quarta-feira, 27 de abril de 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Livro "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem" 1862

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Do Livro"Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem" 1862,  retirei esta passagem onde o autor aponta alguns erros da administração portuguesa na colónia de Angola, e avança algumas "soluções", numa época em que, com o Decreto de Sá da Bandeira Portugal procurava ao tráfico ilegal de escravos e avançar para um outro paradigma, o do povoamento branco e desenvolvimento do território, confrontando-se com dificuldades de toda ordem. Estava-se a duas décadas da Conferência de Berlim (1884-1885).

"...Três metros de fazenda d'algodão estampada, um punhado de farinha de pau e uma pinga d'aguardente de canna (cachaça) são os únicos objectos de que necessita para se vestir e sustentar; uma cubata ou barraca composta de ramos de coqueiro e barro, que elle levanta com summa promptidão, serve-lhe d'abrigo e a suas companheiras: uma simples esteira estendida no chão é para elle um excellente leito em que o braço faz as vezes de travesseiro.

Para occorrer a tão diminuta despeza não necessita cansar-se muito, e não é raro encontrarem-se pretos a quem as pretas sustentam, sem que elles tenham mais alguma cousa a fazer, do que ir levando docemente uma vida patriarchal.

Cabe aqui fazer distincçao de uma certa raça de pretos que, com quanto não pertençam aos nossos estados, se acham em grande numero em Loanda, onde vão procurar trabalho.

Chamam-lhe Cabindas, por pertencerem a essa povoação que fica ao norte do Zaire. Esta gente occupa-se quasi exclusivamente em serviços marítimos: são elles que fornecem para Loanda, juntamente com os Muxi-Congos, a agua do Bengo, e que fazem todo o serviço da pequena cabotagem, e do porto. O escaler da alfandega é tripulado por doze Cabindas, que se tornam insupportaveis com a sua aborrecida cantilena

com que acompanham constantemente o movimento dos remos. Esta raça de pretos é sem duvida a mais activa e a mais útil que se encontra em Angola, onde prestam excellentes serviços ao commercio. Teem um cônsul em Loanda, e são governados na sua terra por um preto educado no Brazil, fallando varias linguas, e que se apresenta mui decentemente. Recebe n'uma soffrivel casa de habitação bem mobilada, e obsequeia todos quantos o procuram, mas para não desmerecer dassympathias dos seus patricios, habita n'uma cubata modestamente construida.

Todos os navios nacionaes e estrangeiros que chegam a Loanda costumam, para poupar as tripulações, tomar para o serviço de bordo uma companha de Cabindas, commandada pelo seu capitão. Muitas d'estas companhas conservam-se a bordo dos navios que teem de percorrer a costa,e alguns d'elles já teem vindo a Lisboa a bordo dos vapores da — União Mercantil — consta-me até que um d'estes para cá trouxe um íilho que tem a educar n'um collegio da capital.

Os Cabindas são summamente económicos, e como a bordo recebem a ração, e uma macuta por dia (cincoenta reis fracos), chegam a juntar dinheiro; julgo-os sóbrios, mas não de delicado paladar, porque a um d'elles vi, na força do verão, comer ao almoço pimentinhas com sal e bolaxa, beber em seguida a sua ração de cachaça, e ficou tão satisfeito como se tivesse tomado um sorvete.

N'uma conversa que tive com um Cabinda foi que vim no conhecimento do verdadeiro sentido que os pretos ligam á palavra — branco — pela qual nos dominam. Perguntei-lhe se quando estavam a bordo dos navios estrangeiros entendiam as linguas que lá lhes fallavam, e elle respondeu-me com certa presumpção: — Me falia flancé, inglês e língua de Manco.

Esta lingua de branco é a portugueza. Só nós somos considerados brancos, porque assim designaram os descobridores e conquistadores d'aquellas possessões, e só a elles é que os negros julgam pertencer esta denominação.

Os Cabindas, á semelhança de todos os mais pretos, são mui supersticiosos: fazem uso de pequenas manilhas de ferro para afugentar o feitiço, e algumas vezes lhes vi pintar com barro certos signaes na testa e nas fontes para combater dores de cabeça, que elles attribuem a effeitos diabólicos. Se todos os pretos da nossa possessão fossem tão industriosos como os da raça Cabinda, o commercio e a agricultura teriam por certo attingido em Angola um elevado grau de prosperidade, mas infelizmente dos outros nada se pôde esperar voluntariamente.

Que meios empregar para obrigal-os ao trabalho? Em vista das tendências dos nossos ministros para a abolição da escravidão, não ha senão um : é fazer-lhes crear necessidades, obrigando-os a andar vestidos e calçados, e a ter um modo de vida qualquer, para que possam ser úteis á sociedade.

Sei que esta é uma das reformas que tenciona introduzir o novo Governador Sebastião Lopes de Calheeiros, e se conseguir fazêl-o, Angola dará um largo passo no caminho do progresso e da civilisação.



É muito mal entendido quererem legislar e governar aquellas nossas possessões, com as nossas leis e códigos liberaes. Aquelle povo não está ainda bastante maduro, para poder ser governado constitucionalmente. Um estado composto na sua maioria de pretos boçaes, de degredados por toda a espécie de crimes, de negociantes em grande parte de má fé, sem educação, nem consciência, de muitos militares ambiciosos e pouco escrupulosos, não pôde civilisar-se, nem ser governado senão por um despotismo illustrado. Os Governadores

geraes que tentarem fazer algumas reformas necessárias, cortando abusos inveterados e que se encontram a cada passo em todos os ramos da administração publica, teem de combater uma opposição terrivel, porque aquelles que se julgarem assim feridos nos seus interesses, não

terão duvida em recorrer aos meios mais infames, para se desfazer de um homem que lhes pôde ser fatal. Se o Governador não poder pelo seu lado recorrer aos meios rigorosos e repressivos, ha de succumbir na lucta irremediavelmente.

É preciso dar força sufficiente a um só homem, para poder luctar com milhares d'elles ignorantes, ou corruptos. Permitta Deus que os nossos governantes se compenetrem de todas estas considerações: a boa escolha nos empregados a quem devem remunerar de forma que compense as privações e sofrimentos que para alli vão supportar, sem que tenham de recorrer a meios illicitos para adquirir fortuna, é a principal base para fundamentar o progresso e engrandecimento d'aquella Provincia, e só assim e por meio da religião poderemos cumprir a nossa missão, que é de civilisar e concorrer para a independência d'aquella terra.

Sei que esta ideia causa espanto a muita gente; mas se todos conhecessem mais de perto as nossas possessões, haviam de convir comigo, que a Africa civilisada e independente nos havia de oíFerecer mil outras vantagens que hoje não oferece pelo estado selvático em que ainda se acha.

Que perdemos nós com a independência do Brazil? Nada, absolutamente nada. Perderam sim os fdhos bastardos da casa real, os filhos segundos das casas titulares, os aventureiros e os protegidos a quem a corte dava os governos e os empregos das provincias como benefícios simples, mas as nossas transacções commerciaes continuaram como d'antes, e o Brazil, apesar da sua independência, não deixa de ser portuguez, e não cessará nunca de o ser em quanto alli se fallar a nossa lingua. Elles mesmos tanto o reconhecem, que já tentaram arranjar uma lingua brazileira, conseguindo apenas a pronuncia de um jocoso dialecto de preto.

Na actualidade as transacções commerciaes com o Brazil parecem de menor importância, porque se acham espalhadas por muito maior numero de negociantes, do que antes da independência; mas quando assim não

fosse, o monopólio dos portos já não é possivel, n'uma época em que nações fortes fabris empregam todos os meios para dar sabida aos seus productos. "


Do Livro “Quarenta e Cinco Dias em Angola”
pg 13

quarta-feira, 20 de abril de 2011

LIVRO "Estados novos, estado novo": ensaios de história política e cultural, Volume 1 Por Luís Reis Torgal



Para Lêr CLICAR AQUI

Outro livro do mesmo autor que, embora nada tenha directamente a ver com a História da Colonização de Angola,  ajuda a compreender  como funcionou o aparelho ideológico do Estado Novo  CLICAR AQUI



segunda-feira, 18 de abril de 2011

Fotos da colecção "Guerra dos Cuamatos" no sul de Angola, do Instituto de Investigação Científica Tropical


Assignatura [assinatura] do auto de entrega da bandeira portuguesa
a novo soba do Cuamata Grande 1915?

 O Governador Geral passando revista às tropas
1915?
 Acampamento 1915?

 Retrato de um grupo de sargentos

Grupo de sargentos 
  Retrato de um grupo de sargentos
Bois dos carros d'um comboio, no Aucongo

.Um comboio de víveros chegando ao Aucungo 17 Setembro
Quadrado nas Minas de Pembe 1915?

                  Grupo de Cuamatas - Entrada Grande
[Soldados junto a construção de madeira] 
Soldados junto a construção de madeira  1915?
Entrada de Mupilo. Lugar onde começou o fogo em 27

Auxiliares na entrada pequena
.Auxiliares na entrada pequena
Na Entrada Grande - 1/4 hora depois da tomada 
Na entrada Grande, 1/4 de hora depois da tomada

 Tropas a cavalo

 
Despojos de 1904
Ossada apanhada no Pembe - desastre de 1904
.Depois do combate de 4 d' Outubro (tomada da entrada do Cuamata Grande) - Uma amputação. O operador é o médico Fonseca, que faleceu no regresso no Forte Roçadas 1915?

