2 rebocadores, com destino a Angola, à velocidade de 2 nós (3,7 km) por hora. Atravessou os estreitos de Singapura e Malaca antes de entrar no Oceano Indico. Passou pelo Canal de Moçambique (Pemba) e chegou a Angola após mais de 100 dias de viagem ou 27 mil km.

A FPSO Dália tem 300 m de comprimento, 60 m de largura e 32 m de altura. Era um antigo petroleiro que foi transformado na Coreia do Sul.

A maior FPSO em Angola é a Kizomba: produz 240 mil barris diários e armazena 2,2 milhões de barris. Está ao norte de Dália, no Bloco 15 a 320 km da costa, tem 285 m de comprimento, 63 m de largura e 32 m de altura. Extrai o crude de 1 200 m de profundidade.
Fig 10 Esquema geral de uma FPSO.

Fig11 e 12 Esquema e pormenor de uma FPSO


Fig 13 FPSO Girassol no Bloco 17 do off-shore a 135 km da costa angolana; extrai petróleo de profundidades em torno de 1350 m. A Sonangol detem 60 % e a Total os restantes 40%. O bloco 17 tem 3 mil milhões de barris de reserva. Estão em operação 71 dispositivos de extração do crude que é armazenado durante 8 dias na própria FPSO e depois transferido para petroleiros que seguem para diversos pontos do mundo. Esta FPSO extrai 240 mil barris diários que são armazenados até perfazerem 2 milhões; a seguir virá um petroleiro carregar este petróleo.
Fig 14 A complexidade de uma FPSO. Inquestionável: é uma tecnologia de ponta que abrange todas as engenharias. Estarão os angolanos absorvendo todas estas tecnologias como sucede com o Brasil, onde tudo é feito por brasileiros com as suas universidades desenvolvendo programas de pesquisas? Vale ressaltar que o Brasil é o pioneiro da produção de petróleo em alto-mar. É uma tecnologia de ponta que orgulha os brasileiros: eles não aprendem, ensinam; eles não esperam por outros, empreendem rapidamente.
Fig15 Um FPSO: autónoma, é abastecida diariamente com helicopteros e pequenos barcos.É uma mini-cidade. Nesta gravura ela está em viagem: quando o “poço seca” levanta as âncoras e vai para outros mares. Um verdadeiro maná pois não colide com donos de terras, não deixa marcas ambientais, ninguém se apercebe da sua presença.A extracção de petróleo em alto-mar tranquiliza, sobremaneira, as empresas petrolíferas pois não têm de encarar a má vontade dos nacionais. Mas oferece muitos riscos que são expostos por Sonia Shah no livro “A História do Petróleo” ediçãos L&PM Editores, Porto Alegre, Brasil 2006:« As redes de oleodutos submarinos, apesar de muito caras e trabalhosas para a indústria petrolífera, são muito mais seguras do que transportar enormes quantidades de óleo pela superficie do mar em petroleiros e outras embarcações, como exigem os FPSOs. É por isso, ao menos em parte, que os reguladores norte-americanos baniram os FPSOs do Golfo do Méxicoaté 2002». «Os FPSOs podem se movimentar alguns metros para cima e para baixo e se inclinar cerca de quinze graus». Os FPSOs são viáveis no Atlântico Sul onde as ondas raramente atingem uma altura de 5m.
Fig 16 Off-shore de Angola e respectivos blocos. Por enquanto o Bloco 17 é o mais produtivo.

Há indícios de que existe, mundialmente, mais petróleo no mar do que em terra, tudo depende dos avanços da ciência e da tecnologia.Podemos estar tranquilos, mas sob uma certa reserva, pois asseveram-nos, fazendo fé nos relatórios das multinacionais, que “o petróleo não acaba”. A tranquilidade tem um elevado preço e esse é o evidente aquecimento global, descontando os grandes exageros pseudo-científicos gerados à volta dele.
Fig 17 Esquema de uma FPSO. A plataforma “suga”, do fundo do mar, e transfere o crude para um petroleiro que conduzirá a preciosa carga para qualquer parte do mundo.
 
