segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os colonos da África portuguesa sob o regime colonial e seu deslocamento para o Brasil no pós-independência Zeila de Brito Fabri DemartiniI; Daniel de Oliveira CunhaI




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RESUMO

Milhares  foram    os colonos portugueses que passaram pela África e vieram viver  no Brasil    após a derrocada do império português, em 1975. Também     vieram viver neste país os brancos nascidos no continente africano,  chamados    de "velhos colonos", associados pelos anti-colonialistas aos  portugueses, embora    em grande parte se considerassem africanos.  Muitos deles de fato se articularam    com os interesses da metrópole,  apesar de muitos outros se associassem    aos nacionalistas negros e  mestiços, definindo-se também com a    categoria africana de "filhos da  terra", orientados para a causa das independências    das colônias. Este  artigo aborda as tensões político-ideológicas    e identitárias  individuais e coletivas fundamentais que se processaram    entre os  "velhos colonos" e os "recém-chegados" desde sua vivência    no âmbito  da situação colonial até a sua chegada    a este país de acolhimento, o  Brasil.
Palavras-chave:    Colonos africanos no Brasil. Pós-colonialismo. Tensões político-ideológicas.

Texto integral AQUI

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mapa de Cristoforo Soligo 1485/86 - cartógrafo veneziano



1ª expedição do navegador português Diogo Caão [ Agosto de 1482 a Abril de 1484], à costa costa ocidental africana a Sul do Equador, à latitude 15º 8' Sul.
                                          


Actuais países da Nigéria, Camarões, Guiné Equatorial, as ilhas de Fernão Pó (formosa) e S. Tomé e Príncipe, Gabão, Congo Brazaville, enclave de Cabinda, Congo Zaire.

Estuário do rio Zaire e percurso superior.
A costa de Angola, inclui as ilhas de Luanda e Mussulo.
O extremo Sul do mapa, o Pontal Norte do Saco do Giraul, entrada Norte na Baía de Moçâmedes – Namibe- Angola.

Sinalização de duas cruzes:

-Na margem esquerda junto à foz do rio Zaire. Assinala o padrão de S. Jorge
-No cabo de Stª Maria. Assinala o padrão de Stº. Agostinho.

A toponímia dos padrões configuram as datas da sua implantação (23 de Abril e 28 de Agosto de 1483).

Lugares assinalados em Angola, após a 1ª expedição de Diogo Caão [mapa cristoforo Soligo]:


“aponta blancha” - Lândana - enclave de Cabinda – 5º 13’ lat. Sul
“aponta da barreira vermelha” , [Cacongo – enclave de Cabinda] 5º 14’ lat. Sul
"capo do paul" - praia da Muanda, [República Popular do Zaire Kinshasa] 5º 56’ lat. Sul
"rio poderoso" - rio Zaire - 06º 02' lat. Sul
"capo do padrom" - Ponta do Padrão, 6º 4’ lat. Sul
"capo redondo" - em N'Zeto, Ambrizete 7º 14’ latitude Sul
"rio da madalena" - rio Loge e baía adjacente à vila do Ambriz, lat. 7º 48’ 40’’ Sul.
"rio de Fernam Vaz"- monte de barro - foz rio Dande, 8º 28’ lat. Sul
"angra grandim" - baía da foz rio Bengo, 8º 44´52’’ lat. Sul
"morro alto" - "montes da lua" margem direita rio Quanza, lat. 9º 19’ Sul
"terra de duas pontas" - praia do Sangano, 9º 33’ lat. Sul
"rio do paul" - rio Catumbela, 12º 26’ 42” lat. Sul
"angra de Santa Maria" - praia morena de Benguela, 12º 35’ 24” lat. Sul
"canel dalter poderoso" - rio Caporolo, lat. 12º 53’ Sul
"capo do Lobo" - cabo de Santa Maria, latitude 13º 25’ Sul
"14º" - baía de Lucira Grande, 13º 52' lat. Sul
"pontalvo" - ponta da baía das Salinas , 14º 11’ lat. Sul
Mapa Mundi de Henricus Martellus Germanus - 1489
Lugares assinalados em Angola após a 2ª expedição de Diogo Caão [mapa mundi Henricus Martellus Germanus]:


"rio poderoso" - Rio Zaire
"pota de padron" - Ponta do Padrão
"capo retundo" - em N'Zeto, Ambrizete
"rio de fernã Vaz" - rio Loge
"ponta alta" - monte da Lua - margem direita rio Quanza
"C. S. Laureci" -cabo S. Lourenço - Benguela à Velha, Porto Amboim, Angola , 10º 45’ lat. Sul
"golfo de S Maria" - angra de Stª Maria - Praia morena de Benguela
"C. S. Augustini" - cabo Santa Maria
"C. Zorto" - pontal Norte Saco Giraul na baía do Namibe, Moçâmedes

"terra fragosa" - costa marítima de Moçâmedes a Porto Alexandre
"monte negro" - cabo Negro
"terra alta" - costa marítima de Porto Alexandre à Baía dos Tigres
"enseada" - baía dos Tigres
"arena braca" - dunas

Lugares assinalados por Duarte Pacheco Pereira em "Esmeraldo de situ orbis":

"rio do padrão" - rio Zaire
"rio de Mondego" - rio Bengo
”ilha das Cabras” - ilha de Luanda
“ponta das Camboas”- cabo de S. Brás, lat. 9º 58’ 30” Sul.
"ponta de São Lourenço" - Benguela à Velha, Porto Amboim.
"angra de Santa Maria" - baía da praia morena de Benguela
"ponta preta" - cabo de StªMaria
"monte negro" - cabo Negro
"angra das aldeias" - Tombua, Porto Alexandre
"manga das areias" - enseada baía dos Tigres
"ponta das pedras" -
“mendoos" -dunas

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A ESCRAVIDÃO E AS RELIGIÕES


«.....Os muçulmanos do Norte da África fizeram muito mais do que só se envolver no aprisionamento e escravização de negros: Eles atacavam os litorais da Europa para capturar brancos e vendê-los nos grandes mercados de escravos da África.

De acordo com o Professor Robert Davis, da Universidade de Ohio, os muçulmanos africanos não se limitavam a transformar em escravos apenas os europeus capturados em guerra. No período entre 1530 e 1780, eles atacavam e aterrorizavam sistematicamente os litorais da Europa no mar Mediterrâneo em busca de pessoas para vender como escravas nas cidades africanas de Argel, Tunis e Trípoli. O Professor Davis escreveu que mais de um milhão de europeus foram levados à força para a África. O Mediterrâneo veio a se tornar um “mar de medo” para os europeus que viviam perto dos litorais, principalmente camponeses, trabalhadores de fazendas e pescadores. Até mesmo grandes cidades como Barcelona, Genova e Nápoles não estavam a salvo de invasões e ataques de corsários muçulmanos. Esses piratas caçadores de escravos chegaram até mesmo a atingir regiões litorâneas do oceano Atlântico: Em 1627, quatrocentos habitantes da Islândia (país europeu com população evangélica branca de cabelo loiro e olhos azuis) foram aprisionados e transportados como escravos para a África, para nunca mais voltarem. Em 1631, os habitantes de uma vila inteira na Irlanda foram atacados de surpresa e capturados pelos africanos. De acordo com o jornal inglês Guardian Unlimited: “Milhares de cristãos brancos eram seqüestrados anualmente para trabalhar como escravos remadores de galeras, trabalhadores braçais e amantes dos senhores muçulmanos no que é hoje o Marrocos, Tunísia, Argélia e Líbia”.

A vida dos escravos brancos na África não era melhor do que a vida dos negros africanos no continente americano: eles eram obrigados a trabalhar em casas, fazendas, pedreiras, minas de sal e construção de estradas, ficando reservado às jovens brancas o “trabalho” de servir sexualmente os africanos. Todos sofriam torturas para se converter ao islamismo e estima-se que metade deles morriam no cativeiro devido a rações de péssima qualidade, trabalhos pesados, surras e pragas. No século XVIII algumas nações européias começaram a pagar resgate para libertar alguns europeus escravizados na África.

Os países europeus que não queriam ser alvo de ataques de piratas muçulmanos africanos eram obrigados a pagar uma pesada taxa anual. Até mesmo o Império Britânico, com sua grande marinha, não se aventurava a enfrentá-los militarmente, talvez também por causa de suas amargas experiências do passado. Só entre 1609 e 1616, 466 navios ingleses foram capturados. Entre 1677 e 1680, outros 160 navios ingleses foram aprisionados pelos muçulmanos africanos. Nas décadas seguintes, os ingleses continuaram sofrendo perda de ainda outros navios, cujas tripulações e passageiros foram igualmente escravizados, até que, humilhado, o poderoso Império Britânico reconheceu a necessidade de pagar as taxas anuais exigidas pelos piratas africanos.