Curativos  de doentes 1915?
 O Calipalula, guia da colunna [coluna] fidalgo do Cuaucal que serviu de guia à colunna com o seu sobrinho e criado 

A aceitação da bandeira portuguesa no Cuamato Grande, foi o culminar de uma série de campanhas militares – 1891, 1906, 1907, 1914 e 1915 – que terminaram com a ocupação definitiva, em 1915, efectuada sob comando do General Pereira de Eça. 

 Marino F. Pollatos Angola Collection: Guerra dos Cuamatas   Instituto de Investigação Científica Tropical
 
Sobre este assunto:
[De José Augusto Alves Roçadas em O Portal da História].


Ver AQUI  e também AQUI 

Ver AQUI    PORTAL DA HISTORIA
e também AQUI 
o Boletim Geral das Colónias 

Livro: O Guia do Colono. Africa Portuguesa.Por João Bentes Castel-Branco. 1891

 


                                                        Para abrir, Clicar AQUI

domingo, 17 de abril de 2011

As relações de Portugal com as suas colónias in Eça de Queiroz - "Uma campanha alegre"


As relações de Portugal com as suas colónias, são originais.
Ellas não nos dão rendimento algum:
nós não lhes damos um único melhoramento:
é uma sublime lucta - de abstenção!...
Quando muito, às vezes, a Metrópole remete às colónias, um governador:
Agradecidas, as colónias mandam à mãe pátria - uma banana.
E perante este grande movimento de interesse e de trocas, Lisboa exclama:
Que riqueza das nossas colónias!
Positivamente somos um povo de navegadores!"

Eça de Queiroz, in "Uma campanha alegre" - 1º volume - Lisboa - Pág. 162

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Doutrina do Choque by Muito Aterrorizado

Não tem propriamente a ver com o assunto que versa este blog, mas como directamente ou indirectamente o assunto interessa a todos...


A Doutrina do Choque from Muito Aterrorizado on Vimeo.


"É imperativo difundir este vídeo. Ponham nos vossos blogs, murais, mandem o link por mail, façam download. Primeiro caiu a Grécia, depois caiu a Irlanda, Portugal acabou de cair e a seguir é a Espanha. Para entender qual é o verdadeiro objectivo da consequência da entrada do FMI, é essencial ver este filme."


Tenha, pois a paciência de o ver até ao fim... É uma lição de História que nos ilucida como fomos conduzidos a estes tempos de austeridade, de neo-liberalismo selvagem e globalização que estamos viver.


VOZES CONTRA A GLOBALIZAÇÂO

A Igreja Evangélica Congregacional de Angola

Discurso e Prática Alternativa de Reconciliação Nacional e de Construção da Nação Angolana: O caso da Igreja Evangélica Congregacional de Angola: Dissertação de Cláudio Andrade da Conceição Tomás
Dissertação ver AQUI

As relações entre a Igreja e o Estado: SESSÃO COMEMORATIVA da difusão das «CARTAS» de Fevereiro e Março de 1959

Testemunho de Nuno Teotónio Pereira:1

"...Tenho aqui uma pequena resenha, que fiz há uns dois ou três anos, e agora actualizei, intitulada «Padres e Bispos que enfrentaram a Ditadura», acho que era um bom tema para um livro. São episódios que não são conhecidos da opinião pública, e tiveram enorme importância para a preparação do «25 de Abril» e para o fortalecimento das correntes que se opuseram à ditadura. Começo pelo:

padre Joaquim Alves Correia, missionário do Espírito Santo, que escreveu um livro que ficou na história, «A Largueza do Reino de Deus», e que também foi mandado para os Estados Unidos em 1946, onde veio a falecer em 51;

padre César Teixeira da Fonte, sacerdote madeirense expulso da sua terra por ter apoiado manifestações de protesto de camponeses explorados, veio residir para o continente, e foi um dos signatários destas cartas;

padre Manuel Rocha, originário dos Açores, Assistente da Acção Católica Operária, acusado pelo Governo de fomentar a revolta, e foi mandado pelo Cardeal Cerejeira, para Ludlow, Mass., como pastor de uma importante colónia açoriana [nos E.U.A.];

padre Abel Varzim, esse felizmente a acção dele é mais conhecida e há diversos livros sobre ele;

padre Adriano Botelho, pároco de Alcântara, enviado para a Patagónia, e nomeado depois pároco em São João de Brito, em Lisboa;

padre João Perestrelo de Vasconcelos, nomeado capelão do Arsenal do Alfeite, onde o pai tinha sido Administrador, por sinal um engenheiro de grande competência, que era conhecido do meu pai, pois moravam perto, na Estrela. O padre João Perestrelo de Vasconcelos, oriundo de famílias da alta burguesia, mas que no Arsenal do Alfeite, assume os problemas da classe operária, também subscritor destas cartas, esteve na Alemanha e no Brasil, e faleceu como todos sabemos há poucos dias;

padre António Jorge Martins, de que eu já falei, de quem recebi esta carta;

padre José da Costa Pio, coadjutor da Freguesia de Arroios, em Lisboa, que foi demitido e perseguido;

padre José Narino de Campos, pároco em Évora, acusado de inimigo da Pátria, e da Igreja, e que foi também mandado para o Brasil;

padre José Maria da Cruz Dinis, de Coimbra, de que não tenho grandes informações;

padre Joaquim Pinto de Andrade, de que já falei, Vigário Geral da Diocese de Luanda, deportado para Lisboa e transferido para a Ilha do Príncipe, foi preso oito vezes, porque acabava um período de prisão preventiva, e não sendo julgado, davam-lhe ordem de soltura, e era imediatamente preso à saída da prisão. Presidente Honorário do M.P.L.A. durante anos, faleceu fez agora há pouco tempo, um ano. A Viúva dele a Maria Vitória é que esteve agora há alguns meses em Portugal, e quando lhe falei desta sessão ela disse-me, “ai que pena, nesse dia, dia 3, é que eu vou regressar a Angola”, por isso não pode aqui estar;

padre Franklin da Costa, angolano, professor do Seminário de Luanda, foi logo a seguir ao 25 de Abril, e após a descolonização, nomeado Arcebispo de Lubango;

padre Alexandre Nascimento, também preso na mesma altura, deportado para Lisboa, com residência fixa, depois de regressado a Angola, foi Arcebispo de Luanda, e mais tarde Cardeal;

padre Manuel Joaquim das Neves, Vigário Geral de Luanda, acusado de preparar o assalto à prisão da PIDE, de 4 de Fevereiro, também deportado para Lisboa, para Braga, para uma casa Religiosa, onde morreu, e para não haver manifestações nem burburinho, o enterro dele em Braga, foi feito durante a noite;

padres Vicente Rafael, Domingos, Alfredo Gaspar, Martinho Bamba e Lino Guimarães, afinal eram mais do que os que eu já aqui enunciei, foram também presos em Luanda, a seguir ao 4 de Fevereiro, e também deportados para Portugal;

padre Mário de Oliveira, já bastante conhecido, nomeado capelão militar na Guiné, em 67, foi depois expulso, por indesejável, e nomeado pároco em Macieira da Lixa, no Norte, preso várias vezes pela PIDE;

padre José da Felicidade Alves, que é mais conhecido, também foi mandado pelo Cardeal Cerejeira, estudar para Paris, depois de ter feito umas homilias denunciando a Guerra Colonial, na Igreja dos Jerónimos, onde era pároco. Fundou os «Cadernos GEDOC» depois do seu regresso, «Grupo de Estudo e Documentação», que foram muito importantes, foi ele que organizou o livro Católicos e Politica – atrás citado;

e depois, padres holandeses [João Dekker e Adriano], alguns deles da Congregação dos Sagrados Corações, trabalhando na freguesia do Couço (Ribatejo), perto do Alentejo, onde houve muitas revoltas de camponeses, e eles solidarizaram-se com eles, [e ainda] o padre Bartolomeu Recker, que foram presos pela PIDE e levados para a fronteira de Badajoz;

padre Ismael Nabais Gonçalves, pároco da freguesia de Igreja Nova, em Mafra, preso em 1973; era uma das Igrejas onde eram policopiados documentos clandestinos; as paróquias tinham duplicadores a “stencil” e então, numerosos grupos usavam essas máquinas para fazer a edição dos documentos clandestinos.

Portanto, aqui está, não serão todos, mas estão aqui uns tantos padres que lutaram contra a ditadura, houve [também] Bispos, como se sabe, um deles, António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, o Bispo da Beira, Sebastião Soares de Resende, o Bispo Manuel Vieira Pinto, de Nampula, que também, a certa altura, foi exilado para a Metrópole, foi mandado pela PIDE aqui para Portugal, pouco antes do 25 de Abril, o Bispo Altino Ribeiro de Santana13, também em Angola.

(...)