5 - As grandes produçõe petrolíferas no mundo


Desde tempos bíblicos que se conhece o petróleo. Era usado na iluminação e nas cozinhas domésticas. Um derivado, o alcatrão, era usado na calafetagem dos barcos. O Caucaso era a região no mundo onde o petróleo brotava à superficie. O carvão era, então, a grande fonte de energia devido ao seu fácil transporte. A primeira perfuração industrial realizou-se em Baku (Caucaso) em 1848. Em 1850 já era utilizada na iluminação; o célebre candeeiro Petromax (queima petróleo difuso) apareceu em 1857.Até 1850 a base da iluminação era o óleo de baleia. Foi a primeira salvação dos cetáceos, mas não a ultima; ansiamos que os japoneses percam o terrível costume de matar baleias!

O primeiro poço no continente americano entrou em produção em 1858 em Ontário no Canadá. O coronel norte-americano Edwin Drake em Titusville (Pensilvânia) em 1859 foi o iniciador da indústria petrolífera americana ao perfurar um poço com 20 m de profundidadee produção de 30 barris por dia (1 barril de petróleo tem 159 litros). Mas não eram necessárias grandes produções porque o petróleo era utilizado, apenas, para a iluminação.

Mas as grandes possanças americanas estavam mais para oeste: Texas e Oklahoma. Os americanos da costa leste, onde se situa o estado da Pensilvania, desdenhavam dos aventureiros que se esfalfavam na procura de petróleo no Texas. Os pioneiros, quando se aventuram, quase sempre são motivo de chacota.

Com o aparecimento do automóvel tudo mudou. Em 1886 apareceu o primeiro motor de explosão, em 1920 já Henri Ford produzia mais de 1 milhão de carros. Avassalador, o petróleo impôs-se como a primeira fonte de energia.


6 - O primeiro poço gigante da história: Spindletop no Texas

Foi o maior poço de petróleo nos E.U.A. Situa-se ao sul de Beaumont no Texas, a l0 km de Houston.

Em 27 de outubro de 1900 o engenheiro austríaco Anthony Lucas começou a perfurar um poço em cima de um domo de sal, sob fortes e mordazes críticas de colegas e da imprensa. A incipiente produção de petróleo estava concentrada nos estados da Pensilvânia (onde Drake perfurou o primeiro poço petrolífero da história) e Ohio. As teorias da época condenavam esta perfuração, especialmente a imprensa destes dois estados. Outro arrojo dos “aventureiros” do Texas era a perfuração com brocas rotativas em contraste com a percussão os chamados “pica-paus” (derricks).

Em 10 de janeiro de 1901, quando a perfuração atingiu os 300 m, (um contraste com a profundidade de 20 m na Pensilvânia) o furo começou a “a roncar e a vomitar lodo negro com pedriscos” , que caiu sobre as pessoas, sobre toda a aparelhagem e sobre uma apreciável área de serviço circundante. Todos se puseram rapidamente a salvo, a uma conveniente distância. E esperaram ansiosos. O fluxo parou mas continuou ameaçador, “roncando”. Todos voltaram, recomeçando as limpezas, mas desconfiados. Parece que foi de propósito, o poço eclodiu com uma fúria que deixou todos estupefactos, mas explodindo de alegria. Irrompeu um autentico geyser de petróleo atingindo os 60 m de altura-mais 18m do que o seu derrick (torre) encharcando tudo e todos com petróleo. Esta cena inspirou cenas semelhantes nos filmes “O Gigante”, “Cimarron” (em Oklahoma) e modernamente no filme “ Haverá Sangue”.

Spindletop batizado de Lucas, produzia 12 000 m3 (80 000 barris) de crude por dia. Antes deste fenómeno o poço de maior produção no mundo produzia 50 barris diários (8 m3). Havia teorias de que não era possível passar desta marca. O Lucas desmentiu as teorias: fornecia um volume 1 600 vezes maior, um valor inimaginável até então. Spindletop provou que aquecendo as camadas de rocha podem-se obter volumes consideráveis de crude. Provou também a superioridade dos furos rotativos em relação à percussão. Foi o início da moderna tecnologia do petróleo que, desde então, tem sempre desafiado o “status quo”. Quando se julga que “nâo há mais nada para descobrir” aparece uma nova e desafiante tecnologia. O caso mais actual é o das FPSO descritas atrás. Os pioneiros que tentam adoptar novas e ousadas tecnicas são sempre crismados de malucos. Felizmente “eles” persistem nas suas loucuras.