A captura, venda e compra de escravos europeus nos mercados da África sofreram um duro golpe quando os EUA, no começo de 1800, corajosamente agiram de um modo que nenhuma grande nação da Europa ousara tentar. Em resposta às ações de corsários africanos que capturaram um navio americano no mar Mediterrâneo e escravizaram a tripulação, os EUA — que na época nem tinham uma marinha — encomendaram a construção de três navios. Com essa pequena marinha recém-formada, eles travaram guerra contra os poderosos países muçulmanos do Norte da África. Na primeira grande ação militar internacional dos EUA, um pequeno número de soldados americanos invadiu esses países, prevaleceu sobre seus inimigos e exigiu a emancipação de todos os escravos europeus cristãos.

A pirataria e a escravidão dos africanos muçulmanos contra os europeus só terminaram definitivamente quando os franceses, os espanhóis e os italianos colonizaram os países do Norte da África e exterminaram as bases de operações dos mercadores de escravos. No entanto, com o fim da colonização algumas nações africanas — como o Sudão — voltaram aos velhos hábitos, escravizando homens, mulheres e crianças de seus próprios povos. No Sudão moderno, centenas de milhares de cristãos negros têm sido estuprados, escravizados ou mortos por sudaneses muçulmanos, que controlam o governo.

A Escravidão Sempre Existiu, em Todos os Povos. A escravidão não teve origem na Bíblia, que apenas a regulou e humanizou. Essa prática está ligada a todas as raças desde os tempos mais antigos. Sobre essa questão, comenta Thomas Sowell, um americano negro e professor universitário: “Os europeus escravizaram outros europeus durante séculos antes que o esgotamento de escravos brancos os levasse a recorrer à África como fonte de escravos para o Hemisfério Ocidental. O imperador romano Júlio César marchou em Roma numa procissão que incluía escravos britânicos capturados. Duas décadas depois que os negros foram emancipados nos Estados Unidos, ainda havia escravos brancos sendo vendidos no Egito. A mesma história se repete na Ásia, África, entre os polinésios e entre os povos indígenas do Hemisfério Ocidental. Nenhuma raça, país ou civilização está isento de culpa”. Sowell também diz: “A escravidão era um negócio feio e sujo, mas indivíduos de praticamente todas as raças, cores e credos estavam envolvidos nela em todos os continentes habitados. E as pessoas que eles escravizavam também eram de praticamente todas as raças, cores e credos”.

O Professor Robert Davis explica essa questão: “Umas das coisas que o público e os estudiosos têm a tendência de fazer é ver como fato garantido que a escravidão sempre teve natureza racial — que só os negros eram escravos. Mas isso não é verdade. Não podemos pensar na escravidão como algo que só os brancos fizeram para os negros”. A maioria das sociedades de 1, 2, 3 ou 4 mil anos atrás aceitava de uma forma ou outra a escravidão. E é bom lembrar que na Europa brancos escravizavam brancos, na Ásia asiáticos escravizavam asiáticos, nas Américas índios escravizavam índios e na África negros escravizavam negros, tornando a maior parte da população mundial de hoje (independente de origem racial) descendente de escravos, pois o sistema social de trabalho forçado era comum a todos os povos. Não havia os que aceitavam e os que não aceitavam a escravidão. Havia só dois grupos:

A maioria: os pagãos, ateus e anticristãos que eram de modo geral cruéis com os escravos.

A minoria: os que, obedecendo ao que Deus diz na Bíblia, eram de modo geral bondosos com eles.

Onde a escravidão era praticada por muçulmanos e outras culturas não cristãs, dificilmente havia esperança de misericórdia para os oprimidos. Ainda que hoje os muçulmanos não mais empreendam o aprisionamento e venda de negros e brancos como escravos, sua falta de compaixão pouco diminuiu, como se pode comprovar nos cruéis atos terroristas e seqüestros e assassinatos sádicos de reféns inocentes, praticados por indivíduos que se consideram adeptos de uma “religião de paz”, mas que desde os tempos da escravidão vem trazendo, através de seguidores fanáticos, opressão e terror para a humanidade.

No continente americano, antes da vinda de Cristóvão Colombo, a situação não era melhor. Pessoas capturadas, mesmo crianças, nas guerras entre as tribos indígenas muitas vezes acabavam escravizadas, ou engordadas para servirem de alimento para seus captores canibais ou simplesmente utilizadas em sacrifícios humanos. Tanto homens como mulheres aprisionados eram estuprados, pois o homossexualismo era comum nas tribos. O tratamento desses índios nas mãos de outros índios era tão cruel que as vítimas viram Colombo como herói, quando ele venceu as tribos canibais e libertou os índios que estavam sendo mantidos presos para serem devorados. Os índios libertos receberam o “invasor” com muita alegria.TEXTO COMPLETO AQUI

domingo, 13 de fevereiro de 2011

AGOSTINHO NETO FOI ASSASSINADO PELOS RUSSOS

Luanda - Uma declaração pública sobrelevou-se a todas as outras durante as celebrações deste ano do Dia do Herói Nacional, instituído com a data do nascimento de Agostinho Neto:

a filha do velho presidente, a médica Irene Neto (que ocupa um dos vice-ministérios das Relações Exteriores), admitiu, ao falar a uma estação de rádio de Luanda, a possibilidade do líder angolano ter falecido em resultado de envenenamento.

Irene Neto falou em «abundantes indícios» sugerindo que o pai, Agostinho Neto, não morreu de causas naturais. Estratagemas artificiais teriam encurtado o seu ciclo de vida. Pela primeira vez, desde o desaparecimento de Agostinho Neto, há 28 anos, uma declaração pública evoca a possibilidade do líder revolucionário angolano ter sucumbido a uma conspiração destinada a eliminá-lo da cena política angolana, numa afirmação, além do mais, valorizada por ter partido de uma fonte simultaneamente ligada ao círculo familiar do velho presidente e aos meios institucionais angolanos.

A admissão dessa funesta possibilidade no Café da Manhã da Luanda Antena Comercial (Lac) de terça-feira não teve, entretanto, o cunho de uma declaração oficial, embora seja isso o que hoje se afigura mais necessário para a compreensão da política angolana dos últimos 30 anos: declarações oficiais do actual Governo e do partido que naquele Setembro fatídico de 1979 personificava o Estado, o Mpla, que façam luz sobre o que se passou, como uma vez perguntou Severino Carlos neste jornal, «naquela mesa de operações em Moscovo».

Agostinho Neto morreu ao submeter-se a um operação exigida por alegadas complicações no fígado detectadas em Moscovo por médicos inscritos da Academia de Ciências da antiga Urss. Efectivamente, as autoridades instituídas com o apoio do partido de que Neto era o presidente não só evitaram o rigor nas suas «démarches» para esclarecer a morte do seu «líder incontestável», como não foram a reboque das suspeitas públicas que se levantaram e, também, não aproveitaram o alento dado ao assunto pelos escritos publicados por um velho general da espionagem soviética, Kgb. Com o seu incompreensível silêncio e sua inaceitável apatia, as autoridades angolanas transformaram a questão em mais um dos muitos tabus do Governo e das instituições estatais angolanas. Estamos, então, num processo, porque contínuo, de escamoteamento da verdade. E não de uma verdade qualquer, mas da verdade histórica, porque é ela que nos haverá de permitir ligar os pontos históricos que possibilitarão aos angolanos a obtenção das explicações para a sua existência.

Há indicações de que Agostinho Neto tentou, dez anos antes de José Eduardo dos Santos, uma aproximação com a Unita. São Vicente, prestigiado economista e escritor de temas económicos e sociais angolanos, di-lo num dos seus vários livros, dando, ainda, o subsídio necessário de que para essa negociação haver sido indigitado um dos mais carismáticos dirigentes do Mpla da época, o agora deputado Mendes de Carvalho. E Sao Vicente não deve estar longe da verdade: Gerald Bender, professor universitário nos Estados Unidos há muitos anos dedicado aos assuntos angolanos, fez num dos jornais ligado à equipa que agora edita o Semanário Angolense (teria sido no Angolense?), uma revelação diferente, mas que conduz à mesma percepção de que Agostinho Neto pretendia uma aproximação com a Unita destinada a parar com a guerrilha ainda embrionária do antigo movimento rebelde. Escrevendo pelo próprio punho, Gerald Bender declarou ter sido abordado por Lúcio Lara, que tinha recebido incumbências directas de Neto, para estabelecer uma aproximação entre o Governo angolano e a administração norte-americana logo após à suposta intentona golpista de 1977.

Ao que se diz, a tentativa de golpe de Estado de 1977 teria sido engendrada por sectores radicais de esquerda no seio do Mpla, sendo apoiada, pelo menos, pelo embaixador soviético naquela altura acreditado em Luanda.