Para ler o texto integral , clicar AQUI

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Poema "O fardo do Homem Branco" (1899) de Rudyard Kipling

KIPLING EDULCOROU O IMPERIALISMO

Alcançado pela polêmica que, atravessando o Atlântico, o pegou em Londres, Rudyard Kipling, que vivera alguns anos em Vermon, nos Estados Unidos, resolveu compor um poema especialmente para a ocasião. Intitulou-o The white man´s burden, o fardo do homem branco - imediatamente reproduzido no McClure´s Magazine dos Estados Unidos em fevereiro de 1899 - onde, em sete estrofes, exortou os norte-americanos, tal como os ingleses, de quem eles descendiam, a assumirem o seu papel histórico de povo imperialista. "Enviem para lá", para as colônias, conclamou ele, "os melhores de vocês. Dêem seus filhos para o exílio para que eles sirvam às necessidades dos cativos, mantendo-os, tal povo confuso e selvagem, nos arreios". Que eles tivessem paciência em suportar e travar "as selvagens guerras pela paz", pois este é o fardo do homem branco. E, como agradecimento por esses anos todos de sacrifício, frios, disse ele, apenas contem com a opinião judiciosa dos seus pares. Kipling, dessa forma, transformava as conquistas coloniais na grande missão da raça caucasiana, tarefa nobre da qual ela bem pouco poderia esperar algo em troca - visto que era um fardo que a Providência determinara que os brancos assumissem. Simbolicamente, ele metamorfoseava uma política de agressões e rapinas praticadas pelos europeus colonialistas, numa incumbência tão meritória como a de Atlas, o titã grego punido por Zeus para sustentar o mundo às costas."

O fardo do Homem Branco (1899)

Rudyard Kipling


Tomai o fardo do Homem Branco -
    Envia teus melhores filhos
Vão, condenem seus filhos ao exílio
    Para servirem aos seus cativos;
Para esperar, com arreios
    Com agitadores e selváticos
Seus cativos, servos obstinados,
    Metade demônio, metade criança.

Tomai o fardo do Homem Branco -
    Continua pacientemente
Encubra-se o terror ameaçador
    E veja o espetáculo do orgulho;
Pela fala suave e simples
    Explicando centenas de vezes
Procura outro lucro
    E outro ganho do trabalho.

Tomai o fardo do Homem Branco -
    As guerras selvagens pela paz -
Encha a boca dos Famintos,
    E proclama, das doenças, o cessar;
E quando seu objetivo estiver perto
    (O fim que todos procuram)
Olha a indolência e loucura pagã
    Levando sua esperança ao chão.

Tomai o fardo do Homem Branco -
    Sem a mão-de-ferro dos reis,
Mas, sim, servir e limpar -
    A história dos comuns.
As portas que não deves entrar
    As estradas que não deves passar
Vá, construa-as com a sua vida
    E marque-as com a sua morte.

Tomai o fardo do homem branco -
    E colha sua antiga recompensa -
A culpa de que farias melhor
    O ódio daqueles que você guarda
O grito dos reféns que você ouve
    (Ah, devagar!) em direção à luz:
"Porque nos trouxeste da servidão
     Nossa amada noite no Egito?"

Tomai o fardo do homem branco -
    Vós, não tenteis impedir -
Não clamem alto pela Liberdade
    Para esconderem sua fadiga
Porque tudo que desejem ou sussurrem,
    Porque serão levados ou farão,
Os povos silenciosos e calados
    Seu Deus e tu, medirão.

Tomai o fardo do Homem Branco!
    Acabaram-se seus dias de criança
O louro suave e ofertado
    O louvor fácil e glorioso
Venha agora, procura sua virilidade
    Através de todos os anos ingratos,
Frios, afiados com a sabedoria amada
    O julgamento de sua nobreza.


ver também: http://historiacontemporaneaufs.blogspot.com/2010/10/o-fardo-do-homem-branco-1899.html
e outras interpretações em comentários....

http://www.anovademocracia.com.br/no-35/287-a-recolonizacao-programada-da-africa

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Luanda, 8 de Novembro de 1975: Uma Noite Com Trinta Anos por Leston Bandeira

Embarque das Últimas Tropas Portuguesas em Luanda
  O embarque das Últimas Tropas Portuguesas em Luanda
Soldados Portugueses
A retirada da bandeira portuguesa
 fotos colocadas  além do texto)

 Já descrevi a minha chegada a Luanda, a 8 de Novembro de 1975, sob a pressão de tropas invasoras do Sul. Os amigos, os conhecidos e os que passaram por uma coisa e outra tinham fugido. Depois, os camaradas, "bazado". Em Luanda, aonde já não ia há algum tempo, a surpresa quase me paralisou. A cidade não existia, parecia um sítio onde tinha caído uma bomba de neutrões.
Do Lubango até Luanda tinham viajado connosco a Bany e outras criaturas (hoje, por sinal, gente célebre na praça). Quando digo "connosco", quero dizer eu e a Zi, a minha companheira, a minha mulher.
Chegámos a Luanda e, por acaso, encontrámos a casa do Pedro D'Ornelas ( de quem, um dia destes destes, contarei um par de estórias). Em Casa do Pedro estava ele, a Rita e não sei mais quem. E algumas latas de atum e arroz. Deu uma refeição. No final, olhámos uns para os outros, com alguma dignidade, porque esta coisa da fome perturba, analisámos a situação politico-militar e cada um seguiu o seu caminho.
Dia nove ainda houve um resto do arroz, com a água do atum, mas no dia dez, NADA! De manhã à noite. Nem um grão de arroz. Luanda era uma cidade sem vida. Estava toda a gente escondida em casa. Ninguém atendia o telefone. Na casa do Pedro encontrámos o Graça, professor de Matemática no Lubango e que também tinha feito " a retirada estratégica" para Luanda. No prédio onde vivia, na Rua Direita de Luanda, havia um apartamento de um amigo, que tinha "bazado", e de que ele tinha a chave. Subimos não sei quantos andares para nos instalarmos e, por volta das onze da noite, com os estômagos a roncar com fome, começámos a ouvir tiros de armas pesadas. Pensámos: "os zairenses conseguiram entrar..."Pelos vistos, era preciso inventar um esquema de sair de Luanda sem ser notado. A minha fotografia fazia parte dos dossiés dos invasores: "cortar a barba, ir para o porto...sei lá".
Sem informação, sem rádio, sem nada que nos explicasse o que estava a acontecer, só percebíamos os tiros de armas pesadas e ligeiras.
No dia seguinte percebemos que tudo aquilo eram as comemorações da "Dipanda". Com algumas vítimas à mistura: houve uma família que morreu toda, porque lhe caiu na comemoração da independência uma granada de morteiro lançada por um vizinho que tinha o morteiro e a granada guardados para aquele dia. O dia 11 não foi muito diferente. A retirada vergonhosa dos portugueses e dos altos comandos, as fantochadas políticas, todas nos passaram ao lado. A nossa gente estava em dificuldades e nós com eles. Comemos mabangas, arroz com feijão, peixe espada frito até ao enjoo.
Um dia, num restaurante que, entretanto, tinha reaberto, segui o inclinar das cabeças de todos os clientes e descobri uma criança que estava a entrar portas adentro. Há que séculos aquela gente não vislumbrava o sorriso de uma criança...Viver em Luanda transformou-se num acto de fé. Também dava para a brincadeira: à hora do comércio abrir, sobretudo depois da hora de almoço, dois ou três de nós colocávamo-nos em fila à entra de uma loja. Logo a seguir, se formava uma longa fila de gente que ia perguntando: "camarada, tá a sair o quê?..."
Começou aí a realizar-se a grande capacidade da sociedade angolana para se defender dos sistemas, para se auto-organizar.
Também principiaram aí as grandes fortunas angolanas, ostentadas, trinta anos depois, por personalidades que não as explicam, mas se afirmam, em semanários portugueses ( Expresso) disponíveis para investir em Angola, escondendo que as reais fortunas de que dispoêm estão espalhadas um pouco por toda a parte, inclusivé em Portugal.
Não posso deixar de constatar que há aqui uma convergência de interesses: o do Expresso, que quer instalar-se em Angola, para aproveitar um pouco da ocupação chinesa e o dos detentores de fortunas inexplicáveis que as querem transformar em motivo de honra nacional e até de pretexto para candidaturas à presidência da República.
Ao que a lembrança de uma noite de fome conduz...

ANGOLA: 27 de Março de 1976


Naquele dia foi oficial: as tropas sul-africanas tinham abandonado Angola e, embora tenham ficado estacionadas mesmo ali na fronteira, a poucos quilómetros de Santa Clara e do outro lado das quedas do Ruacaná, para nós foi dia de festa. "A guerra tinha acabado" - foi-nos dito em comício popular na praça que então se chamava " da República".

O Lubango vivia momentos de euforia, de reconstrução, de azáfama, de reorganização. Os operários dos Caminhos de Ferro de Moçamedes (CFM) ajudavam os agricultores, fazendo peças para os tractores avariados, noutras fábricas substituia-se o obsoleto sistema de capatazia por métodos de responsabilização na organização da produção.