Em 1903, 2 anos depois, o primeiro furo (Lucas) já estava atabafado com milhares de derricks.
Fig 18 O célebre poço gigante de Spindletop e os felizes operadores.
Fig 19 O campo gigante de Spindletop no Texas, 2 anos depois da erupção do Lucas.
Fig 20 Sondagem à percussão (pica-pau). Aplica-se quando a profundidade não vai além de 30 m, em rocha mole. Na Pensilvânia o petróleo, em alguns locais, jorrava à superficie; tinha-se como definitiva a ideia de que o petróleo estava sempre muito à superficie. Em Oklahoma, em Spindletop, aplicou-se a perfuração rotativa que atingiu grandes profundidades.


7 - O campo petrolífero super-gigante em Ghawar na Arábia Saudita

O maior campo petrolífero, até hoje descoberto, situa-se na Arábia Saudita; é Ghawar abrangendo uma área de 7300 km2 (280 km por 26 km), a 250 km e leste da cidade de Riad e a 150 km a Oeste de Qatar. Foi descoberto em 1948 com início da exploração em 1951. Perde eficiência à taxa de 8% ao ano. Produz 5 milhões de barris por dia e 8 mil milhões (8 biliões no Brasil e E.U.A) de m3 de gás natural.

Recebe a designação de gigante um campo petrolífero que produz mais de 500 mil barris por dia. O campo gigante de Ghawar com 5 milhões de barris por dia é o maior no mundo.
Fig 21 Berço da atual civilização o Médio Oriente é hoje a região mais problemática de todo o mundo
Fig 22 O Medio Oriente detém mais de 60% de todo o petróleo mundial. O eixo desta área nevrálgica é o Golfo Pérsico. É um petróleo “em terra”, de fácil extração e com custos pequenos, que serve para moderar os altos custos do petróleo obtido “no mar”. Os impactos ambientais nunca tomam a gravidade dos que sucedem nos offshores. Os incendios “em terra” debelam-se com relativa facilidade.
Fig 23 Campo gigante de Ghawar na Arábia Saudita próximo do Golfo Pérsico ou Arábico. Com a evidente depleção do petróleo fácil esta área já é um ponto vermelho de conflitos, no mapa mundial.


8 - Nigéria

A Nigéria foi o segundo produtor africano de petróleo durante os ultimos anos (o primeiro é a Líbia). Quase toda a extração petrolífera nigeriana situa-se no delta do rio Níger. Este rio tem uma área de bacia hidrográfica de 2 117 700 km2 e um estirão de 4 180 km; nasce na Guiné, passa pelo Mali, Niger, e fronteira do Benim antes de atingir o delta. É o terceiro rio mais longo de África, depois de Nilo e Congo.

O delta é pujante de petróleo embora a produção tenha vindo a cair nestes ultimos anos, não só devido às próprias jazidas, que vão perdendo rendimento ao longo do tempo (ver abaixo a curva de Duncan e Youngquist), como também a circunstâncias sociais que se vão agravando de dia para dia. Os conflitos com as populações locais começaram em 1990 e têm-se agravado desde então.

Ocupação de terras agrícolas de grande fertilidade com estruturas petrolíferas, com fracos critérios de indemnizações, agravada com terríveis poluições do solo, da água e do ar proporcionaram uma situação de pré-guerra civil. São constantes os ataques às infrastruturas e especialmente aos “pipe lines” (tubagem de transporte) provocando incêndios devastadores com muitas mortes. Esclarecemos aqui que o delta do Níger (como é intrínseco de todos os deltas) é eco-agricolamente muito rico, não é de admirar a sua enorme densidade demográfica.

A produção Nigeriana tem vindo a cair de tal maneira que já foi sobrepujada por Angola. Além de petróleo o delta do rio Níger é abundante em gás natural, existindo uma refinaria para transformação do gás natural em LNG (gás natural liquefeito).