Seja lá o que for, a verdade é que os esforços da liderança de Agostinho Neto para abandonar a sombrinha de Moscovo e direccionar o processo político angolano para o seu próprio caminho foram tantos, que podem ser narrados sob factos diferentes e sob uma relativa abundância de dados. Tanto é assim, que isso deu nas vistas em Moscovo, a capital do chamado Bloco Socialista que na «guerra fria» dividia o Mundo do Bloco Capitalista, onde se procurava manter países e regiões inteiras sob a «esfera de influência» de um socialismo beligerante e insaciável na sua procura por recursos económicos e financeiros.

E em Moscovo havia, para casos de defecção ou revisionismo ideológico, uma bitola que a literatura ocidental da «guerra fria» chamava a «mão de Moscovo», que consistia tanto no financiamento de guerras no estrangeiro para alargar a «esfera de influência» da defunta União Soviética, quanto na eliminação de lideres dissidentes em face dos dogmas ideológicos do leste.

A relação da morte de Agostinho Neto com a «mão de Moscovo» pode ter acabado infelizmente abonada, mais tarde, com o assassinato de Samora Machel, de Moçambique, tempos depois de ter declarado publicamente que «o socialismo não se constrói apenas com a ajuda do bloco socialista», aludindo à necessidade de uma aproximação com o ocidente. Quer dizer que as suspeitas dos angolanos mais lúcidos levam a apontar os dirigentes do velho regime soviético como responsáveis pela eliminação física de Agostinho Neto, quando ele tentou mudar o rumo dos acontecimentos que estabeleceram a guerra civil que perdurou por mais de duas décadas no nosso país. E tudo isso significa, também, que as coisas, toda a história de tragédia do povo angolano, teriam sido diferentes, se Neto não tivesse sido tão prematura e inesperadamente roubado da liderança do Estado e do processo político angolano.

O que se seguiu à efémera liderança de Agostinho Neto à frente dos destinos do Estado angolano foram anos da afirmação política do Presidente José Eduardo dos Santos, que não tinha nem a autoridade militante, nem o carisma, para convencer os sectores mais radicais do partido, nas costas de quem Neto ensaiava a aproximação à Unita, da necessidade da ruptura com o leste e de um entendimento com a guerrilha «savimbista». No seu processo de afirmação, José Eduardo dos Santos teria sido mesmo compelido a reprimir atitudes «netistas» exacerbadas, como as de Paiva Domingos da Silva, que teria iniciado a travessia pelo deserto em que se encontrava na altura da sua morte, depois da declaração proferida diante do novo Presidente da República, advertindo que ninguém deveria «tirar um só vírgula, naquilo que disse o mulaúla, camarada presidente doutor António Agostinho Neto».

No congresso de 1985, o afastamento da cúpula do partido de incondicionais de Agostinho Neto como Mendes de Carvalho e Lourenço José Ferreira «Diandengue», ou mais tarde, o «desterro» de Roberto de Almeida no Lubango, ou, ainda, de Bernardo de Sousa na China, tal como o confinamento de Lúcio Lara depois de arredado da direcção (para apenas citar alguns exemplos), podem ser considerados ataques directos contra o «netismo», no quadro da assumpção plena do poder e da afirmação da liderança de José Eduardo dos Santos.

Isso explica que para afirmar a sua liderança, José Eduardo dos Santos não poderia fazê-lo sob a sombra do «netismo» e isso pode explicar, também, porquê que foram tão displicentes as tentativas para esclarecer com os soviéticos primeiro, e agora com os russos, a morte do primeiro presidente angolano.

Levantar o fantasma de Neto denunciava, no passado, que a beligerância do Estado não era um dos desígnios que Neto aceitasse para o desenvolvimento do processo político angolano. Já mais recentemente, a figura de Neto passou a ser temido por poder desviar a política dos objectivos da nova liderança, por conduzir a comparações que a subalternizam sob o ponto de vista do carisma e da intelectualidade, por destapar os actuais défices de popularidade dos líderes do nosso processo político e por desqualificar os novos métodos de governação.

Pelo que, tudo o que se diz sobre Agostinho Neto nas jornadas anuais que celebram o Dia do Herói Nacional, quando se lhe chama «guia imortal» ou «líder incontestável» e se promete «seguir os seus ensinamentos» ou «preservar a sua memória», não passará de mero cinismo, até que se decida abordar a sua morte na mesma amplitude da sua dimensão política, que não foi atingida por nenhum outro líder político angolano até aos dias de hoje.


Fonte: SA

AGOSTINHO NETO "ESCONDIA" EM LISBOA UM "CORREDOR-SOMBRA" PARA WASHINGTON

Pouco antes da morte de Neto, em 1979, a Casa Branca pedia a Luanda que "esquecesse" a ajuda norte-americana ao Zaire e à FNLA; Walker, Bzerzinski, McHenry e Moose previam "para breve" a normalização das relações diplomáticas com o regime de Agostinho Neto

Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos lançaram na aventura dos corredores da Casa Branca alguns dos seus mais astutos negociadores. Por fim, em 1994, os Estados Unidos da América do Norte abriram, em Luanda, oficialmente, a sua representação diplomática, de facto. Quem foram os "homens de Neto" para os contactos com a Casa Branca? O nome de Paulo Teixeira Jorge, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola, é indissociável dos esforços de Agostinho Neto para convencer os americanos. O JN descobre, entretanto, que o "velho" presidente tinha, "escondido", em Lisboa, na década dos anos 70, um "emissário especial". Uma "arma secreta" para "raids" à Casa Branca estratégica e tacticamente concertados, em linha síncrona, com o MNE angolano: o dr. Arménio Ferreira. Médico radicado em Lisboa. Antigo companheiro de Agostinho Neto nos bancos escolares e na Casa dos Estudantes do Império. Arménio Ferreira sentou-se, em Washington, credenciado por Neto, de frente para Richard Moose, Donald McHenry, James Overly, Zibgnew Bzerzinski, Walker, Funk, Alan Hardy, entre outros pesos pesados, médios e leves da política dos "States" para a África.
Arménio Ferreira, cardiologista, não é diplomata de carreira, nem sequer "político encartado". O seu estatuto confunde-se com afectos, coerências fecundas, sentido imperdível de constância na lealdade e na solidariedade. Não fosse o dr. Arménio tão modesto, tão avesso à pimponice mediática, e nós, os repórteres, dele tiraríamos, seguramente, revelações interessantíssimas sobre os "labirintos" e os muitos protagonistas da história de Angola e do MPLA. O que mais contraria Arménio Ferreira é o facto de ele não ter conseguido, ainda, em foro desapaixonado, divulgar o seu pensamento sobre o papel e a obra de Agostinho Neto. Quando o saudoso presidente angolano considerou útil e conveniente a colaboração de Arménio nas árduas conversações com os americanos, o médico não hesitou. Independentemente das circunstâncias, Arménio Ferreira respondia "presente!".
As incursões mais "trepidantes" deste emissário especial do presidente Neto, junto da Casa Branca, tiveram lugar em 1979. Isto é, pouco antes da morte de Agostinho Neto. Foi quando o dr. Arménio Ferreira, nos dias 29 de Julho e 9 e 16 de Agosto, andou numa verdadeira farândola entre reuniões e mais reuniões na Casa Branca e com os homens do Departamento norte-americano de Estado. Os altos funcionários encarregados, principalmente, dos Assuntos Africanos: Richard Moose, Donald McHenry, Walker, Alan Hardy, e outros. A sessão que mais terá marcado Arménio Ferreira foi, provavelmente, aquela segunda parte das conversações de 9 de Agosto (1979), por volta das 18 horas. Quando Arménio Ferreira, em representação da parte angolana, discutiu com uma delegação norte-americana da Casa Branca encabeçada por N. Walker. Este, investido das duplas funções de expert em Assuntos Africanos e representante governamental norte-americano para o "dossier Angola", estava acompanhado, também, por Funk, secretário para a Segurança da Casa Branca.

MEMORÁVEL

Dessa reunião, a 9 de Agosto, no Departamento norte-americano de Estado, guarda o dr. Arménio Ferreira uma impressão certamente memorável. No período da manhã, ele trabalhara com um "pesado" da Casa Branca, Zibgnew Bzerzinski (National Security). O americano quis saber, de Arménio Ferreira, se o presidente Agostinho Neto "poderia governar sem os cubanos". O enviado angolano sorriu-se e aproveitou para lembrar aquilo que, de facto, mais embaraçava a Casa Branca: "Os cubanos só estão em Angola para combater e repelir a invasão sul-africana". Dir-se-ia que os norte-americanos, prestes a aceitarem como irreversível a "normalização" das relações com Angola (1979), não perdiam ensejo de agitar, mais uma vez, o fantasma do "comunismo". Bzerzinski disse mesmo ao dr. Arménio Ferreira, enviado de Agostinho Neto, que a URSS era o "suporte", em "todo o mundo", de vários "estados-marionetas". Entrementes, o norte-americano Funk, da "National Security", tem uma explanação no mínimo premonitória: "Actualmente, os Estados Unidos não auxiliam quaisquer organizações anti-angolanas". E justificou: "Se o fizemos no passado era, somente, porque essas organizações apresentavam-se com uma máscara anti-comunista, dizendo-se com forte implantação junto das populações angolanas".