Quando, a 18 de Fevereiro tínhamos chegado à cidade, no primeiro voo que partiu de Luanda, muitos de nós não contiveram as lágrimas à vista de uma cidade meia destruída. Os retirantes partiram tudo quanto puderam. Os últimos foram os homens da UNITA, já sob a pressão das tropas cubanas, mas à frente dos "bravos" Mucubais comandados pelo Farrusco, que, naquele dia de 18 de Fevereiro nos recebeu no aeroporto num jeep com uma enorme bandeira vermelha que drapejava fortemente ao vento.

Para muitos de nós - para mim, inclusivé - a guerra tinha terminado naquele dia. Depois foi o arregaçar de mangas: ajudar na reorganização da produção, pôr de pé a Faculdade de Letras, refundar a Rádio Popular de Angola, criar o jornal " A Luta Continua", acorrer aos variados chamamentos, alguns dos quais de madrugada, porque um grupo de "faplas" tinha resolvido fazer das suas.

De Fevereiro de 1976 a Março do mesmo ano muitas coisas aconteceram naquela cidade, cinclusivamente a instalação de uma intriga forte, uma espécie de veneno trazido de Luanda. A Comissão Política da Huíla começou a integrar gente que não se percebia donde vinha. De um dia para o outro, percebi que o único elemento que tinha legitimidade democrática, porque eleito na primeira Assembleia Geral de militantes do MPLA era eu.

E eu não tinha tempo para a intriga e passei a ser olhado, primeiro, como a consciência do grupo. Toda a gente queria falar comigo em privado. Depois o mesmo aconteceu, quando os ministros passaram a visitar o Lubango. Mas, depois, mais tarde, era o "branco", isto é, "português".

Todavia, naquele 27 de Março não deixei de vibrar com a oficialização do "fim" da guerra. Finalmente, Angola podia reconstruir-se e cumprir metas de desenvolvimento que beneficiasse a todos.

Finalmente...

Houve comício com o velho Lúcio Lara. No seu discurso atacou sobretudo a posição de Portugal que ainda não tinha reconhecido o Estado Angolano, proclamado pelo MPLA às 00H00 de 11 de Novembro de 1975.

Emílio Braz, entretanto nomeado Comissário Provincial, também botou discurso e, no final, teve uma expressão que me alertou: " Viva o Povo N'Hanheca Humbe" - o Povo da Huíla.

Fiquei desconfiado, tanto mais que durante a sua proclamação aos presentes afirmou que toda a gente tinha que aprender a língua M'Huíla.

Alguma coisa se passava e fiquei mais atento.Pouco tempo depois concluí que o confronto entre nitistas e netistas também tinha chegado ao Lubango.

Afinal...

A guerra não tinha acabado: o MPLA ajeitava-se para uma disputa fratricida, que haveria de ter o epicentro a 27 de Maio do ano seguinte. As réplicas prolongaram-se por vários meses e custaram a vida a algumas dezenas de milhar de pessoas. Na sua maioria jovens; muitos deles tinham sido meus alunos, quer no Liceu, quer na Faculdade de Letras. Nessa altura porém já não estava no Lubango: eu também fazia parte das listas negras dos dois lados. Não teria tido salvação...

Mas, aquele 27 de Março foi dia de Alegria. Resolvemos rebaptizar a Escola Comercial e Industrial Artur de Paiva: "Escola 27 de Março", de que era directora a minha mulher, Isilda Arruda.

Naquele 27 de Março, Angola estava oficialmente livre de tropas ocupantes. Voltariam, já não de peito aberto, mas a coberto de acordos espúrios com forças angolanas que também queriam o poder absoluto , corrupto e racista, tal como o construiu o MPLA.

E eu, naquela altura, sem desconfiar ainda do que me esperava, voltei a chorar de contentamento. Finalmente... "a minha terra" estava livre.

domingo, 3 de abril de 2011

A Igreja em Angola

Luís Salgado de Matos

O começo das hostilidades em Angola, em Março de 1961, foi seguido de perseguições a igrejas protestantes consideradas aliadas dos «terroristas» - e da repressão do clero africano da arquidiocese de Luanda.
O vigário-geral, monsenhor Manuel Mendes das Neves, foi preso (e morreu, exilado em Portugal, em 11 de Dezembro de 1966), sendo os restantes padres desterrados para Portugal. Entre eles, o actual cardeal Alexandre do Nascimento e Joaquim Pinto de Andrade.
A sensatez do espiritano D. Moisés Alves de Pinho - o chefe da Igreja em Angola (1932-1966), que condenou os excessos da luta antiterrorista, sempre aplicou a doutrina social da Igreja e soube pilotar a africanização dos quadros, apesar da oposição oficial - contribuiu para amortecer os conflitos entre a Igreja e o Estado português e entre o clero angolano e as outras igrejas africanas, mas não os evitou totalmente.
A agitação na Igreja angolana começou no final da década de 60. Em Abril de 1968, um grupo de cristãos escreveu aos bispos a defender os movimentos de libertação, tendo o Governo proibido os Primeiros Colóquios Sociais. Nesse ano, o padre Adalberto Postioma, professor do seminário de Luanda, foi incomodado pelas autoridades (e apoiado pelo arcebispo) por ensinar o direito à independência.
Em Agosto de 1969, um grupo de cristãos convidou os bispos de Angola a condenarem as acções do Exército português contra populações indefesas.
Em 1970, vinte e dois missionários da congregação do Espírito Santo, a mais numerosa em Angola, onde fora pioneira da evangelização moderna, enviaram um documento à Conferência Episcopal a acusar a Igreja de cooperar nas injustiças sociais. O padre José Veiga, também espiritano, propôs à Conferência a criação de «comunidades novas», o que foi aceite, com algumas condições, por carta de 30 de Julho de 1970.
Em 9 de Abril de 1970, a missão de Chamavare, onde missionários estrangeiros se dedicavam aos bosquímanes, foi alvo de ataque de agentes da DGS, disfarçados de terroristas - pretexto para o seu encerramento, no que terá sido uma medida preventiva da denúncia de massacres e, em Julho desse ano, o Governo fechou a missão dos Irmãozinhos de Jesus.
Em Dezembro de 1972, o espiritano padre Jorge Sanches publicou na revista católica «Spiritus» um artigo a acusar os bispos de «incapazes de tomar a peito a liberdade da Igreja e a defesa dos oprimidos» o primeiro ataque católico internacional à Igreja católica em Angola.
Respondeu-lhe o arcebispo de Luanda, D. Manuel Nunes Gabriel, apoiado pelos superiores espiritanos locais: os bispos de Angola têm tido quase uma «obsessão» pela «questão social», e defender a independência política seria «cair em novo clericalismo».
Aquelas oposições não abalaram a unidade do episcopado angolano, que viu a sua posição conciliadora legitimada pela nomeação - estimulada pela Santa Sé, contrariada por Lisboa - do primeiro bispo negro da evangelização moderna portuguesa, D. André Muaca (auxiliar de Luanda, 1970; residencial de Malanje 1973). 
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ANGOLA: Delimitação territorial, Missionação, Colonização, Infraestruturas básicas, Economia, Problemas sociais, guerrilha e independência

DELIMITAÇÃO TERRITORIAL:

O navegador Diogo Cão aportou, na sua 2ª viagem, o Rio Zaire, no reino do Congo, em 1485,  e reconheceu a costa angolana até ao Cabo Negro, atual Luanda, colocando aí os padrões para testemunhar a presença portuguesa.

Este reino e a parte litoral explorada até Luanda, ficaram subordinados ao Arquipelago de São Tomé e Príncipe, dado a sua proximidade e como centro de transito dos escravos.

As terras litorais a sul do Rio Dande até 35 léguas ao sul do Rio Cuanza foram dadas como capitania ao Paulo Dias Novais em 1559, quando ali chegou com alguns jesuítas. Ele em 1576 fundou a povoação de Luanda  e construiu 3 fortalezas, governou durante 14 anos e morreu em 1589.

 Em 1617 foi fundada a povoação de Benguela na costa litoral e  construídas fortalezas. Em  1641 os holandeses capturaram Luanda, mas os portugueses recuaram-se para o interior,  e ao fim de 7 anos em 1648 com o apoio de Salvador Correia de Sá, vindo do Brasil, expulsaram os holandes. Salvador Correia foi nomeado Governador, 1648-1652.

Nos finais do século XVII o domínio costeiro expandiu-se para o interior e o reino indígena Ndongo ou Andongo tornaram-se protectorados portugueses e no sul fundaram uma feitoria e fortaleza em Caconda.

 Devido ao clima e alimentação, muitos dos expedicionários, jovens metropolitanos, açoreanos e madeirenses, morriam. Eram campanhas de ocupação local, mas, ao mesmo tempo de avançar com a ideia de ligar Angola a Moçambique, de cuja costa também partiam expedições para o interior.

Em  1790 deu-se a primeira ligação terrestre entre Angola e Moçambique, quando os mercadores mulatos, Pedro João Baptista e Amaro Noé, chamados Pombeiros, saindo de Cassenje alcançaram Tete, em Moçambique.