Fig 24 Delta do rio Níger. Rico em petróleo coloca a Nigéria em 10ª reserva mundial com 36,2 mil milhões de barris (36,2×109 ). É a 2ª em África com a Líbia (41,5 mil milhões) liderando.O petróleo da Nigéria é todo in-shore (em terra) o que tem trazido grande turbulência culminada com a pré-guerra civil. Os povos que habitam no delta não se conformam com os tremendos impactos ambientais provocados pela produção e pelas consequentes injustiças sociais. Na verdade o petróleo emprega pouca gente, quase toda com alta qualificação o que significa estrangeiros, denominados, agora, de expatriados. (ex-cooperantes). O petróleo inutilizou vastas áreas agrícolas de elevada fertilidade.

Na figura notam-se, a castanho (marron) os imensos e longos pipelines que saem de todos os poços. Isto tem originado pavorosos incêndios, com centenas de perdas de vida, devidos aos furos clandestinos para “re-extração” de crude.

Esta pequena guerra civil tem desencorajado as empresas petrolíferas que se “estão virando” mais para sul ou seja para Angola. Aqui o petróleo está quase todo em off-shore a mais de 100 km da costa angolana.É uma extração muito longe de qualquer bisbilhotice, os angolanos nunca se aperceberão de tal riqueza e como é extraída.Em termos sociais é, também, uma extração offshore dos olhares curiosos.
Fig 25 Curva da produção de petróleo da Nigéria, segundo Richard C.Duncan & Walter Youngquist (1998). A escala vertical diz respeito à produção de barris de petróleo por ano, multiplicada por 109. Assim 0,8 significam 800 milhões anuais ou 2,2 milhões de barris por dia. Um barril tem 159 litros. Verifica-se que o declínio começou em 2005. Além desta previsão há que acrescentar as intensas perturbações provocadas pela exploração petrolífera no delta do rio Níger: os povos revoltaram-se devido aos choques ambientais e sociais trazidos por ela.Em África a Nigéria perdeu o cetro da exploração petrolífera a favor de Angola. Mas em Angola o petróleo é extraído do mar, a mais de 100 km da costa, longe de todos os olhares.Os angolanos nem se apercebem, no terreno, que são detentores de uma imensa riqueza petrolífera. Mas apercebem-se, e como, que dela nada beneficiam!
 
9 - O petróleo no Mundo


Principais países produtores de petróleo
Valores de produção em 2008 em milhões de barris diários
Fonte: Departamento de Estatística dos Estados Unidos da América
Angola deverá atingir, muito brevemente, os 2 milhões de barris por dia.

Fig 26 Países produtores de petróleo.


Maiores exportadores de petróleo
Valores de 2008 em milhões de barris diários
Fonte Departamento de Estatística dos Estados Unidos da América


Maiores consumidores de petróleo
Valores de 2006 em milhões de barris diários
Fonte: Departamento de Estatística dos Estados Unidos da América

O consumo mundial diário de petróleo cifra-se em torno de 85 milhões de barris (13,5 milhões de m3 ) ou seja é um “ rio” de petróleo com um caudal de 156 m3/s. À velocidade normal da água (1 m/s, inadmissível para petróleo pois, para este na prática, seria muito menor) o crude seria transportado por uma adutora (tubo circular) com 14 m de diâmetro, dia e noite, durante um ano. Para um transporte teórico de petróleo a velocidade no tubo teria que ser muito menor do que 1 m/s o que aumentaria, substancialmente, o respectivo diâmetro.

Fig 27 Consumo diário mundial de todos os países do Mundo. Total: 85 milhões de barris por dia.


10 - As 20 maiores reservas petrolíferas do Mundo em 2007
Valores em mil milhões (biliões no Brasil e E.U.A)
Fonte: Departamento de Estatistica dos E.U.A

Fig 28 Segundo Tony Hodges em” Angola Do Afro-Estalinismo ao Capitalismo Selvagem”: «...as reservas totais estimadas do país, incluindo quer as comprovadas, quer as prováveis, ascendiam já, nessa data, a 12 300 milhões de barris, ou seja ao equivalente a 38 anos de produção aos mesmos níveis (MINPET, 2001)».A gravura inclui 9 mil milhões valores admitido pelo Departamento de Estatística dos Estados Unidos da América. Fonte deste gráfico: Internet.