"NORMALIZAR!"

Finalmente, o próprio Bzerzinski foi categórico diante da expectativa crescente de Arménio Ferreira naquela reunião em Washington: "Desejamos e vamos normalizar as nossas relações diplomáticas com Angola. Julgo que Angola também o deseja". Mais tarde, num breve esboço elaborativo dos seus registos, o dr. Arménio Ferreira tomou nota. "Quanto às palavras de Bzerzinski, interpreto-as essencialmente como um recado ao presidente Neto. No sentido de que as relações USA/Angola são provavelmente desejadas, neste momento, pela Casa Branca". E, do seu próprio punho, acrescentava Arménio Ferreira: "Bzerzinski, nesse aspecto, foi claro, na qualidade de único dirigente norte-americano que falava como quem tem autoridade para o fazer".
E, aqui chegado, o dr. Arménio particularizava, da mesma entrevista com aquele alto funcionário da administração americana: "Quando o intérprete (F. de Rivera) me falou em "more normal relations between the two states", eu interrompi-o. E disse-lhe que o conselheiro político do presidente Carter havia falado, sim, em "normal relations". Bzerzinski concordou e confirmou, inteiramente, a minha versão, em inglês".
Arménio Ferreira rematava, assim, as suas apreciações ao perfil de Bzerzinski: "Elemento considerado como da linha dura da Casa Branca, ele foi de uma correcção comedida mas, ao mesmo tempo, simpático e frio no raciocínio. Como quer que seja, foi o único que disse claramente que os Estados Unidos da América do Norte iriam estabelecer relações diplomáticas com Angola. Não mencionou, todavia, qualquer data presumível".

"ACABEM JÁ COM A PARANÓIA!"

Paulo Jorge, antigo ministro angolano dos Negócios Estrangeiros,
"encostou" Chester Croker e ouviu "promessas" de Cyrus Vince...

Paulo Teixeira Jorge foi o carismático ministro angolano dos Negócios Estrangeiros durante a presidência do não menos carismático António Agostinho Neto. Ele tem, dos revoluteios da política externa dos Estados Unidos, um conhecimento quase visceral. Quanto ao "dossier" das relações entre Luanda e Washington, Paulo Jorge conhece todas as sofistarias da "máquina" da Casa Branca.
Em Luanda, Paulo Jorge recebe, pela segunda vez no espaço de 48 horas, o enviado do JN. Especialmente para revisitarmos algumas "páginas" do grande livro negocial: Luanda versus Washington.
JORNAL DE NOTÍCIAS - Quais foram os negociadores norte-americanos que revelaram maior apego à linha dura da Casa Branca?
PAULO JORGE - Para começar: a posição da Casa Branca, se bem que eventualmente matizada, é uniforme. Eu dialoguei, por exemplo, variadíssimas vezes, com o então subsecretário de Estado, Chester Crocker. Claro que a posição dele era a posição do Governo norte-americano! Foi precisamente ao Chester Crocker que eu disse, num dos encontros, que os Estados Unidos deveriam reconsiderar sobre a "paranóia" anti-Angola e anti-Cuba. Em dado momento, o Chester Crocker faz avançar o tão falado "linkage": interligar as questões referentes a Angola, presença cubana e Namíbia. E, em 1982, num comunicado conjunto Luanda-Havana, expressa-se a total rejeição de semelhante "linkage"! Este era um tema obrigatório nas minhas deslocações às Nações Unidas, na época. Já com Ronald Reagan na presidência dos Estados Unidos.
JN - O Paulo Jorge utilizou o termo "paranóia" somente nas conversações com Chester?
PJ - Utilizei-o também num discurso que proferi na Assembleia Geral das Nações Unidas.
JN - Nunca conversou com o "moderado" Walker?
PJ - Conversei com ele, uma vez, no âmbito das consultas bilaterais. Tive também encontros com o Cyrus Vance no período em que se encontrava Jimmy Carter na presidência dos Estados Unidos. Conversei, também, com o Alexander Haig. Com o Shultz, etc, etc, etc.
JN - Na altura do falecimento do presidente Agostinho Neto estariam, já, a desenhar-se perspectivas fortes de entendimento com os Estados Unidos?
PJ - Recordo que em 1978...1979, numa das minhas deslocações a Nova Iorque para participar na Assembleia Geral das Nações Unidas, eu tive um encontro com o Cyrus Vance, secretário de Estado norte-americano. E, então, abordámos sim a problemática do reconhecimento da República Popular de Angola pela Administração dos Estados Unidos. Estavam os democratas na Casa Branca, portanto. E o Cyrus Vance deu a entender que estaria em curso um processo tendente ao reconhecimento e, naturalmente, à normalização de relações diplomáticas com Angola. Só que, entretanto, em 1980, foi eleito o republicano Ronald Reagan...! E tudo se desmoronou. Foi tudo por água abaixo. Um dos primeiros passos de Ronald Reagan, em 1981, na Administração norte-americana, consistia na revogação da chamada "Emenda Clark". Que impedia o Governo dos Estados Unidos de ajudar os "movimentos" de "oposição" aos regimes africanos. Já durante a campanha eleitoral dos republicanos se perfilava, e preconizava, uma ajuda à UNITA!

DIGA AO DR. NETO QUE É UM "INFERNO" SER-SE AMIGO DE ANGOLA EM WASHINGTON

Walker, encarregado norte-americano do "dossier Angola", queixava-se da sabotagem articulada por "comissões,
senadores, deputados e uma certa Imprensa ávida de deixar mal vistos os amigos da causa angolana"...

No interior da Casa Branca, durante a presidência angolana de Agostinho Neto, o poder democrata todos os dias traçava "fronteiras" entre os políticos hesitantes, às vezes mesmo contraditórios, e os políticos decididos. Um dos quais, Walker, não hesitou
em mandar dizer ao presidente Neto: "Olhe que não é fácil, aqui em Washington, a vida de quem se mostra favorável a Angola!". O enviado especial de Agostinho Neto (o médico Arménio Ferreira) percebeu, por outro lado, que os americanos já tinham como irreversível a opção de normalizar as relações diplomáticas com o regime de Neto. O líder angolano morreu, pouco depois, em Moscovo, vítima de cancro no pâncreas.

O Governo dos Estados Unidos da América do Norte e Agostinho Neto (Arménio Ferreira)

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O norte-americano Zibgnew Bzerzinski, alto funcionário da Casa Branca (conselheiro para a Segurança do Estado), chegou a ter este desabafo diante do dr. Arménio Ferreira, enviado de Agostinho Neto: "Considero que, realmente, Angola e o seu presidente têm conduzido uma política independente, e não desejamos que Angola seja base de um novo conflito entre Leste e Oeste". Arménio ficou, por momentos, a contemplá-lo, e Bzerzinski prosseguiu nestes termos: "Queremos uma Angola livre e independente. E os Estados Unidos nunca intervirão, nós nunca interferiremos com o regime angolano. Seja qual for esse regime, como é timbre da nossa política na África Austral. Queremos a estabilidade na zona". E, por último, Bzerzinski proferiu a célebre assertiva: "Desejamos e vamos normalizar as nossas relações diplomáticas com Angola. Julgo que Angola também o deseja". Corria o Verão de 1979.
O ambiente, rememora o dr. Arménio Ferreira durante a conversa com o JN, era de manifesta cordialidade. Tanto assim que Bzerzinski tivera, até, um gesto particularmente simpático: manifestou a Arménio a sua preocupação pelo estado de saúde da esposa do médico angolano, na altura melindroso. Estava-se a 9 de Agosto de 1979.
Arménio Ferreira sentia-se, de facto, agradavelmente impressionado com as "performances" dos seus interlocutores.
Ele gostou, especialmente, das posturas dialogais de Walker e de Richard Moose. "Os mais liberais do Departamento de Estado e da margem esquerda do Partido Democrático", reitera Arménio Ferreira. Também McHenry, Donald McHenry, do "dossier" da Namíbia e embaixador na ONU, impressionou fortemente o emissário especial do presidente António Agostinho Neto.