Depois da revolução liberal,1820, os textos constitucionais enumeravam os domínios africanos como territórios espalhados pelas áreas afro-atlântico e índica, constituindo no seu conjunto três governos gerais: o de Cabo Verde e Guiné; o de Angola e o de Moçambique; e um governo particular: o de São Tomé e Príncipe e são João Baptista de Ajudá.Da África Ocidental constavam as parcelas de Bissau e Cacheu, o Forte de São João  Baptista de Ajudá; na Costa da Mina: Angola, Benguela e suas dependências, Cabinda e Molembo e as Ilhas de Cabo Verde e as de São Tomé e Príncipe. Na costa oriental africana indicavam-se Moçambique, Rios de Sena, Sofala, Inhambane, Quelimane e Cabo Delgado.
No interior de  oeste para o leste não havia limites fixos e muito pouco se sabia ainda acerca dos vastos espaços interiores e das populações que os habitavam. Eram vastos espaços onde cruzavam-se as caravanas dos mercadores e traficantes africanos que traziam para a costa, cera, marfim, e outros produtos, e os escravos comprados nas feiras africanas ou nas fortalezas portuguesas disseminadas pelo interior.A ideia de unir a costa ocidental à costa oriental em 1831 é, de novo tentada. O major, José Maria Correia, com 400 mercadores e carregadores com objetivos económicos e geográficos saiu do Tete, Moçambique, seguindo a rota de 30 anos de Lacerda e Almeida,e atingiu Cazembe, entre Zámbia e Congo, regressando a Tete em 1832. Em 1850 o explorador português Silva Porto fixou-se no centro de Angola e fez explorações geográficas e económicas e atingiu a Zâmbia onde se encontrou com Livingstone, voltando a Angola por mar em 1854, e que mais tarde se suicidou quando algumas tribos locais se revoltaram contra Portugal por incitação inglesa. Na mesma época o naturalista Welwisch ao serviço do governo português percorreu Angola e atingiu Cuando, outros partindo de Inhambane, Moçambique, atingiram Kugger National Park.

Em Angola como em Moçambique para reforçar as suas posições  na Foz do Luabo e em Tete, Portugal usou a política de aliança com os boers do Transval, adversários dos ingleses, e procedeu a exploração do Rio Cunene para evitar intromissões estrangeiras nas zonas costeiras do sul de Angola, alargando-se as fronteiras a leste com o Cassenje, a norte no Rio Congo e a sul no Rio Cunene.

A Sociedade de Geografia de Lisboa, criada em 1875, fomentou outras expedições, como as dos  oficiais da marinha, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, os quais partindo em 1877 de Moçamedes, Angola, atingiram Quelimane, em Moçambique, fazendo a  viagem “De Angola à Contra Costa”. O Capitão Serpa Pinto saindo de Silva Porto, Angola, em 1877 chega a Zâmbia Central e atinge Transval e Durban em 1879, percorrendo parcialmente Moçambique; Henrique de Carvalho viajou de Malanje, Angola,  até ao Rio Cassai, em 1884-86.

Na Conferência de Berlim em 1885-1886, com base nestas explorações, Portugal reivindicou como seu o território desde as costas de Angola, da Foz do Zaire até a Foz do Rio Cunene, até Moçambique. Mas as  potencias europeias nessa conferência decidiram que a reivindicação devia ser apenas através de ocupação efectiva dos territórios  ultramarinos. A Grã-Bretanha fez o ultimato em Janeiro de 1890 e nos seus termos Portugal foi obrigado a renunciar parte do território ligando Angola à Moçambique (Zambézia e Rodésia), através do Tratado Luso-Britâncio de 1891. Com este entendimento com a Inglaterra, Portugal fez as campanhas militares de pacificação e de efectiva ocupação territorial, delimitando os seus limites definitivamente. Desde então, os alemães e ingleses cobiçaram Angola, Moçambique, Goa e Timor como compensação em caso de empréstimo português como divida pública. Os EUA queriam Açores. Em 1904 a Alemanha queria a totalidade das colónias portuguesas, mas o Tratado secreto de Windsor de 1899 entre Portuagl e Grã-Bretanha anulou o de 1898, entre Inglaterra e Alemanha.

MISSIONAÇÃO: A missionação começou logo após a 2ª expedição de Diogo Cão em 1485. Em satisfação do pedido do respetivo rei, em  1490 chegou ao Congo a primeira  missão  constituida de 3 navios com artífices, sacerdotes e ferramentas, e foi construida  a primeira igreja, em S. Salvador do Congo, reino que tornou-se um protetorado português e seu rei com a família e a elite governamental converteram-se ao crisitianismo e adotaram por batismo os nomes católicos. O rei passou a ser Afonso I e surgiram nomes como Pedro, Francisco, Diogo, Afonso, Bernardo, Henrique e Álvaro, etc. A partir de 1512 foram para lá enviadas com regularidade missões com padres, mercadores e conselheiros e um grupo de jovens congoleses vieram a Portugal para formação cultural. Dos quais  Henriques foi ordenado sacerdote  e consagrado como  bispo de Utica e vigário-apostólico do Congo.

Em 1682 foi criada  em Luanda uma Junta de Missões  com missionários capucinhos italianos, mas com fracos resultados devido ao clima e resistência do indígena a conversão.

O século XVIII foi já de profunda decadência, principalmente com a expulsão dos jesuítas ordenada por Marques de Pombal. Depois da revolução liberal em Portugal nova decadência das Ordens Religiosas, paróquias, igrejas e missões interiores, excepto à partir de 1885, quando com as mudanças políticas na monarquia constitucional portuguesa houve aumento do pessoal missionário.

A partir de 1910 de novo a situação piorou com a política anti-religiosa republicana e suprimento dos subsíduos estatais às missões, encerramento dos institutos religiosos, seminários, banimento do ensino religioso nas escolas e nacionalização dos bens eclesiásticos. Em Angola vários religiosos  que trabalhavam em Luanada e Moçamedes foram expulsos.

Com o Estado Novo, a partir de 1926 houve o renascimento  católico. Em Angola foram fundadas 29 novas missões até 1940. Em 1940 o governo assinou com a Santa Sé 3 acordos: A Concordata, Acordo Missionário e o Estatuto Missionário. Salazar referiu:"Não se pode por, entre nós, o problema de qualquer incompatibilidade entre a política da Nação e a liberdade de evangelização, pelo contrário, uma faz parte da outra. O governo condiciona a evangelização à formação patriótica do clero". É dentro deste espírito de cooperação estatal com a igreja que  de 1930 a 1960, mais de 20 Congregações missionárias enviaram pessoal para Angola: Beneditinos, Beneditinas, Doroteias, Irmãs do SS. Salvador, Irmãs de la Salette, Capuchinhos, Franciscanas Missionárias de Maria, Reparadoras, Teresianas, Redentoristas, Ordem Trapista, Irmãozinhos de Jesus, Irmãos Maristas, Irmãs do Amor de Deus, Dominicanas de Se. Catarina, Espiritanas, Missionárias Médicas de Maria, Dominicanas do Rosário, Irmãs da Misericórdia. E  1940 a 1968 o número de Padres angolanos passou de 8 a 71. Foi inaugurada no dia 8 de Dezembro de 1954, nas comemorações marianas, a primeira  Emissora Católica: Rádio Eclésia. Em Luanda de 1960-1975, as paróquias passaram de 5 a 14. Foram criados  novos seminários, e igrejas nas cidades e sedes das Missões.  A evangelização expandiu-se pelo território e em muitos lugares era uma autêntica pré-evangelização, sobretudo nas zonas onde viviam os indígenas, nativos vivendo segundo os usos tradicionais. Portugal Confiou a instrução dos indígenas às Missões Católicas. A partir de 1961 houve grande impulso na missionação e no ensino, mas estava longe de corresponder às necessidades da população indígena. O ensino indígena de duração de três anos começou por se chamar Ensino Rudimentar, mais tarde chamado de Ensino de Adaptação, findo o qual a criança era submetida ao exame oficial. O indígena, que queria aprender mais, tinha de ir para o seminário ou jogar futebol. As Missões eram um meio de difusão do catolicismo e de promoção das populações. A escola, a oficina e o trabalho rural, eram actividades que não faltavam na grande maioria das Missões. A Missão era frequentemente o único centro de ensino intelectual e profissional para a grande maioria das populações rurais.

Em 1961, foi fundado o Instituto de Educação e Serviço Social Pio XII, em Luanda, com orientação católica, tendo formado durante anos, assistentes sociais, educadoras de família e da infância.

Os Serviços de Saúde solicitavam Irmãs para os hospitais, centros de saúde e dispensários. Proliferaram igualmente os Movimentos católicos: Apostolado da Oração, Legião de Maria, Cursos de Cristandande, Conferências Vicentinas, Escuteiros.

Na década de 60, devido a construção civil, as  populações rurais deslocaram-se nos perímetros das cidades, onde motivou especial atenção por parte da Igreja, através do trabalho de evangelização desempenhado pelos catequistas, cuja formação cultural, pedagógica e religiosa, era feita em cursos de dois anos, seguindo as orientações do Vaticano II.

A partir do Acordo Missionário de 1940-1975 foram criadas as Arquidioceses de Luanda e as Dioceses de Nova Lisboa (Huambo), Silva Porto (Kwito-Bié), Sá de Bandeira (Lubango)- sendo seu 1º bispo D. Altino Ribeiro Santana do clero docesano goês -,Luso, Carmona e S. Salvador, Malanje, Henrique de Carvalho( Saurimo), Sumbe (NOvo Redondo),Serpa Pinto( Menongue) e Pereira de Eça ( Onjivae). O serviço religioso era prestado por padres europeus, euroafricanos e assimilados.