Unidades: Billion significa 109 ou no sistema SI (oficializado na União Europeia) mil milhões.
Fig 29 Países africanos produtores de petróleo. As maiores reservas estão na Líbia (43,7 mil milhões) e Nigéria (36 mil milhões). Seguem-se a Argélia (12,2 mil milhões) e Angola (9 mil milhões) Todas as reservas estão em onshore (em terra) excepto Angola que estão em offshore (no fundo do mar). Em Ghana e no Uganda as reservas foram descobertas muito recentemente. Estes países estão sob forte confusão de sentimentos levantada pela seguinte pergunta: “Será que se vão repetir aqui as mesmas desgraças que grassam por todo o continente africano?”Os produtores africanos estão integrados no segundo time; no primeiro time, até 80 mil milhões de barris incluem-se a Arábia Saudita, Irão, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Venezuela e Rússia.


11 - Os maiores emissores de CO2
Valores referidos ao período 1990-2002

Fig A China é o maior emissor de CO2 mas é também o mais populoso país do mundo

12 - As descobertas de jazidas

Fig 30 O século do petróleo. O período entre 1940 e 2000 foi a época dourada das descobertas de novas jazidas. Isto criou no homem comum uma sensação de eternidade energética, mas a partir de meados dos anos 90 a curva dos consumos passou para cima da curva das descobertas o que prenuncia uma depleção a longo prazo, Mas há reservas colossais de gás natural, basta fazerem-se rápidas reconversões, embora o transporte de gás seja mais problemático e dispendioso.
12 - Petróleo não convencional


Os mais otimistas argumentam que o petróleo nunca faltará, até se descobrir uma outra fonte de energia. Este otimismo é alimentado com a esperança de que se descobrirão mais jazidas no mar, à medida que se vão aperfeiçoando ou aparecendo tecnicas mais evoluídas de prospecção e exploração.

No Canadá, em Alberta na bacia do rio polar Atabasca, existem milhões de toneladas de areias betuminosas que depois de processadas fornecem petróleo. A possança destas areias, convertíveis em petróleo, é simplesmente colossal, da ordem de 3 vezes as reservas da Arábia Saudita. A extração das areias é feita por processos de terraplenagem com gigantescas máquinas. As areias são aquecidas e depois processadas. O processamento é violento em termos ambientais, pois para se obter um barril de petróleo (159 litros) movimentam-se 2 toneladas de areia e é libertado para a atmosfera um volume de CO2 de 3 a 5 vezes maior do que o usual na obtenção do petróleo convencional. Escusado será dizer que os danos ambientais são inimagináveis. Podemos afirmar que, com estas areias a humanidade não sucumbirá com a depleção do petróleo, mas morrerá com a “sufocação” provocada pelo excesso de CO2.

O Canadá já extrai, por este processo, cerca de 1 milhão de barris diários. Em Alberta a Greenpeace está atenta e atingem muitas dezenas os seus constatantes e acerados protestos.

Na bacia do rio Orenoco, na Venezuela, existem iguais jazidas de areias betuminosas na mira das grandes multinacionais de petróleo, em uma área de 12 000 km2.

Fig 31 Uma pá-escavadora (shovel) carregando um camião fora de estrada em Alberta. Cada balde tem 20 m3 ; o camião transporta, em uma unica viagem, 200 t (100 m3) de material betuminoso.Pode ver-se ao fundo a profundidade da possança das jazidas.

Fi 32 Areia betuminosa de Alberta no Canadá. A possança é colossal, pode-se obter um numero de barris de petróleo 3 vezes superior ao da Arábia Saudita mas só após processamentos muito energívoros e poluentes. Na bacia do Orenoco (Venezuela) existe uma possança da mesma ordem de grandeza. Deus nos valha!
Fig 33 Xisto betuminoso: diferente das areias betuminosas, é mais compacto mas dele se podem, também, obter mihões de barris de petróleo através de processamentos cinco vezes mais danosos para o ambiente do que os utilizados na obtenção do petróleo convencional. Será que vale a pena obter-se uma tal vitória pírrica?