DONALD McHENRY - A "SINCERIDADE"

No entender de Arménio Ferreira, o poder democrata norte-americano "tropeçava" nos remanescentes da mentalidade conservadora adjutória das políticas republicanas - o "inferno" para as aspirações dos países do Terceiro Mundo. Donald McHenry, que lidava fluentemente com o "dossier" da Namíbia (a SWAPO, na altura, sofria a "bom" sofrer às mãos da Infantaria do "apartheid"), tratou Arménio Ferreira com excepcional afectividade. Arménio matutava para os seus botões: "Este americano é, talvez, mais "formalista" que Walker, ou mesmo Richard Moose, mas é certamente o mais afectuoso de todos". Mc Henry sem dúvida que convenceu Arménio da sua "muita sinceridade". Arménio considerava-o "anti-sul-africano", logo, "anti-apartheid". Além disso, o enviado de Agostinho Neto estava convencido de que Donald McHenry iria suceder a Andrew Young como embaixador norte-americano nas Nações Unidas.
Nesse mesmo dia (9 de Agosto de 1979), ao cair da tarde, em Washington, o emissário especial do presidente Neto ouviu do norte-americano Walker (subsecretário de Estado para os Assuntos Africanos) os mais rasgados elogios. Walker destacou, vivamente, "a eficiência do trabalho" de Arménio Ferreira em prol da aproximação Washington-Luanda. Walker teria dito, entrementes: "Eu não vou repetir aqui as afirmações há pouco proferidas pelos senhores Bzerzinski e McHenry. Quero, isso sim, afirmar que devemos esquecer, Angola deve esquecer a ajuda que os Estados Unidos prestaram, em tempos, à República do Zaire e à FNLA".
Walter, que sabia ser insinuante, aproveitou para lembrar que ele próprio fora o arquitecto, no Departamento norte-americano de Estado, da aproximação Angola-Zaire.
Em Luanda, o enviado do JN ouviu, a propósito, Lopo do Nascimento, actualmente secretário-geral do MPLA, outrora primeiro-ministro durante a presidência do dr. Agostinho Neto. De facto, Lopo deixou bem claro que Donald Mc Henry foi pedra fulcral nas diligências que levaram à "normalização" das relações entre Luanda e Kinshasa. Lopo não falou de Walker. Nessa altura (1977-1979), foram realmente frequentes os encontros de McHenry, inclusivamente em Luanda, não só com Lopo do Nascimento mas, igualmente, com o próprio presidente Agostinho Neto. Falta saber, contudo, se, naquele tempo, a "normalização" teria sido pensável e realizável sem a activa disponibilidade do então presidente do Congo-Brazaville, Marien Nguabi. Com Walker ou sem Walker.
Como quer que seja, ninguém duvida, hoje, da importância que as diligências de Mc Henry, na África Austral, chegaram a conhecer no tocante ao arrefecimento das fricções entre Luanda e Kinshasa. A conclusão a extrair é a de que McHenry foi decisivo no terreno e que Walker tê-lo-á sido no interior mais profundo do Departamento norte-americano de Estado.

A MÁQUINA DOS "STATES"!!!

A verdade é que Arménio Ferreira, o emissário especial que Agostinho Neto, discretamente, accionava a partir de Lisboa, ficou detentor de uma experiência absolutamente singular. Sem ser político, ou diplomata, de carreira. Arménio Ferreira sentiu, por dentro, o pulsar das "dúvidas" e das "certezas" norte-americanas. Em dado momento das conversações nesse 9 de Agosto de 1979, Walker disse ao enviado de Neto: "Peço-lhe que diga ao presidente Neto que não é fácil, em Washington, a vida de quem é favorável a Angola!".
Uma declaração, no mínimo, electrizante. Historicamente significativa de quanto, nos Estados Unidos da América do Norte, Angola (a Angola dos tempos de Agostinho Neto), "perturbava" a terrível máquina dos "States". Walker (da Secretaria de Estado para os Assuntos Africanos) pediu, de facto, a Arménio Ferreira, que fizesse o dr. Neto compreender esse drama: "Diga ao presidente Agostinho Neto que custa muito trabalho, em Washington, sustentar posições pró-Angola. Porque é preciso lutar contra burocracias internas. Contra a má vontade das várias comissões, de vários senadores e deputados. Contra uma Imprensa sempre ávida de assuntos e situações que possam colocar mal os amigos de Angola!".

NETO ELOGIADO PELA CASA BRANCA!

Desabafo insinuante de Donald McHenry: "Eu tenho um fraco por Angola,
sou o americano que mais vezes foi a Angola depois da independência..."

Quando o dr. Agostinho Neto se evadiu da prisão, em Portugal, lembra Arménio Ferreira, "eu mesmo fui buscá-lo à Praia das Maçãs". Para dar continuidade à operação que levaria Neto para o exterior, até à sua fixação em Kinshasa, República do Zaire. Aconteceu em 1961. Dezoito anos mais tarde, Agostinho Neto foi "buscar" Arménio Ferreira a Lisboa para seu emissário-estratega nas conversações com os americanos. Desconfiados do "comunismo" de Neto (e do MPLA).
O que o dr. Arménio constatou, face às declarações dos seus interlocutores, só poderia ser gratificante para António Agostinho Neto, chefe do Estado angolano. Donald McHenry, que sobraçava, na Administração norte-americana, o "dossier" da Namíbia, disse a Arménio ter gostado "imenso" do acolhimento que lhe havia sido dispensado, em Luanda, à sua chegada. "Instalaram-me numa casa maravilhosa", lembrou o alto funcionário de Washington. "Encantou-me aquela vista de sonho da baía de Luanda", disse ainda McHenry com manifesto enlevo.
Uma particularidade, que Arménio Ferreira sublinha: "As conversações, curiosamente, realizaram-se, no Departamento norte-americano de Estado, nos gabinetes de Andrew Young, precisamente um dia antes de este ter apresentado a sua demissão ao presidente Jimmy Carter".
Era a tarde de 16 de Agosto de 1979. Conversou-se muito sobre a tormentosa questão da Namíbia. E, em dado momento, Donald McHenry teve este desabafo: "É justo salientar a actividade construtiva do presidente Agostinho Neto em relação ao problema da Namíbia! Conheço o resultado das negociações com o senhor Kurt Waldheim, secretário-geral das Nações Unidas. E sei também que o senhor Kurt Waldheim ficou com uma excelente impressão do presidente Agostinho Neto!"

ENCANTADOS!

Donald Mc Henry foi mais longe, ainda, no reconhecimento da acção do presidente angolano: "O Governo dos Estados Unidos da América do Norte considera muito a acção construtiva do dr. Neto, relativamente à resolução do problema da Namíbia. Sem essa ajuda angolana a resolução seria, certamente, impossível!". E o alto funcionário da Casa Branca não se dispensou sequer de vaticinar: "Desejo que, entretanto, Angola ultrapasse os seus problemas internos, para que o seu presidente possa, enfim, dedicar-se profundamente à reconstrução económica e social do país". McHenry quis reconhecer, também, por outro lado, que o presidente Neto "falara grosso" para a SWAPO ter mais cuidado com as suas "movimentações no território namibiano".
No final das conversações, era ainda McHenry a dizer para Arménio Ferreira: "O presidente Carter e o secretário de Estado, Cyrus Vance, estão ao corrente de todas estas conversações e apreciam muito a colaboração que o dr. Arménio Ferreira tem prestado nesse sentido". E, depois, de regresso à "intimidade", McHenry deixou escapar: "Eu tenho um fraco por Angola. Provavelmente, eu sou o americano que mais vezes foi a Angola depois da independência. Já causa inveja a minha resistência de "globetrotter" aéreo... mas, do que eu realmente gostaria, se entretanto não morrer, era de ver normalizadas as relações entre o meu país e Angola"!
Num gesto fagueiro e cortês, Donald McHenry e Richard Moose enviaram telegramas e ramos de flores à esposa de Arménio Ferreira, entretanto internada numa clínica norte-americana.

(Dossier do JORNAL DE NOTÍCIAS)      


Partilha de África

Imagem:Africa1898.png
A Partilha de África (português europeu) ou Partilha da África (português brasileiro), também conhecida como a Corrida a África ou ainda Disputa pela África, foi a proliferação de reivindicações europeias conflitantes ao território africano durante o período do Neo-imperialismo, entre a década de 1880 e a Primeira Guerra Mundial em 1914, que envolveu principalmente as nações da França e Reino Unido, embora também participasse do conflito a Itália, Bélgica, Alemanha, Portugal, Espanha e, em menor intensidade, Estados Unidos, este último participou da fundação da Libéria.[1]
A segunda metade do século XIX, em torno do ano 1880, assistiu a transição do "Imperialismo Informal", que exercia o controle através da influência militar e da dominação econômica para um domínio mais direto. As pretensões de mediar a concorrência imperial, tal como a Conferência de Berlim (1884 - 1885), entre o Reino Unido, França e Alemanha não pôde estabelecer definitivamente as reivindicações de cada uma das potências envolvidas. Essas disputas sobre a África esteve entre os principais fatores que deram origem à Primeira Guerra Mundial
CONTINUA..

http://saber.sapo.ao/wiki/Partilha_de_%C3%81frica#Causas_da_disputa


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A Partilha da África - Teorias explicativas


Ao longo da história tenta-se explicar as causas e os fatores que influíram para que ocorresse a partilha da África ao final do século XIX e inicio do XX, neste contexto iniciaremos por apresentar as diferentes teorias a respeito das causas da partilha da África.