À medida que a guerrilha era confinada aos distritos de Cabinda, Zaire, Uije e Moxico foram construidas estradas asfaltadas, as quais facilitaram o contato e  a evangelização indígena. Com a descolonização de novo a igreja entrou em decadência e os padres diocesanos portugueses partiram quase todos para Portugal. Os Organismos Católicos despareceram e os serviços religiosso ficaram desorganizados, os seminarios vazios e o clero reduzido, na altura da independência.

Mas em 1977 o trabalho missionário retomou o seu antigo ritmo., novos missionários chegaram sobretudo da América Latina, A Igreja desenvolveu-se e aumentou o número de crianças da catequese. O número de seminaristas maiores duplicou. Nasceram as Congregações Religiosas Femininas de origem angolana. Os noviciados femininos passaram de 5 para 25. Apesar da guerra, a Igreja cresceu e desenvolveu-se.

NOTAS:
[1] Cfr. e., a. muaca, Breve História da Evangelização de Angola 1491-1991;Biblioteca Evangelização e Culturas, Cucujães, 1991; id., História sobre a Evangelização de Angola 1491-1991, Luanda, Oficinas Gráficas São José-CEAST- 1990; m. n. Gabriel, Angola Cinco séculos de Cristianismo, Braga, LITERAL, 1978.
[2]Cfr. e., a. muaca, Breve História da Evangelização de Angola 1491-1991;Biblioteca Evangelizaçõo e Culturas, Cucujães, 1991; id., História sobre a Evangelização de Angola 1491-1991, Luanda, Oficinas Gráficas São José-CEAST- 1990.
Conferência Episcopal de Angola e São Tomé: CEAST


COLONIZAÇÃO:  O primeiro governador Paulo Dias de Novais recebeu em regime de donataria as terras entre o sul do Rio Dande e o sul do Rio Quanza e em 1575 levou 700 pessoas para colonizar as terras da sua capitania e  estabelecer em 6 anos cem famílias europeias, concedendo-lhes a terra em sesmarias não hereditárias e organizar um exército de 400 homens e construir 3 castelos. Os soldados, marinheiros, mercadores e ciganos para lá enviados nesse período misturaram-se com a população por miscegenação.

 Entre 1849 e 1884 voluntários vindos do Brasil e de Madeira fixaram-se em Moçámedes. Neste período  a emigração portuguesa orientava-se para o Brasil, com a convicção de que a África era hostil ao europeu.

As autoridades desde a monarquia constitucional e depois na República abordaram os problemas de atraso das populações africanas, do trabalho obrigatório e da discriminação racial no acesso aos cargos.

Na década de 1920 foi aberto o primeiro liceu, Liceu Salvador de Correia, em Luanda, donde saíram na década de 1930 os primeiros ideólogos angolanos, Américo Machado,  Viriato Cruz e  António Agostinho Neto. Na área do combate as doenças tropicais, sendo governador, Norton de Matos, deu-se o Primeiro Congresso da Medicina Tropical.

Em 1930 a colonização europeia em Angola atingiu cerca de 58 000 pessoas. Na década de 1950 criaram dois colonatos europeus: Cela, no centro de Angola, e, Matala no sul de Angola. A par da colonização europeia na década de 1950 procurou-se a elevação dos indígenas de Angola, bem como dos territórios de Timor, São Tomé e Príncipe, Guiné, e Moçambique, em regime de cidadãos assimilados, desde que tivessem regras sociais ocidentais da população europeia, mestiça, ou mesmo negra, quando considerados civilizados, e desde que soubessem, ler e escrever português.

Também nesta ltura o acto colonial sofreu alterações e é anexado a Constituição de 1950 e os territóruos ultramarinos são designados de Províncias Ultramarinas. E neste sentido em 1961 o Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, introduziu reformas para combater a discriminação derivada das subculturas, no entanto, como as reformas liberais no passado, na prática a sua aplicação  teve obstáculos porque a consciência colectiva, sobretudo das instituições civis, ainda não estava preparada, salvo excepções. A população estava estraficada: os europeus com mais privilégios do que os mestiços e africanos.

Na  década de 1960 criaram outros colonatos: colonatos negros; colonatos dos soldados; e colonatos de cabo-verdianos.  Para administração desses projectos de povoamento rural criaram as Junatas Provinciais de Povoamento. Com esta política na década de 1960 houve um grande afluxo da população europeia nas áreas citadinas.

A Lei Orgânica do Ultramar de 1972  conferiu a Angola e a Moçambique o Estatuto Territorial de Estados Ultramarinos.

A partir da Revolução de 25 de Abril de 1974 e durante a guerra pós independência em 1975 muitos cidadãos portugueses, sobretudo europeus, cerca de 800 000 abandonaram Angola.

Em Angola os maiores grupos etnográficos eram dos Umbundos no planalto de Benguela. Anbundus, no norte de Benguela, Congus ou Quicongos até ao interior do Congo Belga e no sul e ao oriente  os lundo-Quioca; Ganguelles, hereros, naneca-usubus, anebos e os xindongos no sw africano (Namíbia).

INFRAESTRUTURAS BÁSICAS: A primeira povoação fundada foi Luanda em 1576 por Paulo Dias Novais, seguida da povoação litoral de Benguela, em 1617.

Entretanto Luanda por volta de 1665  já tinha edifícios sumptuosos e um activo porto marítimo e as instituições administrativas básicas, de ouvidor-geral, provedor, secretário, juiz-de-fora. Marques De Pombal ali criou o  celeiro público, alfândega e hospital e algumas povoações no interior, Ambaca, Macala, Malanje, povoações que mais tarde, após a Conferência de Berlim de 1884-85, ja tinham uma linha férrea ligando-ás as povoações litorais de Luanda, Lobito, Benguela e Moçamedes. O capital estrangeiro foi o dinamizador dessas obra públicas, como, construção de pontes, caminho-de-ferro, estradas e telégrafos, estudos hidrológicos no Baixo Zaire, em Cabinda e na Foz do Rio Cunene.

 De 1950-1974 foi o período de novos e elevados investimentos, dando-se início a instalação da primeira indústria têxtil, com fomento agrícola, florestal e pecuário, caminhos-de-ferro, portos e transportes marítimos e fluviais, estradas, pontes e aeroportos, urbanização, águas e saneamento, centrais hidroeléctricas e produção de energia eléctrica. Novas escolas oficiais foram abertas, por todo o território.

ECONOMIA: Logo de início, desde 1458,  este reino de Congo e a parte litoral ficaram subordinados ao Arquipelago de S. Tomé e Príncipe, como fonte de escravos para mão-de-obra e mais tarde ao Brasil para exploração de cana-de-açúcar e das minas de ouro no século XVIII. Portugal abastecia os colonos e os reinos indígenas de Angola com têxteis, loiça, tabaco, facas, aguardente, sal, etc em troca de escravos e marfim. Para troca interna, sendo a moeda escassa usavam rectângulos de palha, sal, conchas, etc., mesmo para pagamento do pré-militar.

A decisão de Pombal em 1756 de decretar liberdade de comércio, reservado até aí apenas aos africanos, estimulou o povoamento e na agricultura  foram introduzidas as plantações de urzela e de pastel. Foram criadas uma fundição de ferro e indústria de couros. Apenas o trato dos escravos ficou como monopólio régio e escravos foram levados para as companhias de Pernambuco e Paraíba. Com as consequências da revolução industrial e dos ideias dos direitos do homem da revolução francesa a mão-de-obra escrava é combatida e em princípios do século XIX os barcos negreiros eram perseguidos pela marinha inglesa e portuguesa através da Estação Naval de Angola. Neste  período, além de combate a escravidão, o governo empenhou no ensino e no fomento da agricultura e foi fundada a imprensa oficial em Angola.

Em 1834 venderam terras  para plantação de café na região de Cazengo, interior de Luanda, de cana-de-açúcar, nos oásis costeiros para fabrico de rum, e de algodão nas regiões do sul, com boa produção na primeira metade do década de 60, época de fome de algodão, com a guerra civil americana.
A burguesia colonial era formada de agentes directos dos poderosos mercadores residentes no Brasil e  de negociantes emigrados de Portugal e pelas grandes famílias crioulas implantadas em Angola, mantendo ligações estreitas com Portugal. Com o incemento de comércio externo foram introduzidos os direitos alfandegários  em áreas a que Portugal se achava com direitos, como o estuário do Congo, sobre exportações, e Luanda e Benguela abriram-se a navegação estrangeira, e foi concedida uma maior autonomia administrativa e municipal aos domínios ultramarinos. Foi banido o tráfico ilegal, que apesar do patrulhamento britâncio, reimplantou-se nos pontos de litoral como Ambriz e Moçamedes. Com a abolição da escravatura, acompanhada do conceito de cidadania da Carta Constitucional, e na convicção de que a mão-de-obra livre era mais eficiente que o trabalho escravo, na década de 1850 introduziram carros de bois no transporte de mercadorias e  carregadores no sector público e em 1854 o Conselho Ultramarino criou  um sistema de tutela aos libertos, mas na prática estas  medidas encontraram oposição e eram os próprios governadores os primeiros a contrariar.