Fig 34 Uma escavadora gigante em operação nas areias betuminosas do Canadá. Ao fundo podem ver-se carrinhas vulgares umas anãs em comparação com as escavadoras. Dá para se aquilatar os colossais depósitos existentes na área. É uma Arábia Saudita de petróleo, mas em estado sólido.Há já umas teorias estapafurdias preconizando injectar o CO2, proveniente da produção e queima de petróleo no mundo, no solo, ou seja adoptando a velhíssima ação de despachar o lixo para debaixo do tapete. Uma outra ação, ainda mais anedótica, é a descoberta pelos bancos: os países não desenvolvidos, com quotas de CO2 abaixo dos limites, podem vendê-las aos países infractores (créditos de CO2) ou seja pode sempre continuar o “regabofe” da queima indiscriminada de combustíveis fósseis. Trata-se de duas incríveis operações: proteger os países que não têm competência para reduzir a taxa de gases de estufa e abrir mais uma frente de especulações bancárias oferecendo serviços virtuais, desta vez um gás.Já não bastaram as casas e os créditos malparados!

Fig 35 Camião gigante, fora de estrada, que faz os transportes de areia betuminosa em Alberta no Canadá.O petróleo não convencional é inicialmente processado como solo, através de terraplenagens. Posteriormente será aquecido com vapor de água, Obtém-se um óleo viscoso que será processado em refinarias. Muita energia gasta e muitos danos ambientais em cima de um rio polar, o Atabasca.


13 - Conclusões

1) A pertinácia do governador-geral Silva Carvalho em 1952 conseguiu que Lisboa autorizasse as primeiras sondagens de petróleo em Angola, nos arredores de Luanda. A concessão foi entregue a uma firma de capitais maioritários belgas.

2) O petróleo em Angola jorrou pela primeira vez em 1954. Foi, de imediato, construída uma refinaria que lançou os primeiros produtos em 1957. Angola passou a ser auto-suficiente para o seu pequeno consumo. As prospecções viraram-se para Cabinda, dada a fraca possança das jazidas proximas de Luanda.

3) Em 1966 jorrou petróleo em Cabinda em volumes que provocaram entusiasmos, preocupações e acenderam luzes amarelas de aviso (optimistas) dentro das multinacionais, e vermelhas (pessimistas) para o governo de Lisboa. Em 1973 o volume de divisas do petróleo sobrepujou o do café, até então o maior suporte económico de Angola. Não citamos os diamantes porque a sua extracção e comercialização passavam ao arrepio da balança comercial angolana. Abordaremos os diamantes em posterior ensaio.

4) Sintomaticamente em 1974, um ano depois, iniciou-se o processo de descolonização: Portugal foi obrigado a proclamar a independência de Angola, ou seja a “largar” rapidamente as riquezas petrolíferas.

5) Foram dificeis e confusos os primeiros anos da independencia. Nós, naquela santa ignorância que caracteriza os bem-intencionados (e mal informados especialmente) julgávamos qua as multinacionais do imperialismo norte-americano tinham os dias contados em Angola. Elas eram sempre um alvo dos movimentos independentistas.Mas o impossível, visto pela nossa otica, aconteceu: as multinacionais continuaram e a sua segurança acabou por ser feita por tropas, pasme-se, ... cubanas com o auxílio secreto da ...KGB. ´

6) Duas guerras civis, uma a seguir à independência e outra depois de 1991 atrasaram a exploração petrolífera. Em 1973 a produção era de 158 900 barris diários mas decresceu até 1976 com 46 530 barris; a partir deste ano foi um crescendo até à atualidade, quase a atingir os 2 milhões de barris diários, ultrapassando a Nigéria que está sob perturbações inerentes a guerrilhas internas.

7) Dependendo da produção anual o petróleo de Angola durará mais de 15 anos.