A Teoria econômica
A princípio ninguém se opunha a idéia do caráter econômico para a explicação da expansão imperialista, mesmo entre os especialistas não-marxistas. As origens teóricas desta noção surgem em 1900 quando Rosa Luxemburgo apresenta o imperialismo como último estágio do capitalismo. A clássica forma desta teoria esta contida na afirmação de John Hobson:”a superprodução, os excedentes de capital e o sub-consumo dos países industrializados levaram-nos a colocar uma parte crescente de seus econômicos fora de sua esfera política atual e a aplicar ativamente uma estratégia de expansão política com vistas a se apossar de novos territórios”. Para Hobson esta seria a raiz econômica do imperialismo, e mesmo com a atuação de outras forças, e apesar delas, a decisão final ficaria com o poder financeiro.
Lênin salientava que o novo imperialismo caracterizava-se pela transição de um capitalismo de orientação “pré-monopolista”, no qual predominava a livre concorrência e que prosperava exportando mercadorias, para o estágio do capitalismo “monopolista”, em que o avanço depende da exportação de capitais, e intimamente ligado a intensificação das lutas pela partilha do mundo.
Nacionalistas, revolucionários do terceiro mundo, uniram-se a numerosos especialistas marxistas, na aceitação do imperialismo como resultado de uma exploração econômica descarada. Muito embora nem Lênin nem Hobson tenham se ocupado do caso específico da África, não resta duvidas de que suas observações contribuíram na analise da história da África. Não podemos descartar o fator econômico da partilha, mas, não podemos reduzi-la a este único fator.

As Teorias psicológicas
As chamadas teorias psicológicas estão divididas aqui em: Darwinismo social, Cristianismo evangélico e Atavismo social. Basicamente estas teorias apontam na direção de uma superioridade da “raça branca” em relação ao africano, o que de certa forma justificaria a colonização.

Darwinismo social
Tendo como fonte de inspiração o livro “A origem das espécies por meio da seleção natural, ou a conservação das raças favorecidas na luta pela vida”, escrito por Darwin e publicado em 1859, onde se basearam os analistas para justificar a partilha como algo natural, pois era destino da “raça superior” conquistar e dominar as chamadas “raças não evoluídas”.

Cristianismo evangélico
Para o cristianismo evangélico a teoria de Darwin representava uma grande heresia, muito embora discretamente aceitasse as implicações racistas da obra. As conotações racistas do cristianismo evangélico ficavam encobertas por “zelo humanitário” e “filantropia”, idéias muito disseminadas entre os governantes europeus no período da partilha e colonização da África. Sustentava-se desta forma a necessidade de “regenerar” os povos africanos. Apesar da provável participação de missionários nos preparativos para a colonização da África, apenas este fator não se sustenta como uma teoria geral da ação imperialista na África, haja visto que esta teoria é limitada e não contemplaria uma análise por toda África.

Atavismo social
Joseph Shumpeter foi o primeiro a explicar o imperialismo em termos sociológicos, para ele os fatores psicológicos superam os fatores econômicos na explicação da colonização da África. Segundo Shumpeter o desejo natural do homem em conquistar e subjugar outro homem, estava intimamente ligado ao processo imperialista da África. A expressão atavismo social é relacionada por uma manifestação de uma regressão aos instintos políticos e sociais do homem primitivo. Shumpeter defende que o capitalismo é antiimperialista, e que por isto mesmo a teoria econômica deveria ser descartada como possibilidade de análise da colonização.

As teorias psicológicas, podem sim conter verdades, que ajudam a compreender a partilha da África, no entanto, não conseguem explicar porque esta ocorreu neste exato momento, e não em outro momento qualquer. Apesar de não dar conta de uma explicação do porque da partilha, fornece elementos na direção de explicar porque a partilha foi possível e até considerada desejável.

As Teorias diplomáticas
Oferecem uma explicação puramente política para a partilha da África. É talvez a mais comumente aceita. Para analisá-las dividiremos em: “prestígio nacional”, ‘o equilíbrio de forças” e a “estratégia global”.

Prestígio nacional
Carlton Hayes, defende que o novo imperialismo era um fenômeno nacionalista. E que os defensores do imperialismo possuíam sede ardente de reconhecimento e prestigio nacional, assim resumido por Hayes: “ A França procurava uma compensação para as perdas na Europa com ganhos no ultramar. O Reino Unido aspirava compensar seu isolamento na europa engrandecendo e exaltando o império britânico. A Rússia, bloqueada nos Bálcãs, voltava-se de novo para a Ásia. quanto a Alemanha e a Itália, queriam mostrar ao mundo que tinham direito de realçar seu prestígio, obtido à força na Europa por façanhas imperiais em outros continentes. As potências de menor importância, que não tinham prestígio a defender, lá conseguiram viver sem se lançarem na aventura imperialista, a não ser Portugal e Holanda, que demonstraram renovado interesse pelos impérios que já possuíam, esta última principalmente, administrando o seu com redobrado vigor."

 Equilíbrio de forças
F. H. Hinsley destaca que o desejo de paz e de estabillidade europeu foi a principal causa da partilha da África. Segundo Hinsley a partir do Congresso de Berlim, as nações européias estiveram a Beira de um conflito generalizado, que somente não ocorreu por habilidade dos estadistas. No entento, havia um crescente conflito de interesses na África, que ameaçava a paz na Europa, portanto, segundo Hinsley, não havia outra forma de manter a paz e a estabilidade européia senão com a partilha da África.

 Estratégia Global
Se pensarmos em uma frase que resumisse a idéia da estratégia global poderíamos dizer que: “A grande responsabilidade pela partilha da África é dos próprios africanos.” A chamada Estratégia Global acendeu entre os especialistas em historia da África reações negativas, no entanto, foi irresistível entre historiadores não africanistas e mesmo junto ao grande público, mas, uma analise mais profunda desta tese torna difícil sua aceitação.
Os grandes defensores desta teoria, Ronald Robinson e John Gallagher, atribuem a responsabillidade da partilha aos movimentos “protonacionallistas” na África, que passaram a ameaçar os interesses estratégicos globais das nações européias. Estas “lutas românticas”, segundo os autores, teriam culminado por “forçar” os estadistas europeus a partilhar a África, mesmo contra sua própria vontade, em defesa dos interesses de suas nações no âmbito global.

 Teoria da Dimensão africana
Esta teoria admitia superficialmente os motivos econômicos da partilha, mas não como elemento principal. Nos anos de 1930, George Hardy, especialista em História colonial francesa, demosntrou a importância dos fatores africanos locais da partilha, tratando a África como uma unidade histórica.
Tratar a África apenas no quadro ampliado da Europa é um erro grave, estaríamos de certa forma, negando a existência de “vida inteligente” no continente africano. É necessário examinar os motivos da partilha do ponto de vista das sociedades africanas. Uzoigwe acredita que as teorias eurocêntricas que explicam a partilha completam-se com a teoria da dimensão africana, rejeita, no entanto, a idéia de que a conquista do continente africano era inevitável, para ele existiu um processo que iniciou-se bem antes do século XIX, e que os faotres econômicos foram vitais na tomada de decisão da conquista e partilha. Precipitados é bem verdade, pelas resistências africanas a invasão crescentes executadas pela Europa, o que teria militarizado o processo de ocupação.

Por Celso de Almeida

Resumo do texto: Partilha eurpéia e conquista da África de Godfrey N. Uzoigwe. 
Origem

A Partilha da África

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 por Isabelle Somma

Ao encerrar a Conferência de Berlim, em 26 de fevereiro de 1885, o chanceler alemão Otto von Bismarck inaugurou um novo – e sangrento – capítulo da história das relações entre europeus e africanos. Menos de três décadas após o encontro, ingleses, franceses, alemães, belgas, italianos, espanhóis e portugueses já haviam conquistado e repartido entre si 90% da África – ou o correspondente a pouco mais de três vezes a área do Brasil. Essa apropriação provocou mudanças profundas não apenas no dia-a-dia, nos costumes, na língua e na religião dos vários grupos étnicos que viviam no continente. Também criou fronteiras que, ainda hoje, são responsáveis por tragédias militares e humanitárias.

O papel da conferência, que contou com a participação de 14 países, era delinear as regras da ocupação. “A conferência não ‘dividiu’ a África em blocos coloniais, mas admitiu princípios básicos para administrar as atividades européias no continente, como o comércio livre nas bacias dos rios Congo e Níger, a luta contra a escravidão e o reconhecimento da soberania somente para quem ocupasse efetivamente o território reclamado”, afirma Guy Vanthemsche, professor de História da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, e do Centro de Estudos Africanos de Bruxelas.

A rapidez com que a divisão se deu foi conseqüência direta da principal decisão do encontro, justamente o princípio da “efetividade”: para garantir a propriedade de qualquer território no continente, as potências européias tinham de ocupar de fato o quinhão almejado. Isso provocou uma corrida maluca em que cada um queria garantir um pedaço de bolo maior que o do outro. “Em pouco tempo, com exceção da Etiópia e da Libéria, todo o continente ficou sob o domínio europeu”, diz a historiadora Nwando Achebe, da Universidade Estadual do Michigan. A Libéria, formada por escravos libertos enviados de volta pelos Estados Unidos, havia se tornado independente em 1847. Na Etiópia, a independência foi garantida depois da Conferência de Berlim, com a vitória do exército do imperador Menelik II sobre tropas italianas na batalha de Adwa, em 1896.

O interesse europeu pela África vinha de muito tempo antes da conferência. No século 15, os portugueses já haviam chegado aos arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, iniciando sua ocupação do continente (que depois se estendeu a Angola e Moçambique). Os britânicos ocuparam partes da atual África do Sul, do Egito, do Sudão e da Somália no século 19. No mesmo período, os franceses se apoderaram de parte do Senegal e da Tunísia, enquanto os italianos marcavam presença na Eritréia desde 1870. Em 1902, França e Inglaterra já detinham mais de metade do continente.

Tiros e mentiras
A ocupação não se deu somente com a força das armas de fogo, que eram novidade para muitos dos povos subjugados. A trapaça foi largamente usada para a conquista e manutenção dos territórios. O rei Lobengula, do povo Ndebele, é um exemplo: assinou um contrato em que acreditava ceder terras ao magnata britânico Cecil Rhodes em troca de “proteção”. O problema é que o contrato firmado pelo rei não incluía a segunda parte do trato. O monarca nem percebeu, pois era analfabeto e não falava inglês. Apesar dos protestos de Lobengula, que acreditava que a palavra valia alguma coisa entre os recém-chegados, o governo da Inglaterra se fez de desentendido. Apoiou a exploração do território Ndebele, no atual Zimbábue, de onde Rhodes tirou toneladas de ouro.

O mais famoso entre os trapaceiros, no entanto, foi o rei Leopoldo II, que conseguiu passar a perna em africanos e europeus. Soberano de um pequeno país, a Bélgica, não tinha recursos nem homens para ocupar grandes territórios. Por isso, criou associações que se apresentavam como científicas e humanitárias, a fim de “proteger” territórios como a cobiçada foz do rio Congo. “Graças a hábeis manobras diplomáticas, ele conseguiu obter o reconhecimento, por todas as potências da época, de um ‘Estado Livre do Congo’, do qual ele seria o governante absoluto”, afirma o professor Vanthemsche. Leopoldo dominou com mão de ferro o Congo, usando métodos violentos para conseguir extrair o máximo que pudesse para aumentar sua riqueza pessoal.

Mas o principal método utilizado pelos europeus foi o bom e velho “dividir para dominar”. A idéia era se aproveitar da rivalidade entre dois grupos étnicos locais (ou criá-la, se fosse inexistente) e tomar partido de um deles. Com o apoio do escolhido, a quem davam armas e meios para subjugar os rivais, os europeus controlavam a população inteira. “Pode-se dizer que todas as potências conduziam a conquista da mesma forma: através da força bruta, dividindo para dominar e usando soldados que eram principalmente africanos e não europeus”, diz Paul Nugent, professor de História Africana Comparada e diretor do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Edimburgo, na Escócia.

O método usado pelos colonizadores provocou tensões que até hoje perduram, pois transformou profundamente as estruturas sociais tradicionais da África. “Formações de grupos flexíveis e cambiantes foram mudadas para ‘estruturas étnicas’ bastante rígidas”, afirma Vanthemsche. O exemplo mais extremo dessa fronteira imaginária criada pelos europeus é o de tutsis e hutus, de Ruanda. Os tutsis foram considerados de “origem mais nobre” pelos colonizadores (primeiro alemães, depois belgas), e os hutus foram colocados em posição de inferioridade. Os tutsis mantiveram o poder mesmo após a saída dos belgas. Em 1994, 32 anos após a independência de Ruanda, cerca de 1 milhão de pessoas morreram no conflito em que os detentores do poder foram perseguidos pelos até então marginalizados hutus.

As fronteiras territoriais também foram delineadas sem respeitar a disposição da população local, com base nos interesses dos europeus. “Eles recorriam a noções arbitrárias como latitude, longitude, linha de divisão das águas e curso presumível de um rio que mal se conhecia”, afirma o historiador Henri Brunschwig em A Partilha da África Negra. E essas fronteiras ainda sobrevivem. Segundo o geógrafo francês Michel Foucher, cerca de 90% das atuais fronteiras na África foram herdadas do período colonial. Apenas em 15% delas foram levadas em consideração questões étnicas. Há ainda mais de uma dezena de fronteiras a serem definidas, segundo Foucher.

O Saara Ocidental é o único caso de território africano que ainda não conseguiu a independência. Em 1975, depois de décadas explorando o fosfato da região, a Espanha o abandonou. No mesmo ano, o Marrocos invadiu o país. Houve resistência, e a guerra durou até 1991. Desde então, a Organização das Nações Unidas tenta organizar um referendo para que a população decida se quer a independência ou a anexação pelo Marrocos.

Para os países africanos, ver-se livre dos europeus não significou uma melhoria de sua situação. Ao contrário: em muitos lugares, a independência provocou guerras ainda mais sangrentas, que contaram com a participação das antigas metrópoles coloniais. Um exemplo é a Nigéria. Seis anos após a independência do país, em 1960, os ibos, que haviam adotado o cristianismo, declararam a secessão do território nigeriano de Biafra. Foram apoiados por franceses e portugueses, interessados nas ricas reservas de petróleo da região. Os hauçás e fulanis, muçulmanos que dominavam o cenário político do país, lutaram pela unidade apoiados pelos ingleses. O resultado foi uma guerra civil em que quase 1 milhão de nigerianos morreram, a grande maioria de fome – até hoje o país é palco de embates religiosos e políticos.

Na marra

Não se sabe exatamente quantos grupos étnicos havia na África quando os colonizadores chegaram, mas acredita-se que fossem por volta de mil. “O que sabemos sugere que as formações políticas e grupais eram muito mais fluidas e a variação lingüística era muito maior do que na era colonial”, diz o historiador Keith Shear, do Centro de Estudos Africanos Ocidentais da Universidade de Birmingham. Línguas foram adotadas em detrimento de outras, o que provocou o nascimento de elites. “A chegada de missionários e a introdução de escolas formais fizeram com que dialetos específicos fossem selecionados para traduzir a Bíblia. Estabeleceram-se ortografias oficiais, provocando homogeneidade lingüística”, afirma Shear. Os que falavam a língua do grupo majoritário tiveram mais facilidades num governo centralizado e dominado por uma só etnia.

Se por um lado alguns dialetos desapareceram, o mesmo não ocorreu com a diversidade étnica. “Grupos étnicos não foram eliminados durante o domínio colonial, apesar de os alemães terem tentado realizar o primeiro genocídio na Namíbia”, diz Paul Nugent. Teria sido possível, inclusive, o surgimento de outros povos. “Muitos historiadores defendem a tese de que novos grupos foram criados durante o período colonial, pois as pessoas começaram a se autodefinir de novas formas. Por exemplo: os ibos da Nigéria e os ewes de Gana e do Togo apenas passaram a se denominar desse modo durante o período entre as duas Grandes Guerras Mundiais”, afirma Nugent.

A colonização comprometeu duramente o desenvolvimento da África. Hoje o continente abriga boa parte dos países mais pobres do planeta. “No plano político, o legado do colonialismo inclui a tradição de administração de cima para baixo, a persistência de burocracias que fornecem poucos serviços e um baixo senso de identidade e interesse nacional. Os Estados são geralmente fracos, ineficientes e brutais”, diz Shear. “Economicamente, o colonialismo produziu, em sua maior parte, economias dependentes, monoculturistas e não integradas, que atendem prioridades externas e não internas.”

A situação atual dos países africanos pode ser atribuída à pressa que os colonizadores tiveram em transformar a realidade local. Isso fez com que o continente pulasse etapas importantes. “O maior problema é que, em apenas algumas décadas, as sociedades tradicionais africanas foram lançadas em uma situação totalmente desconhecida. Você não pode criar um sistema capitalista e Estados democráticos de um dia para outro, em poucas gerações. As próprias sociedades tradicionais européias precisaram de séculos para chegar a esse resultado”, diz Guy Vanthemsche. Essa chance nunca foi dada aos africanos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Fotos das dependências do Banco Nacional Ultramarino (BNU) na Angola colonial


Foto da Dependência do BNU Luanda fundada em Agosto de 1865


Foto da dependência do BNU em Benguela em 1868


Foto da dependência do BNU Benguela em 1929


Foto da dependência do BNU Cabinda fundada em 1919


Foto da dependência do BNU Moçâmedes, fundada em Março de 1868


Foto da dependência do BNU Malange, fundada em 1916


Foto da dependência do BNU Lobito, fundada em 1916
 (Clicar nas fotos para ampliar)
 
 
Já nos referimos no blog sobre o papel do Banco Nacional Ultramarino na fixação monetária de Angola.
Nos poucos anos que o BNU esteve em Angola, abriu nesta Província as seguintes dependências:
Luanda: Agosto de 1865
Benguela: Janeiro de 1868
Moçâmedes: Março de 1868
Lobito: 1916
Malange: 1916
Cabinda: 1919
Lubango (Sá da Bandeira): 1920
Belmonte-Bié (Silva Porto): 1920
No Congo Belga, abriu a agência de Kinshassa em 1919.
As dependências de Angola e do Congo foram transmitidas ao Banco de Angola em 1 de Novembro de 1926

Tenho fotos de várias dependências de Angola, que me foram facultadas pelo Arquivo Histórico do BNU - CGD, com a simpatia do Dr. Miguel Costa. ORIGEM

Fotos de Angola na época colonial: alunos da Vila de Caluquembe em 1945 e 1966


Alunos Escola Paiva Couceiro Professora Maximina 1945
Alunos em frente da Escola Paiva Couceiro nº 45 com a Professora Maximina, em 1945.
Alunos co a professora Hermengarda e Aldina, junto ao Posto Administrativo 1966
Alunos em frente ao Posto Administrativo, com a professora Hermengarda e Aldina em 1966.

ORIGEM

Sita Valles Revolucionária, Comunista até à Morte


Sinopse: Em Portugal, poucos saberão quem foi Sita Valles, a jovem revolucionária fuzilada há mais de 30 anos em Angola. No entanto, a sua aura continua viva entre as gerações de estudantes universitários comunistas e de outras esquerdas que a conheceram, no início dos anos 70, sobretudo nas faculdades de Medicina de Lisboa e Luanda. Foi uma grande líder do movimento estudantil e um quadro estimado da União dos Estudantes Comunistas.
Sita Valles teve uma vida muito breve (1951-1977). Mas intensa. Desde que tomou consciência das injustiças do mundo, não mais deixou de ser um turbilhão político. Muito activa, quer na clandestinidade, quer em democracia, ela lutou por uma sociedade melhor.
Sita Valles era uma «luso-angolana». Nasceu em Cabinda, quando ainda pertencia ao império colonial português, e depois da independência optou pela nacionalidade angolana. No 25 de Abril de 1974 estudava Medicina em Lisboa, mas no Verão Quente regressou à que pensava ser a sua terra. Na República Popular de Angola defendeu a ortodoxia soviética em supostos tempos de democracia. Ali acabou por ser acusada, sem direito a contraditório, de ser um dos cérebros do alegado putsch, de 27 de Maio de 1977. E ali foi fuzilada, pensa-se, em Agosto desse ano.
Três décadas depois da sua execução – juntamente com José Van Dunem e Nito Alves -, a jornalista Leonor Figueiredo, autora de Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola (Alêtheia Editores, 2009), investigou, recolheu testemunhos, procurou memórias antigas de uma jovem mulher e da sua história brutal, que se tornou num mito de uma geração.
Exerto: «Diz-se que Sita Valles foi fuzilada às cinco da manhã do dia 1 de Agosto de 1977. Um tiro em cada perna, um tiro em cada braço. O corpo caiu na vala previamente aberta, antes de desferido o disparo mortal. Ou o que restava de Sita, após as torturas e a orgia de violações pelos homens da Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA), a polícia política do regime. Um tractor aplainou o terreno. Diz-se também que a bela, elegante e inteligente comunista de origem goesa – uma portuguesa de coração africano – se manteve rebelde até ao último momento. Dizia que não tinha medo e que quanto mais depressa a matassem melhor. Ao recusar ser vendada, obrigou os atiradores do pelotão de fuzilamento, a enfrentarem o seu olhar, antes de apertarem o gatilho.

Militante do Partido Comunista em Portugal e do MPLA em Angola, Sita Valles é hoje um nome maldito para ambos os partidos e a sua vida quase um enigma em ambos os países. Acusada de ser um dos cérebros do chamado “golpe Nito Alves”, em 27 de Maio de 1977, seria presa em Luanda, violada e torturada e, três meses depois, fuzilada. O percurso dessa figura polémica é reconstituído num livro, “uma longa reportagem”, da jornalista e escritora Leonor Figueiredo, com recurso a documentos e dezenas de testemunhos.
Passaram 33 anos e ainda hoje não se sabe onde estão enterrados os corpos de Sita Valles, do seu irmão Ademar (morto um ano depois) e de um número indeterminado de vítimas (“entre 20 mil e 80 mil, incluindo muitos portugueses”). Sita Valles continua a ser tabu no país que escolheu como seu e onde as circunstâncias da morte a transformaram num mito. Recusou ser vendada e olhou o pelotão de fuzilamento de frente, um comportamento que impressionou os inimigos.
Leonor Figueiredo evoca os dias de 1971, quando Sita Valles chegou a Lisboa, vinda de Luanda, para estudar Medicina. “Fui encontrar muitos antigos colegas, hoje médicos, que se sentiram marcados pela coragem e pelo espírito destemido dela”, diz a autora. Leonor Figueiredo, que também escreveu o livro Ficheiros Secretos da Descolonização em Angola, falou com dirigentes do PC, como Carlos Brito, Zita Seabra ou Raimundo Narciso (hoje todos fora do partido), que confirmaram a impetuosidade de Sita Valles, então dirigente estudantil . Em 1975, decidiu regressar a Angola para ajudar o MPLA no conflito com a FNLA e a UNITA. Após a independência, o seu percurso começa a divergir até culminar nos acontecimentos de 1977. .»(Fonte: DNArtes)

Relacionado:
 A Revolução Perdida de Sita Valles / Felicia Cabrita (Aqui)
Sita Valles – Biografia Politica / Associação 27 de Maio (Aqui)
Sobre o mito de Sita Valles / Água Lisa 2 (Aqui)

 Ver também AQUI

Morte de Agostinho Neto



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Angola, 27 de Maio de 1977

ANGOLA: Savimbi e a destruição de Angola!



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Angola: uma viagem ao passado (video)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Marcelo Caetano: «Que sucederia se, de hoje para amanhã, retirássemos as tropas que mantemos no Ultramar?

Enviaram-me estas 2  páginas, mas não as identificaram quanto à origem do Jornal ou Revista. Também deveriam ter continuação... Inda assim resolvi colocá-las aqui. A autora do blog.

ANGOLA: das vésperas da independência aos primórdios da República Popular


OS PRIMÓRDIOS DA REPÚBLICA POPULAR DE ANGOLA

Clive Limpkin (acima) é um repórter fotográfico britânico que se tornou famoso com o livro que publicou em 1973 com fotografias que havia tirado durante o conflito da Irlanda do Norte. Menos conhecidas, mas muito mais interessantes para nós, são as fotografias que ele tirou em Angola logo nos inícios de 1976, um escasso par de meses após a data da independência.
Assim como a narrativa do livro Mais um Dia de Vida (acima) do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski descreve o caos em que mergulhara Angola no último semestre de 1975, perante o vácuo da saída maciça dos portugueses, as fotografias de Clive Limpkin mostram agora alguns aspectos precários da consolidação do poder da jovem República Popular de Angola.
Tratava-se de um estado que nascia necessariamente militarizado por causa das duas ameaças externas à sua existência (a zairense e a sul-africana) e onde, por causa disso, se faria sentir uma omnipresença dos membros das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), o que se veio a reflectir, obviamente, nos temas seleccionados por Limpkin.
Era um ambiente militar tão dominante¹ que ele se fazia reflectir também nas brincadeiras das crianças, uma vezes de uma forma mais inocente (como acima), outras nem tanto, já que, se se tratasse de fotografias tiradas na actualidade, o exemplo abaixo das crianças fumadoras de AK-47 na mão seria fortemente condenado por se tratar de crianças-soldado
Mas, ainda a respeito de crianças armadas, guardei a fotografia que considero mais icónica do conjunto para o fim, onde um repórter trajando umas calças à boca-de-sino como já nem nos lembramos que possam ter existido, entrevista com uma seriedade insuspeita uma outra criança combatente, armada com uma espingarda de pressão de ar, daquelas de caçar pássaros…
¹... que há quem defenda que esse ambiente militar marcou de forma indelével Angola até à actualidade.