Foi fundado o Banco Nacional Ultramarino em Luanda em 1864, com papel importante até a década de 70, na concessão dos empréstimos aos plantadores e mantendo estreita ligação com a rede mercantil de Lisboa, ao mesmo tempo atraindo capital, sobretudo inglês para fomento de navegação, caminhos-de-ferro e na exploração e exportação das minas de cobre de Bembe e na fundação da  Companhia de Navegação do Cuanza. Depois da Conferê ncia de Berlim de 1884-1885 e graças às obras públicas realizadas, as grandes companhias estrangeiras desenvolveram a exploração de matérias-primas e produtos agrícolas, algodão, borracha, açúcar, café, chá, oleaginosas, sisal, cacau e a prospecção e exploração dos recursos minerais, e diamantes. Associadas as Companhias Estrangeiras surgiram  companhias coloniais portuguesas dedicadas a exportação dos produtos e a sua comercialização. Estas companhias também trasportavam para o império os produtos industriais metropolitanos vinhos e tecidos de algodão, produtos alimentares, conservas de carne, azeite, massas alimentícias, calçado, tintas, etc, como um prolongamento do mercado interno, e transportavam para Metrópole produtos africanos para exportação, via Lisboa, açúcar, caju, copra (de Moçambique), café, cera, borracha, açúcar (de Angola) e cacau (de São Tomé). Aos produtos vindos do ultramar em 1882 foi aplicada a pauta proteccionista.

Este desenvolvimento criou deficite nos orçamentos de Angola e de Moçambique, ficando o Estado endividado ao BNU e aos credores externos, causando inflação e desvalorização monetária, paralisando a actividade económica em Angola e em Moçambique, entre 1925-26. E os seus produtos eram inferiores em qualidade e caros, relativamente aos  produtos estrangeiros e, consequentemente, as suas exportações cairam. Esta situação  é agravado com as ideias expansionistas da África do Sul e pela crítica da Sociedade das Nações Unidas sobre o trabalho indígena. Para solucionar este problema  Salazar lançou a sua poltíca de rigor orçamental e de crédito público e as colónias tornam-se uma extensão importante do mercado interno para agricultura e industria transformadora  dos produtos agrícolas, pecuários, matérias-primas e minérios coloniais.

As pretensões revisionistas italo-alemãs  do Tratado de Versalhes de 1919 levaram  Mussolini em 1933 propor à Inglaterra a partilha das colónias portuguesas entre Alemanha e a Itália e entre 1935 e 1937 surgem boatos de entendimento germano-britânico relativamente a partilha de Angola e de Moçambique. Foi este motivo que levou Salazar a decretar o Acto Colonial, em que afirmou que o Estado não alienava nenhuma parcela do território colonial e restrigiu às concessões aos estrangeiros e às entidades particulares. Extinguiu altos-comissários e os substituiu por governadores-gerais, subordinados ao Ministro das Colónias ou ao Governo de Lisboa. Esta medida pôs fim  a autonomia financeira das colónias e o seu orçamento ficou a carecer da aprovação do Ministro das Colónias. Foram medidas de centralização e de equilíbrio das contas e defendeu "uma comunidade e solidariedade natural" entre a metrópole e as colónias. Este acto colonial mudou o rumo da colonização portuguesa na política, ideologia e instituições. Como resultado os mercados metropolitano e colonial sofrem grandes desenvolvimentos quantitativo e qualitativo durante a guerra e no pós-guerra.

Com a  revisão constitucional de 1951, o acto colonial é lhe anexado com alterações e são acrescentados os conceitos de ultramar português e províncias ultramarinas. Ao mesmo tempo para  fomento ultramarino flexibilizou a politica de equilíbrio orçamental e tomou medidas para barateamento dos fretes dos transportes marítimos e modernização da frota mercante e intensificação da migração portuguesa para o ultramar. Também surgem reformas no regime de trabalho indígena tentando por côbro ao recrutamento compulsivo. O Estado e os empresários portugueses iniciaram exportações de capital para os territórios ultramarinos. É assim criado o Espaço Económico Comum português, que criou certa tensão com os adeptos da abertura preferencial à Europa. O EEC tinha a intenção de criar economias fortes em Angola e em Moçambique de modo a poder concorrer com o espaço metropolitano e nos mercados externos, baseando-se na igualdade económica das partes no Portugal pluricontinental e plurirracial. Por iniciativa estatal foram lançados ambiciosos planos de infra-estruturas ferroviárias, portuárias e aeroportos, estradas e pontes, pistas de aviação, desenvolvendo transportes marítimos,  fluviais e ligações aéreas "imperiais", bem como a urbanização, águas e saneamento, barragens, energia eléctrica e fomento das prospecções mineiras em Angola e em Moçambique. Estas obras foram concluidas com a ajuda do Plano Marshall, 1949-1951 e depois através dos Planos de Fomentos, I, II e III até 1974. A CUF fez a exploração das minas de cobre  e de outras matérias-primas e produtos agrícolas, com parcerias dos grupos Espírito Santo ou BNU, associados a interesses de prósperos colonos locais; procedeu-se ao fomento de missões científicas, geológicas, geográficas ou antropológicas; procedeu-se igualmente a abertura  de indústrias complementares e de apoio aos planos anteriores, Champalimaud instalou cimenteiras em Angola e em Moçambique e arrancaram as indústrias, têxteis, alimentares, carnes e bebidas, entre outras, dando grande incremento à produção industrial, fomento agrícola, florestal e pecuário, comércio externo, provocando o crescimento do PIB. Em 1972 surgiu o projecto de Sines a pensar no petróleo angolano.

Este desenvolvimento em Angola foi chamado  de “milagre económico” com um crescimento de 7% entre 1963 e 1973 contra 4% em média dos anos anteriores, e traduziu-se no significativo crescimento dos sectores transformador e extrativo, respetivamente nos produtos agrícolas  de sisal, açúcar e café, e  de diamantes, petróleo e minérios de ferro. virados ao mercado externo e ao consumo interno nas cidades europeizadas e dos contingentes militares e  das populações nativas. Igualmente cresce o sector de vestuário e de calçado. As empresas mais importantes eram:  CADA – Companhia Angola de Agricultura, SARL e a Sociedade Agrícola de Cassequel, Companhia dos Diamantes de Angola, a Companhia Mineira de Lobito, e a Cabinda Gulf Oil Company, dedicavam-se ao mercado externo. Na  produção ao mercado interno: Petrangol e a Cimento Secil, Fabrica de Bicicletas e Motorizadas, Ldª- FABIMOR, a Fáb. Tintas Dyrup de Angola, Lda, a Secil Marítima, SARL, a Angolan African Oxygen (fábrica de eléctrodos para soldaduras a gás) a Angotrónicas – Industria electrónicas do ultramar, a Sadat – sociedade Angola de acumulador Tudor e a Sterling Farmacêutica Portuguesa (Angola), CUCA – companhia união de cervejas de Angola, Companhia de Congo Agrícola, da Quintas & Irmãos, da Confiang, etc.
A guerrilha não teve impacto, apesar de deslocações forçadas das populações devido a guerra e da destruição dos sectores de economias tradicionais africanas, com perda de colheitas, envenenamento dos solos, etc. no processo de desenvolvimento angolano.

PROBLEMAS SOCIAIS, GUERRILHA E INDEPENDÊNCIA: A partir de finais do século XIX à medida que se dá a expansão económica e abuso do poder e uso de força  sobre a mão-de-obra nativa  nas roças de café e de algodão há revoltas dos trabalhadores, por incumprimentos do horário do trabalho, atraso nos vencimentos, alimentação fraca e falta de condições de enfermagem, e que são brutalmente reprimidas:  revolta nos Dembos, no norte de Angola, em 1871-72;
Insatisfeitos com a situação social 20% dos bacongos angolanos emigraram para o Congo, volta de 150 000. Na década de 1940  surgiu o movimento, tocoismo, de Simão Toco, político-religioso,  xenófobo e  inimigo do Estado, dos seus funcionários, dos médicos, dos missionários católicos e protestantes e de todos aqueles que trabalhavam com ele e queriam dominar os brancos e torna-los seus criados e Simão seria o chefe eleito pelo Salvador para salvar os pretos e para libertá-los da escravidão branca. Mas os seus dirigentes foram presos em 1949 e foram encarregados de recuperação da grande parte da populaçãpo do norte e foi concedido aos autóctones não assimilados a construção de novas escolas, alargamento dos programas escolares, reconstrução das aldeias destruídas pelos portugueses e os refugiados no Congo ex-Belga regressaram às suas terras e Toco viveu em liberdade vigiada em Luanda e depois foi deportado para os Açores com a sua mulher demente e dos seus 3 filhos e ali colocado como ajudante do faroleiro a 25 km de Ponta Delgada e com o 25 de Abril de 1974 regressou a Luanda em 31/8/1974.
 Agitação entre trabalhadores contratados do Norte de Angola em 1956; revolta e greve dos trabalhadores das plantações algodoeiras da Baixa do Cassenje, no norte de Angola em 1956. E é neste contexto que surgem, influenciadas pelas ideias socialistas e comunistas, as primeiras organizações independentistas:  1954  Holden Roberto funda em Leopoldville a UPA, união dos povos de Angola - e depois a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) com o apoio norte-americano;  1955 é criado o Partido Comunista de Angola, por inspiração do Partido Comunista Português, com implantação em quadros brancos das cidades, que mais tarde foi designado de Movimento Popular para Libertação de Angola, MPLA. Em 1959 os cabindas, bacongos, criaram a Frente de Libertação do Envlave de Cabinda, FLEC. Entre 15 e 16/3/1961 UPA faz massacres das populações europeias e dos africanos na Baixa do Cassenje, como protesto contra o cultivo obrigatório de algodão e contra o atraso nos pagamentos de salários a trabalhadores nativos e destroem as sementes, pontes, armazéns, missões católicas, e que são duramente reprimidas pelo Exército e Força Aérea.

As entidades oficiais fazem as primeiras ofensivas contra os militantes independentistas  e em 1960 são presos Agostinho Neto, líder do MPLA, e o padre Joaquim Pinto de Andrade; 4/2/1961 dá-se o ataque frustado dos nacionalistas para libertar  em Luanda os independentistas à instalações prisionais, causando diversos mortos e feridos. No funeral das vítimas dá origem a violenta perseguição e matança nos muceques da capital angolana.
Destes  incidentes feito o relatório concluiu-se que a solução dos problemas era politico, económico e social, em ordem a findar os abusos e ilegalidades.
A FNLA implantada no norte de Angola recebia o apoio americano. O MPLA recebia o apoio da OUA, soviético e apoio militar cubano. Savimbi saído de FNLA com treino militar na China surgiu 1966 com a UNITA, união nacional para independencia total de Angola, e ataca o acminho-de-ferro de Benguela, vital para as exportações de Zâmbia, pelo que é expulso da Zâmbia e instala-se na fronteira. O MPLA abriu a nova frente no leste chefiada por Daniel Chipenda. A UNITA negoceou cessar-fogo com as forças portuguesas e tronou-se principal inimigo do MPLA.

Para combater a guerrilha, em 1967 foram fundados os grupos especiais de contra guerrilha: FLECHAS, com bases em Serpa Pinto, Gago Coutinho, Carmona, Luso e Luanda, à volta de Caxito e  a guerrilha, foi confinanda aos distritos de Cabinda, Zaire, Uije e Moxico.

A aplicação das reformas levadas a cabo pelos republicanos e pelo Estado Novo, na prática não conseguiram os resultados esperados, a não ser com a  intervenção militar depois da eclosão da luta armada em 1961. A guerra de defesa do ultramar em Angola iniciada em 1961, durou 13 anos, com 3 455 mortos, até a democratização do Estado Português, pela Revolução de 25 de Abril de 1974. Os principais grupos armados, FNLA, MPLA e UNITA, foram transformados em partidos armados. E o  MFA, movimento das forças armadas portuguesas, iniciou conversações para transferência do poder em Alvor, em 1975, formando um governo provisório, incorporando os elementos dos mesmos. Este governo provisório, formado por partidos armados, com ideologias e interesses diferentes e antagónicos, entrou em conflito, dando origem a luta entre os partidos, que nos primeiros  3 meses, após provocar muitos mortos, culminou em 11/11/1975 pela proclamação unilateral pelo MPLA, em Luanda, da independência como Republica Popular de Angola, enquanto no mesmo dia em Ambriz, FNLA e UNITA proclamaram outro estado independente. O MPLA era apoiado pela União Soviética e pela Cuba militarmente e com participação de 3 000 militares cubanos, FNLA e UNITA eram apoiados pelos EUA, China, incluindo Coreia do Norte, Zaire e África do Sul, mas o Governo de MPLA teve reconhecimento do Governo Português, pelo que FNLA e UNITA passaram a guerrilha, e a  guerra alargou-se a todo o território, de nore a sul, e destruiu as infraestruturas e edifícios, e, causou milhares de mortos, mutilados, traumatizados, e deslocações das populações. Após o desmoronamento da União Soviética em 1989 foi feito acordo de paz entre UNITA e o MPLA em 31/5/1991, em Bicesse, Estoril, por intermédio de Portugal, EUA, Rússia e ONU, mas o conflito armado continuou e só terminou com a morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA, em 2002, após mais de 25 anos de luta armada em todo o território angolano.

Em síntese pode-se afirmar que a guerrilha até à altura da democratização de Portugal, seja da Revolução dos Cravos - 25.04.1974, não conseguiu travar o desenvolvimento sócio-económico de Angola, que então já possuia quase todas as estruturas básicas administrativas para o seu pleno desenvolvimento, embora tenha causado durante os 13 anos de luta 3 455 mortos nas tropas da defesa de Angola. Mas, o período posterior à revolução de 25.04.1974, sobretudo depois de independência, até ao ano 2002, durante quase 27 anos, Angola com a guerra urbana generalizada, abrangendo todo o território, entre os partidos, MPLA, FNLA e UNITA, e aliciamento dos jovens e adultos para os exércitos partidários, minagem dos terrenos, etc.,  sofreu o seu maior desastre económico e social, causando a destruição e paralização administrativa, destruição das infraestruturas e edifícios públicos, paralização da agricultura, industrias, milhares de mortos, mutilados e traumatizados da guerra, deslocações das populações, etc. Infelizmente, pode-se daqui deduzir que a política das independências defendida pela ONU foi um verdadeiro falhanço porque não tomou em consideração que os sistemas políticos devem ser mantidos, aperfeiçoados e corrigidos, em vez de serem combatidos e substituidos pelos outros sistemas políticos, a não ser que os mesmos estejam em caos administrativo, social e económico.


ORIGEM

sábado, 2 de abril de 2011

A Educação Colonial de 1930 a 1974

"... O Diploma Legislativo n° 238, de 17 de Maio de 1930, justificava a separa­ção dos objectivos de cada tipo de ensino. O ensino indígena tinha por fim «ele­var gradualmente da vida selvagem à vida civilizada dos povos cultos a popula­ção autóctone das províncias ultramarinas» enquanto o ensino pri­mário elementar para os «não-indígenas» visava a «dar à criança os instrumen­tos fundamentais de todo o saber e as bases de uma cultura geral, preparando-a para a vida social»:

«O ensino indígena tem por fim conduzir gradualmente o indígena da vida selvagem para a vida civilizada, formar-lhe a consciência de cidadão português e prepará-lo para a luta da vida, tornando-se mais útil à sociedade e a si próprio».


«O ensino primário rudimentar destina-se a civilizar e nacio­nalizar os indígenas das colónias, difundindo entre eles a língua e os costu­mes portugueses»

Instado pelos organismos da ONU que haviam denunciado a discriminação no sector do ensino, Dias Belchior negou, em 1965, a existência de qualquer preconceito racial no Ultramar, para, em seguida, afirmar:

«As crianças africanas que vivem integradas em sociedades do tipo pri­mitivo ou pré-industrial ao chegarem à idade escolar não se encontram nas mesmas condições das crianças europeias ou assimiladas da mesma idade e por isso não podem frequentar, o ensino primário elementar. Essas desconhecem não só a língua portuguesa, mas também vários outros elementos da cultura das sociedades evoluídas».


«... Discriminação haveria se o Africano fosse confinado ao ensino de adaptação e estivesse impedido de ascender aos outros graus de instrução. Toda a gente sabe, porém, que isso não acontece nem em proporções ínfimas. O que leva a que muitos africanos se limitem a receber somente o ensi­no de adaptação não é o preconceito racial, mas sim a falta de uma rede de escolas primárias elementares suficientemente densa» (BELCHIOR, 1965: 649. Grifos do Autor).

(...)

Em 1931, «num estudo apresentado à Exposição Colonial Internacional de Paris», o Director da Instrução Pública, Dr. Mário Malheiros, justificava o carác­ter discriminatório da educação colonial:

Tendo em conta que os povos primitivos não podem ser civiliza­dos senão pouco a pouco, que a população das colónias se compõe de ele­mentos, uns civilizados, outros primitivos, foram instituídos (nas colónias portuguesas) dois géneros de ensino primário: um para europeus e assimila­dos, outro para primitivos»

A reforma de 1935, aprovada pelo então Governador-geral, José Cabral, e tornada pública pela Portaria n° 2.456, de 27 de Março, fez algumas alterações ao regulamento do Ensino Primário Rudimentar. Apesar de ela decorrer da Reforma Administrativa Ultramarina, nada mudou em substância, como pode­mos ver no seu artigo 1°:


«Art.l O ensino primário rudimentar destina-se a colocar a criança indígena em condições de aprender a nossa civilização por meio do conheci­mento da língua portuguesa, educação rudimentar das suas faculdades e adopção dos costumes civilizados».

Por sua vez, a Portaria n° 2.457, da mesma data, definia, no seu artigo 1°, os objectivos das escolas distritais de artes e ofícios para indígenas do sexo mascu­lino:

«Artigo 1°:As escotas de artes e ofícios, estabelecimentos de assistência gratuita às populações indígenas, têm fim educar os indígenas preparan­do-os para operários dos diferentes ofícios ou indústrias da Colónia»
(...)

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