8) Quais foram as consequências para Angola de tanto petróleo? Como se lidou no país com tanto dinheiro? Será o tema de um nosso próximo ensaio “As fases da economia de Angola”.
Luiz Chinguar
 

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pescas em Portugal Ultramar - um apontamento histórico ( António Martins Mendes - Faculdade de Medicina Veterinária - Lisboa)

Resumo: A extensa fronteira oceânica e a localização geográfica de Portugal fizeram dos Portugueses grandes consumidores de pescado, mesmo não sendo a costa muito rica em pescado. Em 1939 os reis de Portugal e Inglaterra assinaram um tratado para que os pescadores portugueses pescassem nas costas de Inglaterra, pagando os mesmos direitos que os habitantes locais. Desde a expansão e descobertas que seguiam pescadores no rasto das caravelas os quais se estabeleciam em baías desertas desde que a pesca aí se tornasse rentável.
A colonização das costas de Angola ao sul de Benguela iniciaram–se apenas em meados do Século XIX, em Moçâmedes, Porto Alexandre, Baía dos Tigres, etc.
A vida era difícil uma vez que não existia água doce disponível a sul de Moçâmedes, mas era compensada pela abundância de peixe que era capturado, salgado e seco.
Apesar da má qualidade do produto final os pescadores conseguiam exportar este pescado seco e salgado para algumas colónias africanas mas muitas toneladas de produto foram destruídas em Angola.
Apenas com técnicas primitivas os pescadores conseguiam também preparar óleo e farinha de peixe. A indústria pesqueira foi-se desenvolvendo e transformou-se numa indústria próspera. Os Serviços Veterinários intervinham para garantir a qualidade e a higiene do pescado e produtos derivados. Foram instaladas fábricas de enlatados em Benguela, Luanda e outros portos. Mercados do interior abasteciam–se de peixe refrigerado e congelado que lhes chegava por caminho-de-ferro. Para reforçar a sua actividade, os Serviços Veterinários criaram laboratórios nos portos pesqueiros e um serviço especial de bacteriologia para o controlo de Salmonella nas farinhas de peixe.
Como consequência do aumento das actividades pesqueiras e da importância económica da sua indústria foi criado em 1970 o “Instituto das Indústrias da Pesca de Angola”. Em 1973 a soma envolvida nas pescas e indústria pesqueira chegou aos 1.550.804.000$00.
Em Moçambique, apesar da longa costa marítima de 2.975 km, a situação era completamente diferente. As actividades piscatórias limitavam–se à pesca tradicional praticada na maior parte das vezes junto a estuários, com especial incidência na Baía de Lourenço Marques (actualmente Maputo).
Alguns cientistas Sul-africanos trabalharam em águas Moçambicanas na identificação de espécies de pescado locais e o camarão transformou–se no ex-libris local.
Em 1966 um instituto especializado em estudos científicos de pescado foi instalado em Angola e em Moçambique, mas estes aspectos serão referidos em outra nota histórica sobre as actividades dos médicos veterinários portugueses.

Continua...
Texto completo, clicar AQUI

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A fundação de Moçâmedes (Namibe-Angola). Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, 04 de Agosto de 1849


Busto de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, sobre coluna com dedicatória, que existiu no tempo colonial na Avenida de Moçâmedes

                                                                      
Do livro “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes - Namibe - Angola- desde a sua ocupação efectiva” da autoria de António Augusto Martins Cristão, passarei a transcrever o seguinte texto:

"...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas.


Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos "barões assinalados", cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia:
...Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencionados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:

...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...

 
Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
...Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Moçâmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca "Tentativa Feliz". com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:

..Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...


Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade. E Bernardino termina o seu relato:
.
..Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»


Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Moçâmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:

...É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro.

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um grande português, de um grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo

...Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?.

 É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama:  

...Só será salvo o que preservar até ao fim!

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Moçâmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Moçâmedes.

Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por "Mossâmedes". A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada vez mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a "terra eh baixa e maa de conheser" e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens Pacheco refere a existência de "gente pobre que se nom mantem nem uiuem senom pescaria" e que esses negros faziam "cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar" lançando-les por cima areia " e aly passam sua triste uida».
In “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão